sábado, 10 de novembro de 2007

Resposta ao artigo do Valor Econômico

Em recente artigo no Valor Econômico, o professor da UFRJ e Diretor de Macroeconomia do IPEA, João Sicsu, dissertou sobre os efeitos deletérios do pagamento de altos juros a uma minoria da população (http://www.ipea.gov.br/003/00301009.jsp?ttCD_CHAVE=2851). Eu discordo do Professor Sicsu por pelo menos 3 razões:

A primeira deve-se a comparação entre funcionários públicos que recebem em média R$ 3.785,30 e bebês rentistas que recebem R$ 8.873,38. Com todo respeito ao Professor Sicsu, essa comparação não faz o menor sentido. Os bebês recebem essa renda pois seus pais decidiram poupar, ou seja, decidiram acumular capital ao invés de gastá-lo. Será que o Brasil estaria melhor caso os pais dos bebês gastassem todo seu dinheiro em consumo? Outro detalhe: por que não comparar funcionários públicos do executivo com funcionários públicos do judiciário? Fosse essa a comparação e veríamos que funcionários do judiciário estão muito mais para bebês rentistas do que para funcionários do executivo. Mas a principal crítica é mesmo que tal comparação simplesmente não faz sentido. Por exemplo, será que devemos nos indignar com a minoria dos jogadores de futebol que são milionários? Afinal, enquanto nós temos que trabalhar duro para termos um salário razoável, os jogadores de futebol recebem fortunas para jogar bola. Não creio que seja esse o caminho. Em termos econômicos, os bebês rentistas recebem uma renda maior porque seus pais acumularam por eles. No caso dos funcionários públicos, não tendo estes pais que poupassem por eles, são remunerados apenas por sua capacidade produtiva.

Minha segunda discordância refere-se ao fato de que o Professor Sicsu foca sua crítica apenas nos detentores de títulos da dívida pública interna. Vejamos o caso de 3 milionários que possuem a mesma fortuna: o primeiro investe toda a fortuna em títulos da dívida brasileira. O segundo, aplica em imóveis; e o terceiro aplica toda a fortuna na Bolsa de Nova York. O professor Sicsu parece questionar apenas o caso do primeiro milionário. Por que não questionar também os bebês filhos de proprietários de imóvel? Afinal estes também irão receber uma renda alta sem ter que trabalhar. O que parece faltar na análise do Professor é o fato de que existem mais de uma alternativa para se poupar o dinheiro. Claro que o governo federal pode abaixar os juros pagos aos detentores de títulos da dívida. Contudo, vale a pena lembrar que os detentores de tais títulos podem muito bem deixar de investir em títulos do governo e começar a investir seu dinheiro em outro lugar, inclusive fora do Brasil. Outro detalhe: o governo brasileiro não é obrigado a aceitar dinheiro de ninguém. Caso o governo acredite que está pagando um juros muito alto, basta parar de gastar tanto (o contrário do que parece sugerir o professor). Numa economia livre, o capital sempre buscará o maior retorno. Caso o governo limite os ganhos com títulos da dívida pública, é razoável assumir que parte dos investidores desse mercado irão para outros mercados. Em palavras, o volume de recursos destinado a financiar o governo irá ser reduzido. Assim, a redução da taxa de juros parece necessitar de um ajuste fiscal prévio. Ou seja, o melhor caminho para se reduzir a taxa de juros é REDUZIR ( e não aumentar) os gastos do governo.

Meu terceiro ponto resume-se a uma questão simples: na maioria dos casos, a riqueza de uma pessoa não é exógena. Isto é, ela não fica rica do nada. Na maior parte dos casos, uma pessoa torna-se rica pois: a) seus pais trabalharam duro e deram boas condições para ela. Além disso, tal pessoa também trabalhou duro e manteve a riqueza; ou b) ela nasceu sem muitos recursos, mas trabalhou duro e venceu. Assim, questionar o estoque de riqueza que um pai deixa para um filho parece algo exótico.

10 comentários:

Badger disse...

Adolfo, lembre-se que no Brasil há também uma outra forma bem comum de enriquecer rápido e virar "rentista", bem exemplificada pelo comportamento do nosso "Kaiser" Marxista-Leninista e seus lambe-botas amestrados. Basta fazer exatamente o que sugere o "Professor" Sicsu! Basta virar barnabé, pendurar-se nos cabides de emprego estatais, sugar o sangue da nação, e, coup de grace, roubar, roubar, roubar, até que seus filhos se tornem um desses famosos "bebês rentistas" do "Professor" Sicsu.

marco bittencourt disse...

Alo Adolfo, não li o artigo do Sicsu. Mas o que me interessa na questão da dívida interna é a sua ilegitimidade. Em primeiro lugar, a parceria tesouro-bacen é de arrepiar: um fixa os juros selic e o outro indexa a divida interna a esse juro.Portanto, gera-se um mecanismo de crescimento autônomo da divida interna. Em segundo lugar, nada justifica juros tão alto. A sua trajetória tem que ser declinante. Se de vez em quando o bacen aumenta e bem esses juros selic o efeito sobre a divida publica é óbvio. Em terceiro lugar, a gestão da dívida pública pelo tesouro, dada essa parceria bacen-tesouro (tem o gestor maior -FEBRABAN), não pode se ajustar ao mercado. Hoje, bancos conseguem lançar títulos no exterior em reais com taxas atrativas do ponto de vista dos bancos. Se o tesouro tivesse seguido essa estratégia poderia ter ganho em duas frentes (embora entenda que burocrata não deva gerir a divida, mas simplesmente cumprir uma estrategia orçamentária). Além disso, existe uma montanha de reservas externas que já deveria ter sido incorporada pelo tesouro - Scheinkman em 2005 em seu artigo - os juros e o câmbio - já tinha dito que as reservas necessárias, se é que são, deveria ficar em torno de US 45 bilhões.
Um abraço
marco b

Daniel Marchi disse...

A.S.
Bem objetivo: o texto do Sicsu é de uma negligência intelectual espantosa. A "marca" Ipea está indo pelo ralo. Abraço

Augusto Araújo disse...

O cara escreveu isto mesmo? E se considera profesor, putz, pobres alunos

"Guerra aos bebes rentistas", este é o lema daqui pra frente?

q tosqueira

marco bittencourt disse...

Eu tinha feito um comentário sem ter lido o artigo do Sicsu. Fui ler o artigo e vi que não tinha perdido nada. Abaixo as minhas criticas especificas sobre o artigo.

O Autor não ataca os pontos essenciais que abaixo indico:

1) usurpação do poder público pelos rentistas.
2) Funcionários públicos ineficientes. Seria melhor demitir os ineficientes e contratar eficientes. Ou ele acha que os serviços públicos são bons?
3) Se quer fazer uma revolução, assuma sua cara estatizante.
4) Os rentistas fazem jus a remuneração do seu capital. A questão tem dois desdobramentos: ou o enriquecimento é ilícito – que é o que acho, em grande parte – ou o dinheiro não volta para a economia. Se o dinheiro não volta para a economia, a questão é grave, quer seja ilegítimo ou não a origem do capital.
5) O artigo é altamente preconceituoso. Ele quer manter uma classe média com renda alta, pois só admite o ingresso no clube por concurso. Todos nos sabemos quão custoso é se preparar para qualquer concurso público. Logo os pobres estarão fora desse clube. Claro está que o autor não quer tocar no problema básico. Quer aumentar seu salário ou sua renda, já que seus filhos, mulher e agregados outros necessariamente estão incluídos na conta. Se é assim, sinceramente, prefiro o bolsa família.

Em resumo, ele quer participar da “festa”. Tá querendo oferecer contrapartidas: Dêem empregos a mim e a minha família, que nos fazemos o serviço direitinho para vocês (igualzinho aos Recuperos (irrecuperáveis) da vida burocrática estatal - funcionário publico “bom” não pode ter escrúpulos!).
É o que penso.

marco B

Anônimo disse...

Auditoria da Dívida já.

William disse...

Corrigindo... Auditoria Cidadã da Dívida Já!

Pedro disse...

Exótico é ter que pagar mais da metade do orçamento federal em juros da dívida. RENEGOCIAÇÃO DA DÍVIDA JÁ!

William disse...

e pra terminar a prova de hoje...
sobre a última questâo sobre especulação cambial...
Acabaram as reservas, o governo aumentou mais ainda as taxas de juros em busca de capital estrangeiro pra saldar a PB e outros déficits, então explodiu a DPF, e os tais diabozinhos supra-citados filhos dos que puderam participar da bancarrota, numca precisarão trabalhar, e se estes necessitarem de mamar em outra teta, terão condições suficientes para passarem num concurso para serem SERVIDORES PÚBLICOS...e estes terão algum incentivo ao TRABALHO?

William disse...

Ao Pedro.
Renegociar a Dívida o %&#@!!!

Pessoalmente e por enquanto, ainda acho que NÃO devemos pagar Dívida Ilegítima!

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