quinta-feira, 13 de dezembro de 2007

Trabalho e Riqueza

De acordo com o Bol Notícias (e outros veículos de comunicação) o Presidente do IPEA, Professor Marcio Pochmann, fez a seguinte afirmação: "Essa produtividade justifica a razão pela qual não há, do ponto de vista técnico, [motivo para] alguém trabalhar mais do que quatro horas por dia durante três dias por semana." Em suma, Pochmann sugere que não existem impedimentos para que o trabalhador trabalhe apenas 3 dias por semana e 4 horas por dia.

O que levou o presidente do IPEA a fazer tal afirmação? Acredito que ele tenha em mente um modelo marxista de mais valia. Ou seja, dada a participação do trabalhador na renda nacional, 3 dias por semana e 4 horas de trabalho por dia seriam suficientes para remunerar o trabalhador. Qualquer jornada de trabalho superior a essa seria apenas para garantir a remuneração do capital. Esse tipo de argumentação tem uma falha importante: assume, corretamente, que a produção atual está dada; mas ERRA ao assumir que a produção futura também está dada. Explico: quando ocorrer a redução da jornada de trabalho, a produção atual não será afetada. Logo, nada irá ocorrer no primeiro momento. CONTUDO, a produção futura depende do trabalho futuro. Caso o trabalho futuro seja suficiente apenas para remunerar o trabalhador, então os detentores de capital não terão incentivo para continuarem no processo produtivo. O resultado é a queda da produção e uma piora nas condições de vida tanto do trabalhador como do empresário. O argumento marxista falha em compreender que se o capital não for remunerado, então não poderemos contar com ele na produção. Afinal, da mesma maneira que o trabalhador não aceita trabalhar de graça, o empresário também não aceita não ser remunerado pelo empréstimo de seu capital.

Que tal analisarmos a afirmação do presidente do IPEA do ponto de vista clássico? Será que ela pode fazer sentido? SIM, tal proposta pode fazer sentido. Acontece que no mundo clássico os agentes respondem a incentivos (e não há um papel importante para a mais-valia marxista). Do ponto de vista clássico, pelo menos em termos teóricos, uma redução na jornada de trabalho pode gerar um aumento tão grande na produtividade que tal redução valha a pena. Por exemplo, vamos assumir que um corredor seja obrigado a correr 8 horas por dia. Nesse tempo ele é capaz de correr 40 km. Quantos quilômetros o mesmo corredor correria se sua jornada fosse reduzida a 6 horas diárias? Talvez o corredor corresse menos do que 40 km; talvez ele continuasse correndo os mesmos 40 km; ou ainda ele fosse capaz de correr mais de 40 km (pois agora ele pode gastar mais energia em menos tempo). Assim, tudo irá depender de como a produtividade do trabalhador irá reagir a uma redução na jornada de trabalho. Um exemplo prático é o mundo do Boxe. No passado as lutas de boxe eram divididas em 15 rounds. Os empresários do setor notaram que isso tornava as lutas monótonas no começo (afinal os lutadores tinham que se poupar para os últimos rounds). Hoje as lutas de boxe possuem 10 rounds (redução de 33%) justamente para tornar as lutas mais dinâmicas.

A maior parte da evidência empírica parece sugerir que a resposta da produtividade, a uma redução na jornada de trabalho, não é tão grande quanto a necessária para tornar a redução de horas uma alternativa viável. Assim, pelo menos por enquanto, o mais provável é que uma redução na jornada de trabalho leve a uma redução na produção e a uma piora no bem estar de toda a sociedade.

8 comentários:

Anônimo disse...

Adolfo, acho que existem outras considerações possíveis. Eu prefiro enfocar a questão salarial no Brasil num contexto de salvaguardas para os mais humildes, visando o equilíbrio político. Como o Estado brasileiro, através de toda sua história, fechou as portas para a independência econômica de uma ampla parcela da população, principalmente ao restringir desde o limiar da República o acesso às terras pela população em geral e também ao restringir a exploração do subsolo, e, notadamente, pela supressão das oportunidades de aprendizagem aos mais humildes, um feixe de possibilidade de vida digna para o povo brasileiro só veio com Getúlio Vargas, através da criação de um conjunto de Leis trabalhistas “harmônicas”, inexistentes até então. Estabeleceu-se, portanto, o pacto entre o capital e o trabalho. Todavia, uma das tarefas basilares dos militares golpistas de 1964, patrocinada também pelos economistas planejadores – Keynesianos, Marxistas arrependidos ou não e outros mais entendidos – foi a de promover não só o arrocho salarial (para esses mais entendidos, inflação de custo existe!), como também a de promover mudanças nas regras trabalhistas, principalmente as demissionais, extorquindo dos empresários uma multa antes mesmo que o evento demissional ocorresse. Claro os grandes empresários descontaram a fatura no BNDES. Já os pequenos empresários e trabalhadores perderam. Estes por terem um FGTS sendo remunerado abaixo do mercado, além de estar o Fundo restringido por regras ad hoc. E aqueles por pagarem a indenização trabalhista antecipadamente, ou seja, antes que o fato gerador do evento demissional ocorresse. Se o salário mínimo fazia algum sentido econômico, há muitos anos atrás, hoje serve mais como um indexador (outra praga dos economistas entendidos) do que como um referencial mínimo para o soerguimento empresarial e a viabilização de um equilíbrio político. O FGTS, por sua vez, revelou-se num embuste e num fardo que induz a sonegação e a corrupção. Precisamos pensar em mudanças.

Nesse sentido, entendo que o debate sobre a redução das horas trabalhadas possa se enquadrar num contexto de um debate sobre politica trabalhista, focando no aumento do salário mínimo. Todos sabemos o resultado imediato disso: redução do emprego do trabalhador. O ganho imediato para a classe trabalhadora como um todo naturalmente dependerá da elasticidade da demanda por trabalho. Todavia, acredito que sob o ponto de vista de um equilíbrio político, tal proposta de aumento do salário mínimo faça sentido. Nesse contexto de política, a possibilidade de redução da hora trabalhada deve ser levada em consideração como um arranjo compensador. É bom registrar que, mesmo havendo redução das horas trabalhadas e nenhuma mudança de salário nominal, o trabalhador ganhará, simplesmente por ter mais tempo disponível. Se, pela redução da hora trabalhada, houver uma perda de pequena monta para o empresário, em virtude de uma adequação ao aumento do salário mínimo, haverá uma melhoria no bem-estar social.

É o que penso

Um abraço

Marco B

Anônimo disse...

Na realidade independente da jornada de trabalho sempre haverá remuneração do capital (pelo menos enquanto a produção utilizar capital), pelo simples fato que a remuneração do capital não é um excedente (produto - salário), o produto que nada mais é do que a soma da remuneração dos fatores. Quanto a jornada de trabalho (assim como a quantidade de capital utilizada na produção) trata-se de uma variável endógena e não deve, nem pode, ser tratada como variável exógena, como parecem fazer todos aqueles que acham que podem determinar a jornada de trabalho por leis.

Abraço,

Roberto

Anônimo disse...

Pelo que sei , a jornada de trabalho é determinada por lei em todos os lugares do planeta. Mesmo que não seja uma lei explícita. Vale lembrar que a função de produção não é uma relação mecânica. É antes de tudo uma relação que explicita convenções sociais. Dadas essas convenções, poderemos empregar o instrumental neoclássico para os fins próprios a que esse se destina. Não é à toa que, com o crescimento do estoque de capital, o salário real também subiu. Por essa razão, novos acordos ou convenções trabalhistas poderão frutificar. Na Alemanha, a jornada de trabalho encolheu.
É o que penso
Marco B

GAbiRu disse...

"Se, pela redução da hora trabalhada, houver uma perda de pequena monta para o empresário, em virtude de uma adequação ao aumento do salário mínimo, haverá uma melhoria no bem-estar social"

ah, entendi: o empresário vai perder só um pouquinho, enquanto o trabalhador vai trabalhar menos enquanto ganha mais, causando um 'bem-estar social'; o que não consegui visualizar é como o empresário vai tomar a diminuição de seu capital como incentivo para AUMENTAR salários, mas a idéia é fantástica

Anônimo disse...

Respondendo para aquele que faz jus ao apelido. Salário também alavanca a demanda. Isso interessa ao empresário. Além disso, se você tiver trabalhador ocioso em empresas estatais, empresas públicas e até mesmo em empresas privadas, porque a legislação trabalhista determina a quantidade mínima de horas trabalhadas, então a hipótese de pequena perda faz sentido. Mesmo que não estejam ociosos, se a tecnologia puder adequar a mudança na carga horária sem perdas, o resultado será alcançado. Quem trabalha com economia à serio sabe que a questão tratada é empírica.

É o que penso.
Marco B

Anônimo disse...

Esqueci de complementar. Se um individuo pega uma frase fora do contexto ou cita apenas parte do que foi dito, é porque não sabe ler ou porque tem outras intenções. Existe uma outra opção, mas deixa pra lá.
Marco B

Anônimo disse...

Eu fico encucado com tantos erros de português que muitos, inclusive eu, cometemos nos blogs. Por vezes me dou conta que cometi erros o mais bobos o possível. Duas explicações para isso: preguiça de reler o texto ou preguiça de ir ao dicionário. Quem relê dez vezes e ainda comete erros, deveria reler 20 vezes. É claro, existe um custo de oportunidade nessa ação literária. Às vezes penso que poderia ser interessante teorizar sobre essa preguiça. De qualquer sorte, prefiro cometê-los do que ir abreviando as palavras. Não é preciso nem confessar. Eles me incomodam à beça. Espero que incomodem mais a mim do que aos outros.
Um abraço
Marco B

Sávio disse...

Sendo curto:
Poderia utilizar seu proprio argumento para dizer que é justo então da existencia do Estado, ainda, e dessa forma, uma maneira que se acabasse com a exploração do trabalhador, e assim para finalmente acabar com o Estado, né?
O senhor fala de não haver mais incentivo para os detentores de capital em fazer a produção futura? e o incentivo para o trabalhador? fica sendo os miseros salarios e a exploração cada vez maior e travestida no trabalho atipico?

abraços

Duvidas e Sugestões: pirata_mestre@hotmail.com

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