quinta-feira, 6 de setembro de 2007

Primeiro Emprego

A história é sempre a mesma: um repórter entrevistando um aluno recém-formado, cheio de qualificações, mas que não consegue arrumar emprego por falta de experiência. Então, no auge de sua sabedoria, aparece algum político dizendo que o Estado TEM que ajudar os jovens a conseguirem o primeiro emprego. O argumento é simples: sem emprego o jovem não consegue experiência e sem experiência ele não consegue emprego. Solução: o governo intervém no mercado de trabalho em favor do jovem, diminuindo os custos de contratação dos jovens por exemplo. Que tal um pouco de teoria econômica nessa idéia?

Supondo que o mercado de trabalho é estático, isto é, o número de vagas é constante o resultado da política de primeiro emprego é desastrosa. Explico: se o número de vagas de trabalho é fixo, então tornar o custo de contratação do jovem mais baixo aumenta o número de jovens contratados, mas isso implica numa REDUÇÃO das vagas de trabalho para adultos e idosos. Ou seja, essa política pública apenas trocou desemprego de jovens por desemprego de adultos e idosos. Com um detalhe perverso: jovens não costumam ter famílias para sustentar.

Supondo que o mercado de trabalho seja dinâmico, isto é, o número de vagas de trabalho pode aumentar em decorrência da política do governo, o resultado da política de primeiro emprego é ambigua. Depende da relação entre jovens, adultos e idosos. Por exemplo, se jovens e idosos são complementares, então uma diminuição no custo de contratação de jovens AUMENTA o número de vagas para idosos. Por outro lado, se jovens e idosos são substitutos uma diminuição no custo de contratação do jovem DIMINUI o número de vagas para idosos. Não creio que jovens e idosos sejam complementares, acho mais provável que sejam substitutos. Assim, em minha opinião, o programa de primeiro emprego leva a um aumento no desemprego de idosos. O aumento no desenprego de idosos é, do ponto de vista social, muito pior do que o desemprego de jovens. Isto implicaria que a política do primeiro emprego diminui o bem estar da sociedade.

Se jovens e idosos são substitutos ou complementares é uma questão empírica. Mas é INADMISSÍVEL o governo estimular a contratação de jovens sem antes realizar um estudo que mostre o impacto dessa política na taxa de desemprego dos idosos. Afinal, é muito pior ver um pai de família desempregado do que um garoto de 18 anos procurando emprego.

Por fim, resta uma pergunta: quem é o jovem que aos 21 anos de idade nunca trabalhou? Simples: é o jovem que, na média, é mais rico do que o restante da população. Os pobres já trabalham desde cedo. Isto é, o programa de primeiro emprego é uma maneira de facilitar a vida de pessoas que pertencem a um extrato mais alto de renda da população. Tais pessoas tiveram o benefício de estudar mais, e de poderem estudar em dedicação exclusiva (sem precisar trabalhar). Será que tais pessoas precisam mesmo de ajuda do governo para se inserirem no mercado de trabalho? O primeiro emprego é difícil para todos. Você trabalha muito, ganha pouco e nunca recebe elogio. Foi assim com nossos pais, foi assim conosco e será assim com nossos filhos. Isso não me parece ser problema que necessite de intervenção do governo, até porque há uma boa chance dessa intervenção piorar ao invés de melhorar o bem estar da sociedade.

6 comentários:

Badger disse...

Perfeito. Eis um caso exemplar onde a intervenção governamental só causa problemas. Dizer que o jovem não consegue emprego por não ter experiência é negar o óbvio: que o mercado ajusta automaticamente o preço (salário) para compensar a falta de experiência do jovem. Todos nós tivemos primeiros empregos ou estágios onde ganhávamos uma miséria. Nenhum de nós morreu por causa disso. Ao contrário, faz parte do desenvolvimento profissional e moral do cidadão.

Anônimo disse...

Caro Adolfo, o pior de tudo é que querem tapar o sol com uma peneira. A dificuldade no Brasil para se arrumar emprego está associada a inexistência de oportunidades negociais que são cada vez menores. O modelo econômico e político em andamento no Brasil determina que salários de servidores públicos que fazem coisas idênticas aos trabalhadores do setor privado (em tese) são superiores aos salários dos que estão no setor privado. Isto por si só mostra que há algo de errado no mercado de trabalho que por sua vez é reflexo do modelo brasileiro de empobrecimento crescente da classe média.
Um abraço
Marco

Anônimo disse...

Caro Adolfo, de forma consistente você tem mostrado com suas matérias em seu Blog que a intervenção estatal na economia gera mais malefícios do que benefícios para a sociedade. O resultado negativo das ações do governo podem ser resultantes das distorções causadas nos preços relativos e conseqüentemente na alocação dos recursos, gerando ineficiência; pode ser resultante do gigantismo da maquina estatal e conseqüente elevação da carga tributária; pode ser resultante de privilégios instituídos para favorecer certos setores ou grupos econômicos que sobrevivem e enriquecem com as benesses do governo; favores políticos etc.... Essa é uma herança cultural e/ou institucional que não parece fácil de ser superada. Entretanto, isso não quer dizer que não haja saída para o Brasil e que, portanto, temos que seguir em frente. Isso é o que os beneficiados pelo atual sistema gostariam que todos acreditassem.

Uma coisa me parece óbvia. Considerando-se o que disse e o fato de que estamos numa semi-estagnação econômica por quase 3 décadas, por que ninguém ou poucas pessoas refletem sobre o papel do estado no Brasil. Antes de respondermos essa questão temos que responder uma outra: Que país nós queremos para os nossos filhos e para as próximas gerações. Uma vez definido esse ponto, qual deve ser a cara do Estado e das instituições para viabilizar esse país que nós queremos.
Abraços,
Tito Moreira.

n disse...

bom

Fábio Mayer disse...

Numa época em que eu procurava emprego, todo mundo me perguntava se eu tinha pós graduação, pouco importava a ENORME experiência que eu tinha em tratar com empresas e burocracia. Aliás, meu currículo dava duas páginas de procedimentos legais que eu sabia (e sei) encaminhar, mas isso não importava: cadê a pós?

Teve uma agência de empregos, essa praga que assola o país, rouba dinheiro dos incautos e engambela as empresas com apadrinhados incapazes, que chegou a me oferecer um curso de pós numa "instituição conveniada". Um absurdo!

Daí eu fiz pós-graduação numa mas melhores instituições daqui, uma daquelas com renome de verdade, nada de pós furreca. O resultado foi nulo... não melhorou em nenhum centavo minha remuneração, nem ninguém olhou para meu currículo e deu muita bola para aquele item.

Essa garotada de hoje em dia, em sua maioria diz que estuda (não estudam, as faculdades não cobram, eles saem delas sem saber quase nada), depois faz pós, engata um mestrado e um doutorado e quando acaba o dinheiro dos pais vai procurar emprego. Cheios de títulos, nada sabem fazer na prática.

Não existe política pública capaz decombater isso, senão ade adequar o sistema educacional, para que seja menos teórico e mais real, aproximando as instituições de ensino das empresas... mas ninguém pensa em fazer isso, porque seria acabar com a MILHARES de faculdades meia-boca disseminadas no país, com as agências de empregos e com o apadrinhamento puro e simples, que é outra caraterística nacional

Anônimo disse...

Sachsida, eu sei que desenterrei um post antigão... eu estava no domingo lendo velharias. Sobre o primeiro emprego eu dou como exemplo a minha experiência: Recém formado aceitei trabalhar por 1/3 do que o colega sênior da equipe recebia. Após alguns meses consegui outro emprego para ganhar 70% mais. Felizmente não trabalho numa área com mercado regulado onde os sábios do sindicato impediriam que eu aceitasse um salário mais baixo. O problema é que ninguém mais quer galgar posições. O mercado público distorceu as coisas convencendo alguns jovens de que podem receber 10k mensal sem experiência.

Abraço.

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