terça-feira, 6 de novembro de 2007

Faz a Fama e Deita na Cama

“Faz a fama e deita na cama”. Acho este um dos ditados populares que melhor refletem o Brasil. Mas qual é o real sentido desse ditado. Simples, esse ditado diz de maneira muito clara que: “é importante trabalhar duro no começo da carreira, e você deve continuar assim até que as pessoas reparem que você trabalha duro e é eficiente. A partir desse momento – ou seja, tão logo você receba o carimbo de trabalhador e eficiente –, você pode relaxar. Não precisa mais se preocupar em trabalhar duro e nem em cumprir metas. Afinal, as pessoas já o identificam como alguém de sucesso e você não perderá mais esse status”. Note que a validade deste ditado esta intimamente ligada ao grau de competição à que a economia do país está exposta. Países pouco abertos e com pouca competição são o terreno onde este ditado popular pode prosperar.

Em economias abertas e sujeitas a muita competição o mercado esta a todo momento demandando novos talentos, novas habilidades. Empresários que fizeram fortuna no passado têm que continuar inovando sob o risco de tudo perderem. Marcas famosas estão constantemente sob a ameaça de novos concorrentes, e são obrigadas a mostrarem sua superioridade quase todo o tempo. O que é a marca de uma empresa? A marca da empresa reflete muito o grau de sucesso e confiança que uma empresa desfruta hoje graças a sucessos obtidos no passado. Inegável que a marca de uma empresa possui muito valor. Contudo, em economias competitivas, as empresas devem a todo momento comprovar que a qualidade e confiança obtidas no passado ainda estão presentes em seu produto.

Vamos a alguns exemplos para ilustrar o parágrafo acima. Nos Estados Unidos, no começo dos anos 80, a IBM era uma empresa gigante. Era símbolo mesmo da indústria de computadores. Contudo sua distração, ao não se atentar para o mercado de microcomputadores, levou a perdas incríveis de mercado. Outras empresas, tais como a Apple, viram essa falha e se aproveitaram dela para ganhar partes expressivas do mercado de computadores. Um exemplo mais recente é a gigante Blockbuster. Com lojas grandes e muita variedade de filmes, a Blockbuster por muito tempo liderou o mercado de aluguéis de filmes. A empresa usou e abusou de sua posição de líder no mercado, resultado: hoje passa por um momento terrível. A Netflix e uma série de outras empresas menores têm tirado o sono dos executivos da Blockbuster, que perdeu enorme fatia de mercado nos últimos anos. Talvez o exemplo mais importante dos efeitos benéficos da competição seja a Microsoft. Notem que a Microsoft é líder absoluta no mercardo de sistemas operacionais. Contudo, ela esta constantement inovando pois sabe que tão logo pare de satisfazer a demanda dos usuários será ultrapassada por alguma de suas concorrentes.
Tal como acontece com empresas, o ditado “Faz a fama e deita na cama” só é válido em locais onde a competição entre indivíduos é baixa. Por exemplo, na Fórmula 1 Michael Schumaher foi sem dúvida o maior piloto de todos os tempos. Contudo, tão logo seus reflexos se tornaram mais lentos ele foi derrotado seguidamente por competidores mais habilidosos. Sua fama de nada lhe valeu em termos de novos títulos mundiais. O mesmo vale para executivos de grandes empresas. Por melhor e mais famosos que sejam, tão logo deixem de cumprir as metas da empresa são inevitavelmente mandados embora.

Um ponto negativo para o Brasil é que aqui o ditado “Faz a fama e deita na cama” é extremamente popular. Isso é um indicativo claro de que a economia brasileira esta sujeita a um grau muito baixo de competição. De outra maneira, não haveria como esse ditado ser tão popular assim. Note que no Brasil tão logo uma pessoa receba a alcunha de genial, ela nunca mais perde esse posto. Mais do que isso, essa alcunha se retroalimenta dela mesma. O cara passa a ser genial pois é genial. A empresa passa a ser eficiente pois ela foi eficiente, logo deve continuar sendo eficiente. Numa economia sujeita a competição não haveria como essa lenda prosperar, mas numa economia fechada como a brasileira o número de lendas e mitos só tende a crescer.

No Brasil somos cheios de lendas do tipo: a Petrobras é eficiente, é líder em prospecção de petróleo em águas profundas. Será que ninguém nunca irá se perguntar qual é o custo disso; ou ainda, se a Petrobras é tão eficiente então porque precisa de proteção do Estado? O que disse sobre a Petrobras também se aplica a outras empresas e a pessoas. Aqui a pessoa, ou a empresa, faz uma fama (muitas vezes não merecida) no passado, e essa fama se perpetua para sempre. Tal movimento permite rendas extraordinárias a essas empresas e indivíduos, sem a necessária contrapartida em produtividade. Isso só é possível graças a ausência de competição na esmagadora maioria dos setores de noss sociedade. Tão logo o Brasil se abra para a competição internacional, e facilite o surgimento de novas empresas no nosso país, o ditado “Faz a fama e deita na cama” irá desaparecer, e com ele muitas de nossas lendas urbanas encontrarão seu derradeiro refúgio.

Um comentário:

Daniel Marchi disse...

Adolfo
Permita-me fazer um comentário totalmente deslocado deste “post”. Tivemos hoje a divulgação de duas notícias, as quais considero sintomáticas do tempo que vivemos. Primeiro, a Confederação Nacional dos Transportes divulgou sua avaliação anual das rodovias. Cerca de 70% das estradas federais encontra-se em situação ruim ou péssima, por outro lado, dez das melhores estradas estão no estado de São Paulo e são geridas pela iniciativa privada. Segundo, encontra-se em estágio avançado no Congresso Nacional a aprovação de uma lei que proíbe a comercialização de bebidas alcoólicas às margens das estradas. É isso aí, a comercialização de bebidas é a responsável pelos acidentes em nosso país tropical, não a precariedade das estradas, a ineficiência do estado e a falta de punição severa aos cidadãos que dirigem embriagados. Parece-me aquela velha lógica do sofá. Fico com a sensação de que, até os problemas sejam enfrentados de maneira efetivamente consistente, ainda perderemos muitas de nossas liberdades individuais. Viva o “brazilian way of life”. Obrigado pelo espaço.

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