quarta-feira, 31 de outubro de 2007

Drogas

Hoje existem dois grandes debates acerca das drogas: 1) teria o consumidor responsabilidade sobre a violência dos traficantes?; e 2) deveríamos liberar as drogas? A primeira pergunta é simples e tem resposta óbvia: SIM, todo consumidor de drogas transfere recursos para um traficante que muitas vezes usa esse recurso para gerar mais violência. Assim, é natural que parte da culpa pela violência gerada pelos traficantes seja atribuída aos usuários de drogas (que virtualmente financiam o traficante). Um exemplo ilustra bem esse ponto: as pessoas que compram peças de veículos, sabendo que tais peças são provenientes de veículos roubados, têm responsabilidade pelo furto de veículos? Claro que sim. Caso ninguém comprasse peças de veículos roubados, o número de veículos roubados iria inevitavelmente cair. O mesmo vale para CD’s e DVD’s piratas, caso ninguém os comprasse a quantidade de pirataria iria diminuir. No caso das drogas acontece o mesmo. Menos usuários de drogas significam menos recursos para os traficantes, e menos recursos para traficantes implicam em menor poder destes para adquirir armamento pesado. É curioso como alguns responsabilizam o consumidor pelo aumento da pirataria de CD’s, mas inocentam usuários de drogas pelo aumento do poder dos traficantes.

A segunda questão: deveríamos liberar as drogas? É bem mais complexa. Do ponto de vista estritamente econômico, são poucos os argumentos para se proibir o consumo de drogas dentro da residência do indivíduo. A teoria econômica oferece um único argumento que TALVEZ possa ser usado contra o consumo, dentro de casa, de drogas: uma vez liberada, o preço das drogas tende a cair. Um preço menor significa um maior consumo. Em palavras, caso as drogas sejam legalizadas o número de usuários irá aumentar. Mesmo esse argumento contra a legalização das drogas não é dos melhores por três motivos: a) existe uma boa chance do consumo de drogas ser inelástico, isto é, o fato do preço cair não irá aumentar em muito o número de usuários; b) se a demanda por drogas for inelástica uma queda no preço REDUZ a quantidade gasta em drogas. Isto reduz tanto o volume de recursos do traficante como a necessidade de roubo por parte de viciados para manter o seu vício; e c) como não existe poder de mercado no mercado de drogas, e o consumo de drogas dentro da residência não gera externalidade (efeito sobre terceiros), não há justificativa econômica para a intervenção do governo.

A verdade é que a legalização ou não das drogas é muito mais uma questão moral do que econômica. Uma sociedade tem o direito de ter normas normativas: aborto, drogas, eutanásia, são exemplos disso. Tais questões dificilmente podem ser solucionadas exclusivamente do ponto de vista econômico puro e simples, pois envolvem crenças e valores morais da sociedade. A teoria econômica lida com valores positivos, mas uma sociedade é baseada não apenas em valores positivos. Valores normativos também são importantes e devem ser respeitados.

Meu argumento contra as drogas é outro. Eu defendo uma teoria que eu mesmo elaborei e chamo de Zona Neutra. Toda nova geração sente a necessidade de avançar um pouco sobre os tabus da geração anterior. Enquanto as drogas, como a maconha, estiverem proibidas, as novas gerações invadirão essa área. Consumirão um pouco de maconha e depois voltarão para o lado de fora da Zona Neutra. Se retirarmos essa Zona Neutra a próxima geração buscará outro regra para desrespeitar, e talvez essa regra seja muito pior para a sociedade. De qualquer maneira, essa é apenas uma divagação.

3 comentários:

Anônimo disse...

Grande Adolfo!

COnsiderando que consumidores de drogas sao culpados pelo poder dos traficantes, solucao simples: Toda droga que for apreendida devera voltar a rua com uma quantidade de cianeto de potacio (veneno com alta toxidade que mata).

Como mercado reage:

(1) Alguns consumidores amedrontados deixarao de consumir drogas

(2) Outros consumidores serao punidos com a morte pelo consumo da subtancia proibida;

(3) Podera haver a formacao de um outro mercado, onde parte dos traficantes garanta que seu produto nao eh contaminado, mas de qualquer forma o medo dominara esse mercado tb.

Finalmente, acredito que tera uma queda no consumo (parte por pena de morte e parte por medo) e provavelmente reduzira a receita dos traficantes e consequentemente parte do poder de fogo.

Novamente caimos em uma questao etica. Todos aceitamos invadir favelas e morros e colocar em risco a vida de pessoas de classe baixa que vivem em conivencia com o trafico de drogas (mas nao tem opcao de fazer o contrario) - inclusive essa eh a opiniao do Sr. Jose Mariano Beltrame - Secretario de Segurança do Rio (VEJA 31/10/2007)... Por que nao colocar em risco a vida daqueles que financiam o trafico (por opcao) tb por um bem maior?

Anônimo disse...

Se o consumo de droga reduzisse a zero da noite pro dia vcs acham que o bandidado traficante ia morrer de fome la em cima do morro? Claro que nao! Ele iria compensar o dinheiro perdido de alguma outra forma (sequestro, assalto, enfim maldade ainda pior).

Para estancar a sangria da violencia urbana no curto prazo so mesmo atraves de POLICIA NO MORRO ATRAS DE BANDIDO. No medio prazo, minha sugestao e a construcao de colegios internos longe dos centros urbanos com formacao tecnica para abrigar estudantes de 13 a 17 anos, com direito a bolsa para a familia que mandasse o filho estudar la (isso tambem iria ajudar a classe media na educacao dos filhos).

No longo prazo, recriamos o estado da Guanabara, liberamos somente ali o jogo de azar e pronto.

Leandro F. de Souza disse...

Prof. Adolfo,

e se o consumo de drogas fosse legalizado, e impostos cobrados sobre o mesmo, não seria uma vantagem para o Estado, ainda que uma péssima medida fiscal?

Não sou a favor da legalização, mas não poder-se-ia tratar drogas como a maconha da mesma maneira como são tratados o álcool e o tabaco? Afinal de contas, estes também são drogas e, no caso do álcool, todos sabemos as sanções causadas por seu consumo excessivo.

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