terça-feira, 14 de agosto de 2007

Friedman e o Problema de Consistência Temporal

No post passado comentei sobre a vitória das idéias de Milton Friedman para a estabilização da crise financeira atual. Para Friedman a grande crise de 1929 ocorreu por um mau gerenciamento da oferta de moeda pelo Banco Central americano, que reduziu a oferta de moeda ao invés de aumentá-la. Atentos a lição de Friedman, durante esta última semana os bancos centrais americano e europeu aumentaram em muito a liquidez dos mercados, evitando assim o colapso de alguns bancos. Ou seja, eles agiram de acordo com a proposta de Friedman.

TALVEZ Friedman estivesse correto sobre os fatores que determinaram a depressão de 1929; mas é importante lembrar que isso não implica que sua prescrição de política econômica esteja correta para o problema atual. Muitas mudanças ocorreram na estrutura dos mercados nas últimas décadas; novos avanços foram feitos na parte teórica de modelos macroeconômicos; será que tais fatores não deveriam ser incorporados à analise?

Friedman foi um dos grandes economistas do século passado, talvez um dos mais influentes. Mas isto não implica dizer que ele esta sempre certo. Tal definição existe em religião, mas não em ciência.

Apesar de muito admirar Friedman, creio que neste caso a sua prescrição de política econômica (aumentar a liquidez do sistema) esta errada. Motivo: inconsistência dinâmica da política monetária. Deixe-me explicar o significado disso: nos últimos anos vários bancos sabiam do risco de financiar créditos imobiliários nos Estados Unidos. Alguns deles foram precavidos e não se expuseram tanto ao risco, evidentemente tiveram lucros menores. Outros bancos foram muito mais audaciosos do que a prudência recomendaria, e obtiveram maiores lucros por esse comportamento. Quando a crise imobiliária se materializou os bancos precavidos pouco ou nada perderam. Já os bancos audaciosos iriam perder muito (TALVEZ até mais do que haviam ganho antes). Contudo, quando os bancos centrais aumentam a liquidez do sistema eles estão, de maneira indireta, privilegiando os bancos que foram irresponsáveis, em detrimento dos bancos que foram prudentes. Ou seja, a longo prazo a melhor estratégia para os bancos será sempre assumir um risco maior do que o recomendado, pois em última instância poderão contar com o auxílio dos Bancos Centrais.

Para finalizar, creio que neste momento a solução de Friedman para a crise de 1929 não poderia ser aplicada. Creio que o problema futuro que esta sendo criado hoje, será muito mais custoso para a sociedade. Refiro-me a questão do gerenciamento do crédito dos bancos. Afinal, fica evidente que a partir de hoje os bancos irão se expor muito mais ao risco do que antes (em termos técnicos, isto é um problema de moral hazard).

4 comentários:

Badger disse...

Talvez tenha sido o excesso de liquidez por parte do FED o responsável pelos empréstimos irresponsáveis. Greenspan e Bernanke provavelmente se defenderiam dizendo que os excessos são localizados e alcançam apenas uma parte do sistema hipotecário. Além disso, a China tem uma grande responsabilidade sobre isso tudo dada sua política monetária desastrada que levou à superacumulação de papéis americanos de baixa qualidade.

Anônimo disse...

Grande Adolfo,

Muito bom seu blog, não vou comentar nada sobre a avaliação CAPES porque tudo que tinha para ser dito já foi falado e muito melhor do que eu faria. Sou da turma que acredita que a CAPES não deve avaliar apenas publicações.
Quanto a depressão vou aproveitar para fazer meu comercial, se alguém quer saber o que causou a Grande Depressão é só dar uma olhada em http://www.greatdepressionsbook.com/index.cfm como sempre são fatores reais, e não nominais, que causam queda na renda per-capita. O resto é magia negra e alquimia.

Abraço,

Roberto

J. Coelho disse...

Roberto,

É verdade que as causas reais são sempre mais importantes que as causas nominais. Afinal, a moeda, mesmo no curto prazo, é um véu. O problema é que, às vezes, o véu balança a noiva.

Anônimo disse...

A comparação feita com o exemplo da Alemanha me parece que é ainda mais radical. Não foi necessário esperar 45 anos para ver o dinamismo do capitalismo florescer. Já na década de 60, a Alemanha capitalista já era o motor econômico da Europa.

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