sexta-feira, 27 de julho de 2007

Muito barulho por nada

Há aproximadamente 250 anos Adam Smith praticamente inventou a moderna teoria econômica. Fez uma pergunta simples e inteligente: De onde vem a riqueza das nações? A resposta proposta por Smith destruiu a idéia reinante à epoca, isto é, o mercantilismo. De acordo com o mercantilismo a riqueza de uma nação provém de sua habilidade em gerar superávits comerciais. Em outras palavras, para os mercantilistas um país era rico a medida que tivesse superávit na balança comercial (ou seja, exportações maiores que importações). Smith, de maneira muito perspicaz, compreendeu que a riqueza de uma nação tem muito pouco a ver com a balança comercial. Para Smith a riqueza de uma nação provém de sua capacidade de produção. Rica é a nação que produz mais, pouco importando a posição da balança comercial. A posição adotada por Smith é, até hoje, a maneira padrão de se medir a riqueza de um país.

No primeiro semestre de qualquer curso de economia os alunos aprendem que a riqueza de uma nação depende de sua capacidade produtiva. Se perguntarmos na prova qual é a maneira usual de se medir a riqueza de um país, a imensa maioria dos estudantes responderá: “PIB per capita” (produção do país dividida pelo tamanho da população). E eles estarão certos. Mas, por algum motivo desconhecido, quando o aluno (ou o seu professor) vai trabalhar para o governo ele muda de opinião. De repente, o fundamental para o crescimento de uma nação passa a ser gerar superávits comerciais. Do nada, o aluno (ou o seu professor) joga 250 anos de evolução no lixo. Sem maiores reflexões, tais pessoas começam a defender que um país necessita de resultados positivos na balança comercial para poder crescer.

Para ser honesto, excluindo o caso de externalidades, existe uma única situação onde superávits comerciais são necessários ao crescimento econômico: quando a economia opera com câmbio fixo (isto é, quando o preço da moeda estrangeira não varia em relação à moeda doméstica). Neste caso, a geração de resultados positivos na balança comercial é vital para a manutenção da taxa cambial. Fora desta situação não existem grandes motivos para se preocupar com resultados negativos na balança comercial, nem para se alegrar com resultados positivos.

Voltando ao nosso aluno do primeiro ano de graduação em economia, ele é submetido a diversos exemplos que comprovam que o congelamento de preços é uma má idéia. Pergunte numa prova: num mercado próximo ao competitivo, faz sentido o tabelamento de preços por parte do governo? E a maioria absoluta dos alunos responderá “não, o governo não deve regular preços. Quem regula preços é o mercado”. E eles estarão certos. Mas, por algum motivo difícil de compreender, tão logo tais alunos (ou seus professores) vão trabalhar para o governo e já começam a querer congelar o câmbio (que nada mais é do que o preço da moeda estrangeira). Parece que tudo aquilo que aprenderam (ou ensinaram) deixa de valer. Pelo menos 95% dos economistas aceitam que a taxa de câmbio tem que flutuar, os manuais básicos de economia suportam essa opinião, mais do que isso: existe um consenso generalizado de que congelando preços o governo afeta negativamente a eficiência alocativa de uma economia (em palavras simples, quando fixa preços o governo atrapalha).

De acordo com o parágrafo acima, fica evidente que fixar o câmbio é uma má idéia. Dessa maneira, basta deixarmos o câmbio flutuar (como o Brasil faz hoje) para não termos que nos preocupar com a balança comercial. Assim, essa discussão toda sobre se o governo brasileiro deve, ou não, intervir no câmbio tem uma resposta simples: Não. Basta que o governo não interfira no câmbio para que em breve esses superávits comerciais se transformem em déficits, que se transformarão em superávits depois, e assim por diante. Como já afirmava Smith: a riqueza de um país depende de sua capacidade produtiva, e não de seus saldos comerciais.

2 comentários:

J. Coelho disse...

Ora, Adolfo,

A revolução keynesiana foi uma revolução contra quem mesmo? Contra os clássicos, que baseados em Adam Smith, detonaram o mercantilismo. A visão keynesiana da armadilha da liquidez é a expressão disso tudo: A MOEDA É RIQUEZA. Logo a revolução keynesiana é uma tentativa de volta ao mercantilismo. Dando um passo à frente: por razões óbvias, há algo mais keynesiano do que qualquer governo? Nesse caso, economista que estiver disposto a trabalhar para o governo, tem de ser keynesiano. Adicionando uma pitada de maldade ao debate, ninguém conhece economista praticante de macroeconomia clássica. Por quê? Porque macroeconomista clássico é como saci-pererê: não existe.

Belo post!

Um abraço.

alessandra disse...

...deixar o mercado se auto-modelar a uma taxa de câmbio de equilíbrio tem limites,é claro que o câmbio fixo não nos dá um superavit a longo prazo,pórem deixar o mercado livre até que ponto?para onde estão indo as nossas reservas?já que estamos batendo record e record.Fiquei com uma dúvida, porque esses "nossos mestres" mudam de idéia ao trabalhar para o governo? interesse próprio, será que anos de estudo valem apenas por uma vida egoísta? sei não,acho que esse debate deveria ter essas justificativas,se hover né?!

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