terça-feira, 29 de julho de 2008

Contra fatos não há argumentos

O número de acidentes de trânsito caiu drasticamente após a aprovação da lei seca. Este é um fato. O número de vítimas decorrentes dos acidentes também caiu. Este também é um fato. Os defensores da lei seca dirão: “contra fatos não há argumentos”. É verdade, contra fatos não há argumentos. Contudo, a interpretação dos fatores que geraram os fatos é sim sujeita a questionamentos.

Para ilustrar o parágrafo acima imagine que Janjão diga: “Vai chover amanhã”. E no dia seguinte efetivamente ocorre uma chuva. Janjão disse que iria chover e choveu. Isso é um fato. Contudo podemos interpretar o resultado de pelo menos três maneiras distintas: 1) Janjão veio do futuro, e assim sabia o que aconteceria no dia seguinte; 2) Janjão era um excelente cientista e por meio de análises estatísticas previu corretamente a chuva; ou 3) Janjão apenas deu um palpite que se realizou. Assim, da próxima vez que você ouvir alguém dizer que os acidentes de trânsito se reduziram após a lei seca, lembre-se de que isso é um fato. Mas, existem várias interpretações sobre o que gerou tal fato. Talvez a proibição de beber e dirigir (lei seca) deva receber esse crédito. Talvez essa redução tenha se originado apenas por causa do aumento da fiscalização que se seguiu após a aprovação da lei seca.

Alguns podem argumentar que não importa o motivo, o fato é que os acidentes se reduziram e assim devemos manter a lei seca. Discordo dos que pensam assim. Meu argumento é simples: que tal proibirmos o uso de rádio dentro do carro? Afinal, ouvir música enquanto dirige é a terceira causa de acidentes por distração nos Estados Unidos. Além disso, mudar de estação de rádio é a primeira causa de acidentes por distração nos EUA. Nada mais natural do que proibirmos o uso do rádio nos carros. Ou seja, é fato que rádio no carro aumenta o risco de acidentes. Contudo, a interpretação dos fatores é importante. Afinal, por que impedir TODOS de ouvirem música no carro? Quanto a lei seca, meu ponto é o mesmo. O problema não está no casal que saiu para tomar uma jarra de vinho. Também não está no pai de família que tomou uma latinha de cerveja na festa junina da escola. São os excessos que devem ser coibidos.

Para finalizar quero deixar duas perguntas: 1) alguém se lembrou de analisar o efeito substituição? Ou seja, talvez alguns troquem o consumo de álcool pelo do de drogas. Outros podem substituir o álcool pela violência. Afinal, se você limita uma veia de escape (chopp com os amigos) outras veias de escape irão surgir. Minha segunda pergunta parece estúpida, mas tente respondê-la e você verá quão difícil ela é: será justo condenarmos alguém por antecipação? Quando a polícia prende um bêbado dirigindo, ela o fez por ASSUMIR que ele não tem condições de dirigir. No fundo, ele está sendo condenado por antecipação. Assume-se que um bêbado irá provocar um acidente de trânsito, mas isso é apenas uma suposição. Experimente expandir esse argumento para o resto da sociedade e você verá o quão perigoso ele é. Essa segunda pergunta me foi feita pelo Daniel Marchi, e confesso que eu gastei um bom tempo tentando respondê-la. Note que essa segunda pergunta é muito semelhante ao argumento central de um filme com Tom Cruise (Minority Report).

9 comentários:

saboya disse...

Adicione ao teu texto a chuva. Toda vez que passamos pela rodovia carvalho pinto vemos cartazes dizendo "cuva = 35% mais acidentes". Que se proíba dirigir em dias de chuva, não?

Anônimo disse...

Não sei se a comparação com o filme procede. No filme alguém podia ser preso sem ter quebrado nenhuma lei existente, apenas porque ia (ou previa-se que ia) quebrar. A pessoa que bebe e dirige está quebrando uma lei que foi estabelecida antes dela beber, ou seja, o motorista que bebeu agiu ciente de que estava contra a lei. O motorista é punido por desrespeitar uma lei, não porque o policial assumiu que ele não pode dirigir. Acredito que esta diferença é fundamental. Por isto não se pode embarcar em aviões ou entrar em prédios públicos com um colete de bombas, não se está fazendo nada (ainda), mas se está descumprindo regras previamente estabelecidas.
É claro que podemos, e muitas vezes devemos questionar as leis, mas ser punido por desrespeitar uma lei que foi aprovada dentro do regime democrático faz parte do jogo.

Roberto

Badger disse...

Muito cedo para avaliar o resultado da medida. Após a implementação de toda política pública há um momento de mundo circense quando o esforço sob os holofotes do picadeiro é colocado 100% numa certa meta às custas de todas as demais. É necessário esperar alguns anos para ver se de fato existe um efeito de detenção permanente.

Blog do Adolfo disse...

Grande Roberto,

Concordo com seu ponto, mas note que a ideia da lei seca eh prevenir que voce cause um acidente. Isso eh diferente de ser preso por voce efetivamente causar um acidente. Expandir o argumento "vou prevenir que voce cause acidentes" para toda a sociedade me parece algo perigoso. Salientar esse perigo era o objetivo da provocacao. Por exemplo, sabe-se que dirigir ouvindo musica aumenta a probabilidade de acidentes, devemos proibir radios nos carros?

Claro que seu exemplo sobre alguem entrar num predio com uma bomba eh excelente. E ele ilustra claramente que seu ponto eh importante.

Adolfo

Totti_ucb disse...

Esse negocio de voltar de taxi pra casa é phoda...
Acho que vou comprar um taxi e atender bebuns na porta do buteco.
Rs.
Acho eu que medidas desta forma atrapalham a vida das pessoas de bem,
enquanto a policia vigia para que as pessoas nao bebam, os traficantes continuam vendendo drogas, pessoas continuam furtando casas, politicos desviando dinheiro publico, a lei seca provocou um rebuliço danado na midia, mas ninguem fala nada da lei do TRE que nao permite que pessoas com problemas na justiça se candidatem, isso sim é uma lei que serve pra alguma coisa.
Ao meu ver esta lei seca é mais uma lei que vai cair no esquecimento.

ts disse...

"...se você limita uma veia de escape (chopp com os amigos) outras veias de escape irão surgir...."

Adolfo:
Concordo plenamente quanto ao absurdo de condenar alguém por antecipação. Condeno também a idéia de níveis alcoólicos toleráveis, pois isso varia de pessoa para pessoa (conheço pessoas que se cheirarem o álcool que emana de um copo de uísque se embebedam). Deve-se punir o ato, não a intenção (aliás, quase nínguem que bebe tem a intenção de cometer um delito, não é?)

Já quanto à sua idéia de substituição, tenho sérias dúvidas. Há muita evidência empírica (experimental e observacional) de que o processo de substituição simplesmente não ocorre. A teoria em si é muito popular, mas é também conceitualmente insustentável: nada há na biologia que indique que um tal processo ocorra. De qualquer forma, devo salientar que isso -- a substituição -- não era o aspecto principal do seu argumento. Apenas me alonguei para criticar uma idéia corrente (cuja origem ou popularização se deve à Freud).
Abraço,
Takechi

Daniel Marchi disse...

Adolfo
O exemplo do Roberto é de inegável pertinência. Acho que a discussão passa pelo QUANTO de liberdade as pessoas estão dispostas a abrir mão para se evitar determinados delitos. Não entrar com uma bomba em um avião ou passar a menos de 60km/h numa avenida, creio eu, é um quantum de liberdade bastante pequeno. Agora, criminalizar o chopinho é por demais invasivo na vida cotidiana das pessoas. Não deixa de ser uma espécie de fundamentalismo.

Abraço

Anônimo disse...

Leis que regulam a convivência são sempre delicadas. Alguns preferem andar em vias sem motoristas que beberam outros preferem correr um risco adicional em troca do prazer de beber (ou de ligar o rádio). O ideal seria que existissem vias alternativas, se você quer beber a dirigir pegue a via A do contrário pegue a via B. O problema é que isto não é possível, daí a necessidade de impor restrições. O problema é que ao perder o absoluto não existe como definir o ponto razoável (infelizmente não existe uma preferência social, deculpem os ofendidos). Sendo assim temos que decidir se aceitamos que as pessoas escutem rádio, andem a mais de 200Km/h, andem na mão que desejarem, parém nos sinais mesmo quando não vem ninguém no cruzamento, bebam antes de dirigir e etc. Em todos estes casos vale o argumento da condenação prévia (como falei no post anterior não acho que seja um condenação prévia, mas vá lá) e, em todos estes casos, existem regulação mesmo em sociedades mais liberais. É o caso das paredes contra fogo que Smith já alertava.

Mando agora uma provocação. Por que é proibido ir a um supermercado, comprar 500g de cocaina, voltar para casa e cheirar até não aguentar mais? Note que, neste caso, o indivíduo não afeta ninguém além dele mesmo. Se aceitamos que o estado tome decisões que só afetam um indivíduo como podemos questionar decisões que, de fato, afetam a convivência de várias pessoas?

Abraço,

Roberto

Totti_ucb disse...

viva a intervenção estatal. no cotidiano do povo.
Acho que melhor que uma lei que faz com que todos paguem por alguns, seria uma escola de motoristas mais eficiente, muitas pessoas causam acidentes nao pelo simples fato de beber, mas sim pelo fato de nao terem nenhum condição de dirigir ou conduzir um veiculo.
o que vemos hoje no nosso transito é um grande numero de motoristas sem nenhum preparo que atropelam e matam.
pessoas que nunca pegaram um carro na vida fazem 15 horas de aula e ja
se falam motoristas.
isso é uma palhaçada.

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