quinta-feira, 23 de agosto de 2007

Variáveis Reais x Nominais

Durante os noticiários sempre aparece algum especialista em economia falando sobre variáveis reais e nominais. Mas, o que são variáveis reais? E o que são variáveis nominais? E por fim, por que tal distinção é importante? Eu não tenho uma definição didática da diferença entre variáveis reais e nominais (se alguém tiver por favor envie ao blog). Mas para esclarecer, vamos usar alguns exemplos:
1) Variáveis reais: consumo, estoque de capital, investimento, tecnologia, taxa de desemprego, produção (PIB), etc.
2) Variáveis nominais: as três mais comuns são estoque de moeda (quantidade de dinheiro na economia), nível de preços e inflação.
A distinção entre variáveis reais e nominais é importante pois muitos economistas acreditam que APENAS variáveis reais podem afetar outras variáveis reais. Por exemplo, para tais economistas, um aumento da inflação (variável nominal) é INCAPAZ de aumentar a produção (variável real). Por exemplo, se o governo decidir imprimir mais dinheiro (variável nominal) isto não irá aumentar o consumo (variável real). Tais economistas acreditam que quando o governo imprime mais dinheiro isto tem impacto apenas sobre outras variáveis nominais (nível de preços e inflação), mas de maneira alguma afeta o bem estar da sociedade (que é medido por variáveis reais). Tais economistas acreditam que a ÚNICA maneira de se impactar variáveis reais é por meio de outras variáveis reais. Assim, se queremos aumentar nossa riqueza (variável real) teremos que trabalhar mais, investir mais ou usar mais tecnologia (todas elas variáveis reais).

Em economia a divergência é sempre grande, existem outras correntes de pensadores que acreditam que variáveis reais podem ser afetadas por variáveis nominais. Para eles, é possível gerar crescimento econômico (variável real) por meio do aumento da inflação (variável nominal). Confesso que eu não sou um grande fã dessa idéia, mas parece que ela habita o coração de vários economistas que ocupam, ou ocuparam, cargos no governo.

Para ser honesto, existe uma boa chance de variáveis nominais afetarem o lado real da economia por meio da inflação. A inflação é um poderoso concentrador de renda, uma renda mais concentrada pode ter efeitos sobre a eficiência econômica e sobre a alocação de recursos (variáveis reais).

Minha opinião é simples: a melhor maneira de garantir crescimento econômico no longo prazo é fortalecendo o lado real da economia. Isto é, criando instituições pró-mercado, estimulando a competição e o uso de novas tecnologias. Não vejo um papel muito importante para as variáveis nominais afetarem o crescimento econômico.
(A idéia para esse post veio do Blog do C-Avolio)

3 comentários:

Diego disse...

Caro Adolfo,

Eu me apresentei na postagem anterior de seu blog, mas quando postei vi que havia uma postagem nova na frente, que é essa hehehe

Eu vejo com alguma freqüência essa discussão sobre "relaxar" na inflação para permitir ao país crescer mais. Em minha humilde opinião de segundo período, eu acho que isso é uma ilusão. Não faltam exemplos de países que crescem a taxas invejáveis ao passo que mantêm a inflação sob controle, e são esses exemplos que devemos buscar seguir, não quem precisa desses supostos "trade-offs". Eu entendo que o real problema do país é de ordem *estrutural* e a volta da inflação seria um retrocesso tremendo, um mero *paleativo* que nem arranharia o verdadeiro problema. Eu endosso totalmente o compromisso com inflação baixa pois o considero essencial para um crescimento sustentável.

Abraços,

Diego Cezar

Marco Bittencourt disse...

Caro Adolfo, moeda importa sim. Como você mesmo falou, o Friedman mostrou que um dos determinantes da grande depressão foi a gestão equivocada do Banco Central americano. É claro , Friedman não está prescrevendo ações discricionárias em relação a gestão monetária . Ele queria regras para o Banco Central. Ele queria também regras para o sistema financeiro de tal forma que impedisse a alvancagem dos bancos. Para Friedman, moeda é algo tão importante que não poderia ser usada discricionariamente por burocratas. Teria que haver uma regra clara e transparente para a emissão monetária. Portanto, a expressão que moeda não importa não vai sem qualificações. As qualificações ligam-se exatamente pela motivação do seu blog:a liberdade e democracia. A moeda não teria efeito, se todos pudessem ajustar seus portfolios, preços e salários. Isto só é possível num contexto democrático. No Brasil, aquele economista-engenheiro carioca, ministro na ditadura militar, falou que “ ...no estágio atual do conhecimento econômico, não se pode levar a sério, Friedman, Hayek e Marx ....” Claro, inventou mecanismos anti-democráticos para fazer funcionar a inflação para grupos específicos. Falo da indexação. É claro, tratou ele de estabelecer regras salariais e o privilegio da indexação para o sistema financeiro, resultando numa indexação assimétrica. O que vimos foi a prática do arrocho salarial e a gestão da dívida interna ancorada num esquema de indexação que beneficiou enormemente os banqueiros. Até hoje este mecanismo de indexação sufoca o povo brasileiro e é um dos determinantes para a estagnação econômica de mais de 25 anos que estamos vivendo (renda per capita que se arrasta). Ele atua em três níveis. Num, pela gestão das metas inflacionarias. O Banco central fixa um juros que indexa a dívida interna. Isso é imoral e permite a gestão da dívida interna que resulta em elevadas quantias de juros que o Tesouro tem que pagar. Procurem nos manuais de meta inflacionária, se está previsto uma coisa amalucada dessas. O que estes manuais falam é da influência no interbancário via operações de open market. No Brasil, temos dois interbancários: um que vale a selic e outro que vale os juros interbancários. O segundo esquema é o promovido pela regulação que indexa as tarifas a diversos índices, inclusive ao da inflação. Poucos sabem o que contém os “contratos “ estabelecidos pela burocracia das agências reguladoras. No de energia, por exemplo, tem coisas como , se o risco país subir, aumenta-se a tarifa. Se houver, apagão, idem. Atualmente, os reajustes foram congelados ad hoc, porque senão as metas inflacionarias vão embora. O terceiro esquema é o do financiamento imobiliário. O Tesouro já cansou de tanto pagar aos banqueiros os furos do sistema que só podem proliferar pelas clausulas de indexação. Atualmente, o governo fixa a TR como indexador, mas a está deixando baixinha por motivos políticos (esse eu gosto). Não existe a menor necessidade de se ter nenhuma correção monetária no sistema financeiro. Basta simplesmente eliminá-la, decretando que a Caixa Econômica, Banco do Brasil e as demais agências públicas não poderão fazer operações com indexação. É claro, a divida interna fica terminantemente proibida de ser emitida com clausula de correção. Se o sistema privado quiser manter a correção monetária em suas operações ativas e passivas , isto não é problema do governo. Que o façam. Portanto, Adolfo, o lado real pode ser afetado pela moeda e principalmente por arranjos financeiros que no fundo estão associados a falta de liberdade política e econômica.

UM abraço

Marco Bittencourt

Beckman's disse...

Ao meu ver, você acabou implementando no discurso heterodoxo uma opinião sua. Quando você escreve, "Para eles, é possível gerar crescimento econômico (variável real) por meio do aumento da inflação (variável nominal)", já esta partindo do pressuposto de que uma aumento da variação positiva do estoque de moeda vai gerar inflação. Na verdade, os heterodoxos não acham que ao emitir moeda vai gerar inflação e assim afetando variáveis reais da economia, mas para eles a emição de moeda vai gerar expansão da demanda agregada, acarretando no efeito multiplicador e depois o efeito acelerador, por exmeplo. A análise de que a reação da inflação é proporcional a emissão de moeda é por si só ortodoxa, e não é nada mais que uma simples inflação de demanda, sendo que para heterodoxos o aumento da demanda pode não gerar inflação até porque as empresas trabalham com capacidade ociosa. Sendo assim, em resposta a uma repentina expansão da demanda, teremos uma resposta do lado da oferta também, não tornando possível a inflação.
Na verdade você nem precisava mencionar de que lado você está, heterodoxo ou ortodoxo, já dava para perceber hahaha.

É sempre bom ver blogs onde o autor expõe sua opinião a respeito de determinado assunto, gerando um debate. Acho muito saudável, parabéns pela iniciativa.

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