quarta-feira, 31 de março de 2010

A Armadilha do Euro

Em economia, monopólios (existência de um único ofertante de determinado produto) são reconhecidamente uma fonte de ineficiência econômica. Uma empresa monopolista cobra preços maiores, e/ou oferta produtos de pior qualidade, que empresas que são obrigadas a competir entre si. Monopólios são ruins para os consumidores e são ruins para toda sociedade.

Praticamente todos os economistas concordam que monopólios devem ser combatidos e a competição entre empresas estimulada. Dessa maneira, chama a atenção a falta de combate ao monopólio mais óbvio de uma sociedade: a emissão de moeda. A emissão de moeda, reais no caso brasileiro, é um monopólio estatal. Tal monopólio de maneira alguma é o resultado de mercado, pelo contrário, é o resultado direto tanto da existência de leis que proíbem a emissão de moedas privadas como de leis que obrigam os indivíduos a aceitarem a moeda oficial. Sem tais leis o mercado de moedas teria a presença de mais competidores, melhorando a qualidade do dinheiro e a eficiência econômica.

Em vista dos parágrafos acima, observo com espanto o silêncio dos economistas em relação ao euro (moeda adotada pela comunidade européia e que substitui moedas nacionais). O euro é justamente o processo oposto ao recomendado pela teoria econômica. Enquanto a teoria econômica sugere que mais competição é melhor, o movimento em direção ao euro suprime a competição em prol de uma moeda única. Antes do euro, o marco alemão era obrigado a competir com o franco francês, que por sua vez era obrigado a competir por aceitação com outras moedas européias. Após o euro, várias moedas nacionais deixaram de existir (diminuindo assim a competição), aumentando mais ainda a ineficiência associada ao monopólio estatal da emissão de moeda.

O teste de mercado para se julgar o desempenho do euro é simples: basta que o euro seja aceito voluntariamente por indivíduos e empresas. A existência de leis obrigando a aceitação do euro, e impedindo o surgimento de outras moedas, dentro da comunidade européia, é a prova cabal de que a qualidade do euro não é tão boa assim. Afinal, se o euro fosse tão bom não necessitaria de privilégios legais.

O dólar americano também tem privilégios legais similares ao euro. Isto mostra que a qualidade das melhores moedas do mundo (o dólar americano e o euro) ainda é pífia, e a ineficiência econômica associada a elas é grande. Assim, é fundamental trazer ao debate econômico atual a necessidade de se estimular a competição no mercado de emissão de moedas. Infelizmente, parece que os economistas teóricos estão mais interessados em reduzir o número de moedas do que em aumentar a competição nesse setor.

18 comentários:

Anônimo disse...

Monopólio é uma droga, embora como bem o disse Fritz Mchlup, é melhor um produto ser ofertado por um monopólio do que por ninguém. Mas mesmo os monopólios privados têm algum controle, por parte de agências reguladoras. Não são raras as ações de consumidores contra monopólios. Mas, se o monopólio for de natureza estatal, a coisa começa a ficar estranha. Quem já leu em algum jornal sobre alguma ação exitosa de alguma associação de consumidores contra a Petrobrás? No que toca ao Banco Central, confesso que jamais ouvi falar de alguém que tenha contestado suas ações. Por que será?

Pedro H. Albuquerque disse...

O problema Adolfo é que a única alternativa ao euro que é politicamente viável são sistemas monetários operados por estados-nações. Na verdade, pode-se arguir que, a despeito dos problemas de coordenação, o euro é o mais crível arranjo monetário existente, dado que os países europeus que o utilizam abriram mão da ingerência em assuntos monetários. Em nenhum outro país, talvez com a exceção da Suíça, conseguiu-se criar um banco central tão independente. Prova disso é que enquanto os EUA afundam em déficits com a ajuda do Fed, a Europa tem sido obrigada a confrontá-los, o que é bom para a Europa.

Blog do Adolfo disse...

Pedro,

Meu ponto permanece: se o euro é tão bom, então que mal um pouco de concorrência poderia fazer a ele?

Adolfo

Pedro H. Albuquerque disse...

O problema é político: nenhum governo nacional estaria disposto a largar os benefícios e o poder gerados por esse ossinho delicioso chamado banco central.

Falar sobre moeda privada é um exercício acadêmico interessante que eu faço em meus cursos, mas a verdade é que no mundo real não conseguimos privatizar sequer a Petrobrás ou a previdência social.

Blog do Adolfo disse...

Grande Pedro,

Concordamos que o problema é em boa parte político.

Mas note que eu nao sugeri privatizar uma moeda estatal. Sugeri apenas permitir que moedas privadas possam entrar no mercado.

Privatizar a petrobras seria otimo, mas permitir que outras empresas possam competir com a petrobras ja é bom. O mesmo vale para o sistema de previdência.

Adolfo

Breno Lima disse...

Acho o euro uma moeda fantástica, mas tenho para mim que ele em si é uma iniciativa de alto risco, considerando que as características produtivas de cada uma das nações envolvidas é muito divergente e acaba por pressionar as demandas populacionais, somado a isso acho que o processo de internacionalização do capital acirrado pela internet junto ao processo de sua criação tornaram as coisas mais difíceis. Quanto ao aspecto do monopólio, para mim talvez seja uma prova de a idéia do monopólio em si não seja ruím, principalmente se pudéssemos mensurar as vantagens de bem-estar social que os Estados Nacionais agregaram ao estilo de vida das suas populações. Acho que nisso o Euro falha, ele é só moeda e não tem em si o processo de construção de uma identidade.

Pedro H. Albuquerque disse...

OK, mas na realidade isto já ocorre, especialmente nos países mais avançados. Na Suíça, por exemplo, você pode perfeitamente portar dólares, libras ou euros, e trocar por francos suíços na casa de câmbio da esquina quando quiser. Isso para não falar de quase-moedas, dinheiro eletrônico, pontos de lealdade, crédito privado formal e informal, etc. Ou seja, já existe de fato um nível substancial de concorrência monetária nos países ricos mais abertos e livres.

Breno Lima disse...

Entendo a sua colocação Pedro, mas quando me refiro ao processo de construção de um Estado Nacional, talvez o Euro em si só não baste. O processo de unificação de países como a Itália, Alemanha e Inglaterra teve o sistema monetário como uma fator preponderante, mas também suas religiões e cultura. Na verdade a pergunta que gostaria de fazer é se poderíamos construir um Estado Europeu a partir do referencial monetário comum. Napoleão tentou unificar a Europa sob a égide francesa e não conseguiu e no momento, o que parece é que os países foram rebaixados a condição de mercados, ignorando hábitos de consumo e outros problemas locais. O caráter hegemônico do Dólar para os Estados Unidos é o tipo de fenômeno a que me refiro e vai além das trocas cambiais. A suspensão das barreiras de fronteiras e monetária pode não estar sendo bem assimilada pelas populações envolvidas, tento entender se isto seria um fenômeno passageiro ou de longo prazo? Inviabilizaria ou não?

Anônimo disse...

Qual é a relação entre a existência de moeda privada e maior eficiência da economia? Para mim esse ponto não está nem um pouco claro. Você poderia desenvolver melhor o seu argumento?

Rbali disse...

Tratando-se de um único país, não será também que se trata de um monopólio natural? Poderia ser que seja mais eficiente para a sociedade ter uma única instituição com a tarefa de emitir a moeda do que duas concorrendo para fazê-lo, com um maior custo social? Por exemplo, o que aconteceria se voltássemos ao passado de hiperinflação e tivesse sido permitido utilizar dólar legalmente, acaso essa moeda não teria substituído à moeda nacional, como de fato o fez em outros países onde sim foi permitido legalmente. Ou seja, poderíamos chegar ao caso de monopólio a partir das forças do mercado. Mas claramente, por motivos políticos sempre haverá interessados em manter uma moeda fraca.

Blog do Adolfo disse...

Caro Anônimo,

Monopólios são exemplos de ineficiência econômica. Assim, permitir a concorrência entre moedas naturalmente melhora a eficiência desse mercado.

Quanto ao fato de uma única moeda ser um monopólio natural, bem se isso é verdade então qual o mal em permitir a concorrência entre moedas?

Adolfo

Pedro disse...

Perguntas:

Os bancos "criam" moeda ao se alvancarem para emprestar dinheiro. Ao vincular os sistemas de pagamentos eletronicos com as contas correntes via cartões de débito não estaríamos em um ambiente de "concorrência de moeda"? Pelo menos na sua função de meio de pagamento? Pois há pelo menos algumas redes de cartões: maestro, visa electron, redeshop, amex, etc..

Ao permitir a concorrência de moedas diferentes, não estragaria ou prejudicaria a função da moeda como unidade de valor? Não teriamos aumento no custo de "menu"?


Sds
Pedro Griese
Anatel

O ETERNO TRADE-OFF disse...

Penso eu q a longo prazo essa medida seria eficiente,pois sobrariam apenas as moedas mais confiaveis (algum tipo de seleção natural), teriamos as moedas a,b,c d e f por exemplo. Será q a transição naum seria dolorosa demais? como todas o problemas d informações assimetricas e risco moral??

Pedro H. Albuquerque disse...

Oi Breno, não quero fazer o papel de defensor do euro, que afinal evidentemente enfrenta problemas criados pelas rigidezes institucionais dos estados europeus, porém acho que tanto nos EUA quanto no Brasil muitos economistas têm cometido dois erros em relação ao euro: (1) subestimam o grau de integração das economias europeias e (2) subestimam o sacrifício político feito pelos estados europeus em troca do sucesso do euro, sacrifício por exemplo que a administração Obama não deseja fazer aqui nos EUA.
Além disso, devemos nos lembrar de que o ECB é em grande parte uma instituição derivada do Bundesbank, que até a criação do Euro tinha muito melhor reputação como autoridade monetária que o Fed. O Fed é na verdade uma instituição esclerótica, com deficiências institucionais muito graves.

Pedro H. Albuquerque disse...

Oops, erro meu, quis dizer "esclerosada" e não "esclerótica".

Breno Lima disse...

Oi Pedro! Gosto da sua idéia sobre o Fed, acho que a força do dólar americano também está ligada a outras razões que fogem ao tema. O que me parece é que o euro no momento passa por apuros e a Economia tem encontrado soluções inovadoras para isso, talvez isso sim é novo, poderia dizer que o Banco Central Alemão aumentou sua hegemonia sobre o euro?

Anônimo disse...

E aquela história da Lei de Greshamde, segundo a qual a moeda ruim expulsa a moeda boa da circulação? Não se aplicaria nesse caso, ou seja, as moeda privadas "ruins" tenderiam a expulsar o Euro?

Roberto

railon disse...

Adolfo, o que você acha da criação de uma nova moeda de reserva pela China conforme disse o governador do BC daquele país, Zhu Xiaochuan, e que provavelmente terá o apoio da Rússia, que já se anuncia favorável a medida, na reunião do G-20?

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