quinta-feira, 20 de setembro de 2007

Clubes de Futebol e Empresas

No Brasil é comum ouvirmos que os clubes de futebol deveriam se transformar em empresas. Eu aceito esse argumento no que tange a atividade de gerenciamento. Contudo, no que se refere às questões trabalhistas eu argumento que são as empresas que deveriam aprender com os clubes de futebol.

Vamos aos fatos: 1) quantas empresas privadas possuem mais de 100 anos? Poucas. Contudo, Flamengo, Vasco, Fluminense, Botafogo, Internacional, Grêmio, Ponte Preta, entre vários outros são exemplos de clubes com mais de 100 anos de idade. Não existe um único setor na economia brasileira com uma concentração maior de competidores com tamanho tempo de existência. 2) O futebol brasileiro é sem sombra de dúvida o melhor do mundo. 3) o campeonato brasileiro é o mais competitivo do mundo (em 20 anos tivemos mais de 10 diferentes times que foram campeões). 4) Os clubes brasileiros são competitivos internacionalmente: Flamengo, São Paulo, Grêmio, Santos e Internacional já foram campeões mundiais. Em resumo, os clubes de futebol brasileiros têm antiguidade, são competitivos e talvez sejam o setor exportador mais dinâmico de nossa economia. Você conhece algum setor da economia brasileira que apresentou resultados melhores que o futebol? Creio que não. Então parece evidente que as empresas nacionais também têm muito o que aprender com o futebol.

Prestem atenção na estrutura de incentivos proporcionados por times de futebol e por empresas no Brasil:
a) Salários: os times pagam de acordo com a produtividade do jogador. Dois atacantes não ganham o mesmo salário, tudo depende da produtividade de cada um. Já as empresas costumam pagar o mesmo salário para todos que exercem funções similares, independentmente da produtividade dos mesmos.
b) Pagamento por resultado: quase todos os times pagam “bicho” (recompensa em caso de vitória). Poucas empresas distribuem parte dos lucros.
c) Atribuição de responsabilidades: quando o time vai mal o técnico (que é o comandante do time) é demitido. Quando uma empresa vai mal demite-se o office boy, o estagiário, talvez a secretária, mas dificilmente se demite o presidente (que é o comandante da empresa).
d) Barganha salarial: nos times não existe negociação coletiva, cada jogador (com seu empresário) negocia seu próprio salário. Já nas empresas a negociação é coletiva, os indivíduos são obrigados a pagar taxas de sindicalização e são os sindicatos que negociarão o reajuste salarial.
e) Qualificação: os clubes investem em categorias de base, investem anos em alimentação, moradia e assistência a garotos até que os mesmos, na fase adulta, possam dar algum retorno ao clube. Já a maior parte das empresas dificilmente investe grandes somas na qualificação do funcionário.

Do ponto de vista da política de recursos humanos são as empresas que devem aprender com os clubes de futebol, não o contrário.

7 comentários:

Badger disse...

O nosso iluminado líder, que adora fazer comentários estúpidos usando termos futebolísticos, deveria ler este seu post Adolfo. Quem sabe ele não aprenderia um pouco de economia com os times de futebol...

Anônimo disse...

Além disso, Adolfo, deixam de pagar o INSS e outras contribuições socias para o Governo. O que fazem muito bem, uma vez que a desordem fiscal do governo é permanente. A lógica tributária do governo é apenas de arrecadar o máximo possível, independentemente dos efeitos dessa política. A última do governo federal , estamos lendo nos jornais, é pela manutenção da CPMF. É claro, muitos agora guardam dinheiro debaixo do colchão.
Pergunto-lhe Adolfo, exite aposentadoria pelo INSS para jogador de futebol? Com quantos anos ele poderia se aposentar?

Luiz Maia disse...

Cara, antes de tudo, parabéns pela comparação entre políticas de RH de empresas e times de futebol brasileiros... excelente! Já quanto à indução de que os sucessos do nosso futebol - descritos na primeira parte do teu texto - estariam associados a essas estratégias espetaculares de gestão de talentos... hehehehe... viajastes legal na maionese! Ou será que o meu melancólico América-MG e o teu glorioso Londrina não são geridos da mesma forma?

Marcelo Ladvocat disse...

Excelente.
Repare que é um dos setores menos regulados da economia. Para quem olha de fora, dá a mesma impressão que temos quando vamos assistir a um "ensaio" de escola de samba no Rio. Você jura que os caras vão fazer a maior confusão no dia do desfile. Quem vê um ensaio de escola de samba e depois vai assistir ao desfile na avenida, não acredita que são a mesma coisa. O futebol é a mesma coisa. Como o meu querido Botafogo alugou o Engenhão por R$ 36.000/mês (por 10 anos) se qualquer empresa teria alugado instalações equivalentes por algo com 6 dígitos?
Coisas do futebol!

Diego Baldusco disse...

Muito legal o post, economia do futebol é sensacional, mas o Inter nao tem 100 anos :D faz em 2009.
Mas isso é o de menos, a análise ficou irretocável. Acrescento o fato de que a estrutura gerencial (cartolas) dos clubes nao podem de jeito nenhum ser imitada pelas empresas, senao iria desvalorizar muito as empresas brasileiras como ja se desvalorizou o nosso futebol. Fora essa piada da administração que usando a idéia da Public Choice Theory, muitas vezes pensam só no seu bolso e nao no clube como um todo, o futebol realmente pode ser um espelho pras empresas

Tiago Garcia disse...

Professor, que comentário equivocado, os clubes em sua maioria absoluta estão na bancarrota, justamente por motivos de processos trabalhistas e dividas de INSS, eles só não baixarão as portas até hoje porque recebem INCENTIVOS DO GOVERNO!!

Anônimo disse...

E o presidente do clube não cai quando o time é rebaixado!

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