quinta-feira, 22 de novembro de 2007

Crime e Desigualdade de Renda

A evidência estatística parece sugerir que sociedades mais desiguais possuem taxas de criminalidade mais elevada. Esse fato já foi observado tanto em estudos sobre países como também para estudos referentes a estados dentro de um mesmo país. Em resumo, quanto mais desigualdade mais crime.

Essa correlação positiva entre desigualdade e crime muitas vezes é citada para se evidenciar a luta de classes, os conflitos entre ricos e pobres, dentro da sociedade. Esta linha de raciocínio está ERRADA. A evidência empírica mostra apenas uma relação entre desigualdade e crime, mas diversas explicações podem gerar tal resultado. Por exemplo, em sociedades extremamente pobres a desigualdade de renda é baixa (afinal todos são miseráveis). Assim, não existe grande vantagem em se roubar o vizinho. Sendo o vizinho tão pobre quanto você, o produto do roubo também é baixo. Já em sociedades extremamente desenvolvidas a desigualdade de renda também é baixa (afinal a maioria da população tem bom poder aquisitivo). Nesse caso, o roubo também não é uma boa opção, pois caso você seja preso seu custo de oportunidade de permanecer na cadeia será alto (você não poderá desfrutar do bom padrão de vida oferecido pela sociedade). Com isso, parece evidente que o estímulo ao crime tanto em sociedades uniformemente ricas como pobres é baixo. Imagine agora uma sociedade onde metade da população é muito rica e a outra metade muito pobre. Neste ambiente, os pobres têm um grande estímulo em tentar cometer crimes contra os ricos, pois o produto do crime (desde que se assalte um rico) é muito alto. De maneira semelhante, o custo de oportunidade do pobre em cometer o crime é baixo (afinal ele não tem muito a perder). Nesta sociedade fictícia, a desigualdade de renda seria o motivador da criminalidade. Contudo, a explicação nada tem em comum com luta de classes. Nessa sociedade, os pobres cometem crimes contra os ricos pois o produto do crime é maior. Em resumo, o criminoso pobre não odeia o inocente rico (nem vê nele o responsável por sua pobreza).

No parágrafo acima, foi demonstrado que mesmo que desigualdade de renda cause criminalidade não podemos atribuir isso à luta de classes. Mas existe ainda um outro complicador: encontrar uma correlação positiva entre desigualdade e crime NÃO IMPLICA em dizer que desigualdade cause crime. Na realidade pode ser o contrário: sociedades mais criminosas geram sociedades mais desiguais. Pode perfeitamente ocorrer de que em sociedades muito violentas o investimento privado seja reduzido em áreas pobres, aumentando o desemprego nessas áreas e concentrando tal investimento em áreas ricas. Uma simples análise de correlação não é capaz de demonstrar se crime causa desigualdade ou vice-versa.

Existem outros problemas técnicos que também são dignos de nota: a) os dados sobre crime costumam ser sub-declarados (muitas pessoas são roubadas mas não dão queixa na polícia); b) algumas políticas públicas aumentam tanto a desigualdade como a criminalidade (por exemplo, a política da governadora do Pará, de permitir invasões de terra, vai claramente aumentar a criminalidade no estado do Pará podendo concentrar a renda na mão de grandes caciques locais). Os itens “a” e “b” representam consideráveis entraves estatísticos (tecnicamente, isto implica num problema de endogeneidade). Assim, apesar de ser razoável assumir que sociedades mais desiguais sejam mais violentas, não há motivos para se inferir que isto seja em decorrência da luta de classes.

3 comentários:

marco bittencourt disse...

Eu estou interessado em obter uma resposta para a criminalidade no Brasil. Eu acho que a resposta é simples: Leis fracas que jogam politicos, empresarios, funcionarios publicos e um segmento expressivo da população na bandidagem. Fica até parecendo que vale a pena ser bandido no Brasil.

Seria interessante, para os pesquisadores sobre criminalidade, explicar por que nos Estados Unidos, que tem a maior renda percapita do planeta, tem tantos bandidos e presos e por que A Alemanha, França (vou tirar a Italia) tem muito menos - não conheço a estatistica sobre presos nesses paises, mas o contraste deve ser assustador. Mais interessante deveria ser a estatistica sobre crimes nos paises comunistas de outrora. Na China hoje todos sabemos qual é a estatística.
Com a palavra quem entende de bandidagem!!!

Badger disse...

A relação entre desigualdade e crime não se sustenta quando moderada por fatores institucionais. Exemplo disto é encontrado na literatura científica sobre a fronteira dos EUA com o México. Poucos sabem que a desigualdade é *MAIOR* nas cidades americanas da fronteira que nas cidades mexicanas. Entretanto o crime é *MAIOR* nas cidades mexicanas. Pior, as cidades da fronteira do lado mexicano estão entre as mais igualitárias no México, e entretanto a criminalidade é mais alta que em outras regiões mexicanas mais igualitárias. Nos EUA, ao contrário, a desigualdade nas cidades de fronteira está entre as *MAIS ALTAS* dos EUA, e ainda assim a criminalidade é mais baixa que no resto do país. O que então explica o fato de que há mais criminalidade onde há mais igualdade de renda? O fato de que a polícia, a justiça e as prisões mexicanas são *ABSOLUTAMENTE INAPTAS E DECRÉPITAS*, enquanto que a polícia, a justiça e as prisões americanas são *EXCELENTES*. Enquanto o brasileiro *INSISTIR* em não querer entender isso aí, ele merece o castigo de viver em meio a criminosos que lhe roubam não somente o patrimônio mas também a vida.

GAbiRu disse...

acho que no segundo parágrafo do texto está uma boa dica

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