quarta-feira, 11 de fevereiro de 2009

A crise que não viria e que foi piorada pelo governo

Em breve as estatísticas brasileiras irão revelar o óbvio: o PIB do primeiro trimestre cresceu em relação ao mesmo período de 2008. O mesmo irá ocorrer em relação ao segundo e terceiro trimestres. Ao final do ano a economia brasileira terá crescido em torno de 3%. Isso independe de uma atuação do governo. Mas, ao final do ano, teremos que aguentar os defensores do gasto público dizendo que salvaram a economia.

Para a economia brasileira mais perigoso que a crise internacional são as recentes medidas anunciadas pelo governo. Os recentes anúncios de aumento do gasto público podem perfeitamente fazer estragos na economia. Ou seja, se o governo brasileiro ficasse calado e nada fizesse estaríamos a salvo. O problema é que o governo insiste em querer intervir na economia.

Quando a dívida do governo aumenta, cedo ou tarde serão necessários aumentos de impostos. As empresas e os indivíduos sabem disso. Resultado: o setor privado DIMINUI seu consumo para poder pagar o aumento futuro de impostos. Esse resultado chama-se Equivalência Ricardiana e foi proposto primeiramente por David Ricardo ainda no século XIX. Recentemente Robert Barro mostrou os requisitos teóricos necessários a ocorrência desse fenômeno. Apesar de parecer estranho, o fato é que a maior parte dos estudos empíricos não consegue refutar essa hipótese. Minha própria tese de doutoramento, que trata justamente desse tema, também não conseguiu rejeitar a ocorrência de Equivalência Ricardiana para a economia brasileira. Ou seja, o aumento da dívida pública no Brasil irá diminuir o consumo privado. É por esse fato que a reação do governo brasileiro à crise mundial não parece ser a mais adequada. Além disso, tal reação coloca em risco o próprio crescimento da economia brasileira.

Nos Estados Unidos muitos estão assustados pelo fato da crise ter se aprofundado. Clamam por uma ação mais decisiva do governo americano. Creio que no caso americano o remédio tem causado mais danos do que a doença. Os recorrentes anúncios de pacotes trilionários, para ajudar empresas falidas, faz com que os contribuintes temam pelo pior. Assim, eles se antecipam aos aumentos futuros de impostos, que serão necessários para pagar o aumento da dívida pública, e reduzem seu consumo. A redução no consumo privado faz a crise se aprofundar, mas esse efeito nada tem em comum com a origem da crise pois foi causado pelo governo. Em resumo, por mais paradoxal que pareça, quando o governo anuncia um pacote de gastos para ajudar a economia ele está piorando a situação. Afinal, os agentes antecipam os aumentos de impostos e reduzem seu consumo.

7 comentários:

Pedro disse...

Adolfo, a equivalencia ricardiana consegue anular completamente o efeito de redução tarifária?
pesno que o dinheiro na mao dos agentes daria mais eficiencia na alocação de recursos. Essa maior eficiencia, em tese, poderia causar um aumento de renda?

Anônimo disse...

Os brasileiros, seja pela baixa escolaridade média, seja por oportunismo barato, estão pouco ligando para o futuro. A prova disso é a popularidade do Presidente Coringa. Logo, estão pouco ligando para a Equiivalência Ricardiana. Mas isso, ainda, não é o pior dos mundos. O pior já está acontecendo, com a eleição antecipada da Dilma "Resident Evil" Roussef para presidente da república. Se nada for feito, teremos, ainda, muitos anos sob o jugo petralha. Isso será o pior dos mundos.

marco bittencourt disse...

O problema presente nos EUA é de crise de liquidez. Como sabemos, se a moeda some da economia, como é o caso em tela, dada a criação de moeda falsa já desmascarada, a economia sucumbe. Estou com o Lucas - o maior monetarista do planeta em exercício profícuo do monetarismo a recomendar que o FED derrame dinheiro na economia diretamente, sem grandes firulas! Eu como um bom monetarista tupiniquim, preferiria a compra dos bancos, com ativos bons e podres para desova posterior no mercado da cesta de ativos. Fazer o quê?

Blog do Adolfo disse...

Caro Pedro,

A diminuicao dos impostos, pela eq. ricardiana, tambem nao faz muita diferenca.

CONTUDO, a diminuicao de impostos afeta POSITIVAMENTE a economia por um outro canal: aumento da eficiencia (reducao do peso morto dos impostos).

Adolfo

Alex disse...

Adolfo:

A ER estabelece que - dada a trajetória do gasto público - a decisão de financiá-lo via impostos ou dívida é irrelevante.

A implicação é que um aumento permanente do gasto público não tem efeito sobre a demanda agregada. Como o aumento do gasto no Brasil parece ser permanente (ou persistente), de fato não deveria haver efeito sobre a demanda, só crowding-out. Aliás, como a tributação no Brasil está longe de ser "lump-sum", além do crowding-out temos a queda da oferta.

Um aumento temporário do gasto, porém, deveria ter efeito sobre a demanda corrente (há um aumento da poupança para pagar impostsos futuros correspondente a uma fração do gasto) . Não é o nosso caso.

Ainda bem: com a deterioração dos termos de troca a última coisa que precisamos é de demanda doméstica vitaminada.

Abs

Alex

GilbertoSantiago disse...

Querendo ou não , com pacotes ou sem pacotes, o consumo e o setor privado vão diminuir com qualquer crise por mais especulativa que seja. Só de falar em crise as pessoas pensam mais antes de investir e comprar. Na minha visão a crise talvez chegaria somente aquela "marolinha" mais de tanto terror que a mídia e o próprio governo fizeram questão de promover. Não tem como querer manter o consumo o mesmo . Ai é aquela mesma ladainha. Impostos , demissões , desemprego , violência , e por ai vai...

Anônimo disse...

Adolfo,

quando se critica os planos de recuperação dos governos(os jornais estão cheios com diversas criticas), está se defendendo outro tipo de intervenção ou está se defendendo que o Estado não faça nada?

Daí ficam duas questões: (1) que medidas tomadas teriam impacto mais eficiente para minimizar a crise?

(2) Como exercício mental, o que aconteceria se o governo não tomasse nenhuma medida contra a crise? No curto e no longo prazo, qual seria o custo e o beneficio de não se fazer nada? (empregos, produção, consumo, etc.).

Fica claro que alguns analistas superestimam o sucesso das medidas 'anticiclicas' governamentais. Mas mesmo sendo muio cético, não é possivel que essas ações tenham aglguma capacidade mínima de minimizar a crise no curto prazo? E aqui não estou falando apenas da saúde do sistema econômico, mas também da saúde das pessoas (bem estar no curto prazo).

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