segunda-feira, 24 de setembro de 2007

Por que a desigualdade de renda é importante?

Uma das maiores críticas feitas ao capitalismo é que esse sistema concentra renda. Isto é, deixa uma grande parcela da riqueza nacional na mão de poucos. Os opositores do capitalismo sustentam que sistemas socialistas são muito mais justos, pois distribuem a renda de uma maneira mais equânime pela sociedade.

O parágrafo acima embute duas afirmações: 1) o capitalismo concentra renda, enquanto o socialismo distribui renda; e 2) concentrar renda é ruim, logo o capitalismo é ruim e o socialismo é bom. Ambas as afirmações são falsas, contudo são aceitas pela maioria das pessoas. Não existe absolutamente nada no capitalismo que leve a uma concentração de renda. Sistemas capitalistas só concentram renda quando o Estado se alia aos trabalhadores e empresários de determinados setores para realizar política industrial. Aliás, a idéia de política industrial é uma idéia de distribuição de renda entre setores da economia. Estranho que os defensores de políticas industriais ativas não se atentem que, na maior parte das vezes, isso implica na transferência de renda de setores pobres para setores ricos da sociedade. No capitalismo puro, onde o Estado não tenta intervir na alocação de recursos do setor privado, não há razão alguma para ocorrer concentração de renda na economia. O motivo disso deve-se a um termo técnico conhecido como produtividade marginal. Em palavras, a medida que um setor vai ficando mais rico a produtividade marginal do investimento naquele setor vai decrescendo. Isso obriga os empresários a investir em outros setores e a distirbuir melhor a renda. Mesmo a nível individual isso é verdade. Por exemplo, a medida que um indivíduo vai ficando mais rico é natural que ele não queira trabalhar tanto. Ao contrário prefere gastar mais tempo com horas de lazer. Já os indivíduos pobres, sacrificam ampla parcela de seu tempo trabalhando duro. Esses movimentos em conjunto diminuem a concentração de renda. Outro detalhe: dizer que um sistema socialista ditribue renda é falso. Num sistema socialista a renda esta altamente concentrada na mão do Estado, e quem domina o Estado (a burocracia central) domina também o uso desses recursos. Assim, sistemas socialistas são muito mais concentradores de renda que regimes capitalistas.

Quanto a afirmação de que concentrar renda é algo de ruim, devemos ter um pouco de cuidado. Concentrar renda é ruim quando a concentração se dá por meio de mecanismos externos ao mercado (Governo). Esse tipo de concentração de renda não beneficia os melhores, mas apenas os amigos do governo. Quando a concentração de renda ocorre apenas por mecanismos internos de mercado, isso implica que os mais capazes de satisfazer o mercado recebem compensações mais altas do que os incapazes de atender tal demanda. Mas note que tal concentração de renda só dura enquanto os melhores continuarem sendo os melhores, caso eles relaxem o próprio mercado diminui a remuneração deles e reduz a desigualdade de renda. Assim, a desigualdade de renda é resultado do prêmio recebido pelos melhores em seu esforço de atender ao mercado. Em outras palavras, quando um sistema premia os melhores a desigualdade de renda aparece. Acabar com a desigualdade de renda é o mesmo que retirar o prêmio dos melhores, ou simplesmente premiar os piores. Não parece razoável assumir que um sistema que premia os piores leve a sociedade a um bom nível de bem estar no futuro.

Por fim, devemos lembrar que o importante para uma sociedade composta por indivíduos não invejosos é o nível de bem estar de cada um, e não a situação relativa. A desigualdade de renda é uma medida relativa e como tal tem pouca habilidade em medir o bem estar da sociedade. De maneira simples, pouco importa que a renda esteja concentrada na mão de poucos se o nível de bem estar dos indivíduos pobres é extremamente alto. Se a parcela pobre da população tem um alto nível de bem estar e tem acesso a oportunidades, então qual o problema dos ricos serem muito ricos?

12 comentários:

Cleiton disse...

Como sempre, sábias palavras professor Adolfo. No entanto, na passagem :

"Mesmo a nível individual isso é verdade. Por exemplo, a medida que um indivíduo vai ficando mais rico é natural que ele não queira trabalhar tanto. Ao contrário prefere gastar mais tempo com horas de lazer. Já os indivíduos pobres, sacrificam ampla parcela de seu tempo trabalhando duro. Esses movimentos em conjunto diminuem a concentração de renda."

O professor se baseia na premissa de que o salário é igual à produtividade marginal do trabalho. Para "eles" (veja que não me incluo), isso não é verdadeiro. O que invalida as conclusões !

Favor me corrigir se estiver errado. Grande abraço !

Badger disse...

Perfeito Adolfo. Importante também ressaltar o papel das instituições do capitalismo moderno (agências governamentais, constituições, leis) que têm como uma de suas prioridades a *incapacitação* do comportamento de "rent seeking" (parasitismo) por parte do eleitor mediano. Em casos como o brasileiro, a democracia, por não estar acompanhada de instituições de qualidade, produz um resultado indesejável que é a promoção do parasitismo. A eleição de Lulla é o exemplo clássico de promoção do parasitismo como escolha racional da maioria dos eleitores.

Anônimo disse...

Adolfo,

muito bom este post. Acaba com muitas das bobagens que vemos a cada dia que passa nos livros, na TV, nos jornais e na boca do povo.

Muito bom mesmo este texto.

Abraços, Guilherme.
http://acao-humana.blogspot.com/

William dos Reis disse...

Caro professor,
Sua análise é de extrema inteligência e sensibilidade.
Abraço.

Daniel (BSB, DF) disse...

Caro Adolfo
Acompanho assiduamente seu blog e o tenho divulgado entre meus amigos. Gostaria de “encomendar” um post, ehehe. O brilhante livro Capitalismo e Liberdade, de M. Friedman, contém um capítulo dedicado a desconstruir a idéia de que os governos devem fornecer ensino superior gratuitamente. O argumento básico é que ensino superior é um bem de capital como outro qualquer e que deveria ser comprado como qualquer bem de capital o é (máquinas, imóveis etc.). Tomo a liberdade para solicitar que você desenvolva melhor essa idéia e lance mais essa “provocação”. Obrigado pela atenção, abraço.

Blog do Adolfo disse...

Caro Daniel,

Obrigado por seu comentário. Eu tenho pensando, já há algum tempo, sobre um post referente a educação. Em breve vamos discutir isso mais a fundo. Obrigado pela sugestão.

Adolfo

Loyola y Loyola disse...

Exato. Penso que a concentração de renda é inevitável se levarmos em conta que existe uma capacidade inata das pessoas de armazenar informação e apender (e, assim, custos diferentes). O que não implica que a concentração seja ruim, muito pelo contrário.

Resumindo, a concentração é intrínseca ao sistema de remuneração de mercado porque o catching up não vale no caso do trabalho, e pode não ser ruim quando paga os mais aptos.

Um problema das tranferências governamentais de renda está na percepção que cria aos indivíduos de que parte da renda nacional deve ser deles por direito, e não por mérito.

Lucas Ribeiro disse...

Desculpe-me se não compreendi o foco da matéria, mas - sem medir as palavras - isso e um monte de estupidez. somente um exemplo: como alguém consegue subir se quem estar em cima não deixa, e ainda faz a mesma afundar ainda mais no poço!!!

Leticia Dezem disse...

Não acredito que isso aconteça, pois que ganha dinheiro quer ganhar sempre mais, é a natureza humana. É a ilusão do capitalismo que prega que o empregado, quanto mais trabalhar, um dia chegará ao cargo de empregador. Repito, é uma ILUSÂO. E é justamente essa ilusão que mantém o capitalismo vivo, gerando toda essa desigualdade. O empregado dificilmente consegue crescer, pois está limitado, não por culpa do empresário, mas por culpa do sistema.
Nada é de graça, tudo que acontece tem um preço, então para que o operário consiga atingir um bem estar ideal, o patrão teria que ceder alguns dos seus luxos desnecessários.
Quem sabe assim o mundo seria mais justo.

nini disse...

concordo plenamente com a leticia

Anônimo disse...

Leticia, isso simplesmente não é verdade. Os exemplos que refutam tua visão são inúmeros, até mesmo em países pouquíssimo liberais como o Brasil. Leia sobre a vida do Flávio Augusto da Silva.

Ginno disse...

Se a questão é 'o empregado virar patrão', eu conheço vários bons exemplos inclusive de amigos. Mas para isso acontecer exige anos de trabalho duro e vontade de crescer. Vale lembrar que o SEBRAE tem números que dizem: uma empresa tem mais chances de prosperar quando seus donos já trabalharam anos no ramo como empregado. Já trabalhei em três grandes empresas em Brasília e isso soma dez anos, o que sempre vejo é funcionário reclamando seus direitos nos corredores e esquecendo seus deveres. Deste jeito, virar patrão fica bem difícil.

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