sexta-feira, 16 de novembro de 2007

Frankenstein

É um erro acreditar que pode-se criar um monstro para depois controlá-lo.

A imprensa esta noticiando um expurgo no IPEA. Pesquisadores estariam sendo cerceados de seu direito de emitir opinião. O relato que vou dar agora, talvez me traga problemas, mas nunca fui conhecido por esconder o que penso.

Há muito tempo o IPEA vem contratando consultores heterodoxos. Há muito tempo a visão UNICAMP domina o IPEA. Isso não é fato recente. O que é recente é que agora esta visão está mais explícita. Mas vamos olhar para o passado: nos concursos públicos de 1995, 1996 e 1997 o pesquisador tinha que saber ao menos os manuais básicos de macroeconomia (Blanchard e Fisher ou Romer), microeconomia (Mas-Collel) e econometria (Green) para ser aprovado no concurso do IPEA. Desde então o formato do concurso para acesso ao IPEA mudou muito, favorecendo cada vez mais a corrente heterodoxa. O que os diretores anteriores fizeram para impedir isso? Quando fui aprovado para trabalhar no IPEA no concurso público de 1996, quase fui demitido na segunda fase do concurso por causa de minhas opiniões sempre liberais. Não me lembro de ter visto algum diretor do IPEA indignado com aquela perseguição. Já há algum tempo o IPEA Brasília NÃO PUBLICA textos para discussão em inglês. O que os diretores antigos fizeram contra esse absurdo? O IPEA apesar de ser um instituto de pesquisa NUNCA premiou pesquisadores que tivessem artigos publicados em periódicos científicos. O que os diretores antigos fizeram para sanar esse problema? O IPEA gastou razoável quantidade de recursos publicando o “livro do ano”. Publicação difícil de ser defendida em termos acadêmicos. O que os diretores anteriores fizeram para evitar ou minimizar isso? Em resumo, há muito tempo a visão dominante no IPEA é uma visão contrária ao liberalismo e ortodoxia. Muitos dos que estão reclamando agora são os mesmos que nada fizeram para impedir isso.

Vou ser bem claro: eu sou contra o que esta acontecendo no IPEA hoje. Mas o que esta acontecendo hoje começou há uns 10 anos atrás. Tenho alguns colegas no IPEA-Rio que tem reclamado muito, mas pergunto: o que o IPEA-Rio fez para evitar isso? Muitos dos antigos diretores do IPEA-Rio só aumentaram o mal estar dos técnicos no passado. Divulgavam eles uma visão que no Rio de Janeiro ficavam os pesquisadores e em Brasília ficava o resto. O que esperavam com esse tipo de atitute? Pior, onde é que os antigos diretores do Rio publicaram? Me parecem poucas publicações para sustentar tamanha arrogância. Fico triste pelo IPEA estar passando por esse momento, mas muito disso deve-se à acomodação dos próprios técnicos do IPEA. Vou repetir: não se cria um monstro acreditando que você irá controlá-lo depois.

Que a lição do IPEA sirva de lição ao resto do país. Não adianta fazer como fez o IPEA-Rio e tentar distanciar-se. Cedo ou tarde você terá que se confrontar com a realidade. O comunismo é assim: começa aos poucos e vai avançando, se não encontrar resistência irá até o fim. Se há 10 anos atrás o IPEA tivesse dado um basta nesse acúmulo de poder ideológico, nada do que esta ocorrendo hoje teria acontecido. Mas o problema é que há 10 anos atrás esse ideologia já era forte demais dentro do IPEA. O que aconteceu ao IPEA irá acontecer ao Banco Central, ao Banco do Brasil, à Caixa Econômica Federal, à Petrobras, etc. Esse processo não tem fim, é um engano acreditar que sua opinião, se for dissidente da comunista, será respeitada.

Vou reforçar novamente meu ponto: não gosto do que esta acontecendo com o IPEA. Mas a verdade é que as gestões passadas do IPEA também contribuíram muito para isso. Por fim, um comentário aos seguintes pesquisadores do IPEA que motivaram esse post: Fabio Giambiagi, Otávio Tourinho, Gervásio Rezende e Regis Bonelli, eu não os conheço pessoalmente. Contudo, fiquei extremamente chateado pela maneira como vocês foram expostos. Creio que, independentemente da opinião pessoal de cada um, vocês merecem respeito. A maneira como esse episódio aconteceu denotou falta de tato em expor pessoas a um tipo de humilhação completamente desnecessária. Se serve de consolo, saibam que outras pessoas também receberam o mesmo tratamento. A estas pessoas eu também dedico meu respeito e minha indignação.

13 comentários:

marco bittencourt disse...

Alo Adolfo. Eu gostei do que aconteceu com esses caras que foram defenestrados do IPEA. Isso não é expurgo. Faz parte do jogo dispensar pessoas de cargos comissionados ou dispensar ou revogar requisições. Faz parte do jogo cortar privilégios de ex-funcionários que continuavam a usar a estrutura pública como se escritório particular fosse.Portanto não houve demissão, como noticiou o SBT. Estou do lado da atual direção do IPEA nesta questão. Fez muito bem em cortar esses caras da Instituição. Pior ainda foi escutar o jornalista do SBT dizendo que isso nunca tinha acontecido sequer na ditadura militar, citando Delfim Neto como exemplo. Você sabe que na época do Delfim ele demitiu uns sete pesquisadores por razões políticas. Eu sei dos seguintes casos: Paulo Tim, Bautista e do Marco Antonio Martins. Hoje tem uma comissão de anistia que confirmou que eles foram demitidos por questões políticas. Vou repetir: foram demitidos pelo Delfim, porque defendiam pontos de vistas contrários ao regime militar.

Acho que existe uma ocupação do setor público de forma errada e ilegal. Mas não é um privilégio do IPEA. Não é uma invenção do PT. Muito pelo contrário. Fez parte da estratégia política ao derrubarem uma tecnocracia de militares das instituições públicas. Tiraram uns e vieram outros. O Problema está nas nossas leis. Tão ruins quanto as dos militares. As pessoas são as mesmas. O setor público é refém dos interesses privados. Eu quero mudar isso, mas não acho que combatendo as práticas legais de gestão pública é que chegaremos lá. Os problemas internos do IPEA lá devem ficar, porque não diferem em nada dos casos da Caixa Econômica, do Banco do Brasil, da Petrobrás e tantas outras instituições públicas. Eu faço a luta política para mudar a gestão pública de forma geral. Mas não acho que o caso em tela seja emblemático.Muito pelo contrario. Está dentro dos parâmetros legais. E eu como cidadão gostei. Como não sou do IPEA, me sinto a vontade para falar sobre o assunto.
É o que penso.
Marco B

Hermenauta disse...

Olá,

Eu me pergunto se faz sentido o governo ter um think-tank próprio. Se o IPEA não é uma relíquia de uma época onde a formação em economia ainda era fraca, no Brasil, e fazia sentido ter um órgão de reflexão econômica, fora das Universidades e dos próprios Ministérios.

Cada governo entra com uma plataforma, uma agenda eleitoral própria. Ocorre que as pessoas no IPEA são concursadas, com estabilidade e...também têm suas próprias agendas.

Pergunto, o que seria mais condenável, afastar o Giambagi do IPEA ou mandar ele começar a pesquisar temas que não o interessam?

No mais concordo com o Marco. Situações irregulares têm que ser sanadas. Se a história com o Giambagi é essa mesma _ a de que ele, sendo do BNDES, está no IPEA a título de um convênio meio fantasma _ então condenável mesmo não é a postura do Pochmann, mas dos dirigentes que o antecederam e fizeram vista grossa.

Badger disse...

Notem que por muito menos o Procurador Geral perdeu o emprego aqui nos EUA. O que ele fez foi legal sob a ótica administrativa, mas politicamente inaceitável e ilegal sob a ótica maior da liberdade de expressão profissional. O que nos oferece um bom exemplo da diferença entre civilização e selvageria.

desalinhado disse...

O IPEA sempre foi dominado pelo pessoal campineiro.

O IPEA-Rio tentou resistir mas tambem era a maior patota.

casca1989 disse...

Só para ficar situado. Gostaria de saber se:
a) os afastados eram comissionados ou do quadro efetivo?
b)Quais foram as alegações para o afastamento? Elas poderiam valer para ambos os casos (comissionados e efetivos)?

Anônimo disse...

bigpicture disse ...

gostei do artigo, indicado por um amigo, e concordo com quase tudo.

discordo porem de um ponto importante: acho a produtividade/relevancia do IPEA nao deve ser medida somente com publicacoes em periodicos academicos.

o grupo do PB, por exemplo, teve uma contribuicao extremamente importante na melhoria das politicas publicas de combate a pobreza, comecando no governo FHC e continuando no governo Lula. Isso nao veio com papers em journals, mas com todos os TDs e consultorias que eles fizeram por muitos anos.

Touro disse...

tem muita mamata no ipea, o pochman está correto em mandar pra casa quem não é da instituição

Indio disse...

Adolfo,

O Olavo de Carvalho já alertou há muito tempo sobre essa infiltração esquerdista no poder.

Anônimo disse...

O presidente do ipea acertou. Tem que devolver mesmo esse pessoal que nada tem haver com o ipea.

Loyola y Loyola disse...

Um professor meu tem opinião muito interessante sobre o caso: durante o primeiro mandato o vosso ("que anti-democrático!" presidente Lula manteve afastados do governo os economistas-jaba de esquerda para evitar indicios de uma possível guinada da política economica. Passado o susto da vitória do apedeuta, com direito a reeleição e tudo, está na hora de acomodar esse pessoal mas sem levantar suspeitas de guinada etc. Nada melhor do que mandá-los ao IPEA, onde o barulho e o poder efetivo destes caras é pequeno! Pior seria se dessem o Planejamento para estes caras, ou a Fazenda! Não que o Mantega seja um cara respeitável "economicamente", mas...

É como venho dizendo, neste governo existem "n" Bolsas, para alegrar a todos: Bolsa Família aos mais pobres, Bolsa Isenção Fiscal/BNDES aos empresários, Bolsa Concurso Público A Rodo à classe média, Bolsa Por Fora à base aliada e por ai vai... O IPEA é a teta dos economistas de esquerda!

Michel Arendt disse...

Se enxerga rapaz... perdeu bolsa de PQ já e vai cobrar produtividade dos outros...

e deixa os meninos do BNDES voltarem pra lá. "um bom filho à casa retorna".

Blog do Adolfo disse...

Caro Michel,

De uma olhada na ultima edicao da Economia Aplicada. La voce vera um artigo comentando sobre a produtividade dos economistas brasileiros. Se voce se der ao trabalho de ler, vera que sou um dos economistas mais produtivos do Brasil nos últimos 6 anos.

Adolfo

Iliada disse...

Economistas defendem livre pensar no Ipea é o título da reportagem que saiu na Folha de São Paulo de 26/11/07, vale a pena conferir!
Abraços,
I.

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