sexta-feira, 28 de novembro de 2008

Este Blog NÃO apoia Timothy Geithner

O novo Secretário do Tesouro Americano, Timothy Geithner, NÃO tem o apoio desse blog.

Timothy Geithner é um dos principais articuladores do plano de ajuda ao setor financeiro americano. Só por isso esse blog já seria contra seu nome para ocupar a posição econômica de maior importância nos Estados Unidos. Mas o pior é que parece faltar "sustância" a Geithner, sua carreira toda parece muito mais ligada a amizades e contados do que exatamente ao seu brilhantismo.

A verdade é simples: Barak Obama AMARELOU. O nome para a posição de Secretário do Tesouro era Larry Summers, mas Obama mostrou que não tem peito pra chamar a responsabilidade. Amarelou e se acovardou frente a pressão de grupos contrários a indicação de Summers. Summers cometeu um crime terrível: disse que muitas mulheres gostam de ter filhos e trabalhar meio expediente. As feministas e todos os grupos de minorias americanos odeiam Summers por ter dito isso. E Obama cedeu a eles, trocou o bom Summers pelo meia boca Geithner.

Colocar o homem que gosta de dar dinheiro para bancos para cuidar do dinheiro do contribuinte americano é um péssimo começo para o recém eleito presidente Obama.

quinta-feira, 27 de novembro de 2008

Por que a imprensa nacional é tão dura com Bush, mas tão amiga de Lula?

O furacão Katrina devastou a cidade de Nova Orleans, nos Estados Unidos, em 2005. A imprensa nacional não se cansou de responsabilizar o presidente americano, George W. Bush, pela catástrofe. Absolutamente ninguém na imprensa se lembrou de mencionar que nos Estados Unidos, que é uma federação de estados, o poder do presidente não é tão grande assim. Por exemplo, é PROIBIDO ao presidente americano intervir dentro de um estado sem autorização da Suprema Corte ou sem a autorização expressa do estado. Nada disso interessava, a culpa era do Bush e ponto final.

O estado de Santa Catarina está um caos. Que tal culparmos Lula por isso? Vejamos os fatos: onde está o socorro federal? Onde estão as tropas do exército para ajudarem na segurança? Onde estão os planos de evacuação das áreas de risco? Resumindo, até o momento o governo federal não fez grande coisa. Por que ninguém culpa Lula por tamanha lentidão?

Quantas pessoas mais terão que morrer em Santa Catarina até o governo federal decidir agir? Os saques estão ocorrendo a olhos vistos, isso denota falta de segurança. O exército já deveria estar em Santa Catarina auxiliando na segurança pública. Onde estão o transporte aéreo e o apoio logístico das forças armadas? Por que tanta demora em convocar exército, marinha e aeronáutica para auxiliar nessa crise? Onde estão as rotas para levar suplimentos aos refugiados? Será que ninguém vai cobrar explicações para tamanha incompetência?

Em dezembro será a vez das chuvas atingirem o estado do Rio de Janeiro. Novamente, a incompetência e lentidão serão as características básicas da ajuda do governo. Até quando seremos tão rígidos com presidentes de outros países e tão complacentes com o nosso presidente?

Por fim, parabéns aos bombeiros e heróis anônimos de Santa Catarina que são obrigados a vencerem dificuldades enormes sem apoio federal algum.

terça-feira, 25 de novembro de 2008

Você usaria uma camisa com a foto de Bin Laden?

Vi um jovem usando uma camisa estampada com a foto do terrorista Osama Bin Laden. Me dirigi até ele e disse que achava estranho alguém apoiar assassinos. Claro, todos temos liberdade de pensamento. Mas é importante entendermos que somos responsáveis por nossas ações e pelas implicações óbvias de nossos pensamentos e idéias.

Acabo de ler que o grupo Taleban, aquele que apoiou e apóia Bin Laden financiou um grupo de delinquentes para jogarem ÁCIDO em estudantes e professores. Incrível que estudantes brasileiros apoiem um grupo com essa mentalidade.

O mesmo vale para camisas de Che Guevara, outro assassino de carteirinha. Usar uma camisa com a foto de Che Guevara é moralmente igual a se usar uma camisa com a foto de Adolf Hitler. Realmente estranho que estudantes brasileiros, tão ardorosos defensores da liberdade de pensamento, adotem como vestimenta básica camisas com fotos de assassinos caracterizados pela intolerância com opiniões distintas.

Bin Laden é um assassino. Che Guevara foi um assassino. Fidel e Raul Castro são assassinos. Usar camisas com suas fotos estampadas ou recebê-los em sua casa é o mesmo que apoiar os métodos que eles usam: assassinato.

segunda-feira, 24 de novembro de 2008

Como este Blog Alertou US$ 700 Bilhões era APENAS o Começo

Desde o ano passado esse blog vem batendo na mesma tecla: é ERRADO ajudar o setor financeiro. Alguns analistas diziam que a ajuda seria temporária. O tempo passou e a ajuda não parece ter sido tão temporária assim. Analistas diziam que a ajuda seria localizada e restrita ao setor financeiro. Alguém ainda acredita nisso? Analistas diziam que era melhor gastar 700 bilhões de dólares do que enfrentar a crise de frente. Este blog SEMPRE alertou de que 700 bilhões era apenas o começo. Este blog sempre alertou de que tão logo os 700 bilhões fossem liberados outras demandas iriam aparecer. Será que alguém ainda duvida das previsões do blog?

Como eu sempre digo aos meus alunos: “o mercado não é seu amigo, o mercado não é seu inimigo. O mercado não é pessoal, o mercado é apenas implacável. O mercado reage a incentivos, forneça os incentivos corretos e os resultados serão favoráveis. Forneça maus incentivos e os resultados serão ruins”. O setor financeiro esta sendo exposto ao conjunto ERRADO de incentivos. Agora é a vez do Citigroup: são mais de 300 bilhões de dólares em garantias do governo a essa instiuição. Não deixa de ser irônico ver as três gigantes GM, Chrysler e FORD terem que implorar por 10 ou 20 bilhões, enquanto empresas tão ineficientes quanto estas recebem CENTENAS de bilhões de dólares sem esforço algum. Irônico ver os executivos das três gigantes irem ao Congresso Americano implorar por ajuda, ao passo que os executivos de instituições financeiras, que receberam ajudas bem maiores, sequer são vistos dando explicações a quem quer que seja.

Ajudar as três gigantes é errado, elas estão pagando por seus erros. Mas acaso é diferente com o o Citigroup?

domingo, 23 de novembro de 2008

IV Encontro de Pensadores Liberais: CANCELADO

Meus Caros,

Como bom atleta de final de semana me arrebentei nesse sábado. Estou aqui todo enfaixado e não terei como dirigir ou fazer qualquer outra coisa na semana próxima.

Meu sonho de jogar futebol profissionalmente também foi por água abaixo, agora só me resta escrever.

quarta-feira, 19 de novembro de 2008

A Crise Veio na Hora Certa

Fui fazer a matrícula de minha filha no colégio, a mensalidade subiu e o desconto de pontualidade foi reduzido. A justificativa do colégio foi simples: estamos no meio de uma grande crise mundial.... em minha inocência acreditava que em momentos de crise de demanda os empresários abaixassem os preços, mas parece que esta ocorrendo exatamente o oposto. O preço dos serviços aumentou: o encanador, o eletricista, o cara que faz chave, todo mundo reajustou o preço. A justificativa é sempre a mesma: é a crise.

As montadoras não estão vendendo tantos carros como no começo do ano: culpa da crise. Pronto, essa é a palavra mágica para o governo ir ajudar as montadoras. Libera-se crédito, posterga-se o pagamento de impostos e sabe-se lá mais o que esta por vir. As construtoras não estão ganhando tanto dinheiro: culpa da crise. E lá vem o governo com mais crédito, mais programas de incentivo para ajudar as construtoras também.

Essa crise veio na hora certa. Nunca tantas empresas ganharam tanto dinheiro público como na atual crise global. São trilhões de dólares dos contribuintes americanos, trilhões dos contribuintes europeus, bilhões dos contribuintes chineses e brasileiros e outros bilhões dos contribuintes de todo o mundo. Nunca antes se transferiram tantos recursos públicos para um grupo tão restrito de empresas. Essa crise chegou na hora certa para tais empresas.

Vejo algumas pessoas tentando justificar que a ajuda estatal para o setor financeiro faz sentido, mas a ajuda para outros setores é errada. O próprio Congresso Americano diz que as montadoras americanas estão nessa situação por sua própria incompetência. Sim, isso é verdade. Mas acaso isso é diferente com o setor financeiro? Ora, os bancos e seguradoras que pedem por ajuda do governo agora chegaram a essa situação justamente por sua incompetência. Ajudar as montadoras é errado, mas não é mais errado do que ajudar o setor financeiro.

Como este blog vem alertando desde o ano passado ajudar empresas falidas, sejam elas do setor financeiro ou não, é errado. Não adianta querer justificar que as regras que se aplicam ao setor financeiro não se aplicam aos outros setores da economia. Imaginar que as montadoras, que as empreiteiras, que os grandes conglomerados da economia, assistam passivamente a transferência de recursos de toda a sociedade para o setor financeiro sem protestar é ilusão. Era evidente que todo grande setor da economia tentará tirar proveito dessa crise. Minha única surpresa até o momento é: por que as empresas aéreas ainda não apareceram pedindo dinheiro público? Afinal, é a crise.....

terça-feira, 18 de novembro de 2008

Faltam menos de 2 semanas para o IV Encontro de Pensadores Liberais

IV Encontro de Pensadores Liberais - A Crise Internacional e a Atuação do Estado Brasileiro

A CRISE INTERNACIONAL E A ATUAÇÃO DO ESTADO BRASILEIRO

Data: 29/11/2008 (Sábado)

Horário: 14:00 às 18:00 horas

Local: Universidade Católica de Brasília (916 norte)

Temas a serem discutidos:

1) Ajuda estatal ao mercado imobiliário: não foi assim que começou a crise nos EUA???

2) Banco Central e swap cambial

3) Concentração Bancária

4) BNDES e os beneficiários do dinheiro público

5) Ajuda estatal ao mercado de automóveis: será que vamos criar uma bolha aqui também?

Conto com vocês no encontro. Em breve estarei divulgando mais informações.
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segunda-feira, 17 de novembro de 2008

Unibanco e Itaú

A união entre os bancos Itaú e Unibanco foi celebrada por alguns como prova da robustez do mercado financeiro nacional. Interessante notar que a grande maioria dos economistas aplaudiu tal incorporação. Coube apenas aos advogados argumentar contrariamente a tal união, salientando corretamente que esse movimento aumentava a concentração do setor bancário brasileiro.

Alguns argumentaram que tal incorporação aumentaria o crédito interno. Gostaria de saber por que? Exatamente em que o aumento da concentração bancária pode aumentar a disponibilidade de crédito? Caso o Unibanco estivesse em dificuldades, este argumento talvez pudesse ser correto. Contudo, nada nos leva a crer que o Unibanco estivesse com problemas sérios. Assim, o mais provável mesmo é que o aumento da concentração bancária leve ao resultado tradicional: aumento de preços dos serviços bancários.

Continua uma incógnita para mim o por que do governo federal ver com bons olhos tal incorporação. Também não entendo o Ministro da Fazenda celebrar esse fato. Creio que o Brasil deve ser um dos poucos países no mundo que comemora a redução da competição. Pior do que isso: ao permitir conglomerados financeiros tão grandes, aumenta-se também o risco de ter que socorrer tal conglomerado quando este passar por dificuldades financeiras. Isto é, quando este novo banco for a falência (e eles inevitavelmente vão falir cedo ou tarde) será enorme a pressão por ajuda governamental. O argumento será o de sempre: se permitirmos a falência desse novo conglomerado, haverá o risco de levar toda economia à falência. Ou seja, a política ótima de investimento do banco será assumir riscos elevados. Afinal, se der certo os acionistas ganham muito dinheiro. Mas, se der errado o governo será “obrigado” a ajudá-los.

Nesse ambiente em que o governo celebra a união de bancos gigantes, e a consequente redução da competição, não será de se espantar se o próximo passo do governo for propor a união entre a Caixa Econômica Federal e o Banco do Brasil. Afinal, “é necessário a formação de um conglomerado financeiro nacional forte para disputar mercado com os gigantes da área”. E assim cada vez mais teremos bancos gigantescos prontos a serem socorridos pelos governos, às custas dos contribuintes, durante suas crises.

quinta-feira, 13 de novembro de 2008

Distribuição de Renda e o Governo

Tal como este blog vem alertando desde o ano passado a ajuda ao setor financeiro é ERRADA. Tal ajuda apenas evita que empresas ineficientes continuem no mercado. PIOR: estimula outras empresas a irem pedir ajuda ao governo.

Há dois meses atrás esse blog cantou a bola: a GM seria a primeira, de uma longa lista de empresas, a ir pedir ajuda no Congresso americano. Não deu outra. O Brasil também faz sua parte para piorar a situação: o governo tem prometido ajuda a montadoras, construtoras, exportadores, etc. O único que não vai levar nada é o pobre contribuinte, este só irá pagar a conta.

Esta crise tem sido o MAIOR PROGRAMA DE DISTRIBUIÇÃO DE RENDA DO MUNDO. Distribuição de renda às avessas: tiramos dos contribuintes e damos para os grandes empresários. O que mais chama a atenção nesse absurdo é o apoio que ele tem recebido de partidos e intelectuais de esquerda. Isto só prova o óbvio: a esquerda adora um Estado forte, mas se esquece que Estados fortes protegem os grandes grupos da economia. Já pensadores liberais, como esse blog, têm se manifestado DESDE O COMEÇO CONTRA essa ajuda à magnatas às custas dos contribuintes. Nada contra os magnatas e nada contra quem ganha dinheiro, mas tudo contra àqueles que querem privatizar seus ganhos e socializar seus prejuízos.

O liberalismo protege os pobres, protege indivíduos, pois mantendo o Estado pequeno torna-o incapaz de transferir recursos para os grandes grupos da sociedade. Nenhum programa, em nenhuma época de nossa história, transferiu tantos recursos dos contribuintes para poderosos grupos econômicos.

quarta-feira, 12 de novembro de 2008

O Novo Formato do Concurso do IPEA

Antigamente o concurso do IPEA era composto por basicamente três provas: macroeconomia, microeconomia e econometria. Todas as matérias adotavam ementas de mestrado/doutorado. Não havia reserva de mercado para nenhuma profissão, entrava quem fazia mais pontos.

Hoje o concurso do IPEA é separado em áreas: Macroeconomia, Relações Internacionais, e tantas outras. As provas agora não são mais a nivel de mestrado/doutorado, mas a nível de graduação. As matérias que serão cobradas em cada área divergem e muitas vezes são carinhosamente chamadas de coisas estranhas. A prova de macroeconomia favorece nitidamente pessoas com formação na Unicamp/UFRJ. Pior: agora existe reserva de mercado. Podem concorrer na área de economia APENAS economistas. Na área de Relações Internacionais APENAS pessoas com graduação em relações internacionais ou economia. Ou seja, matemáticos, estatísticos, engenheiros e tantos outros com doutorado em economia, mas graduação em outra área, não poderão concorrer na área de economia.

Algumas áreas do concurso são um verdadeiro balaio de gato: cabe de tudo lá dentro, menos economia. Até prova ORAL vai ter no concurso, verdadeira inovação. As vagas para Macroeconomia não cobrarão conhecimentos de econometria, mas a teoria cepalina estará lá firme e forte. A área de Relações Internacionais terá o sensacional multiculturalismo como tema (alguem sabe o que é isso?). Na área Infra-estrutura e logística de base (deviam patentear esse nome) lá aparece o Programa de Aceleração do Crescimento (PAC) como matéria obrigatória, mas se esqueceram de pedir aos alunos aprenderem métodos para se checar a eficiência de programas. Mas a campeã mesmo parece ser a área de Sustentabilidade Ambiental, que engloba matérias tais como sustentabilidade fraca e a economia neoclássica; a sustentabilidade forte e a economia ecológica; Caracterização e problemática dos biomas brasileiros: Amazônia, cerrado, caatinga, campos sulinos, pantanal, mata atlântica, zona costeira e zona marítima. Biodiversidade: gestão de florestas, acesso ao patrimônio genético, biosegurança, biotecnologia e biopirataria.

Vamos a uma pergunta prática: como fica a situação de um candidato que passe na área de meio ambiente mas queira trabalhar na área de macroeconomia? Esse não era um problema no passado, afinal não existia essa ABSURDA divisão por áreas. No passado os candidatos eram aprovados por saberem os MÉTODOS e a TÉCNICA. De posse desses conhecimentos, o campo de aplicação era decidido internamente. E agora, já imaginaram o problema que vai dar?

Por fim, esse concurso do IPEA atrairá candidatos com perfil similar aos aprovados no concurso dos gestores (outro cargo federal, mas que atua diretamente nos ministérios). Se atrairmos candidatos com perfil similar aos já existentes na esplanada do ministérios, qual será o diferencial do IPEA? Respondo: NENHUM. Esse concurso marca uma MUDANÇA DE RUMO PARA PIOR na trajetória do IPEA. Ele é um passo importante em direção à extinção do IPEA.

O bom senso pede para que esse concurso seja CANCELADO. Outro, nos moldes dos concursos antigos, deve substituí-lo. Mas agora faço um alerta aos técnicos do IPEA: a covardia custa caro. A omissão nesse período trará um custo futuro não desprezível.

O edital do IPEA pode ser acessado aqui.

terça-feira, 11 de novembro de 2008

O Futuro do IPEA

No passado o Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (IPEA) foi extremamente influente na formulação de políticas públicas no Brasil. Contudo, com o passar do tempo, essa influência foi gradativamente diminuindo. Atualmente o IPEA encontra-se em um momento chave de sua história: como voltar a ser influente e ajudar na elaboração de políticas públicas brasileiras?

Primeiramente devemos entender a origem da influência do IPEA. Nas décadas de 1960, 1970 e 1980 a formação acadêmica da maior parte dos funcionários públicos federais era baixa quando comparada à formação dos técnicos do IPEA. Dessa maneira, existia um espaço muito grande para que técnicos do IPEA fossem chamados a responder questões importantes de políticas públicas. Além disso, técnicos do IPEA eram sempre convidados a assumirem cargos altos da administração pública. Ou seja, até o final da década de 1980, foi a alta qualificação acadêmica de seu corpo técnico que garantiu uma posição de destaque ao IPEA.

Apesar de sua importância histórica, a partir do começo da década de 1990 a influência do IPEA passou a dimuir. O motivo disso foi simples: os funcionários públicos federais passaram a ser contratados por concursos públicos cada vez mais concorridos. Tal competição por uma vaga no serviço público aumentou consideravelmente a capacitação acadêmica dos funcionários dos Ministérios. Hoje é muito comum se encontrar profissionais com nível de doutorado ocupando cargos concursados dentro de Ministérios. Devido a melhora do capital humano trabalhando como gestores e associados dentro dos Ministérios, a antiga influência exercida pelo IPEA nesses locais foi em muito reduzida.

Analisando os parágrafos acima, parece-me que a chave para o sobrevivência a longo prazo do IPEA é manter o diferencial de qualidade com o restante do serviço público. Mas tal diferencial não pode mais ser mantido apenas pela titulação de seu corpo técnico. Afinal, doutores agora existem também em abundância entre outras carreiras do setor público. O que o IPEA deve fazer é investir fortemente em pesquisa acadêmica. Essa é a verdadeira vocação do IPEA, e é onde o IPEA pode fazer a diferença. Exercendo liderança acadêmica, o IPEA pode voltar a encontrar o papel de destaque que já exerceu no passado.

Pesquisa acadêmica de ponta, auxiliando a implementação e checando o desempenho das políticas públicas, é a chave para a existência de longo prazo do IPEA. É por esse motivo que o recente concurso para técnicos do IPEA me preocupa. Nesse novo concurso o IPEA abandonou sua tradição de buscar pesquisadores, e se concentra em atrair apenas graduados. Antigamente os concursos do IPEA cobravam matérias tradicionais de cursos de mestrado/doutorado. Essa tradição foi abandonada no novo concurso, agora as matérias têm a) um viés de esquerda (proveniente da UNICAMP); e b) um viés para ementas de graduação. Apenas para dar um exemplo: os candidatos para as vagas de macroeconomia não precisarão fazer provas de econometria. Devido ao salário competitivo, acredito que o concurso do IPEA atrairá bons candidatos de nível de graduação. Contudo, não é desse tipo de candidato que o IPEA precisa. O IPEA precisa de pesquisadores, e estes serão poucos nesse novo concurso.

O novo concurso do IPEA é um erro. É um passo importante para o fim desse outrora grandioso instituto. O IPEA precisa de pesquisadores, deixemos os bons alunos de graduação para os outros órgãos do governo.

domingo, 9 de novembro de 2008

Eu voto em Sarah Palin

Durante as eleições americanas Sarah Palin foi duramente atacada pela imprensa, foi tachada como burra e inexperiente. Mas eu quero deixar aqui registrado: Sarah Palin tem o meu voto. Exatamente qual é a experiência de Obama? Sarah Palin é governadora, me parece razoável assumir que ela tem mais experiência adminsitrativa que Obama. Exatamente por que Palin foi taxada de burra? Foi taxada de burra por defender o livre mercado e um governo pequeno, isso não é burrice, é lucidez.

Palin foi uma guerreira até o fim, e fosse ela a candidata presidencial acredito que teria sido eleita a primeira mulher presidente da América. Palin rapidamente entendeu que os assessores de McCain estavam mais preocupados em manterem seus empregos do que em ganhar a eleição. Daí sua discordância com a estratégia de campanha. Palin notou corretamente que a única maneira de acordar o povo americano da ilusão Obama era com palavras firmas e diretas. Foi isso que ela fez, e foi por isso que recebeu o ódio da imprensa. Palin é a favor do livre mercado e é a favor da redução do tamanho do Estado. Sarah Palin tem o meu voto, se for candidata à presidência americana vai vencer.

Mas vamos falar de um detalhe estranho: tão logo Obama venceu as eleições e a França começou a dizer que agora uma reaproximação é possível. Vamos ao óbvio: que moral tem a França? A França é aquele país que 6 meses ANTES da derrota de Hitler estava celebrando o nazismo. A França é também o país que COMEÇOU o conflito no Vietnã, mas que depois saiu de fininho fingindo que não era com ela. A França mostrou toda sua moral no conflito da Argélia, onde a brutalidade francesa foi tão grande que conseguiu inclusive chocar os próprios franceses. Quem em sã consciência quer se aproximar de um país desses? Ninguém na Europa confia na França, o motivo disso é simples: a França está pronta a quebrar QUALQUER acordo se isto beneficiá-la em 10 centavos no curto prazo. É por isso que países pequenos na Europa, tal como a Polônia, buscam desesperadamente o apoio americano. Esses países sabem que na hora do aperto só mesmo os americanos respeitam os acordos.

Obama representa um conjunto de idéias que nunca funcionou: restrições ao comércio internacional, aumento do poder dos sindicatos, políticas tributárias que desincentivam o trabalho e a acumulação, ampla política de subsídios governamentais, adoção de medidas de ação afirmativa, e aumento da esfera de atuação, com consequente aumento do tamanho do Estado.

quinta-feira, 6 de novembro de 2008

Entrevista com Miguel Leon-Ledesma

Miguel Leon-Ledesma é professor da University of Kent. Ele também é consultor do Banco Central Europeu, do Banco Asiático de Desenvolvimento e do Banco Central da República Dominicana. Além disso, é pesquisador visitante das Universidades de Frankfurt, UTS (Sidnei - Austrália) and Kiel. O Professor Ledesma é referência mundial na área de Economia Internacional.

O professor Ledesma não é fluente em português. Assim, pede-se que os leitores desculpem os erros gramaticais.

1) Por que tantos bancos e seguradoras inglesas quebraram ou estão à beira do colapso? Parece que a situação na Inglaterra é mais crítica do que nos Estados Unidos, esta impressão está correta?

A situacao na Inglaterra é bem parecida com a dos EUA. O problema é que na Inglaterra o setor financeiro é proporcionalmente maior. Londres é o maior centro financeiro do mundo, na frente de New York, o que aumenta a exposição da economia. Também acontece que o grau de concentração do sistema financeiro britânico (e Europeu em geral) é maior do que nos EUA, onde existem muitos pequenos bancos regionais. Por essa razão o perigo de “bankruptcy” pode ser pior na Inglaterra. As razões por trás do estado dos bancos britânicos não são diferentes do que esta acontecendo no resto do mundo. O “spillover” do boom do mercado imobiliário foi muito forte na Inglaterra, aonde a bolha do housing market foi enorme. Eu nao vejo o problema tanto como a criação pelos bancos de “excesso” de crédito. Ao final tem oferta e demanda, e os dois lados do mercado sao igualmente responsáveis. O problema do banco foi que o risco não foi corretamente medido, isto é: os bancos nao colocaram o preço correto no risco porque os produtos financeiros viraram tão absurdamente complexos que ninguém mais sabia o que que eles eram. Neste ponto as “risk rating agencies” têm também muita responsabilidade. O sistema financeiro criou produtos cuja complexidade é tão grande que vira muito dificil colocar um preço no risco. Sem um preço correto, o sinal do mercado desaparece, e portanto o mercado deixa de ser eficiente. Isto é, o preço não contém informação sobre o produto. As rating agencies não atuaram com cautela, elas deveriam ter usado uma estratégia conservadora: se não sabemos o que é, então é melhor darmos um ranking ruim.


2) O Banco Central Europeu poderia ter feito algo para evitar essa crise? As políticas passadas adotadas pelo Banco Central Europeu tiveram responsabilidade pela crise atual? E agora, os Bancos Centrais da Europa estão tomando as medidas corretas? De maneira específica, você concorda com a proposta de Gordon Brown?

Vamos por partes. Eu não acho que o BCE teve muita responsabilidade pela crise atual. Ao contrário, o BCE sempre manteve os juros mais altos do que nos EUA e no Reino Unido (em termos da diferença entre juros e crescimento real da economia). O BCE também manteve taxas de juros bem mais estáveis do que o FED e o Banco da Inglaterra. Eles foram mais anti-inflacionários, o que é de se esperar de um banco novo e derivado do antigo Bundesbank. Eu acho que juros excessivamente baixos da época Greenspan tiveram muita maior influência na crise. Juros reais negativos por um longo período de tempo simplesmente levam a uma distorção dos incentivos para o investimento real.

Em relação a resposta do Brown eu tenho uma visão misturada (mas não confusa!). Eu acho que não tinha mais jeito, precisava de uma intervenção para tentar cortar a crise, e a intervenção com injeção de capital é mais eficiente para o tax payer do que continuar comprando “toxic assets” sem valor nenhum. Se os stocks ganham valor e no futuro são re-privatizados (como deveria ser no futuro próximo) as perdas para o estado são bem menores. Tem, obviamente, que se preocupar pela perda de empregos e os enormes problema sociais de uma crise. Mas, no longo prazo, a razão para defender uma intervenção é uma razão de eficiência. São duas as razões de eficiência:

A primeira é que já existe muita evidência empírica que os efeitos das recessões são permanentes no nivel do PIB. Tem um artigo desse ano na American Economic Review que mostra esse fato (Cerra e Saxena, 2008). Eu levo um tempo estudando os possíveis efeitos permanentes das recessões. A evidência é bem forte: a típica visão de real business cycle theory e das keynesian theories que assumem recessões como sendo temporárias ao redor de uma tendência é violada pelos dados. Uma prova simples é que o modelo empírico de flutuações do Jim Hamilton funciona muito melhor do que o modelo “pluckling” do Friedman. Uma outra questão é por que isso acontece (é market failure ou government failure?). Mas o que é claro tambem é que paises com governos estaveis, democraticos, e sujeitos a controle institucional tendem a ter ciclos menos pronunciados e efeitos permanentes menores. Nos EUA, por exemplo, tem evidencia de que politica fiscal ajuda a suavizar ao redor de 15% do ciclo. Isso seria diferente em paises “emergentes”, claro. Mais se aceitamos que os consumidores preferem ter um nivel de renda constante do que o mesmo valor presente mas com padrao mais volatil, entao tem um ganho de bem-estar [welfare??] e, portanto, eficiencia. Isso tudo sem falar das possiveis consequencias sociais, enormes, que podem desestabilizar o sistema e levar, no futuro, ao povo pedir ainda maior controle do mercado e socialicacao da produccao.

A segunda racao é pelas caracteristicas da crise. O setor financiero deve existir para assinar credito as partes mais eficientes do sistema (e tambem risco). Esso nao aconteceu nesses anos. Nessa crise o risco de atividades pouco produtivas foi espalhado pelo sistema economico tudo sem ninguem saber aonde estavam investindo. O sistema financiero nao foi eficiente nesse sentido. Se os bancos quebram eles levam com eles a muitas empresas. As empresas hoje precissam de usar o sistema financiero para levar simples operacoes diarias. O pior é que muitas empresas eficientes, que geram valor, iam quebrar se nao podem usar credito. A beleza do sistema capitalista eh a capacidade de gerar “entrepreneurship” e innovacao. Essas atividades precissam de investimento financiero. Um colapso do sistema bancario ia impedir a mesma essencia do sistema de mercado funcionar. A seleccao schumpeteriana na economia real precissa dos bancos para funcionar.

Agora, esse mesmo ponto me leva aos problemas que tenho com o plano Brown (que foi implementado depois nos EUA e muitos outros paises). Um sistema de socialicacao das perdas e de salvar as partes ineficientes do mercado deve ser evitado. Essa seleicao mais “Hayekiana” eh necessaria, sao os “cleansing effects” das recessoes. A intervencao, por tanto, deve ser desenhada dum geito que seja “incentive compatible”. Eu me pergunto porque, depois de ter calmado aos mercados, o Governo nao empregou expertos em mechanism design para desenhar um sistema de incentivos que, ainda sustentando a economia no curto praco, nao evite que a economia se livre do “lixo”. Sempre vai ser um second best, mais é bem melhor do que um third best. Alem desso, a intervencao acabou com o sistema de politica monetaria baseado nas metas de inflacao simples. Ninguem vai acreditar mais nesse sistema quando o Banco Central simplesmente deixou a inflacao ficar 2.8 pontos acima da meta. Pior ainda, ninguem parece ter se apercebido de que, com bancos parcialmente publicos, as atividades diarias normais do BC vao gerar credito ao sistema bancario e, indireitamente, ao Estado. Esso é perigoso, e pode provar ser um erro bem grande.

Ao final, as politicas de intervencao sao como um fio: vc pode puxar dele, mais nao pode empurrar com ele. Vc pode evitar um colapso, mais nao pode ajudar a resolver o problema se nao acompanha com uma outras medidas.


3) Qual será o impacto dessa crise nos fundos de previdência privados? Você acredita que em breve os governos também terão que intervir nesse mercado para evitar a falta de solvência desses fundos? Ou pior ainda, será que em breve assistiremos novamente a transferência de recursos públicos para entes privados sobre a justificativa de evitar uma crise sistêmica?

Eu acho que a crise vai ter um efeito sobre fundos de previdencia, mais especialmente para aqueles que estarao se aposentando nos proximos 5 anos. No longo praco o principal problema é de dinamica da populacao e criacao de riqueza. O retorno de investimentos nas bolsas deveria voltar a niveis normais em questao de 1 ou 2 anos. Sem duvida, existe o risco de transferencia de recursos publicos, mais para mim o principal problema nao é esse. O principal problema depois da crise é a volta a politicas protecionistas que impedem o desenvolvemento normal do comercio internacional, que trouxe o periodo economico mais impotante da historia: 700 milloes de pessoas sairam da pobreca nos ultimos 15 anos. NUNCA a humanidade viou um processo como esse. O comercio é sem lugar a nenhum tipo de duvidas o que mais risco corre, pois as pessoas na rua associam “globalicacao” com a crise. Poderiamos pagar um preco muito alto pelos erros dos “expertos” em financas.

4) Antes da crise havia uma idéia de que o Euro era uma moeda forte, mas no momento do aperto todos correram para o dólar americano. Como você analisa isso?

É simplesmente errado tentar chegar a conclusoes sobre a “fortaleca” de moedas num ambiente tao inestavel e tao cheio de incerteca. É evidente que desde Julio o Euro caiou substancialmente contra o dolar. Mais essa nao é a estoria tuda. O Euro está ainda bem por acima do cambio que tinha faz, por exemplo 3-4 anos, e muito mais se comparamos com o cambio inicial depois da criacao da moeda. Mais esso nao deve sorpreender-nos. Os mercados sabem que os EUA regularmente anticipam a crise no resto do mundo, e por tanto esperam que a zona Euro entre na recessao tambem nos proximos meses. Mais o Euro ainda apreciou muito contra a Libra no ultimo ano e contra as moedas de paises emergentes nos ultimos 6 meses (só olhar o cambio R$-Euro). O que é mais notorio é a evolucao do Yen do Japao, que foi a moeda que mais subiou nessa crise. Quer esso dizer que o Yen virou de repente uma moeda mais segura? Sem duvida nao se vc olha pros fundamentos macro das economias. O Euro é uma moeda importante, porque o GDP da zona Euro é o maior do mundo, mais o dolar vai continuar sendo a moeda dominante nos proximos anos, esso ai é claro. O resto, no curto praco é simplesmente impossivel de predizer e nao deveriamos criar pretensoes de que é.

5) Você está escrevendo um livro texto de Economia Internacional. Em que pontos seu livro irá inovar? Existe algum assunto que você acredita não ser bem tratado nos livros textos tradicionais de economia internacional? Você poderia nos falar um pouco mais da estrutura de seu livro?

Estou escrevendo um livro de Macroeconomia Internacional Avancada com o Alexander Mihailov da Universidade de Reading que sera editado pela Oxford University Press. Esperamos ter-lo pronto pro ano 2011. O livro é para nivel de posgraduacao (mestrados e doutorados). É um projeto bem trabalhoso, mais temos muita ilusao com ele.

O livro principal de Macro Internacional é o do Obstfeld e Rogoff (1996). Esse livro virou um classico e marcou a troca definitiva de modelos ad-hoc a modelos microfundamentados. Os problemas do livro para ensinar sao que nao tem uma perspectiva historica sobre os problemas centrais na Macro Internacional (nao mostra os modelos tradicionais que ainda sao importantes), nao tem muito foco empirico (que na area é realmente importante) e, 12 anos depois, ficou um pouco out-dated. O nosso livro tenta preencher esses gaps. Sem duvida, o nosso livro nao chegara a ser importante assim e nao temos pretensao de substituir OR (1996), somos bem mais humildes do que esso. O livro tem uma primeira parte de fundamentos basicos de Macro internacional mostrando os modelos basicos (estaticos e dinamicos). Depois entra com microfundamentos: eleicao intertemporal e eleicao entre estados da natureca (risco). Dai construimos os modelos basicos: o modelo de Lucas e o Redux do Obstfeld-Rogoff nos contextos deterministicos e estocasticos. Depois continuamos com topicos importantes: determinacao do cambio real, microestrutura de mercado, crises e ataques especulativos e modelos de “learning”. O livro vai ter uma aproximacao bem formal e tambem complementado analise de dados reais e o uso de econometria. Tentamos ensinar uma metodologia de fazer macro.

Espero que o publico goste. Se nao, nao se preocupe, nao vou pedir um bail-out do Estado!!

quarta-feira, 5 de novembro de 2008

Turbulências e Nuvens Negras , escrito por Rodrigo M. Pereira

Este artigo foi escrito por Rodrigo M. Pereira.

A atual crise mundial de crédito tem origem nos primeiros anos da presente década, sobretudo nos EUA e na Inglaterra. O medo de que a recessão de 2001 fosse perdurar por uma década, à lá Japão nos anos 90, fez com que os Bancos Centrais dessas economias reduzissem fortemente os juros por um período prolongado. O resultado foi uma fartura de crédito nunca antes vista, que teve um impacto, hoje considerado catastrófico, sobre os mercados imobiliários de países como os EUA, a Inglaterra, Austrália, Espanha, entre outros. A ampla disponibilidade de crédito muito barato levou a uma forte procura pelo financiamento de casas. Como a oferta é limitada no curto prazo, houve uma rápida valorização dos imóveis, chegando em alguns casos a mais de 30% ao ano, em termos reais. Casas viraram um investimento imbatível. Muitos as compravam não pela necessidade de uma moradia, mas sim pela expectativa de que elas continuariam se valorizando, o que é um comportamento típico de bolha especulativa. As casas ficaram tão caras que os preços não mais estavam baseados em fundamentos econômicos.

A segunda causa da crise foi o surgimento de uma série de instrumentos financeiros atrelados aos financiamentos das casas. Como esses instrumentos eram em grande parte emitidos por instituições que não operavam como bancos comerciais, eles não estavam sujeitos ao processo de regulação tradicional exercida pelos Bancos Centrais, que impedem riscos e alavancagens excessivos. Assim, esses instrumentos tinham perfis de risco e alavancagem bastante agressivos, o que levanta a suspeita de que essas instituições estivessem agindo sob um certo moral hazard (perigo moral), porque sabiam que eram grandes e importantes demais para que os governos as deixassem falir. Então, se os ventos fossem favoráveis o lucro seria embolsado, se os ventos fossem desfavoráveis, os prejuízos seriam muito provavelmente socializados com o dinheiro dos contribuintes. È evidente que num arranjo assim, quanto mais risco melhor. Em 2007 de fato os ventos tornaram-se desfavoráveis, e a bolha especulativa que se formara sobre os preços das casas finalmente estourou. Diversos devedores subprime (sem renda e histórico de crédito bons o suficiente para conseguir pagar a dívida em dia) ficaram inadimplentes. O valor das casas começou a cair, em muitos casos para valores abaixo do valor restante da dívida, tornando-se vantagem devolver a casa ao banco. Esse processo afetou a liquidez dessas instituições, e de todos os instrumentos financeiros atrelados aos financiamentos imobiliários, num efeito dominó que ainda não acabou. E os prejuízos têm sido fortemente socializados com o dinheiro dos contribuintes. Com exceção do Banco Lehman Brothers, que o tesouro americano deixou falir, até o momento todas as outras instituições com problemas foram resgatadas com dinheiro público.

O dominó eventualmente rompeu as fronteiras nacionais, e no mundo globalizado de hoje, começou a afetar diversas economias, inclusive o Brasil. Até pouco tempo atrás, dizia-se que o Brasil possuía uma blindagem contra a crise, e que na pior das hipóteses nosso crescimento cairia da casa dos 5% anuais para algo em torno de 4%. Afinal de contas, nosso Banco Central acumulara um formidável escudo de 200 bilhões de dólares de reservas. Além do mais, diferentemente de crises passadas, o Brasil não tem mais dívida externa. Como a dívida pública é praticamente toda interna, em moeda doméstica, o estouro do câmbio não causa o descontrole da dívida pública, como acontecia em crises anteriores. Essa fonte de vulnerabilidade não mais existe.
Entretanto, o setor privado não teve o mesmo cuidado que o público, e nos últimos anos se endividou fortemente em dólares. Então, enquanto o Banco Central acumulava uma enorme quantidade de divisas (ativos em dólares), o setor privado acumulava uma enorme quantidade de dívidas (passivos) em dólares. Firmas como Aracruz, Sadia e Votorantim ficaram em situação delicada, por dois motivos. Primeiro, suas fontes externas de financiamento secaram. Não há mais o crédito barato em dólares, e elas terão que buscar outras fontes de financiamento, possivelmente mais caras. Segundo, muitos investidores internacionais retiraram suas aplicações no mercado acionário brasileiro para cobrir perdas em seus países de origem, resultando na maior saída de dólares experimentada pela economia brasileira no período recente. Consequentemente o câmbio disparou, e essas empresas registraram fortes perdas devido ao seu grande endividamento em dólares.

É difícil prever quais serão os próximos desdobramentos da crise. Uma coisa porém é certa. O famoso “céu de brigadeiro” do governo Lula não existe mais. Em 2009 teremos que nos acostumar com turbulências e nuvens negras.

segunda-feira, 3 de novembro de 2008

Onde está a corrida bancária?

Corrida aos bancos é um evento que ocorre quando os clientes de determinada instituição bancária, com medo de que o banco vá à falência, correm até ela para retirarem seus depósitos. Se todos os clientes fizerem isso ao mesmo tempo o banco vai a falência. Foi com medo de uma possível corrida aos bancos que vários Bancos Centrais ao redor do mundo tomaram providências para prevenir esse problema.

Vamos aos fatos: só não ocorreu uma verdadeira corrida aos bancos ao redor do mundo porque os bancos estão relativamente muito saudáveis financeiramente. Notem que os governos ao redor do mundo fizeram de TUDO para GERAR uma corrida bancária. Vamos pegar o caso americano por exemplo: o presidente Bush disse à exaustão que o sistema financeiro estava à beira de um colapso. Os candidatos à presidência americana interromperam as respectivas campanhas eleitorais para irem à Washington sob o pretexto de que a “crise financeira era séria demais”. O presidente do Banco Central Americano e o Secretário do Tesouro dos EUA não cansaram de dizer que a crise era de proporções gigantescas. Com tantas pessoas importantes assim, que ocupam cargos públicos de destaque, argumentando pela seriedade da crise financeira seria de se esperar uma verdadeira corrida aos bancos. Mas nada disso ocorreu. As pessoas simplesmente mantiveram seu dinheiro nos bancos.

Num último esforço para GERAR uma corrida aos bancos, o governo americano avisou que estava preocupado com a situação das pessoas com depósitos em instituições bancárias. Afinal, dada a precariedade dessas instituições o governo deveria fazer algo para proteger tais depósitos. Quando um governo faz uma afirmação desse tipo, só pode ser porque ele quer gerar uma corrida bancária. Mas novamente as pessoas, para a surpresa do governo, mantiveram seu dinheiro nos bancos.

Sem conseguir gerar pânico e sem ter sucesso em gerar uma corrida aos bancos, o que os governos fizeram? Resposta: eles aprovaram leis aumentando as garantias de depósitos em bancos (evidentemente se esqueceram de dizer de onde viriam os recursos para tal garantia). Após tal medida, começaram a anunciar aos quatro ventos que a intervenção do governo salvou o sistema financeiro.

Os parágrafos acima descreveram uma típica intervenção do governo na economia: 1) o governo tenta criar problemas onde não existem; e 2) elaboram medidas para consertar problemas inexistentes; 3) como o problema NUNCA existiu, então o governo teve sucesso em eliminar o problema; e 4) pode não parecer, mas com esse truque o governo acabou de aumentar o poder regulatório sobre a economia. E tal regulação pode perfeitamente criar um problema pior ainda no futuro.

Apenas para finalizar, corridas bancárias não ocorreram nos EUA por um motivo simples: o problema não estava localizado nos bancos comerciais (os que recebem depósitos) e sim em bancos de investimento (que não recebem depósitos).

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