terça-feira, 16 de setembro de 2008

Greenspan e a Crise Financeira Americana

Em 1997 Peter Ireland publicou um importante artigo mostrando que as autoridades monetárias americanas não tinham conseguido derrotar a inflação. Para Ireland a baixa inflação americana era muito mais consequência da boa sorte (choques positivos na economia) do que do bom manejo da política monetária. Em 2006, eu e mais dois colegas fizemos algumas extensões no modelo de Ireland e chegamos aos mesmos resultados. Para ser mais explícito, nosso artigo mostrava que nada havia de genial na política monetária adotada pelo badalado Alan Greenspan, então presidente do Banco Central Americano (FED).

Em 2007 explodiu a crise no mercado sub-prime americano e absolutamente ninguém se importou em checar a culpa de Alan Greenspan. Por que Greenspan é tão badalado? Uma inspeção no período em que Greenspan chefiava o FED nos mostra que ele SEMPRE procurou acomodar os choques na economia. Qualquer pessoa com formação mais forte em economia monetária sabe que está é a PIOR postura possível. Com seu comportamento Alan Greenspan incentivou o mercado a apostar sempre no perfil acomodador do FED e, consequentemente, se expor a risco cada vez maiores. Greenspan tinha horror a recessões, e procurou evitá-las ao máximo. Um dos artifícios para evitar recessões era manter a taxa de juros extremamente baixa. Contudo, essa postura estimulou um incrível aumento na demanda por crédito e o excesso de crédito, em última instância, foi o causador da crise no mercado sub-prime americano. Tivesse Greenspan permitido algumas pequenas, e esporádicas, recessões dificilmente teríamos a crise financeira atual que está se abatendo sobre a economia americana.

Resumindo: foi o FED, por meio de seu presidente Alan Greenspan, que insistiu numa política de juros extremamente baixa, o principal causador da crise financeira atual nos Estados Unidos. Mais um vez vemos a contribuição perversa do Estado para transformar pequenos e temporários desajustes em sérias crises financeiras. Mas o problema não termina aqui. Tal como esse blog vem alertando desde o ano passado: a maneira que o FED está se portando na crise atual está ERRADA. Ajudar bancos falidos só aumenta o custo do ajuste. Ajudar financeiras que fizeram escolhas erradas só ESTIMULA que outras financeiras cometam o mesmo erro no futuro.

O que o FED deveria fazer é simples: NADA. A política atual do FED, de tentar amenizar a crise, é semelhante a adotada por Greenspan e terá o mesmo resultado: irá gerar uma crise maior ainda no futuro. Ben Bernanke (atual presidente do FED) sabe disso, mas ele confia que será capaz de AUMENTAR a regulação do mercado financeiro para evitar novas crises. Pois eu tenho uma dica para Bernanke: quem ganha 100 mil por ano geralmente não é mais esperto do quem ganha 10 milhões por ano. Os reguladores do FED ganham 100 mil/ano. Os especuladores de Wall Street ganham 10 milhões/ano. Cedo ou tarde Wall Street vai achar um jeito de burlar as regulações e uma nova crise, mais profunda que a atual, aparecerá no horizonte.

14 comentários:

Pedro H. Albuquerque disse...

Adolfo, eu concordo que a manutenção de taxas de juros muito baixas contribuiu para a crise. Porém a estória é mais complicada. Tanto o Greenspan quanto o Bernanke conhecem os argumentos e provavelmente até mesmo concordam com o que você está dizendo. A capacidade do Fed de determinar a política econômica tem limites. A política que adotaram e adotam é o que poderíamos chamar de second best. A política first best seria eliminar regulamentações contraproducentes e instituições paragovernamentais da economia americana, como eles já defenderam várias vezes. A decisão, entretanto, é do congresso, e o partido Democrata não quer mudanças, como provou repetidamente ao longo dos últimos oito anos. Consideradas as restrições institucionais enormes, acho que fizeram e estão fazendo um ótimo trabalho.

Anônimo disse...

Caro Adolfo,

Desta vez não concordo com sua análise, embora estejamos de acordo em como o FED deve agir.
Em primeiro lugar o FED não controla a taxa de juros, é ilusão de banqueiro central achar que controla a taxa de juros (vale para o nosso BACEN). A taxa de juros é um preço e, mesmo que possa ser influenciado pelo governo, não é razoável acreditar que possa ser mantida artificialmente baixa por tanto tempo.
Caso você acredite que, por alguma razão difícil de explicar, o FED seja mais poderoso que o mercado e tenha fixado a taxa de juros artificialmente baixa, o que deveria acontecer? O mesmo que acontece quando algum governo resolver fixar o preço da carne (ou das bananas) artificialmente baixo, o boi some do pasto (ou faltam bananas). Desta forma se a taxa de juros estivesse artificialmente baixa deveria ser o caso onde um monte de gente quisesse pegar dinheiro emprestado, mas ninguém aparecesse para emprestar. Não foi bem isto que aconteceu, na realidade tinha um monte de gente querendo emprestar dinheiro, eu mesmo peguei um tempo por lá onde os bancos queriam emprestar dinheiro a todo custo.
Se não era a taxa de juros muito baixa, qual o erro do FED? Vários e nenhum. Vários porque Bancos Centrais sempre erram, nenhum que possa ser o causador da crise.
Minha leitura é que a tal crise nada mais é do que uma determinada realização de um processo de equilíbrio. Todo mundo sabia que estava arriscando, muita gente ganhou muito aceitando riscos, mas todos sabiam que podiam perder, perderam. Sempre pode ser dito que o FED não evitou que as pessoas tomassem riscos, mas foram as pessoas, e não o FED, que decidiram livremente por tomar posição de risco. Digo mais, provavelmente as pessoas tomaram a decisão certa, claro que quando perdemos tendemos a acreditar que tomamos decisões erradas, mas este não é necessariamente o caso. Em outras palavras, dadas as possibilidades de investimento e consumo disponíveis o melhor que a maioria dos agentes poderia fazer era emprestar com risco alto, como eu sei disso? Simples, porque foi o que fizeram, se não fosse o melhor simplesmente não teriam feito. Alguém pode argumentar que não existiam outras opções, discordo, sempre se pode investir em outros países ou pegar o dinheiro e gastar em consumo, ainda mais quando estamos falando dos Estados Unidos. É como escolher entre pegar um atalho escuro ou seguir o caminho longo e iluminado, se você pegar o atalho é porque você achou melhor. Claro que se você for assaltado você vai reclamar, vai falar do fraco policiamento e etc, você pode até ter razão, mas nada disso apaga o fato que você escolheu o atalho sabendo que teria mais riscos de ser assaltado.
Então porque a choradeira? Esta é fácil, chorar é uma maneira de recuperar parte das perdas, mude a pergunta e tudo fica claro, por que não chorar? Se precisar de mais evidências basta ver quem está chorando mais alto, aliás, não é nada estranho que analistas financeiros, que tomaram e/ou embasaram a maioria das decisões sejam os que mais exageram os efeitos da crise e apontam para a necessidade do governo salvar o mercado, ou melhor, salvar os empregos deles.
Ajudar as instituições que estão quebrando é ruim porque aumenta a disposição de tomar risco além do que seria ótimo se a instituição tivesse de arcar com todos os custos, concordo, mas creio que o maior problema é destinar dinheiro publico para financiar decisões privadas que foram tomadas sem a promessa de tal seguro.

Abraço,

Roberto

Anônimo disse...

Adolfo,

Parece que lá, como cá, alguns sujeitos supõem que o equilíbrio político é mais importante do que o equilíbrio econômico. Se em períodos normais essa é a toada, imagina em ano de eleição.

Um abraço,

J. Coelho

William dos Reis disse...

Concordo com sua colocação de que o ideal é que o FED não faça nada, e me parece que até mesmo o FED percebeu isso, quando negou ajuda a um banco de investimentos. Mas quando a crise bateu à porta da maior seguradora do país, o que vimos foi mais uma intervenção.
A razão, dizem eles, é pra evitar um efeito dominó maior da crise, já que muitos bancos regionais tinham emprestado dinheiro à AIG.
Ou seja, existe uma brecha ainda pra socorrer muita gente. Nada se decidiu. E intervir no mercado pode continuar a ser um mecanismo. Resta saber até quando, já que as quantias não são nada modestas.
abraço.

Anônimo disse...

Excelente observação Adolfo...
Só se fala do atual momento da crise, mas se esquecem de onde ela originou, ou melhor, de quem a originou...

Anônimo disse...

Os EUA se esqueceram muito rápido do seu novo herói... Alan Greespan!!!

Anônimo disse...

Segundo meu juízo , só os fascistas acham que o equilíbrio político não é superior ao econômico. Equilíbrio político significa que respeitamos a decisão da maioria. Se a minoria conduz a maioria, isso é outra história. E se aquela minoria é uma porcaria, isso também é outra história. Reconheço que a minoria é fundamental, tanto para o bem quanto para o mal. O pior dos mundos é pensar com clichês, assim como aquele clichê de que liberal não tem seus pecados e que o liberalismo é uma peça pronta e acabada nas palavras de Hayek ou outro grande pensador liberal qualquer. Por falar em liberais, o Friedman não aceita que a moeda esteja fora da órbita governamental e nem que o mercado financeiro não seja regulado. E foi exatamente a alavancagem excessiva (já que ele, Friedman, perdendo a guerra dos 100% money, teve que aceitar uma posição segundo melhor que implica em regulação do sistema financeiro) que gerou a crise financeira presente que assola os EUA, indicando a falta mínima de regulação (derivativo é uma porcaria financeira que os financistas pregam, mas não a exercem com o seu dinheiro). Também concordo que as puxadas nos juros, principalmente para cima que joga os valores dos ativos para baixo têm sua parcela de responsabilidade nessa crise.
Finalizando, espero ter esclarecido o que, para mim, significa equilíbrio político. No mais um abraço Adolfo
Marco Bittencourt

Anônimo disse...

De minha parte, concordo com sua análise. O mundo econômico é cheio de malandragens que incluem as malandragens políticas. Alan apenas fez (aliás bem feito) o que Clinton queria. Como o time estava ganhando, continuou com a mesma tática.

Acredito que a maioria da platéia deste blog é formada por economistas, certo? Então, podemos afirmar, tranquilamente, que é, apenas, mesmo, a ocorrência de tradeoff. No mundo político e econômico nem uma palha se move sem custos, claro. Quem contesta isso, em sã consciência?

Também considero a recessão tradeoff necessário, quando a economia abusa em termos de consumo e importações, como faz os Estados Unidos.

Adolfo, V. Sa. tem muitas informações. Aproveito a oportunidade para sugerir que divulgue aqui e comente as repercussões da diferença entre o PIB e o PNB americanos. É por isso que um espirro na América provoca imediata gripe no resto do mundo.

Anônimo disse...

Sugerir que o FED não faça nada é anárquico, querer, simplesmente, que o banco central americano cerre suas portas ou fique assistindo o jogo nas gerais, ou apenas faça de conta que é o guardião da economia americana é chocante, mas não é por aí, mesmo. Isso eles não são loucos de fazer.

Richard_UnB_Arof disse...

concordo,a política monetária não pode ser uma espécie de maquiagem na tentativa de esconder a atual situação de crise econômica.
não adianta tapar o sol com uma peneira...

Anônimo disse...

Marco,

O fascismos é um típíco regime de massas. Que pena. Os fatos desmentem suas teses.

Um abraço,

J. Coelho

Anônimo disse...

-= Sugerir que o FED não faça nada é anárquico =-
É justamente esse tipo de argumento que contribui para o FED intervir de forma desastrosa na economia e causar essas MEGA crises. O Zeloso FED e sua aversão patológica a qualquer ajuste no mercado esta no cerne da causa da crise atual. E aí? Quais serão os mecanismos de regulamentação que vocês sugerem implantar no BC americano?

FIX

Anônimo disse...

Nossa esse comentario aqui do blog saiu no O globo - on line.
http://oglobo.globo.com/opiniao/

A culpa da crise é de Greenspan.

Professor de Macroeconomia da Universidade Catolica de Brasília, Adolfo Sachsida aponta o lendario ex-presidente do Banco Central dos EUA Alan Greenspan como responsavel pela atual crise financeira no país.

Augusto Araújo disse...

eu sempre achei aqule velhinho um fanfarrao pedante

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