segunda-feira, 22 de dezembro de 2008

Entrevista com Mario Jorge Cardoso de Mendonça

Entrevista com o melhor macroeconometrista brasileiro da atualidade: Mario Jorge Cardoso de Mendonça. Mario Jorge é pesquisador do IPEA no Rio de Janeiro.

1) Existe algum argumento que justifique o governo ajudar o setor financeiro, mas não ajudar outros setores? Deveria o governo ajudar alguém?

Antes de responder se o governo deve ou não ajudar o setor financeiro gostaria de fazer alguns comentarios no que diz respeito às possíveis causas da crise econômica atual. Para começar penso que o desenho atual dos sistemas monetários com um Banco Central onipotente esta completamente em desacordo com aquilo que penso ser correto. Na verdade tenho a opinião de que as crises econômicas tem sido geradas por políticas incorretas praticadas pela autoridade monetária, sobretudo no que diz respeito a expansão desenfreada do credito seja ela estimulada pelo aumento da base monetaria ou pela redução da taxa de juros.
No meu entender a crise atual decorreu de uma política monetária praticada incorretamente pelos Bancos Centrais principalmente pelo FED que por um periodo muito longo manteve a taxa de juros bem reduzida. Alguns irão contra este raciocínio dizendo que aquela era a taxa de juros correta na medida em que não havia pressão inflacionária. Eu me oponho a este argumento por dois motivos. Primeiro, as importações oriundas da China cuja politica cambial era e é praticada artificialmente muito contribuíram para manter os preços sobre controle. Segundo, como bem frisava Von Mises nada garante que focar somente sobre o nivel de preços como objetivo de política seja o correto a ser feito já que este exprime uma media grosseira dos preços da economia. Por exemplo, há muito havia indícios importantes de que algo anormal estava acontecento no mercado imobiliário tendo em vista os preços neste setor estavam disparando. Isso por sua vez não afetava a inflação tendo em vista que a pressão exercida pelos gastos advindos pelo efeito riqueza era amortecida pelas importações por produtos chineses. A solução desta questão passa no meu entender pela reformulação do sistema monetário atual onde a taxa de juros ou oferta de moeda deve ser determinada pelo mercado, diminuindo assim capacidade dos Bancos Centrais de tirar proveito politico da política monetária.

Outro ponto que deve ser mencionado é que as políticas implantadas nos EUA para estimular a aquisição de imóveis pelos americanos sobretudo os de baixa renda também contribuíram fortemente para a crise. Assim, tendo em vista que o governo foi um dos grandes responsáveis pela crise, será que o mesmo terá a capacidade para diminuir o impacto dela com ajuda ao setor financeiro. Acredito que não. Poderá amortecer o efeito da crise no curto prazo, mas novas crises acontecerão no futuro. O que o governo deveria fazer e implantar medidas no sentido de restaurar a competição em todos os setores, incluindo o mercado de trabalho. Diminuindo o poder dos sindicatos, o qual por sua vez, foram um dos grandes responsaveis pela crise no setor automobilistico. Sabe-se que a qualidade do carro feito pela GM é similar ao das montadoras japonesas. Contudo o custo da mão-de-obra pago pela GM é quase o dobro daquele incorrido pela Toyota, por exemplo. O motivo é que as montadoras americanas estao localizadas em regiões onde existe a obrigatoriedade de se contratar trabalhadores sindicalizados.

2) Qual sua opinião sobre a recente incorporação do Unibanco pelo Itaú?

Não consigo entender como um estado que se preocupa com a união de empresas que produzem chocolate como é o caso da compra da Garoto pela Nestlé incentive a união de dois dos maiores bancos nacionais num modelo de setor bancário que é já altamente oligopolizado. A implicação para este fato é quase óbvia. A retração ainda maior do crédito ao setor privado na medida em que reduz ainda mais a competição no setor. O argumento do governo que tenta justificar a permissão do evento como uma maneira de diminuir a probabilidade de crise no setor não se coloca pois o nível de crédito ao setor privado oferecido pelos bancos no Brasil é bem baixo. Além disso o epicentro da crise se deu nos bancos de investimentos enquanto o Unibanco e o Itaú são bancos comerciais.

3) Por que a sociedade brasileira parece ser tão avessa às idéias liberais?

A princípio não somente no Brasil como no mundo existe uma tendência contrária ao liberalismo. No meu entender isso se deve a diversos fatores distintos. Em primeiro lugar, parece ser algo comum ao ser humano não aceitar o ônus decorrente de seus próprios atos. Assim é muito mais fácil culpar os outros por aquilo que deu errado que aceitar sua própria culpa, e com isso tentar aprimorar sua maneira de agir. A liberdade que tanto a escola liberal preza tem um custo e este custo é a responsabilidade do indivíduo pelo que ele próprio faz. Visto isso, é muito mais fácil culpar o capitalismo, que é na verdade o que permite o indivíduo ser livre, se desenvolver e melhorar seu bem-estar, que assumir o ônus de seu próprio fracasso. Em geral um militante de esquerda inserido num diretório acadêmico, num sindicato ou num movimento qualquer é um exemplo clássico disso. Em segundo lugar, pode-se explicar tal aversão a partir de um pensamento de Nelson Rodrigues onde ele diz “só os gênios percebem o óbvio”. Notemos que foi somente a partir da implementação das ideais liberais que a civilização chegou a um nível de prosperidade que pela primeira vez permitiu o acesso em grande escala à educação, cultura, melhoria na qualidade de vida, aumento da renda além de outros fatores que culminaram por sua vez com um aumento sem precedente da riqueza. Não obstante tudo isso as pessoas se deixam iludir ou querem ser iludidas pela mentira socialista que promete o paraíso mas que de fato conduz ao inferno. Cuba, Correia do Norte e Venezuela são exemplos atuais de países que seguem integralmente a proposta socialista. EUA e Hong Kong seguem mais de perto o liberalismo econômico. Notem a diferença. A própria China somente despontou para o mundo do momento em que aderiu à boa parte das propostas liberais.
Por fim, aponto como último motivo o fato que entender as idéias econômicas é algo realmente difícil como já há muito demonstrou David Hume, pois a distinção entre o efeito e a causa não é algo perceptível aos olhos requerendo esforço do intelecto. Vejamos um exemplo, algumas pessoas são a favor da ampliação das leis que protegem os empregados. Isso contudo onera o custo do emprego. Este custo deverá ser pago por uma das seguintes vias. Ou pela redução no emprego ou pela proteção de mercado nas indústrias onde isso está sendo feito, ou por ambas. No primeiro caso, é própria classe trabalhadora quem paga a conta pela redução da oferta de trabalho. As pessoas que estão empregadas estão sendo privilegiadas enquanto aqueles que estão fora do mercado de trabalho terão mais dificuldade para obter emprego. No segundo, o penalizado é o consumidor pelo encarecimento do produto. Na verdade o governo pode subsidiar isso de alguma forma mas no fim paga a conta é o contribuinte. De fato não existe almoço grátis.

Por fim, gostaria de lembrar que foi com um custo muito alto em termos de vidas e sofrimento que a humanidade desfruta hoje de liberdade e que deve ser entendida no seu aspecto mais amplo. Por exemplo, num sistema socialista o indivíduo não é um escravo, contudo sua vida está cerceada em muitos aspectos. Um sistema socialista é fechado à informação exterior, assim o indivíduo está impedido de obter informação, tem limitação de renda ja que seu salário é restrito ao que o Estado deseja pagar , está restrito a um mercado de consumo cuja oferta de bens é insipiente, etc. Pode-se ver que ele tem esta limitação em muitos aspectos de sua vida. É uma ilusão achar que a liberdade que temos atualmente nos legada pelo liberalismo econômico é algo já conquistado e que nunca iremos perder. Os inimigos da liberdade são muitos e poderosos. Basta destruirmos o sistema de incentivos que gerou a riqueza que desfrutamos hoje, sem precedentes da riqueza na historia do homem, que iremos novamente conhecer uma era de trevas.

4) Vários setores do governo têm pedido por políticas industriais e regionais que impulsionem o desenvolvimento econômico. O que você pensa dessas políticas?

Sou totalmente contrário a qualquer forma de incentivo dado pelo estado como meio de viabilizar políticas industriais e regionais. Um simples exame dos argumentos bem como dos supostos benefícios de tais políticas é o suficiente para mostrar o quanto falho eles são. Existe o argumento teórico de que determinado segmento industrial deve ser subsidiado ou protegido da competição externa em sua fase inicial de implantação sob a desculpa de que em tal estado é difícil para tal indústria florescer num ambiente onde a competição já está a muito estabelecida. Vejamos a fragilidade de tal argumento. Inicialmente como já apontou Milton Friedman em seu brilhante trabalho de divulgação Free to Choose em qualquer ramo de negócio o início de um empreendimento novo é sempre difícil. Além disso uma vez que o governo entra na economia dificilmente ele sai. Portanto a influência do governo em tal atividade se mantém indefinidamente. Também por trás desse tipo de política está implícita a idéia de que o burocrata tem maior conhecimento da economia que os agentes econômicos quanto ao que deve ser feito. Na verdade o fato é exatamente o contrário. Qualquer um que conheça minimamente a história dos monopólios sabe que o Estado geralmente está por trás da coisa. Em geral é sempre falaciosa a justificava apontada para a intervenção do estado. Um exemplo que posso citar é da indústria de petróleo no Brasil. O argumento de que não havia, na época do estabelecimento do monopólio da exploração do petróleo pelo Estado, agentes privados com fôlego econômico para fazer florescer essa atividade é simplesmente falso. Na verdade existem muitos interesses privados escondidos que comumente estão por trás de tais políticas de incentivos. Eles geralmente são provenientes de sindicatos de trabalhadores, empresários nacionais e políticos agindo em conluio e montando redes de influência que tendem a se perpetuar eternamente.

5) Você teria alguma sugestão para acabar com o problema das favelas no Rio de Janeiro?

Da a dimensão que alcançou o problema das favelas no RJ, creio que uma solução em grande escala como por exemplo a remoção da maior parte delas é no momento inviável, até por que não haveria onde acomodar tanta gente. Diversos fatores contribuíram para tal estado de coisas como por exemplo a estagnação econômica, complacência da classe política que transformam favelas em currais eleitorais, etc. Contudo gostaria de direcionar a minha análise no sentido de sugerir meios de mitigar o problema. Muitos gostam da idéia de que favela é um problema social criadopela sociedade, é portanto somos todos responsáveis por isso. Essa colocação é falsa e conduz ao fato de que o indivíduo não é responsável pelo seu estado. ONGs que se beneficiam de recursos públicos utilizam recursivamente tal argumento. Na verdade, se formos contabilizar veremos que desde que o governo tem investido dinheiro em programas sociais o problema somente aumenta. Desnecessário dizer que maior parte dos recursos fica pelo meio do caminho.
Outro ponto que gostaria de chamar atenção que o favelado não é miserável, miserável é aquele que mora na rua. Sabemos que a maior parte das pessoas que mora em favela possui renda do trabalho, embora sejam pobres. Contudo isso não justifica que elas possam invadir áreas públicas ou mereçam ser ajudadas. Na verdade existem também incentivos para que se habitar em tais regiões. Um deles é o desfrute de muitos serviços tais como luz, telefone, TV a cabo além de outros sem o pagamento dos mesmos. A penalização disso poderia fazer diminuir parte do problema restringindo o incentivo a morar em tais localidades. Outra sugestão é que o poder público deve sinalizar que novas a invasões não serão permitidas retirando certas favelas de locais nobres como é o caso da Avenida Niemeyer no Rio de Janeiro, uma das regiões mais belas da cidade. Em outras situações o Estado deveria dar a posse do terreno ao morador. Passado a adquirir valor de mercado tais áreas atrairiam atenção do setor imobiliário expandindo as áreas realmente urbanizadas. Uma sugestão agora de cunho social é ampliação do ensino básico de boa qualidade. Evidentemente recursos devem ser gerados para isso. Minha sugestão na diminuição da ênfase no ensino superior dada pelo governo e devido ao fato que como muitos estudos já comprovaram o retorno marginal em escolaridade para níveis mais elevados de escolaridade é inferior ao obtido para um nível de escolaridade mais baixo.

quarta-feira, 17 de dezembro de 2008

CRISE!!!!!

A seleção espanhola de futebol terminou o ano em primeiro lugar no ranking da FIFA... só pode ter uma explicação para fato tão estranho: é a crise!!!!

terça-feira, 16 de dezembro de 2008

segunda-feira, 15 de dezembro de 2008

Bush e a Sapatada

O mundo parece ter adorado o evento dos sapatos atirados no Presidente Americano George W. Bush. Eu interpreto o ocorrido sob um prisma diferente: nunca vi nenhum jornalista atirar sapatos em Saddam Hussein. Aliás, tivesse o nobre jornalista atirado sapatos em Saddam Hussein e já teria sido fuzilado. Mas agora, desfrutando da liberdade propiciada pela ação americana, atirar sapatos no Iraque já não é tão perigoso assim. Interessante notar como as pessoas, e a imprensa, deixaram esse fato passar despercebido.

Os sapatos atirados em Bush são a prova definitiva de que o Iraque está melhor hoje do que há 10 anos atrás. Dada a antiga força de Saddam Hussein, e as recentes altas nos preços do petróleo, seria de se esperar que a ditadura de Hussein durasse ainda muitos anos. Foi graças a interferência americana, liderada por Bush, que hoje o Iraque desfruta de liberdade. Liberdade até para atirar sapatos nos outros.

A maioria de nós é incapaz de compreender um fato histórico: liberdade não é o estado natural da humanidade. O normal é a ditadura, a opressão e a escravidão. Mesmo na antiguidade clássica a escravidão era a norma. Gregos e romanos escravizaram várias civilizações; no mundo oriental a escravidão também era fato corriqueiro. O novo mundo também não teve problema algum em aceitar escravos. Foi apenas ao final do século XIX que a palavra liberdade começou a ganhar o sentido pelo qual a conhecemos hoje.

Defender a liberdade não é isento de custos ou sacrifícios. Defender a liberdade é uma tarefa contínua e custosa. Defender a liberdade chega mesmo a ser uma tarefa ingrata em alguns momentos. Mas defender a liberdade é equivalente a defender o nosso direito à existência. Se permitirmos que nos usurpem esse direito, estamos desistindo também do nosso direito à vida. Hoje o Iraque é um lugar muito melhor de se viver do que há 10 anos atrás por um motivo simples: hoje o povo iraquiano tem mais liberdade, tem mais capacidade de exercer seu sagrado direito à liberdade de escolha. Gostem disso ou não, esse foi um bem gerado ao povo iraquiano por George W. Bush, pelas tropas americanas e por seus aliados no Iraque.

segunda-feira, 8 de dezembro de 2008

Pior do que não aprender é aprender errado

O que aprendemos com a recente crise nos Estados Unidos? Aparentemente não só não aprendemos nada como o pouco que aprendemos aprendemos errado. Existe um certo consenso de que a crise atual começou no setor imobiliário americano. Também existe o entendimento que a crise imobiliária se deu pelo excesso de crédito, e de facilidades, providenciado por agências ligadas ao governo americano. De maneira direta, podemos destacar dois mecanismos responsáveis diretamente pelos problemas no setor imobiliário: a) ausência de requerimento de down payment; e b) políticas públicas equivocadas facilitando a aquisição de imóveis. Vamos explicá-las com mais detalhes abaixo.

Down payment é um requerimento para que o comprador faça um pagamento inicial, geralmente em torno de 20% do valor do imóvel financiado. Dessa maneira, os bancos ou financeiras emprestam apenas 80% do valor do imóvel, mas recebem 100% do imóvel como garantia. Esse mecanismo força os devedores a continuarem pagando suas prestações mesmo na presença de razoáveis desvalorizações do imóvel. Nos Estados Unidos, vários empréstimos imobiliários estavam sendo feitos sem a necessidade do down payment. Esse fato diminuiu o incentivo dos devedores saldarem suas dívidas quando da desvalorização dos imóveis; o que agravou em muito a crise.

Outro problema severo foram as políticas públicas que estimularam bancos a emprestarem recursos para famílias com poucas condições de saldarem suas dívidas. Dessa maneira, famílias que poderiam pagar imóveis de U$ 100 mil foram estimuladas a comprar imóveis muito mais caros; quando a crise chegou tais famílias perderam todo seu investimento. Sem a interferência do governo tais famílias teriam comprado imóveis mais baratos e ainda estariam neles.

Releiam os parágrafos acima e notem que o governo brasileiro esta cometendo exatamente os mesmos erros que levaram à crise americana. O governo brasileiro está acabando com a exigência de down payment em alguns dos financiamentos da Caixa Econômica Federal. Além disso, tais financiamentos estão sendo extendidos a pessoas com pouca probabilidade de honrarem seus compromissos. Isto está ocorrendo não só no mercado imobiliário, mas também no mercado de automóveis.

Quando a conta dos erros acima aparecer não faltarão pessoas para culpar a ganância do mercado, ou a irresponsabilidade do “sistema”. Poucos irão se lembrar que a crise começou no Brasil da mesma maneira que começou nos Estados Unidos: com políticas erradas do governo.

quarta-feira, 3 de dezembro de 2008

SENSACIONAL!!!!!!!!

LONDRINA CAMPEÃO DA COPA PARANÁ !!!!!!!!!!!!!!!

Sensacional mais essa conquista da maior força futebolistica do sul do país.

O Londrina Esporte Clube acabou de vencer a Copa Paraná. Seguindo a mais nobre das tradições futebolísticas o LEC fez questão de empatar com o Cianorte no tempo normal e na prorrogação para, após quase matar metade de seus torcedores do coração, vencer o embate nas penalidades máximas.

LONDRINA CAMPEÃO!!!! DÁ-LHE TUBARÃO!!!!!!!!!

terça-feira, 2 de dezembro de 2008

13 + 13 = 26

Meus Caros,

Acabei de ter meu paper aceito de número 26. Publiquei com meus co-autores dessa vez na International Review of Law and Economics.

A International Review of Law and Economics é um TOP journal na área de law and economics. Dessa maneira, passo a ter 13 papers internacionais e outros 13 papers nacionais publicados (ou aceitos para publicação). Como terminei meu doutorado em dezembro de 2000 isso implica numa média superior a 3 artigos/ano. Média essa que na área de economia é razoavelmente alta.

Mantendo a mais nobre tradição de nosso grupo, vamos estar celebrando essa vitória com muita cerveja:

Local: 209 norte (Mont Sion Bar, ou o que quer que tenha no lugar dele).
Horário: 19:00 horas
Dia: Quinta-feira (04/12)

Dada minha contusão não estarei dirigindo, estarei de carona, e poderei tomar cerveja com todos os atenciosos leitores que porventura passarem por lá.

sexta-feira, 28 de novembro de 2008

Este Blog NÃO apoia Timothy Geithner

O novo Secretário do Tesouro Americano, Timothy Geithner, NÃO tem o apoio desse blog.

Timothy Geithner é um dos principais articuladores do plano de ajuda ao setor financeiro americano. Só por isso esse blog já seria contra seu nome para ocupar a posição econômica de maior importância nos Estados Unidos. Mas o pior é que parece faltar "sustância" a Geithner, sua carreira toda parece muito mais ligada a amizades e contados do que exatamente ao seu brilhantismo.

A verdade é simples: Barak Obama AMARELOU. O nome para a posição de Secretário do Tesouro era Larry Summers, mas Obama mostrou que não tem peito pra chamar a responsabilidade. Amarelou e se acovardou frente a pressão de grupos contrários a indicação de Summers. Summers cometeu um crime terrível: disse que muitas mulheres gostam de ter filhos e trabalhar meio expediente. As feministas e todos os grupos de minorias americanos odeiam Summers por ter dito isso. E Obama cedeu a eles, trocou o bom Summers pelo meia boca Geithner.

Colocar o homem que gosta de dar dinheiro para bancos para cuidar do dinheiro do contribuinte americano é um péssimo começo para o recém eleito presidente Obama.

quinta-feira, 27 de novembro de 2008

Por que a imprensa nacional é tão dura com Bush, mas tão amiga de Lula?

O furacão Katrina devastou a cidade de Nova Orleans, nos Estados Unidos, em 2005. A imprensa nacional não se cansou de responsabilizar o presidente americano, George W. Bush, pela catástrofe. Absolutamente ninguém na imprensa se lembrou de mencionar que nos Estados Unidos, que é uma federação de estados, o poder do presidente não é tão grande assim. Por exemplo, é PROIBIDO ao presidente americano intervir dentro de um estado sem autorização da Suprema Corte ou sem a autorização expressa do estado. Nada disso interessava, a culpa era do Bush e ponto final.

O estado de Santa Catarina está um caos. Que tal culparmos Lula por isso? Vejamos os fatos: onde está o socorro federal? Onde estão as tropas do exército para ajudarem na segurança? Onde estão os planos de evacuação das áreas de risco? Resumindo, até o momento o governo federal não fez grande coisa. Por que ninguém culpa Lula por tamanha lentidão?

Quantas pessoas mais terão que morrer em Santa Catarina até o governo federal decidir agir? Os saques estão ocorrendo a olhos vistos, isso denota falta de segurança. O exército já deveria estar em Santa Catarina auxiliando na segurança pública. Onde estão o transporte aéreo e o apoio logístico das forças armadas? Por que tanta demora em convocar exército, marinha e aeronáutica para auxiliar nessa crise? Onde estão as rotas para levar suplimentos aos refugiados? Será que ninguém vai cobrar explicações para tamanha incompetência?

Em dezembro será a vez das chuvas atingirem o estado do Rio de Janeiro. Novamente, a incompetência e lentidão serão as características básicas da ajuda do governo. Até quando seremos tão rígidos com presidentes de outros países e tão complacentes com o nosso presidente?

Por fim, parabéns aos bombeiros e heróis anônimos de Santa Catarina que são obrigados a vencerem dificuldades enormes sem apoio federal algum.

terça-feira, 25 de novembro de 2008

Você usaria uma camisa com a foto de Bin Laden?

Vi um jovem usando uma camisa estampada com a foto do terrorista Osama Bin Laden. Me dirigi até ele e disse que achava estranho alguém apoiar assassinos. Claro, todos temos liberdade de pensamento. Mas é importante entendermos que somos responsáveis por nossas ações e pelas implicações óbvias de nossos pensamentos e idéias.

Acabo de ler que o grupo Taleban, aquele que apoiou e apóia Bin Laden financiou um grupo de delinquentes para jogarem ÁCIDO em estudantes e professores. Incrível que estudantes brasileiros apoiem um grupo com essa mentalidade.

O mesmo vale para camisas de Che Guevara, outro assassino de carteirinha. Usar uma camisa com a foto de Che Guevara é moralmente igual a se usar uma camisa com a foto de Adolf Hitler. Realmente estranho que estudantes brasileiros, tão ardorosos defensores da liberdade de pensamento, adotem como vestimenta básica camisas com fotos de assassinos caracterizados pela intolerância com opiniões distintas.

Bin Laden é um assassino. Che Guevara foi um assassino. Fidel e Raul Castro são assassinos. Usar camisas com suas fotos estampadas ou recebê-los em sua casa é o mesmo que apoiar os métodos que eles usam: assassinato.

segunda-feira, 24 de novembro de 2008

Como este Blog Alertou US$ 700 Bilhões era APENAS o Começo

Desde o ano passado esse blog vem batendo na mesma tecla: é ERRADO ajudar o setor financeiro. Alguns analistas diziam que a ajuda seria temporária. O tempo passou e a ajuda não parece ter sido tão temporária assim. Analistas diziam que a ajuda seria localizada e restrita ao setor financeiro. Alguém ainda acredita nisso? Analistas diziam que era melhor gastar 700 bilhões de dólares do que enfrentar a crise de frente. Este blog SEMPRE alertou de que 700 bilhões era apenas o começo. Este blog sempre alertou de que tão logo os 700 bilhões fossem liberados outras demandas iriam aparecer. Será que alguém ainda duvida das previsões do blog?

Como eu sempre digo aos meus alunos: “o mercado não é seu amigo, o mercado não é seu inimigo. O mercado não é pessoal, o mercado é apenas implacável. O mercado reage a incentivos, forneça os incentivos corretos e os resultados serão favoráveis. Forneça maus incentivos e os resultados serão ruins”. O setor financeiro esta sendo exposto ao conjunto ERRADO de incentivos. Agora é a vez do Citigroup: são mais de 300 bilhões de dólares em garantias do governo a essa instiuição. Não deixa de ser irônico ver as três gigantes GM, Chrysler e FORD terem que implorar por 10 ou 20 bilhões, enquanto empresas tão ineficientes quanto estas recebem CENTENAS de bilhões de dólares sem esforço algum. Irônico ver os executivos das três gigantes irem ao Congresso Americano implorar por ajuda, ao passo que os executivos de instituições financeiras, que receberam ajudas bem maiores, sequer são vistos dando explicações a quem quer que seja.

Ajudar as três gigantes é errado, elas estão pagando por seus erros. Mas acaso é diferente com o o Citigroup?

domingo, 23 de novembro de 2008

IV Encontro de Pensadores Liberais: CANCELADO

Meus Caros,

Como bom atleta de final de semana me arrebentei nesse sábado. Estou aqui todo enfaixado e não terei como dirigir ou fazer qualquer outra coisa na semana próxima.

Meu sonho de jogar futebol profissionalmente também foi por água abaixo, agora só me resta escrever.

quarta-feira, 19 de novembro de 2008

A Crise Veio na Hora Certa

Fui fazer a matrícula de minha filha no colégio, a mensalidade subiu e o desconto de pontualidade foi reduzido. A justificativa do colégio foi simples: estamos no meio de uma grande crise mundial.... em minha inocência acreditava que em momentos de crise de demanda os empresários abaixassem os preços, mas parece que esta ocorrendo exatamente o oposto. O preço dos serviços aumentou: o encanador, o eletricista, o cara que faz chave, todo mundo reajustou o preço. A justificativa é sempre a mesma: é a crise.

As montadoras não estão vendendo tantos carros como no começo do ano: culpa da crise. Pronto, essa é a palavra mágica para o governo ir ajudar as montadoras. Libera-se crédito, posterga-se o pagamento de impostos e sabe-se lá mais o que esta por vir. As construtoras não estão ganhando tanto dinheiro: culpa da crise. E lá vem o governo com mais crédito, mais programas de incentivo para ajudar as construtoras também.

Essa crise veio na hora certa. Nunca tantas empresas ganharam tanto dinheiro público como na atual crise global. São trilhões de dólares dos contribuintes americanos, trilhões dos contribuintes europeus, bilhões dos contribuintes chineses e brasileiros e outros bilhões dos contribuintes de todo o mundo. Nunca antes se transferiram tantos recursos públicos para um grupo tão restrito de empresas. Essa crise chegou na hora certa para tais empresas.

Vejo algumas pessoas tentando justificar que a ajuda estatal para o setor financeiro faz sentido, mas a ajuda para outros setores é errada. O próprio Congresso Americano diz que as montadoras americanas estão nessa situação por sua própria incompetência. Sim, isso é verdade. Mas acaso isso é diferente com o setor financeiro? Ora, os bancos e seguradoras que pedem por ajuda do governo agora chegaram a essa situação justamente por sua incompetência. Ajudar as montadoras é errado, mas não é mais errado do que ajudar o setor financeiro.

Como este blog vem alertando desde o ano passado ajudar empresas falidas, sejam elas do setor financeiro ou não, é errado. Não adianta querer justificar que as regras que se aplicam ao setor financeiro não se aplicam aos outros setores da economia. Imaginar que as montadoras, que as empreiteiras, que os grandes conglomerados da economia, assistam passivamente a transferência de recursos de toda a sociedade para o setor financeiro sem protestar é ilusão. Era evidente que todo grande setor da economia tentará tirar proveito dessa crise. Minha única surpresa até o momento é: por que as empresas aéreas ainda não apareceram pedindo dinheiro público? Afinal, é a crise.....

terça-feira, 18 de novembro de 2008

Faltam menos de 2 semanas para o IV Encontro de Pensadores Liberais

IV Encontro de Pensadores Liberais - A Crise Internacional e a Atuação do Estado Brasileiro

A CRISE INTERNACIONAL E A ATUAÇÃO DO ESTADO BRASILEIRO

Data: 29/11/2008 (Sábado)

Horário: 14:00 às 18:00 horas

Local: Universidade Católica de Brasília (916 norte)

Temas a serem discutidos:

1) Ajuda estatal ao mercado imobiliário: não foi assim que começou a crise nos EUA???

2) Banco Central e swap cambial

3) Concentração Bancária

4) BNDES e os beneficiários do dinheiro público

5) Ajuda estatal ao mercado de automóveis: será que vamos criar uma bolha aqui também?

Conto com vocês no encontro. Em breve estarei divulgando mais informações.
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segunda-feira, 17 de novembro de 2008

Unibanco e Itaú

A união entre os bancos Itaú e Unibanco foi celebrada por alguns como prova da robustez do mercado financeiro nacional. Interessante notar que a grande maioria dos economistas aplaudiu tal incorporação. Coube apenas aos advogados argumentar contrariamente a tal união, salientando corretamente que esse movimento aumentava a concentração do setor bancário brasileiro.

Alguns argumentaram que tal incorporação aumentaria o crédito interno. Gostaria de saber por que? Exatamente em que o aumento da concentração bancária pode aumentar a disponibilidade de crédito? Caso o Unibanco estivesse em dificuldades, este argumento talvez pudesse ser correto. Contudo, nada nos leva a crer que o Unibanco estivesse com problemas sérios. Assim, o mais provável mesmo é que o aumento da concentração bancária leve ao resultado tradicional: aumento de preços dos serviços bancários.

Continua uma incógnita para mim o por que do governo federal ver com bons olhos tal incorporação. Também não entendo o Ministro da Fazenda celebrar esse fato. Creio que o Brasil deve ser um dos poucos países no mundo que comemora a redução da competição. Pior do que isso: ao permitir conglomerados financeiros tão grandes, aumenta-se também o risco de ter que socorrer tal conglomerado quando este passar por dificuldades financeiras. Isto é, quando este novo banco for a falência (e eles inevitavelmente vão falir cedo ou tarde) será enorme a pressão por ajuda governamental. O argumento será o de sempre: se permitirmos a falência desse novo conglomerado, haverá o risco de levar toda economia à falência. Ou seja, a política ótima de investimento do banco será assumir riscos elevados. Afinal, se der certo os acionistas ganham muito dinheiro. Mas, se der errado o governo será “obrigado” a ajudá-los.

Nesse ambiente em que o governo celebra a união de bancos gigantes, e a consequente redução da competição, não será de se espantar se o próximo passo do governo for propor a união entre a Caixa Econômica Federal e o Banco do Brasil. Afinal, “é necessário a formação de um conglomerado financeiro nacional forte para disputar mercado com os gigantes da área”. E assim cada vez mais teremos bancos gigantescos prontos a serem socorridos pelos governos, às custas dos contribuintes, durante suas crises.

quinta-feira, 13 de novembro de 2008

Distribuição de Renda e o Governo

Tal como este blog vem alertando desde o ano passado a ajuda ao setor financeiro é ERRADA. Tal ajuda apenas evita que empresas ineficientes continuem no mercado. PIOR: estimula outras empresas a irem pedir ajuda ao governo.

Há dois meses atrás esse blog cantou a bola: a GM seria a primeira, de uma longa lista de empresas, a ir pedir ajuda no Congresso americano. Não deu outra. O Brasil também faz sua parte para piorar a situação: o governo tem prometido ajuda a montadoras, construtoras, exportadores, etc. O único que não vai levar nada é o pobre contribuinte, este só irá pagar a conta.

Esta crise tem sido o MAIOR PROGRAMA DE DISTRIBUIÇÃO DE RENDA DO MUNDO. Distribuição de renda às avessas: tiramos dos contribuintes e damos para os grandes empresários. O que mais chama a atenção nesse absurdo é o apoio que ele tem recebido de partidos e intelectuais de esquerda. Isto só prova o óbvio: a esquerda adora um Estado forte, mas se esquece que Estados fortes protegem os grandes grupos da economia. Já pensadores liberais, como esse blog, têm se manifestado DESDE O COMEÇO CONTRA essa ajuda à magnatas às custas dos contribuintes. Nada contra os magnatas e nada contra quem ganha dinheiro, mas tudo contra àqueles que querem privatizar seus ganhos e socializar seus prejuízos.

O liberalismo protege os pobres, protege indivíduos, pois mantendo o Estado pequeno torna-o incapaz de transferir recursos para os grandes grupos da sociedade. Nenhum programa, em nenhuma época de nossa história, transferiu tantos recursos dos contribuintes para poderosos grupos econômicos.

quarta-feira, 12 de novembro de 2008

O Novo Formato do Concurso do IPEA

Antigamente o concurso do IPEA era composto por basicamente três provas: macroeconomia, microeconomia e econometria. Todas as matérias adotavam ementas de mestrado/doutorado. Não havia reserva de mercado para nenhuma profissão, entrava quem fazia mais pontos.

Hoje o concurso do IPEA é separado em áreas: Macroeconomia, Relações Internacionais, e tantas outras. As provas agora não são mais a nivel de mestrado/doutorado, mas a nível de graduação. As matérias que serão cobradas em cada área divergem e muitas vezes são carinhosamente chamadas de coisas estranhas. A prova de macroeconomia favorece nitidamente pessoas com formação na Unicamp/UFRJ. Pior: agora existe reserva de mercado. Podem concorrer na área de economia APENAS economistas. Na área de Relações Internacionais APENAS pessoas com graduação em relações internacionais ou economia. Ou seja, matemáticos, estatísticos, engenheiros e tantos outros com doutorado em economia, mas graduação em outra área, não poderão concorrer na área de economia.

Algumas áreas do concurso são um verdadeiro balaio de gato: cabe de tudo lá dentro, menos economia. Até prova ORAL vai ter no concurso, verdadeira inovação. As vagas para Macroeconomia não cobrarão conhecimentos de econometria, mas a teoria cepalina estará lá firme e forte. A área de Relações Internacionais terá o sensacional multiculturalismo como tema (alguem sabe o que é isso?). Na área Infra-estrutura e logística de base (deviam patentear esse nome) lá aparece o Programa de Aceleração do Crescimento (PAC) como matéria obrigatória, mas se esqueceram de pedir aos alunos aprenderem métodos para se checar a eficiência de programas. Mas a campeã mesmo parece ser a área de Sustentabilidade Ambiental, que engloba matérias tais como sustentabilidade fraca e a economia neoclássica; a sustentabilidade forte e a economia ecológica; Caracterização e problemática dos biomas brasileiros: Amazônia, cerrado, caatinga, campos sulinos, pantanal, mata atlântica, zona costeira e zona marítima. Biodiversidade: gestão de florestas, acesso ao patrimônio genético, biosegurança, biotecnologia e biopirataria.

Vamos a uma pergunta prática: como fica a situação de um candidato que passe na área de meio ambiente mas queira trabalhar na área de macroeconomia? Esse não era um problema no passado, afinal não existia essa ABSURDA divisão por áreas. No passado os candidatos eram aprovados por saberem os MÉTODOS e a TÉCNICA. De posse desses conhecimentos, o campo de aplicação era decidido internamente. E agora, já imaginaram o problema que vai dar?

Por fim, esse concurso do IPEA atrairá candidatos com perfil similar aos aprovados no concurso dos gestores (outro cargo federal, mas que atua diretamente nos ministérios). Se atrairmos candidatos com perfil similar aos já existentes na esplanada do ministérios, qual será o diferencial do IPEA? Respondo: NENHUM. Esse concurso marca uma MUDANÇA DE RUMO PARA PIOR na trajetória do IPEA. Ele é um passo importante em direção à extinção do IPEA.

O bom senso pede para que esse concurso seja CANCELADO. Outro, nos moldes dos concursos antigos, deve substituí-lo. Mas agora faço um alerta aos técnicos do IPEA: a covardia custa caro. A omissão nesse período trará um custo futuro não desprezível.

O edital do IPEA pode ser acessado aqui.

terça-feira, 11 de novembro de 2008

O Futuro do IPEA

No passado o Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (IPEA) foi extremamente influente na formulação de políticas públicas no Brasil. Contudo, com o passar do tempo, essa influência foi gradativamente diminuindo. Atualmente o IPEA encontra-se em um momento chave de sua história: como voltar a ser influente e ajudar na elaboração de políticas públicas brasileiras?

Primeiramente devemos entender a origem da influência do IPEA. Nas décadas de 1960, 1970 e 1980 a formação acadêmica da maior parte dos funcionários públicos federais era baixa quando comparada à formação dos técnicos do IPEA. Dessa maneira, existia um espaço muito grande para que técnicos do IPEA fossem chamados a responder questões importantes de políticas públicas. Além disso, técnicos do IPEA eram sempre convidados a assumirem cargos altos da administração pública. Ou seja, até o final da década de 1980, foi a alta qualificação acadêmica de seu corpo técnico que garantiu uma posição de destaque ao IPEA.

Apesar de sua importância histórica, a partir do começo da década de 1990 a influência do IPEA passou a dimuir. O motivo disso foi simples: os funcionários públicos federais passaram a ser contratados por concursos públicos cada vez mais concorridos. Tal competição por uma vaga no serviço público aumentou consideravelmente a capacitação acadêmica dos funcionários dos Ministérios. Hoje é muito comum se encontrar profissionais com nível de doutorado ocupando cargos concursados dentro de Ministérios. Devido a melhora do capital humano trabalhando como gestores e associados dentro dos Ministérios, a antiga influência exercida pelo IPEA nesses locais foi em muito reduzida.

Analisando os parágrafos acima, parece-me que a chave para o sobrevivência a longo prazo do IPEA é manter o diferencial de qualidade com o restante do serviço público. Mas tal diferencial não pode mais ser mantido apenas pela titulação de seu corpo técnico. Afinal, doutores agora existem também em abundância entre outras carreiras do setor público. O que o IPEA deve fazer é investir fortemente em pesquisa acadêmica. Essa é a verdadeira vocação do IPEA, e é onde o IPEA pode fazer a diferença. Exercendo liderança acadêmica, o IPEA pode voltar a encontrar o papel de destaque que já exerceu no passado.

Pesquisa acadêmica de ponta, auxiliando a implementação e checando o desempenho das políticas públicas, é a chave para a existência de longo prazo do IPEA. É por esse motivo que o recente concurso para técnicos do IPEA me preocupa. Nesse novo concurso o IPEA abandonou sua tradição de buscar pesquisadores, e se concentra em atrair apenas graduados. Antigamente os concursos do IPEA cobravam matérias tradicionais de cursos de mestrado/doutorado. Essa tradição foi abandonada no novo concurso, agora as matérias têm a) um viés de esquerda (proveniente da UNICAMP); e b) um viés para ementas de graduação. Apenas para dar um exemplo: os candidatos para as vagas de macroeconomia não precisarão fazer provas de econometria. Devido ao salário competitivo, acredito que o concurso do IPEA atrairá bons candidatos de nível de graduação. Contudo, não é desse tipo de candidato que o IPEA precisa. O IPEA precisa de pesquisadores, e estes serão poucos nesse novo concurso.

O novo concurso do IPEA é um erro. É um passo importante para o fim desse outrora grandioso instituto. O IPEA precisa de pesquisadores, deixemos os bons alunos de graduação para os outros órgãos do governo.

domingo, 9 de novembro de 2008

Eu voto em Sarah Palin

Durante as eleições americanas Sarah Palin foi duramente atacada pela imprensa, foi tachada como burra e inexperiente. Mas eu quero deixar aqui registrado: Sarah Palin tem o meu voto. Exatamente qual é a experiência de Obama? Sarah Palin é governadora, me parece razoável assumir que ela tem mais experiência adminsitrativa que Obama. Exatamente por que Palin foi taxada de burra? Foi taxada de burra por defender o livre mercado e um governo pequeno, isso não é burrice, é lucidez.

Palin foi uma guerreira até o fim, e fosse ela a candidata presidencial acredito que teria sido eleita a primeira mulher presidente da América. Palin rapidamente entendeu que os assessores de McCain estavam mais preocupados em manterem seus empregos do que em ganhar a eleição. Daí sua discordância com a estratégia de campanha. Palin notou corretamente que a única maneira de acordar o povo americano da ilusão Obama era com palavras firmas e diretas. Foi isso que ela fez, e foi por isso que recebeu o ódio da imprensa. Palin é a favor do livre mercado e é a favor da redução do tamanho do Estado. Sarah Palin tem o meu voto, se for candidata à presidência americana vai vencer.

Mas vamos falar de um detalhe estranho: tão logo Obama venceu as eleições e a França começou a dizer que agora uma reaproximação é possível. Vamos ao óbvio: que moral tem a França? A França é aquele país que 6 meses ANTES da derrota de Hitler estava celebrando o nazismo. A França é também o país que COMEÇOU o conflito no Vietnã, mas que depois saiu de fininho fingindo que não era com ela. A França mostrou toda sua moral no conflito da Argélia, onde a brutalidade francesa foi tão grande que conseguiu inclusive chocar os próprios franceses. Quem em sã consciência quer se aproximar de um país desses? Ninguém na Europa confia na França, o motivo disso é simples: a França está pronta a quebrar QUALQUER acordo se isto beneficiá-la em 10 centavos no curto prazo. É por isso que países pequenos na Europa, tal como a Polônia, buscam desesperadamente o apoio americano. Esses países sabem que na hora do aperto só mesmo os americanos respeitam os acordos.

Obama representa um conjunto de idéias que nunca funcionou: restrições ao comércio internacional, aumento do poder dos sindicatos, políticas tributárias que desincentivam o trabalho e a acumulação, ampla política de subsídios governamentais, adoção de medidas de ação afirmativa, e aumento da esfera de atuação, com consequente aumento do tamanho do Estado.

quinta-feira, 6 de novembro de 2008

Entrevista com Miguel Leon-Ledesma

Miguel Leon-Ledesma é professor da University of Kent. Ele também é consultor do Banco Central Europeu, do Banco Asiático de Desenvolvimento e do Banco Central da República Dominicana. Além disso, é pesquisador visitante das Universidades de Frankfurt, UTS (Sidnei - Austrália) and Kiel. O Professor Ledesma é referência mundial na área de Economia Internacional.

O professor Ledesma não é fluente em português. Assim, pede-se que os leitores desculpem os erros gramaticais.

1) Por que tantos bancos e seguradoras inglesas quebraram ou estão à beira do colapso? Parece que a situação na Inglaterra é mais crítica do que nos Estados Unidos, esta impressão está correta?

A situacao na Inglaterra é bem parecida com a dos EUA. O problema é que na Inglaterra o setor financeiro é proporcionalmente maior. Londres é o maior centro financeiro do mundo, na frente de New York, o que aumenta a exposição da economia. Também acontece que o grau de concentração do sistema financeiro britânico (e Europeu em geral) é maior do que nos EUA, onde existem muitos pequenos bancos regionais. Por essa razão o perigo de “bankruptcy” pode ser pior na Inglaterra. As razões por trás do estado dos bancos britânicos não são diferentes do que esta acontecendo no resto do mundo. O “spillover” do boom do mercado imobiliário foi muito forte na Inglaterra, aonde a bolha do housing market foi enorme. Eu nao vejo o problema tanto como a criação pelos bancos de “excesso” de crédito. Ao final tem oferta e demanda, e os dois lados do mercado sao igualmente responsáveis. O problema do banco foi que o risco não foi corretamente medido, isto é: os bancos nao colocaram o preço correto no risco porque os produtos financeiros viraram tão absurdamente complexos que ninguém mais sabia o que que eles eram. Neste ponto as “risk rating agencies” têm também muita responsabilidade. O sistema financeiro criou produtos cuja complexidade é tão grande que vira muito dificil colocar um preço no risco. Sem um preço correto, o sinal do mercado desaparece, e portanto o mercado deixa de ser eficiente. Isto é, o preço não contém informação sobre o produto. As rating agencies não atuaram com cautela, elas deveriam ter usado uma estratégia conservadora: se não sabemos o que é, então é melhor darmos um ranking ruim.


2) O Banco Central Europeu poderia ter feito algo para evitar essa crise? As políticas passadas adotadas pelo Banco Central Europeu tiveram responsabilidade pela crise atual? E agora, os Bancos Centrais da Europa estão tomando as medidas corretas? De maneira específica, você concorda com a proposta de Gordon Brown?

Vamos por partes. Eu não acho que o BCE teve muita responsabilidade pela crise atual. Ao contrário, o BCE sempre manteve os juros mais altos do que nos EUA e no Reino Unido (em termos da diferença entre juros e crescimento real da economia). O BCE também manteve taxas de juros bem mais estáveis do que o FED e o Banco da Inglaterra. Eles foram mais anti-inflacionários, o que é de se esperar de um banco novo e derivado do antigo Bundesbank. Eu acho que juros excessivamente baixos da época Greenspan tiveram muita maior influência na crise. Juros reais negativos por um longo período de tempo simplesmente levam a uma distorção dos incentivos para o investimento real.

Em relação a resposta do Brown eu tenho uma visão misturada (mas não confusa!). Eu acho que não tinha mais jeito, precisava de uma intervenção para tentar cortar a crise, e a intervenção com injeção de capital é mais eficiente para o tax payer do que continuar comprando “toxic assets” sem valor nenhum. Se os stocks ganham valor e no futuro são re-privatizados (como deveria ser no futuro próximo) as perdas para o estado são bem menores. Tem, obviamente, que se preocupar pela perda de empregos e os enormes problema sociais de uma crise. Mas, no longo prazo, a razão para defender uma intervenção é uma razão de eficiência. São duas as razões de eficiência:

A primeira é que já existe muita evidência empírica que os efeitos das recessões são permanentes no nivel do PIB. Tem um artigo desse ano na American Economic Review que mostra esse fato (Cerra e Saxena, 2008). Eu levo um tempo estudando os possíveis efeitos permanentes das recessões. A evidência é bem forte: a típica visão de real business cycle theory e das keynesian theories que assumem recessões como sendo temporárias ao redor de uma tendência é violada pelos dados. Uma prova simples é que o modelo empírico de flutuações do Jim Hamilton funciona muito melhor do que o modelo “pluckling” do Friedman. Uma outra questão é por que isso acontece (é market failure ou government failure?). Mas o que é claro tambem é que paises com governos estaveis, democraticos, e sujeitos a controle institucional tendem a ter ciclos menos pronunciados e efeitos permanentes menores. Nos EUA, por exemplo, tem evidencia de que politica fiscal ajuda a suavizar ao redor de 15% do ciclo. Isso seria diferente em paises “emergentes”, claro. Mais se aceitamos que os consumidores preferem ter um nivel de renda constante do que o mesmo valor presente mas com padrao mais volatil, entao tem um ganho de bem-estar [welfare??] e, portanto, eficiencia. Isso tudo sem falar das possiveis consequencias sociais, enormes, que podem desestabilizar o sistema e levar, no futuro, ao povo pedir ainda maior controle do mercado e socialicacao da produccao.

A segunda racao é pelas caracteristicas da crise. O setor financiero deve existir para assinar credito as partes mais eficientes do sistema (e tambem risco). Esso nao aconteceu nesses anos. Nessa crise o risco de atividades pouco produtivas foi espalhado pelo sistema economico tudo sem ninguem saber aonde estavam investindo. O sistema financiero nao foi eficiente nesse sentido. Se os bancos quebram eles levam com eles a muitas empresas. As empresas hoje precissam de usar o sistema financiero para levar simples operacoes diarias. O pior é que muitas empresas eficientes, que geram valor, iam quebrar se nao podem usar credito. A beleza do sistema capitalista eh a capacidade de gerar “entrepreneurship” e innovacao. Essas atividades precissam de investimento financiero. Um colapso do sistema bancario ia impedir a mesma essencia do sistema de mercado funcionar. A seleccao schumpeteriana na economia real precissa dos bancos para funcionar.

Agora, esse mesmo ponto me leva aos problemas que tenho com o plano Brown (que foi implementado depois nos EUA e muitos outros paises). Um sistema de socialicacao das perdas e de salvar as partes ineficientes do mercado deve ser evitado. Essa seleicao mais “Hayekiana” eh necessaria, sao os “cleansing effects” das recessoes. A intervencao, por tanto, deve ser desenhada dum geito que seja “incentive compatible”. Eu me pergunto porque, depois de ter calmado aos mercados, o Governo nao empregou expertos em mechanism design para desenhar um sistema de incentivos que, ainda sustentando a economia no curto praco, nao evite que a economia se livre do “lixo”. Sempre vai ser um second best, mais é bem melhor do que um third best. Alem desso, a intervencao acabou com o sistema de politica monetaria baseado nas metas de inflacao simples. Ninguem vai acreditar mais nesse sistema quando o Banco Central simplesmente deixou a inflacao ficar 2.8 pontos acima da meta. Pior ainda, ninguem parece ter se apercebido de que, com bancos parcialmente publicos, as atividades diarias normais do BC vao gerar credito ao sistema bancario e, indireitamente, ao Estado. Esso é perigoso, e pode provar ser um erro bem grande.

Ao final, as politicas de intervencao sao como um fio: vc pode puxar dele, mais nao pode empurrar com ele. Vc pode evitar um colapso, mais nao pode ajudar a resolver o problema se nao acompanha com uma outras medidas.


3) Qual será o impacto dessa crise nos fundos de previdência privados? Você acredita que em breve os governos também terão que intervir nesse mercado para evitar a falta de solvência desses fundos? Ou pior ainda, será que em breve assistiremos novamente a transferência de recursos públicos para entes privados sobre a justificativa de evitar uma crise sistêmica?

Eu acho que a crise vai ter um efeito sobre fundos de previdencia, mais especialmente para aqueles que estarao se aposentando nos proximos 5 anos. No longo praco o principal problema é de dinamica da populacao e criacao de riqueza. O retorno de investimentos nas bolsas deveria voltar a niveis normais em questao de 1 ou 2 anos. Sem duvida, existe o risco de transferencia de recursos publicos, mais para mim o principal problema nao é esse. O principal problema depois da crise é a volta a politicas protecionistas que impedem o desenvolvemento normal do comercio internacional, que trouxe o periodo economico mais impotante da historia: 700 milloes de pessoas sairam da pobreca nos ultimos 15 anos. NUNCA a humanidade viou um processo como esse. O comercio é sem lugar a nenhum tipo de duvidas o que mais risco corre, pois as pessoas na rua associam “globalicacao” com a crise. Poderiamos pagar um preco muito alto pelos erros dos “expertos” em financas.

4) Antes da crise havia uma idéia de que o Euro era uma moeda forte, mas no momento do aperto todos correram para o dólar americano. Como você analisa isso?

É simplesmente errado tentar chegar a conclusoes sobre a “fortaleca” de moedas num ambiente tao inestavel e tao cheio de incerteca. É evidente que desde Julio o Euro caiou substancialmente contra o dolar. Mais essa nao é a estoria tuda. O Euro está ainda bem por acima do cambio que tinha faz, por exemplo 3-4 anos, e muito mais se comparamos com o cambio inicial depois da criacao da moeda. Mais esso nao deve sorpreender-nos. Os mercados sabem que os EUA regularmente anticipam a crise no resto do mundo, e por tanto esperam que a zona Euro entre na recessao tambem nos proximos meses. Mais o Euro ainda apreciou muito contra a Libra no ultimo ano e contra as moedas de paises emergentes nos ultimos 6 meses (só olhar o cambio R$-Euro). O que é mais notorio é a evolucao do Yen do Japao, que foi a moeda que mais subiou nessa crise. Quer esso dizer que o Yen virou de repente uma moeda mais segura? Sem duvida nao se vc olha pros fundamentos macro das economias. O Euro é uma moeda importante, porque o GDP da zona Euro é o maior do mundo, mais o dolar vai continuar sendo a moeda dominante nos proximos anos, esso ai é claro. O resto, no curto praco é simplesmente impossivel de predizer e nao deveriamos criar pretensoes de que é.

5) Você está escrevendo um livro texto de Economia Internacional. Em que pontos seu livro irá inovar? Existe algum assunto que você acredita não ser bem tratado nos livros textos tradicionais de economia internacional? Você poderia nos falar um pouco mais da estrutura de seu livro?

Estou escrevendo um livro de Macroeconomia Internacional Avancada com o Alexander Mihailov da Universidade de Reading que sera editado pela Oxford University Press. Esperamos ter-lo pronto pro ano 2011. O livro é para nivel de posgraduacao (mestrados e doutorados). É um projeto bem trabalhoso, mais temos muita ilusao com ele.

O livro principal de Macro Internacional é o do Obstfeld e Rogoff (1996). Esse livro virou um classico e marcou a troca definitiva de modelos ad-hoc a modelos microfundamentados. Os problemas do livro para ensinar sao que nao tem uma perspectiva historica sobre os problemas centrais na Macro Internacional (nao mostra os modelos tradicionais que ainda sao importantes), nao tem muito foco empirico (que na area é realmente importante) e, 12 anos depois, ficou um pouco out-dated. O nosso livro tenta preencher esses gaps. Sem duvida, o nosso livro nao chegara a ser importante assim e nao temos pretensao de substituir OR (1996), somos bem mais humildes do que esso. O livro tem uma primeira parte de fundamentos basicos de Macro internacional mostrando os modelos basicos (estaticos e dinamicos). Depois entra com microfundamentos: eleicao intertemporal e eleicao entre estados da natureca (risco). Dai construimos os modelos basicos: o modelo de Lucas e o Redux do Obstfeld-Rogoff nos contextos deterministicos e estocasticos. Depois continuamos com topicos importantes: determinacao do cambio real, microestrutura de mercado, crises e ataques especulativos e modelos de “learning”. O livro vai ter uma aproximacao bem formal e tambem complementado analise de dados reais e o uso de econometria. Tentamos ensinar uma metodologia de fazer macro.

Espero que o publico goste. Se nao, nao se preocupe, nao vou pedir um bail-out do Estado!!

quarta-feira, 5 de novembro de 2008

Turbulências e Nuvens Negras , escrito por Rodrigo M. Pereira

Este artigo foi escrito por Rodrigo M. Pereira.

A atual crise mundial de crédito tem origem nos primeiros anos da presente década, sobretudo nos EUA e na Inglaterra. O medo de que a recessão de 2001 fosse perdurar por uma década, à lá Japão nos anos 90, fez com que os Bancos Centrais dessas economias reduzissem fortemente os juros por um período prolongado. O resultado foi uma fartura de crédito nunca antes vista, que teve um impacto, hoje considerado catastrófico, sobre os mercados imobiliários de países como os EUA, a Inglaterra, Austrália, Espanha, entre outros. A ampla disponibilidade de crédito muito barato levou a uma forte procura pelo financiamento de casas. Como a oferta é limitada no curto prazo, houve uma rápida valorização dos imóveis, chegando em alguns casos a mais de 30% ao ano, em termos reais. Casas viraram um investimento imbatível. Muitos as compravam não pela necessidade de uma moradia, mas sim pela expectativa de que elas continuariam se valorizando, o que é um comportamento típico de bolha especulativa. As casas ficaram tão caras que os preços não mais estavam baseados em fundamentos econômicos.

A segunda causa da crise foi o surgimento de uma série de instrumentos financeiros atrelados aos financiamentos das casas. Como esses instrumentos eram em grande parte emitidos por instituições que não operavam como bancos comerciais, eles não estavam sujeitos ao processo de regulação tradicional exercida pelos Bancos Centrais, que impedem riscos e alavancagens excessivos. Assim, esses instrumentos tinham perfis de risco e alavancagem bastante agressivos, o que levanta a suspeita de que essas instituições estivessem agindo sob um certo moral hazard (perigo moral), porque sabiam que eram grandes e importantes demais para que os governos as deixassem falir. Então, se os ventos fossem favoráveis o lucro seria embolsado, se os ventos fossem desfavoráveis, os prejuízos seriam muito provavelmente socializados com o dinheiro dos contribuintes. È evidente que num arranjo assim, quanto mais risco melhor. Em 2007 de fato os ventos tornaram-se desfavoráveis, e a bolha especulativa que se formara sobre os preços das casas finalmente estourou. Diversos devedores subprime (sem renda e histórico de crédito bons o suficiente para conseguir pagar a dívida em dia) ficaram inadimplentes. O valor das casas começou a cair, em muitos casos para valores abaixo do valor restante da dívida, tornando-se vantagem devolver a casa ao banco. Esse processo afetou a liquidez dessas instituições, e de todos os instrumentos financeiros atrelados aos financiamentos imobiliários, num efeito dominó que ainda não acabou. E os prejuízos têm sido fortemente socializados com o dinheiro dos contribuintes. Com exceção do Banco Lehman Brothers, que o tesouro americano deixou falir, até o momento todas as outras instituições com problemas foram resgatadas com dinheiro público.

O dominó eventualmente rompeu as fronteiras nacionais, e no mundo globalizado de hoje, começou a afetar diversas economias, inclusive o Brasil. Até pouco tempo atrás, dizia-se que o Brasil possuía uma blindagem contra a crise, e que na pior das hipóteses nosso crescimento cairia da casa dos 5% anuais para algo em torno de 4%. Afinal de contas, nosso Banco Central acumulara um formidável escudo de 200 bilhões de dólares de reservas. Além do mais, diferentemente de crises passadas, o Brasil não tem mais dívida externa. Como a dívida pública é praticamente toda interna, em moeda doméstica, o estouro do câmbio não causa o descontrole da dívida pública, como acontecia em crises anteriores. Essa fonte de vulnerabilidade não mais existe.
Entretanto, o setor privado não teve o mesmo cuidado que o público, e nos últimos anos se endividou fortemente em dólares. Então, enquanto o Banco Central acumulava uma enorme quantidade de divisas (ativos em dólares), o setor privado acumulava uma enorme quantidade de dívidas (passivos) em dólares. Firmas como Aracruz, Sadia e Votorantim ficaram em situação delicada, por dois motivos. Primeiro, suas fontes externas de financiamento secaram. Não há mais o crédito barato em dólares, e elas terão que buscar outras fontes de financiamento, possivelmente mais caras. Segundo, muitos investidores internacionais retiraram suas aplicações no mercado acionário brasileiro para cobrir perdas em seus países de origem, resultando na maior saída de dólares experimentada pela economia brasileira no período recente. Consequentemente o câmbio disparou, e essas empresas registraram fortes perdas devido ao seu grande endividamento em dólares.

É difícil prever quais serão os próximos desdobramentos da crise. Uma coisa porém é certa. O famoso “céu de brigadeiro” do governo Lula não existe mais. Em 2009 teremos que nos acostumar com turbulências e nuvens negras.

segunda-feira, 3 de novembro de 2008

Onde está a corrida bancária?

Corrida aos bancos é um evento que ocorre quando os clientes de determinada instituição bancária, com medo de que o banco vá à falência, correm até ela para retirarem seus depósitos. Se todos os clientes fizerem isso ao mesmo tempo o banco vai a falência. Foi com medo de uma possível corrida aos bancos que vários Bancos Centrais ao redor do mundo tomaram providências para prevenir esse problema.

Vamos aos fatos: só não ocorreu uma verdadeira corrida aos bancos ao redor do mundo porque os bancos estão relativamente muito saudáveis financeiramente. Notem que os governos ao redor do mundo fizeram de TUDO para GERAR uma corrida bancária. Vamos pegar o caso americano por exemplo: o presidente Bush disse à exaustão que o sistema financeiro estava à beira de um colapso. Os candidatos à presidência americana interromperam as respectivas campanhas eleitorais para irem à Washington sob o pretexto de que a “crise financeira era séria demais”. O presidente do Banco Central Americano e o Secretário do Tesouro dos EUA não cansaram de dizer que a crise era de proporções gigantescas. Com tantas pessoas importantes assim, que ocupam cargos públicos de destaque, argumentando pela seriedade da crise financeira seria de se esperar uma verdadeira corrida aos bancos. Mas nada disso ocorreu. As pessoas simplesmente mantiveram seu dinheiro nos bancos.

Num último esforço para GERAR uma corrida aos bancos, o governo americano avisou que estava preocupado com a situação das pessoas com depósitos em instituições bancárias. Afinal, dada a precariedade dessas instituições o governo deveria fazer algo para proteger tais depósitos. Quando um governo faz uma afirmação desse tipo, só pode ser porque ele quer gerar uma corrida bancária. Mas novamente as pessoas, para a surpresa do governo, mantiveram seu dinheiro nos bancos.

Sem conseguir gerar pânico e sem ter sucesso em gerar uma corrida aos bancos, o que os governos fizeram? Resposta: eles aprovaram leis aumentando as garantias de depósitos em bancos (evidentemente se esqueceram de dizer de onde viriam os recursos para tal garantia). Após tal medida, começaram a anunciar aos quatro ventos que a intervenção do governo salvou o sistema financeiro.

Os parágrafos acima descreveram uma típica intervenção do governo na economia: 1) o governo tenta criar problemas onde não existem; e 2) elaboram medidas para consertar problemas inexistentes; 3) como o problema NUNCA existiu, então o governo teve sucesso em eliminar o problema; e 4) pode não parecer, mas com esse truque o governo acabou de aumentar o poder regulatório sobre a economia. E tal regulação pode perfeitamente criar um problema pior ainda no futuro.

Apenas para finalizar, corridas bancárias não ocorreram nos EUA por um motivo simples: o problema não estava localizado nos bancos comerciais (os que recebem depósitos) e sim em bancos de investimento (que não recebem depósitos).

quinta-feira, 30 de outubro de 2008

Entrevista com Pedro H. Albuquerque

Pedro H. Albuquerque é professor de economia na University of Minnesota Duluth, também trabalhou no Banco Central do Brasil e mantém o blog incentives matter.

1) Você concorda com as medidas tomadas pelo Banco Central brasileiro para conter a crise financeira?

A crise afetou a economia brasileira fundamentalmente via três canais: (1) deterioração dos termos de troca, (2) fuga para qualidade (“flight to quality”), e (3) efeito contábil (balance sheet effect).

Vamos por partes. A deterioração dos termos de troca afeta o lado real da economia, representando um choque de oferta negativo. Este choque de oferta é provavelmente permanente, pois o cenário anterior, caracterizado pelo preço excessivo das commodities, estava baseado em desequilíbrios financeiros que eram insustentáveis. A demanda agregada deverá se ajustar ao novo nível de produto potencial, o que forçará o BACEN a adotar temporariamente trajetórias de juros reais mais altas do que as que foram projetadas antes da crise, caso deseje manter a trajetória de inflação dentro das metas.

A fuga dos investidores para qualidade agravou o cenário de curto prazo. Durante crises, os investidores buscam refúgio em ativos de qualidade, e, dado que os ativos cotados em Reais são ativos de risco, nada mais natural que seus preços em dólar tenham caído. Parte deste efeito e temporário e será revertido com a normalização dos mercados, porém outra parte deste efeito é permanente, resultado da correção dos desequilíbrios financeiros preexistentes. Haverá também uma redução permanente do crédito externo disponível para o Brasil como resultado dos ajustamentos nos mercados financeiros internacionais.

O efeito contábil afetou principalmente bancos e empresas no Brasil que acreditaram que a probabilidade de apreciação significativa do dólar era desprezível. Os bancos e empresas que tinham ativos em Reais e passivos em dólares se tornaram em alguns casos insolventes, o que agrava a crise.
Não há nada que o BACEN possa fazer para eliminar a deterioração dos termos de troca e a redução do interesse dos investidores em ativos brasileiros. A conjuntura internacional altamente benéfica para o Brasil, que teve início em 2002 com a disparada dos preços das commodities, provavelmente não se repetirá por um longo período. O país deverá se ajustar a esta nova realidade. Durante a transição, é fundamental que o BACEN permita que o câmbio flutue e mantenha as taxas de inflação dentro das metas.

Ter mantido o regime de câmbio flutuante, como você tem ressaltado em seu blog, foi o grande acerto do BACEN. O uso parcimonioso de reservas cambiais acumuladas durante o período de bonança para atender às necessidades do mercado durante momentos de iliquidez pode ter contribuído para reduzir efeitos negativos de curto prazo. O BACEN também acertou ao ter reduzido a dívida cambial antes da crise, tendo corrigido com isso um erro crasso da administração anterior.

Tenho receio, entretanto, de que o BACEN tentará manipular a taxa de câmbio de forma permanente, o que naturalmente não é possível. O BACEN deveria se retirar do mercado cambial uma vez que os piores momentos de iliquidez cambial tenham passado.
Além disso, considero que a manipulação do câmbio por meio de contratos futuros é um erro. Tal estratégia deve ser interpretada como “mini-fixações cambiais” promovidas pelo BACEN, ou como promessas de intervenção no mercado cambial. O uso de contratos futuros pelo BACEN reduz a transparência de suas operações, distorce incentivos econômicos e amplifica os efeitos de choques negativos futuros, ou seja, reintroduz os problemas dos regimes de câmbio administrado no regime de câmbio flutuante. O BACEN não deveria absorver riscos sistêmicos sobre os quais não exerce controle, estes riscos deveriam ser assumidos pelos mercados.

2) O governo assinou uma medida provisória autorizando o Banco do Brasil e a Caixa Econômica Federal a comprarem bancos. O que você acha dessa medida? O que você acha da medida que possibilita à Caixa comprar construtoras em dificuldades?

Trata-se evidentemente de deplorável intervenção oportunista do estado no domínio econômico. Tais medidas são questionáveis no caso americano e dos países europeus, e são ainda mais questionáveis no caso brasileiro.
Esta idéia que subitamente se espalhou pelo mundo de que é possível evitar falências durante crises econômicas ofende princípios básicos de economia e é moralmente vil. Capitalismo implica risco, e risco implica possibilidade de perdas. Alguém tem que quebrar durante crises. Se não tem ninguém quebrando, ou a crise não existe e, portanto, não é necessário intervir, ou então tem gente marcando gol de mão enquanto o juiz olha para o lado e finge não ver.

Note que é possível conter contágios financeiros sem aumentar a participação do estado na economia e sem transferir dinheiro da população para as empresas que apostaram e perderam. Em outras palavras, governos ao redor do mundo têm utilizado o argumento de crise sistêmica como justificativa para aumentar o poder do estado sobre a sociedade e para transferir riqueza para grupos privilegiados.

3) Como explicar o recente comportamento das bolsas de valores ao redor do mundo? Existe algo que possa ser feito para diminuir a volatilidade das bolsas?

As bolsas, como vários outros mercados, estavam excessivamente apreçadas devido ao acúmulo de desequilíbrios financeiros. Durante o período de ajustamento, a volatilidade aumenta, pois há muita informação nova a ser processada, muita incerteza sobre o futuro. A volatilidade é parte do processo de ajustamento, e não creio que seja saudável tentar reduzi-la. Além disso, as propostas para redução da volatilidade das bolsas ou são ineficazes ou agravam os problemas. Por exemplo, muitos neste momento defendem a criação de impostos sobre transações financeiras. Tais impostos não resolvem nada. Na verdade, podem agravar os problemas de iliquidez durante crises econômicas, além de criar outras distorções de longo prazo. Se a introdução de custos de transação eliminasse volatilidade de preços, então nunca deveríamos ter presenciado esta crise financeira, afinal os mercados imobiliários e hipotecários são conhecidos por seus elevadíssimos custos de transação.

4) A crise atual foi uma conseqüência da desregulamentação do mercado financeiro americano? Ou você acredita que o governo tem responsabilidade nela?
Sim, é evidente que o governo é responsável. Tal realidade é tão evidente que só pode ser negada por razões ideológicas.
Falhas de mercado são bem conhecidas e estudadas. Soluções para tais falhas em grande parte já foram implantadas nos países desenvolvidos. Crises como a atual podem ser evitadas usando fórmulas bem conhecidas que estão enumeradas em qualquer livro texto sobre economia monetária.

Falhas de governo, por outro lado, além de serem freqüentes, são pouco estudadas, assim as soluções para estas falhas são pouco conhecidas.
O mercado hipotecário americano é um dos mais regulados dos EUA. Esta crise foi o resultado de incentivos criados por políticas governamentais que distorceram a alocação de recursos nos mercados financeiros e imobiliário. Se você ler qualquer livro texto americano sobre finanças públicas, você verá seções inteiras dedicadas somente a este assunto.

Havia um projeto político de transformar todo americano num proprietário de imóveis, a todo custo. A legislação tributária e creditícia levou tal objetivo às raias do absurdo. Esta foi a causa fundamental desta crise. Basta lembrar, por exemplo, um episódio de série “Os Sopranos” de 2002 para ver como o problema já era conhecido de longa data (um extrato deste episódio está disponível no meu blog).
Contribuíram para a crise, porém, dois outros fatores. Os juros reais excessivamente baixos praticados pelo Federal Reserve, e os novos instrumentos financeiros que foram incorretamente apreçados por várias instituições financeiras privadas e governamentais. O governo, portanto, é também responsável, pelo menos em parte, por estes dois outros fatores.

Em suma, se houve falhas de mercado, é porque a regulação era excessiva, contraproducente ou ineficaz. Certamente não havia falta de regulação. A solução passa pela reconstrução do sistema regulatório e tributário tendo em vista a eliminação das distorções. O desafio, porém, não é de ordem econômica, é de ordem política. Muitos grupos de interesse resistem à implantação de regulação minimalista e eficaz dos mercados de crédito, preferindo a manutenção dos privilégios criados pelo governo.

5) Existe alguma diferença significativa entre as propostas econômicas de McCain e de Obama para lidarem com a crise?

Certamente. A proposta do McCain pode ser resumida da seguinte forma: (1) manter ou reduzir os impostos sobre poupança, investimento e pessoas jurídicas, (2) evitar variações expressivas das taxas marginais do imposto de renda com o nível de renda, (3) permitir aos mercados funcionar livremente, (4) apoio ao livre comércio internacional, (5) eliminação de subsídios, e (6) concentrar o papel do estado em funções tradicionais como manutenção da lei e da ordem e defesa nacional. A proposta do Obama pode ser resumida assim: (1) aumentar os impostos sobre poupança, investimento e pessoas jurídicas, (2) reduzir os impostos ou oferecer programas de assistência social para a parcela da população com rendas mais baixas, com isso aumentando as taxas marginais de imposto de renda para a classe média, (3) intervenção nos mercados, (4) rejeição do livre comércio internacional em favor de um conceito obscuro chamado “comércio internacional justo”, (5) subsídios para setores privilegiados, e (6) usar o estado primordialmente como mecanismo de transferência de renda.

Ou seja, a proposta do McCain é influenciada por princípios liberais, enquanto que a proposta do Obama é influenciada por princípios socialistas. As diferenças, porém, se reduzem ao considerarmos que a prática política acaba sendo determinada por questões de escolha pública (“public choice”), que tendem a nivelar todos os políticos por baixo.

Deve ser notado ainda assim que a proposta do McCain é claramente favorável ao Brasil, enquanto que a proposta do Obama provavelmente causará dificuldades adicionais para as economias emergentes.

terça-feira, 28 de outubro de 2008

Boato, má-fé ou a doce realidade brasileira?

Hoje recebi uma ligação de um colega. Ele me informou que o Professor Prescott (prêmio nobel de economia) não virá mais ao Brasil. O Professor viria ao Brasil participar do encontro do LACEA/LAMES.

Quem se arrisca a dizer o motivo do Professor Prescott não vir mais ao Brasil? Vamos lá arrisquem o motivo.....

Acertou quem respondeu: o Professor Prescott não recebeu o visto de entrada no Brasil. Motivo: não comprovou seus rendimentos.....

Talvez essa história seja apenas boato, talvez seja má-fé.... mas cá entre nós: na minha opinião ela faz todo o sentido do mundo.

Bem-vindo ao Brasil.....

segunda-feira, 27 de outubro de 2008

IV Encontro de Pensadores Liberais - A Crise Internacional e a Atuação do Estado Brasileiro

Meus Caros,

Convido-os ao IV Encontro de Pensadores Liberais. Dessa vez com o tema:

A CRISE INTERNACIONAL E A ATUAÇÃO DO ESTADO BRASILEIRO

Data: 29/11/2008 (Sábado)

Horário: 14:00 às 18:00 horas

Local: Universidade Católica de Brasília (916 norte)

Em breve estarei divulgando a programação completa referente ao Encontro.

domingo, 26 de outubro de 2008

A Crise Financeira e a Atuação do Banco Central Brasileiro

A economia brasileira tem sofrido relativamente pouco com a crise financeira internacional. Ao contrário do que afirma o Ministro Mantega isso não se deve a nossas reservas de 200 bilhões de dólares. Esse montante pode parecer alto, mas em momentos de ataques especulativos esse volume desaparece em uma semana. O que realmente tem evitado maiores turbulências na economia brasileira é que agora, ao contrário de 1999, a taxa de câmbio é flexível. Apesar de ter recebido pouco crédito por sua importância, o mecanismo do câmbio flutuante proporciona três grandes vantagens: a) evita ataques especulativos contra a moeda doméstica; b) amortece os choques externos; e c) faz com que a volatilidade da bolsa de valores nacional seja menor. Isso ocorre pois quando um investidor precisa cobrir perdas em outro local do mundo, ele primeiro retira dinheiro dos países com câmbio fixo (assim ele evita perder dinheiro com a desvalorização cambial).

A ÚNICA maneira da crise financeira internacional atingir seriamente o Brasil é se o governo brasileiro tentar fixar a taxa de câmbio. Enquanto mantivermos a taxa de câmbio flexível nosso país passará relativamente bem por esse momento de turbulência. Claro que existem outras maneiras da crise internacional afetar o Brasil, mas, enquanto a taxa de câmbio permanecer flexível, esses efeitos serão passageiros e de pouca magnitude. De maneira geral são cinco os canais de transmissão da crise para dentro da economia brasileira: a) restrições de crédito; b) falta de liquidez; c) queda nas exportações; d) erro de gerenciamento cometido por algumas empresas; e e) queda na riqueza das famílias decorrente das perdas no mercado acionário.

O ítem “c” acima, devido ao mecanismo de câmbio flexível, deverá ser bem menos severo do que a maioria acredita. Quanto ao ítem “d” não cabe ao governo intervir, se uma empresa quis se arriscar em operações financeiras sofisticadas nada mais justo do que ela pagar por isso. Quanto ao ítem “e” devemos lembrar que nos últimos quatro anos os investidores em bolsa tiveram um lucro formidável, assim é natural que possam arcar com algum prejuízo sem grandes transtornos. Além disso, com o passar do tempo espera-se que essa perda seja bem menor. O que realmente preocupa são os itens “a” e “b” acima, não por causa de sua severidade econômica, mas sim porque é ali que políticas econômicas administradas pelo Estado podem transformar uma crise passageira num pesadelo de grandes proporções.

Para melhorar a liquidez do sistema basta o Banco Central brasileiro (BC) diminuir o compulsório que os bancos são obrigados a manter. Para diminuir o problema de crédito externo cabe ao BC vender dólares no mercado à vista (para que empresas possam saldar seus compromissos no exterior, mas não com o objetivo de segurar o preço do dólar). Essas foram, acertadamente, as primeiras medidas que o BC tomou. Contudo, o BC está extrapolando suas funções e realizando operações que não são de sua alçada. Não cabe ao BC realizar operações de swap cambial, essas operações envolvem não só riscos, mas sobretudo sinalizam para uma intervenção no mercado cambial. Na última semana o BC vem realizando operações que podem configurar que ele está tentando fixar a taxa de câmbio. Está é a única coisa que não podemos fazer. Outra operação estranha é a recente Medida Provisória que autoriza o BC a comprar carteiras de crédito de bancos em dificuldade. A explicação é que o Banco Central irá trocar reservas cambiais por títulos de primeira qualidade. Contudo: 1) Se os títulos são de primeira qualidade, então por que o BC precisa intervir? 2) Qual será o preço pago nesses títulos? 3) Quem define quais títulos são de primeira linha? As agências de rating? 4) Qual o montante que será gasto nessa operação? 5) Além dos títulos, quais outras garantias que o BC irá receber? (suspeito que nenhuma).

Mas até o momento a notícia que mais assusta é a frase do presidente Lula que “ameaça tomar de volta o dinheiro liberado para os bancos que não estiverem repassando os recursos”. Em palavras, o Presidente da República está pressionando os bancos para que estes realizem empréstimos. Os bancos não estão realizando empréstimos pois estão sendo cautelosos, não querem se arriscar em empréstimos que se revelem de difícil solvência no futuro, e os bancos estão certos nisso. Errado está o Presidente em insistir nesse ponto. Não custa lembrar que boa parte da crise financeira atual foi causada por política similar adotada pelo governo americano: foi a ingerência governamental em dois grandes fundos (Fanny May e Freddy Mac), pressionando-os a realizarem empréstimos imobiliários arriscados, o maior motivador dos problemas que o mundo enfrenta hoje. Parece que Lula quer repetir no Brasil o erro cometido pelo governo americano.

quarta-feira, 22 de outubro de 2008

Reflexões sobre a Crise III: O Efeito Manada e a Irracionalidade dos Mercados

Nessas últimas semanas temos ouvido muito os analistas reclamarem da irracionalidade dos mercados. Afirmam eles que o sobe e desce nas bolsas de valores não é racional, mas sim resultado de um efeito de manada. Isto é, basta um grande investidor começar a vender (ou comprar) que todos os demais o seguem. Tal comportamento gera enorme instabilidade nas bolsas de valores.

Na minha modesta opinião quem é louco rasga dinheiro, se não rasga dinheiro então é porque não é louco. Até o momento não vi ninguém rasgar dinheiro, sendo assim não posso concordar que falte racionalidade ao mercado. Aliás, o único que eu vi rasgar dinheiro até o momento é o governo, então este sim pode ser o louco. Mas acreditar que alguém que comanda um fundo de 1 bilhão de dólares é louco não me parece razoável.

O sobe e desce das bolsas de valores tem outra explicação muito mais razoável: especulação aliada à necessidade de se saldar posições previamente assumidas. Acontece que muitas empresas sofreram prejuízos razoáveis na bolsa americana. Com isso elas precisam vender suas posições em outras partes do mundo para saldarem suas dívidas. Quando um número grande de empresas vende suas posições é natural que o preço das ações caiam. Sabendo que várias empresas precisam saldar suas posições num curto espaço de tempo, o especulador faz uso dessa informação para lucrar mais. Grandes especuladores apenas se retiram do mercado por um período curto de tempo para forçar a queda de preço das ações, quando estas caem eles entram comprando. Note que tal comportamento replica muito bem o sobe e desce atual das bolsas de valores.

Um detalhe importante e que não pode passar despercebido é o papel fundamental assumido pelo Estado para AGRAVAR essa situação. Se as empresas tivessem CERTEZA de que o governo não iria intervir no mercado, elas iriam vender suas posições aos poucos (justamente para evitar a pressão dos especuladores). Vendendo suas posições aos poucos as empresas não evitariam prejuízos, mas evitariam o desespero de ter que vender tudo de última hora. Isso geraria uma queda suave no mercado de ações. Pelo lado do especulador, este saberia que caso se ausentasse do mercado não teria muito a ganhar. Afinal, as empresas agora podem esperar mais e não estão mais esperando até o último minuto para vender suas posições. CONTUDO, quando o governo sinaliza que irá intervir na economia várias empresas param de vender suas posições. Elas agora aguardam até o último momento na esperança de receber ajuda do governo. Quando a ajuda do governo não aparece tais empresas são obrigadas a agir de última hora e temos então as grandes quedas da bolsa. Quedas essas que se transformam em grandes altas nos dias seguintes, quando os especuladores tomam vantagem de sua posição.

Em resumo, basta o governo parar de ajudar, ou de tentar ajudar, as empresas ineficientes que rapidamente esse sobe e desce das bolsas desaparecerá. É a perspectiva da ajuda governamental, e não o efeito manada, o responsável pela instabilidade atual dos mercados. Isto é, o mercado NADA TEM DE IRRACIONAL. Irracional é a atitude do governo.

terça-feira, 21 de outubro de 2008

Uma aula de história em 2050

Abaixo reporto uma aula de história hipotética que provavelmente ocorrerá em 2050.

Alunos, abram o livro na página 171. Hoje vamos estudar o desastre econômico gerado pelas políticas liberais.

A ganância dos empresários, sem sofrer qualquer regulação do governo e apoiada por neoliberais gerou a maior crise econômica da história. Milhares de trabalhadores perderam suas casas. Pior do que isso, para evitar o caos financeiro o Estado foi obrigado a gastar trilhões de dólares. Com isso acabou o dinheiro para financiar a saúde e a educação públicas. Depois que o estrago das idéias liberais foi feito, o Estado teve que intervir para salvar a economia. Mas toda a sociedade teve que pagar um preço altíssimo por ter acreditado no livre-mercado.

Neste ponto o professor é interrompido pelo aluno Pedro “mas professor se foi o liberalismo o culpado, então por que países europeus como a França, que são super regulados, sofreram com a crise?”. Boa pergunta Pedro, mas você está se esquecendo que naquela época a globalização estava na moda. Foi a globalização que levou a crise aos países europeus. Agora é a vez de André intervir “mas professor a globalização não gerou riqueza?”. NUNCA nunca mais repita esse absurdo André!!!! A globalização só gerou miséria. Tanto é verdade que logo após a crise vários países do mundo deram um basta nesta besta do apocalipse chamada globalização. Nesse ponto é a vez de Roberto intervir “sim professor, os países que mais limitaram o comércio internacional foram também os países que mais sofreram com a crise”. MENTIRA mentira Roberto, você está sendo muito superficial, com um raciocínio muito linear. Foi o fim da globalização que evitou o pior da crise, se não tivéssemos acabado com a globalização os efeitos das políticas neoliberais teriam sido muito piores. Basta notar que naquela época deram o prêmio nobel de Economia justamente para um economista afinado com o candidato à presidência americana que pregava contra a globalização, contra o livre-comércio. Agora é a vez de João intervir “mas professor se liberalismo e globalização são tão ruins por que os países que eram mais liberais eram também os mais ricos?”. Exploração João, exploração. Estes países que você citou eram ricos porque exploravam os outros; eram ricos à custa da miséria do resto do mundo.


Acima descrevi o conteúdo das aulas de história que contarão às gerações futuras o que está acontecendo hoje. Nenhuma palavra sobre o fato do mercado imobiliário ser super regulado em qualquer parte do mundo ocidental. Nenhuma menção à péssima política monetária adotada pelo Banco Central Americano, mantendo os juros extremamente baixos, que contribuiu decisivamente para crise. Nada a respeito da brutal intervenção do governo na Fanny May e Freddy Mac, que foi o grande instrumento de geração da crise. Nada será dito sobre o conselho liberal de NÃO AJUDAR empresas ineficientes. Enfim, o professor encerrará a aula com a seguinte pérola:

Depois de tantos fracassos, de tantas crises e de tanta pobreza geradas, como é possível alguém ainda se dizer liberal? Só mesmo um canalha para defender o liberalismo. E lugar de canalhas é na masmorra ou no paredão.

sexta-feira, 17 de outubro de 2008

Entrevista com Alexandre Schwartsman

Alexandre Schwartsman é um dos maiores especialistas brasileiros em mercados financeiros, foi diretor do Banco Central do Brasil, e mantém um excelente blog na internet chamado A Mão Visível.

1) Você aceita o argumento "Muito grande para quebrar"? Ou seja, dependendo do tamanho da empresa o governo deve evitar que ela vá à falência?


Não é tanto dependendo do tamanho, mas sim do impacto que a empresa terá sobre o resto da economia. É, em última análise, um problema da capacidade de auto-comprometimento do governo.



Caso a quebra da empresa em questão possa ter repercussões que vão muito além da empresa e do setor, mas que possam, de alguma forma, afetar de forma negativa a economia como um todo, é óbvio que qualquer governo vai fazer o que for necessário para evitar este impacto, com base na mera comparação do custo do socorro com o custo da falência (imagino que só salva aquela empresa cujo impacto sistêmico seja bem maior que o custo de salvamento em si). Não se trata de uma questão ideológica, mas pragmática: como você pode escolher a opção que mais o prejudica?



Aí é que entra a questão da inconsistência temporal: é, na prática, impossível se comprometer com o não-salvamento. Isto, porém, gera, como sabemos, incentivos errados no que se refere à empresa. Sabedora de sua importância para o sistema, ela pode adotar um comportamento arriscado, já que nos bons estados da natureza se apropria privadamente dos ganhos, enquanto nos maus estados, socializa as perdas.



Em tais casos, não me parece haver alternativa que não passe pela regulação (em tese, é verdade, seria possível pensar num esquema de incentivos – por exemplo, o CEO da empresas será castrado sem anestesia se o governo precisar resgatá-la – mas a montagem seria provavelmente mais complicada que a regulação; pior, pode não funcionar, pois, mesmo no caso da Bear, os funcionários eram acionistas).



2) Se você tivesse que optar pelo sistema de ajuda ao setor financeiro, você optaria por uma ajuda nos moldes propostos pelo Tesouro Americano ou pelo Governo Inglês? Por que?



O inglês. Aliás, mesmo os americanos escolheram o modelo inglês. Embora tenha a desvantagem óbvia de “nacionalizar”, ao menos parcialmente, os bancos, a forma como foi feita, com ações preferenciais, sem pretensão (pelo menos por ora) ao controle, evita o pior da nacionalização. Ao mesmo tempo ataca frontalmente a questão da insolvência ao recuperar a base de capital dos bancos.



Concretamente, $ 100 a mais gastos na forma de capital, são $ 100 a mais de capital nos bancos. $ 100 a mais gastos na aquisição de ativos só serão $ 100 a mais de capital se o efeito desta aquisição sobre o preço dos ativos for de tal ordem de magnitude que gere o mesmo capital. No conjunto da obra, mesmo $ 750 bilhões parecem pouco para recuperar suficientemente o preço do lixo tóxico. Pode-se argumentar (parece ser o ponto da proposta original) que um grande comprador impediria a espiral de queda de preços de ativos e o mercado cairia em si. Pode ser até verdade, mas o risco é bem maior e, cá entre nós, chega de tomar risco.



3) O Banco Central brasileiro está agindo de maneira correta nessa crise ou você faria algo diferente? Mais especificamente, você concorda que o Banco Central deva realizar operações de swap cambial?



Você faz a pergunta a um ex-diretor que participou da decisão de fazer o swap reverso. Por simetria tenho que concordar com a operação de swap cambial, mesmo porque a racional por trás da decisão sobre os reversos era (e sempre foi) dar munição ao BC caso precisasse intervir no mercado de futuros (em oposição ao dólar pronto).



Isto dito, há uns pontos a serem qualificados. Tanto a swap normal como o reverso representam intervenção esterilizada e, como tal, devem ter pouco (se algum efeito) sobre a taxa de câmbio, pelo menos diretamente. São, assim como a aquisição de dólar pronto, medidas de caráter prudencial, eficazes em momentos como os que vivemos hoje, em que a elevada alavancagem, distorce fortemente a dinâmica de preços. Especificamente, nestas situações a queda do valor do real (aumento do dólar) força os comprados em real (vendidos em dólar) a vender ainda mais reais (comprar ainda mais dólares), fenômeno que compromete a estabilidade. Neste caso o BC pode ajudar a estabilizar o mercado.



Se usado, porém, como instrumento para (supostamente) baixar a taxa de câmbio, será um fiasco retumbante. Só com intervenção não-esterilizada é que a autoridade monetária pode ter alguma esperança de afetar o câmbio nominal.



4) Os bancos pequenos brasileiros estão realmente com problemas de liquidez? Eles deveriam receber alguma ajuda extra do Banco Central? Eles cometeram algum erro de estratégia?



Aparentemente sim. E uma das funções do BC (aliás, BCs surgiram principalmente para isto) é mesmo prover ajuda de liquidez (contra bom colateral, etc, etc – o modelo de Diamond, em outras palavras). Quanto ao “erro de estratégia”, eu não qualificaria como “erro”, mas como quase a característica definidora do banco pequeno: ele não tem acesso a uma base de depósitos de varejo, precisamente porque é pequeno. Aí se torna mais dependente do mercado de atacado (por outro lado não paga o custo fixo de rede de agências e quadro de funcionários, o que dá melhor capacidade de se ajustar). No caso, o trade-off ficou bastante pior.



5) Algumas empresas brasileiras fizeram operações financeiras estranhas. Tais operações resultaram em grandes prejuízos. Em sua opinião isso foi má sorte ou barbeiragem pura dos administradores?



Barbeiragem. Não entenderam a operação, não souberam apreçar o instrumento, não tinham noção clara dos payoffs negativos.



6) Essa crise terá efeitos severos na economia brasileira?



Sim, ainda que comparativamente reduzidos, tanto no que se refere às outras economias emergentes, quanto no que se refere ao que seria o efeito no Brasil de alguns anos atrás. Os ativos em moeda estrangeira (contrapartida da intervenção esterilizada) ajudam a reduzir a dívida pública num quadro desfavorável, fenômeno que limita os efeitos negativos da crise.



Isto dito, a redução do ritmo de crescimento do comércio mundial (portanto do quantum exportados) e a deterioração dos termos de troca implicam menor capacidade de importar. Em resposta a isto a demanda doméstica terá que crescer ainda mais devagar do que já se esperava para conter a inflação. O crescimento do produto deve cair de mais de 5% em 2008 para cerca de 2,5% em 2009. Dado o carregamento estatístico do crescimento deste ano para o seguinte (algo como 2%), falamos de crescimento marginal muito baixo em 2009.

terça-feira, 14 de outubro de 2008

Reflexões sobre a Crise II: A Estatização dos Bancos

Poucas idéias são tão ruins que não podem ser pioradas. O recente apoio estatal ao setor financeiro ao redor do mundo é um exemplo claro. Note como idéias originalmente ruins foram se transformando aos poucos em verdadeiros pesadelos do absurdo. Tão logo a crise atingiu Wall Street o Banco Central Americano (FED) anunciou que aumentaria a liquidez da economia. Era um pacote de míseros bilhões de dólares. Na mesma semana esse blog protestou. O argumento era simples: a ajuda beneficiava bancos que haviam agido de maneira muito arriscada no passado. Os bancos entenderam o recado do FED e ao invés de realizarem os ajustes necessários passaram a cobrar mais recursos do governo. O tempo passou e o governo americano anunciou um pacote de US$ 300 bilhões ao setor financeiro. Duas semanas depois nova ajuda foi anunciada, agora de US$ 700 bilhões. Na semana seguinte o pacote já somava US$ 850 bilhões. Mas nada, repito, até o momento absolutamente nada parece superar o supra sumo dos absurdos que foi anunciado nessa semana: estatizar bancos. O que será que nos aguarda na próxima semana?

Estatizar bancos significa usar dinheiro dos contribuintes para a compra de um ativo que NÃO É função do governo prover. Se o governo pode estatizar bancos o que o impedirá de estatizar supermercados? Por que não estatizar também parte das montadoras de veículos? A lista é infindável, mas vamos voltar a questão de se estatizar bancos. Quando é que o governo irá devolver o controle dos bancos ao mercado? Bancos com participação do governo receberão algum tipo de vantagem adicional? Mas a principal pergunta é: se o governo é dono do banco e a função do governo é maximizar o bem estar da sociedade, então a função do banco não será mais maximizar lucros. Ou seja, como evitar que os bancos assumam funções que prejudiquem sua rentabilidade e tragam ainda mais risco para o sistema financeiro? Aliás, foi justamente a participação de dois bancos (Fanny May e Freddy Mac) com fortes ligações com o Estado um dos pilares da atual crise no sistema financeiro.

Sou contrário a qualquer tipo de ajuda a bancos. Contudo, se for para capitalizar os bancos a sugestão mais viável é outra: ao invés do governo assumir parte do controle dos bancos, por que não obrigar que outros bancos (ou fundos) assumam o controle dos bancos em dificuldade? Claro que isso envolve um grau enorme de arbitrariedade, mas estatizar bancos envolve um grau ainda maior de arbitrariedade. Contudo, ao obrigar que um banco assuma o controle de outro o governo estaria obrigando um ajuste DENTRO do sistema financeiro, e não empurrando o ajuste para toda a sociedade. Outro detalhe, é razoável assumir que outros bancos sejam melhores gestores de bancos que o governo. A operacionalização dessa idéia é mais simples do que parece: nenhum pacote é necessário, basta ao governo OBRIGAR que alguns bancos (ou fundos) aceitem descontos em suas dívidas (isentando parte da dívida e trocando outra parte da dívida por ações do banco em dificuldade). No caso americano isso implica em mudança de lei e requer aprovação do Congresso, mas aí vem a parte boa: esse expediente JÁ foi usado com sucesso no passado.

Estatizar bancos é um grande erro, os falecidos bancos estaduais brasileiros são um exemplo de quão ruim essa idéia pode ser. Mas como disse antes: poucas idéias são tão ruins que não podem ser pioradas.

segunda-feira, 13 de outubro de 2008

Reflexões sobre a Crise I: A Crise Atual e a Crise de 1929

Muitos analistas tentam encontrar semelhanças entre a crise financeira atual e a crise de 1929. A rigor existe apenas uma grande semelhança entre a crise atual e a de 1929: ambas foram causadas pelo Estado.

Em 1929 os Estados Unidos adotavam o padrão-ouro. Com seguidos déficits em sua balança comercial, os americanos tinham que transferir ouro para outros países. Com menos reservas em ouro, eram obrigados então a reduzir a quantidade de dólares na economia. Isso levou a uma brutal queda na liquidez da economia americana. Foi nesse ponto que surgiu o Banco Central americano (FED). O FED foi criado justamente para evitar problemas de liquidez, mas ao invés de aumentar a liquidez do sistema optou por reduzí-la. Foi esse o começo da RECESSÃO americana. A DEPRESSÃO americana só começou com o segundo movimento errado do governo: restrições ao comércio internacional (com a idéia de melhorar a situação das empresas americanas) e maior poder de barganha aos sindicatos (com a idéia de melhorar a situação dos trabalhadores). As políticas públicas americanas, destinadas a aliviar os efeitos da crise, tiveram o efeito contrário e transformaram uma crise passageira numa depressão profunda. Até hoje algumas pessoas acreditam que a economia americana só se recuperou por causa da segunda guerra mundial. Elas estão certas em parte, não porque a economia americana precisa da guerra (como argumentam), mas sim porque foi durante a guerra que as políticas públicas adotadas ao longo da década de 30 foram abandonadas. Somente após abandonar idéias erradas é que a economia americana se recuperou.

Atualmente os Estados Unidos adotam o câmbio flexível (diferente do padrão-ouro de 1929). Essa é uma diferença importante, pois agora déficits comerciais (ao contrário de 1929) não são capazes de afetar severamente a liquidez da economia. Mas tal qual em 1929, o governo americano está transformando uma crise passageira numa depressão severa. As medidas de apoio ao setor financeiro logo se alastrarão para outros setores da economia. Restrições ao comércio internacional logo serão adotadas e compensações serão extendidas aos trabalhadores. O resultado disso será similar ao de 1929: o governo terá gerado mais outra brutal recessão.

O que gerou a depressão econômica de 1929 não foi a crise no setor bancário americano, foi sim a sequência de más políticas públicas adotadas pelo governo na década de 1930. As políticas públicas americanas transformaram uma crise passageira numa depressão severa. Essa é outra semelhança entre a crise atual e a crise de 1930: em ambas o Estado primeiro causou a crise; e depois a título de salvar a economia transformou a crise numa depressão.

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