segunda-feira, 30 de novembro de 2009

Heterodoxia, Ortodoxia e a Questão Cambial

Qual é o preço justo de um carro? De maneira geral, os vendedores sempre esperam receber mais por seu produto. Em contrapartida, os compradores gostariam de pagar menos pelas mercadorias de que necessitam. Dessa maneira, economistas evitam falar sobre “preço justo”. Afinal, o que é justo para os vendedores provavelmente difere do justo para os compradores. Em economia o conceito que vale é o preço de mercado. O preço de mercado tem uma característica extremamente interessante: ele é o preço que propicia ganhos a ambos, compradores e vendedores, que aceitam participar de trocas voluntárias.

Economistas discordam em muitas coisas, mas 99% dos economistas concordam com uma questão simples: preços devem ser flexíveis para igualar oferta e demanda. A taxa de câmbio de um país nada mais é do que o preço da moeda estrangeira. Como preço deveria ser flexível, e ter liberdade para variar. Contudo, no Brasil as coisas soam diferentes. Tanto economistas heterodoxos como ortodoxos passaram a defender algum tipo de política cambial. Isto é, algum tipo de controle do governo sobre o mercado cambial. De repente economistas brasileiros começaram a debater sobre o “preço justo” ou “preço correto” do câmbio.

Aos economistas que se dedicam a discutir qual seria o “preço justo” do câmbio tenho apenas uma questão a fazer: por que o valor que você sugere é mais justo que o preço de mercado? Evidentemente, eles não poderão responder a essa pergunta. O motivo é simples: tais economistas argumentam que o “preço justo” é justamente o preço de mercado. Ora se assim o é, então por que não deixamos o próprio mercado determinar a taxa de câmbio?

Um país não pode ter superávits, ou déficits, comerciais por um período extremamente longo de tempo. No Brasil confude-se superavits comerciais com estabilidade dos fundamentos econômicos. A rigor é justamente o contrário: um país com os fundamentos econômicos saudáveis não pode ter superávits comerciais expressivos por longo tempo. Afinal, um dos fundamentos econômicos mais importantes é a flexibilidade dos preços. Com preços flexíveis, grandes superávits comerciaism aumentam a oferta de dólares na economia, e o preço do dólar cai (é justamente o que está acontecendo no Brasil hoje). Contudo, a queda no preço do dólar torna as exportações menos atrativas, e fortalece as importações. Com o aumento das importações, e redução das exportações, haveria um aumento na demanda por dólares e o dólar valorizaria (esse passo não esta ocorrendo no Brasil na magnitude que deveria). Isto é, a uma sequência de superávits comerciais se seguiria uma sequência de déficits comerciais. Tais oscilações seriam cada vez menores, levando eventualmente ao equilíbrio nas contas externas.

Se existe algum problema cambial no Brasil hoje, ele é decorrente de mecanismos que impedem que os consumidores brasileiros importem mais produtos do resto do mundo. Os problemas cambiais de hoje decorrem justamente do fato de que a teoria econômica funciona: superavits comerciais levam a desvalorização do dólar, e consequente aumento das importações. E é o aumento das importações que conduz a valorização subsequente do dólar. Interessante notar que no Brasil nem os ortodoxos e nem os heterodoxos sugerem a abertura comercial como mecanismo para levar ao equilíbrio cambial. Ao invés disso, preferem fórmulas mágicas que dizem que o equilíbrio cambial ser dará com o dólar a 2,30 ou 2,43 reais. Não seria mais fácil liberar o comércio e deixar o próprio mercado dar a resposta?

8 comentários:

Pedro H. Albuquerque disse...

Exato Adolfo, pensar que a taxa de câmbio é um "problema" que deve ser administrado pelo governo é o mesmo que tratar a febre (sintoma) ao invés da infecção (causa). Você acha que os pajés da economia brasileira são capazes de entender isso aí?

Anônimo disse...

Caro,

Esta questão de poder ou não poder ter déficit/superávit comercial por muito tempo nunca me pareceu clara. Desde que me lembre eu compro do Pão de Açúcar e, até onde eu saiba, eles nunca compraram nada de mim, ou seja, tenho um déficit comercial histórico e estrutural (para quem gosta do termo) com o Pão de Açúcar, qual o problema?

Bem, mas você não é um país, alguém pode dizer, isto não faz tanta diferença quanto parece, mas tome o exemplo abaixo. Um país completamente fechado recebe um estrangeiro que investe 100 mil dólares em uma firma, a firma produz localmente alguma coisa que é destinada à exportação. Como o país não faz nenhuma outra transação com o resto do mundo haverá um superávit comercial estrutural, qual o problema? Mais. Suponha que o o dono da firma mande todo seu lucro para o país de origem, além de um superávit comercial o país terá um déficit na balança de rendas... e daí? Qual o problema?

Nenhum. É só pensar em termos reais e toda a confusão cambial desaparece, simples assim.

Quanto a idéia de preço justo, é uma herança dos clássicos. Remete ao conceito de preço natural e valor. Jevons resolveu tudo isto mostrando que valor não existe, o que existe é preço e este depende das circunstâncias.

Abraço,

Roberto

Anônimo disse...

"Interessante notar que no Brasil nem os ortodoxos e nem os heterodoxos sugerem a abertura comercial..."


Esse é o grande problema!

Marcos Paulo

Anônimo disse...

Depois do que o Roberto disse, o melhor a fazer é ficar calado ou aplaudir.

Um abraço,

J. Coelho

Anônimo disse...

"por que o valor que você sugere é mais justo que o preço de mercado?"

Eles respondem que o câmbio que eles sugerem favorece os exportadores que por sua vez ampliam investimentos, geram empregos, gerando crescimento econômico para o Brasil.

Anônimo disse...

Então porque o real sobe de escada e desce de elevador?

Por que as depreciações são tão rápidas e drásticas?

O mundo real é diferente do que você sugere.

nolandman disse...

Não entendo nada de economia, mas entendo que não há "preço abusivo" em uma economia livre. O consumidor que diz se um determinado preço é razoável ou não. O problema é o "livre". No Brasil o governo cria distorções no mercado, ao criar dificuldades na importação. Um Captiva custa 92 mil reais no Brasil (enquanto custa 48 mil) porque alguém está disposto a pagar isso. Mas se o governo permitisse a entrada livre de automóveis, aumentando a concorrência, tenho certeza que nenhum consumidor aceitaria esses valores - normalmente o dobro do valor do carro nos outros países.
Qualquer um que já viajou e viu a qualidade dos carros "populares" em outros países volta muito revoltado.

Anônimo disse...

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