segunda-feira, 12 de novembro de 2007

Loser x FDP

Os palavrões presentes em uma sociedade podem nos dar uma boa noção da cultura predominante em um país. Nos Estados Unidos a maior ofensa que se pode fazer a uma pessoa é chamá-la de loser (perdedora). No Brasil a maior ofensa a uma pessoa é chamá-la de f.d.p..

Nos EUA chamar alguém de loser (perdedor) é chamá-lo de fracassado, é dizer que o indivíduo falhou na vida. Esse é o maior insulto que você pode fazer a outra pessoa na América: dizer que ela é uma perdedora. Tal insulto reflete os valores da sociedade americana. Lá o fracasso do indivíduo é uma ofensa. De maneira similar, o sucesso individual é um elogio, uma glória buscada por todos. Mas mais importante, “loser” reflete uma crítica ao indivíduo, ao seu desempenho na vida; não guarda relação alguma com sua origem. Pouco importa se o indivíduo veio de uma família nobre ou pobre, qualquer um pode ser chamado de “loser”: essa ofensa reflete a postura do indivíduo em relação aos obstáculos enfrentados em sua própria vida. A cultura americana é uma cultura que valoriza o mérito individual, o sucesso do indivíduo, a sua capacidade de enfrentar dificuldades e permanecer de pé. Um “loser” é aquele indivíduo que, independentemente de sua origem, fracassou não em atingir seus objetivos, mas fracassou pois sequer decidiu buscá-los.

No Brasil a maior ofensa que se pode fazer a uma pessoa é chamá-la de f.d.p.. Ou seja, o insulto no Brasil NÃO reflete mérito (ou falta dele). Aqui o que pior pode-se dizer de uma pessoa é criticar sua origem. Aqui a ofensa não guarda relação com o sucesso/insucesso de um indivíduo. Tal como em sociedades aristocráticas, no Brasil criticar a origem é o maior insulto que se pode fazer a uma pessoa. Pouco importa se o indivíduo tem méritos, pouco importa se ele lutou e venceu obstáculos. Se a origem do indivíduo é suspeita, então todos os seus méritos desaparecem. De maneira similar, se sua origem é nobre então são seus deméritos que desaparecem. Aqui a sociedade valoriza a origem do indivíduo, não sua trajetória na vida.

Lendo os dois parágrafos acima, não é de se estranhar que no Brasil o sobrenome seja o mais importante cartão de visitas de uma pessoa. Também não é de se estranhar que a sociedade americana seja próspera enquanto a brasileira seja apenas prolixa.

6 comentários:

Cláudio disse...

Escrevi algo parecido um tempo atrás inspirado num texto seu:

http://c-avolio.com/2007/08/para-atletas.html

Nilo disse...

É a pura realidade, não tenho nem oque comentar! O Brasil é isso e já não sei se algum dia vai mudar!!!

Diego Cezar disse...

Caro Adolfo,

Por acaso venho lendo o livro "Brasil: Raízes do Atraso" de Fábio Giambiagi, atualíssimo e muito bom. Tem me ajudado a compreender o Brasil.

Um dos pontos interessantes é que além de todos esses problemas mais técnicos que conhecemos, o livro também reserva um capítulo à cultura nacional: O viés anti-capitalista.

Não apenas não temos a cultura do "winner", cujos valores são passados desde a infância aos cidadãos americanos, como também somos dotados de certa hostilidade a ela. Os "winners", aqueles que vencem num jogo limpo(sem Estado ou meios ilícitos), são qualificados de "burgueses", "aristocratas", "elites". São vistos com certa suspeita.

Para os "losers", estes são cultuados como vítimas de situações adversas, essas entidades que todos chamam de "sistema" ou "sociedade burguesa injusta". Até bandidos da pior espécie. É claro que daí se conclui que os "winners" são os culpados pela situação dos "losers" e os burocratas iluminados devem através do Estado dificultar mais e mais a vida destes. Afinal, o loser é loser por culpa do winner e não tem nada porque o Estado não lhe concedeu nada tirando o que o winner lhe "roubou".

Cria-se uma cultura cujas expectativas todas se voltam ao Estado, a conseguir alguma coisa dele. Para mim é incapacidade de assumir a culpa por seu próprio destino. A culpa passa a ser da sociedade, do Estado, do "sistema" e por aí vai...

Enfim, procure a hipocrisia e a inveja contida no discurso dessa gente e voilà: um esquerdista!

Abraços!!

nenhum disse...

Quando você chama alguém de FDP não está xingando o sujeito, está xingando a mãe dele.

Em culturas em que a figura materna é bastante valorizada(Vide o culto à Virgem Maria no Brasil) ISSO é uma ofensa grave.

Diego disse...

Meu professor, ao discurssar sobre meritocracia e enfatizar a prosperidade das sociedades britânica e americana, deu esse exemplo de "loser", esses dias mesmo.

Mas não chegou a comparar com o que usamos no Brasil. Parabéns, bela comparação.

Anônimo disse...

E o "bastard", que aqui traduzimos como "canalha"?
Leo

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