quarta-feira, 30 de janeiro de 2008

Boa Educação e Fraqueza

No mundo civilizado ter boa educação é uma qualidade respeitada. Espera-se que você respeite as regras, que você seja capaz de conviver em harmonia com seus colegas de trabalho, que você não humilhe seus subordinados. Enfim, no mundo civilizado espera-se que você seja uma pessoa civilizada.

Boa educação, gentileza, civilidade são valores respeitados na civilização. CONTUDO, tudo muda de figura quando você está na selva. Na selva os selvagens têm uma dificuldade muito grande em distinguir boa educação, e respeito ao próximo, de fraqueza. Para os selvagens é virtualmente impossível entender porque uma pessoa com poder não abusa dos outros. No mundo selvagem, gentileza é invariavelmente confundida com fraqueza. Não acredita em mim? Então faça um teste: seja gentil com as pessoas na selva e veja o que acontece. Rapidamente você será o alvo de calúnias, intrigas e toda sorte de desrespeito.

Para o selvagem o poder foi feito para ser usado. Assim, toda pessoa com acesso ao poder tem não só o direito, mas a obrigação, de exercê-lo. Com isso na cabeça o selvagem é incapaz de diferenciar boa educação de fraqueza. No raciocínio do selvagem se uma pessoa é educada é porque ela não tem poder (ou seja, a pessoa é fraca), pois se a pessoa tivesse poder ela não seria educada. Isto é, para o selvagem só tem boa educação quem não tem poder.

O raciocínio selvagem tem uma implicação terrível: a regra ótima de comportamento social é ser estúpido, arrogante e mal educado. Essa conclusão segue dos seguintes fatos: 1) é difícil separar quem tem poder de quem não tem; e 2) é fácil separar quem é mal educado de quem é bem educado. Assim, a regra ótima é ser SEMPRE muito mal educado, pois todos serão capazes de ver tal comportamento e inferir daí que você é uma pessoa poderosa. A única exceção à essa regra é quando você se defronta com outra pessoa mais mal educada ainda. Neste caso, você assume que ela tem mais poder e passa a tratá-la com uma reverência incrível.

Já notaram como no Brasil as coisas funcionam de maneira semelhante à descrita acima? Tente ser bem educado na hora de pedir algo e você dificilmente será ouvido. Por outro lado, seja agressivo e arrogante e note como as pessoas passam a reverenciá-lo. De maneira oposta, no mundo civilizado o comportamento agressivo e arrogante costuma ser punido.

TAREFA DE CASA: escreva um e-mail com uma pergunta e o envie para um professor brasileiro. Mande o mesmo e-mail (mas em inglês) para um professor americano famoso. Você verá a diferença.

8 comentários:

Augusto disse...

Brilhante, como sempre, meu jovem.

Fábio Mayer disse...

Moro em Rio Branco do Sul, município pequeno e mediocre há 30 km de Curitiba e é exatamente isso aí o que acontece...

Acertou na veia, Adolfo!

Anônimo disse...

Acho que qualquer um que ja passou um mes que seja no Brasil, entende muito bem o que vc esta falando. Parabens pelo post.

Léo disse...

Não sei se já existiu, nessa longa caminhada histórica, uma época em que o homem mostrou-se civilizado. Pontualmente é possível que isso se tenha concretizado, mas como coletividade eu tenho lá minhas dúvidas. Não se discute que a gentileza, a educação, os bons modos, o respeito ao próximo, a cordialidade, a solidariedade sejam atributos necessários para que a civilidade seja caracterizada. Mas tem razão o articulista ao observar a escassez do produto. Penso que, ao menos na minha educação familiar esse ítem era importantíssimo. O respeito aos mais velhos, o uso de Sr. e Sra. diante dos desconhecidos e dos idosos, o dá licença, o muito obrigado, o por favor, a aparência, o uso correto da lingua, o saber esperar a sua vez e tantas outras coisas que sumiram como que por encanto. A grosseria, o palavrão dito em qualquer lugar e com voz de trovão para que ninguém tenha dúvidas de quem o proferiu, o comportamento das crianças sem que os país estejam atentos aos limites, enfim, a coisa está ficando preta. A qualidade parece ser inimiga da quantidade. Vim de uma cidade do interior de São Paulo onde as pessoas se conheciam com facilidade e, portanto, a cordialidade era admitida como virtude e não como vício. Não sou e nem quero ser saudosista. Apenas observo que a vida entre os civilizados me parece mais racional. E parece que a racionalidade anda se escondendo da tribo.
Parabéns pelo tema e pela posição, ainda que arriscada, na defesa de algo que parece ficar cada dia mais distante da memória humana.

PATRICIA M. disse...

Adolfo, essa de mandar e-mail para professor eh classica!

Antes de ir fazer o MBA nos Estados Unidos, estava dando uma olhada no doutorado. Mandei um e-mail a um professor americano, chefe do departamento. Mandei desencanada, pensando que o cara nunca fosse me responder. Nao deu meia hora e la estava o e-mail resposta dele. Incrivel.

No Brasil, nem seu orientador te responde, hahahahahahahaha.

Irineu disse...

Adolfo,

Outro fenomeno brasileiro eh a secretaria respondendo e-mail...

Abracos,

Irineu

cassandra_moderna disse...

You know, this is even more true than you would believe. A couple of months ago, I sent an e-mail (really without thinking) to the most famous climatologist in the world, and not only did he answer in about 30 minutes but he also sent e-mails to the two researchers that I had mentioned in my e-mail, and they both answered me in about the same amount of time. I felt pretty strange about the whole thing for having bothered such important people over such a minor matter.

Anônimo disse...

Taí, é verdade, é real. Descobri isso muito tempo atrás.
Quero acrescentar uma variante. É o seguinte: existem entonações, vozes de comando e atitudes peculiares vinculadas que exercem um efeito psicológico sobre o interlocutor.
Até mesmo o modo de praticar certos cumprimentos iniciais a pessoas desconhecidas.
Quem quiser, exercite, constantemente, nos contatos pessoais, principalmente no meio comercial; é ótimo, a coisa produz efeitos miraculosos. Quem faz isso se dá muito bem; é uma arte, pode até vir a se constituir em uma ciência.
O importante é ser firme no que se quer, sempre.

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