terça-feira, 9 de março de 2010

"Outra vitória como essa e estaremos todos perdidos" (Pirro)

Existem vitórias que são verdadeiras derrotas. O caso recente onde a OMC autoriza o Brasil a retaliar comercialmente os Estados Unidos é prova disso. Os EUA dão um subsídio aos produtores de algodão que a Organização Mundial do Comércio (OMC) considerou incorreto, autorizando assim o Brasil a retaliar as importações dos EUA em um valor aproximado de U$ 800 milhões.

A racionale dos retaliadores brasileiros é a seguinte: punindo as exportações americanas, o lucro de determinadas empresas americanas irá cair. Sendo assim, essas empresas pressionarão o governo americano para que este reduza o subsídio dos produtores de algodão. No papel a idéia faz algum sentido. Mas, esse sentido logo desaparece quando lembramos que o governo americano não tem autorização para retirar o subsídio dos produtores de algodão. Essa autorização só pode ser dada pelo Congresso Americano (ao contrário do Brasil, lá o presidente não tem direito a editar Medidas Provisórias). Também devemos lembrar que as exportações americanas para o Brasil representam menos de 3% das exportações totais dos EUA, ou seja, o impacto da retaliação brasileira tem boa chance de fazer mais barulho do que estrago. Além disso, acredito que os americanos ainda dispõe de um certo orgulho e também fazem considerações dos impactos de longo prazo de suas negociações. Isto é, se eles cederem a uma ameaça tão pequena como essa do Brasil, como seus diplomatas poderão ter credibilidade para sustentar posições que são, determinadas vezes, bem mais controvertidas?

Mesmo que a idéia do governo brasileiro funcione, mesmo que amanhã o governo americano volte atrás e suspenda o subsídio do algodão, a lição que fica desse episódio é o total desrespeito do governo brasileiro com seus cidadãos. Por curiosidade, será que o governo lembrou que ao se aumentar as alíquotas de importação o preço dos produtos iria subir? Será que ele levou em conta que aumentar o imposto de importação de remédios torna a vida do doente mais difícil? Será que alguém se lembrou de que o aumento do imposto de importação sobre gêneros alimentícios torna a vida do pobre mais difícil? Claro que todos no governo sabiam disso. Eles apenas agiram como sempre agem: desrespeitando os pobres e doentes de nosso pais em prol de um grupo específico de interesse. Afinal, são os fabricantes nacionais que irão se beneficiar de mais essa barreira a competição. Com menos concorrentes, os fabricantes nacionais irão vender mais. Mas se irão vender mais, isso só aconteceu porque o governo brasileiro deu um jeito de tirar da competição os produtos importados. Com menos competição o preço sobe, e os consumidores brasileiros pagam a conta de mais essa política irresponsável do governo brasileiro.

Outro detalhe: como o governo brasileiro aumentou também o custo de importação de diversos insumos da economia, devemos esperar uma queda na produtividade de nossa economia. Por exemplo, ao se aumentar o imposto de importação do sêmen, importa-se menos sêmen e prejudica-se a competitividade brasileira no longo prazo, fazendo com que exportemos menos carne e que paguemos mais para ter carne na mesa.

Quando te falarem que o mercado concentra renda, lembre-se que são as medidas de políticas públicas implementadas por governos populares os maiores instrumentos de transferência de renda dos pobres para os ricos. Essa medida de restringir a importação de determinados produtos americanos é apenas mais uma política pública que irá favorecer um grupo seleto de empresários a custa de toda a sociedade. Desnecessário dizer que a FIESP apóia a medida.

8 comentários:

Anônimo disse...

Possíveis efeitos do subsídio americano:

a) O subsídio barateia o algodão o suficiente para tirar as empresas brasileiras do mercado. Neste caso podemos importar algodão mais barato do que seriamos capaz de produzir por aqui, ganharíamos todos que consumimos algodão ou derivados de algodão. Perderiam os contribuintes americanos, pagando por nosso consumo barato, e os produtores brasileiros (desde que os custos para mudar de setor sejam maiores que os ganhos com o algodão barato).

b) Os produtores brasileiros são produtivos o suficiente para ficar no mercado mesmo com o subsídio americano. Mais uma vez ganham os consumidores brasileiros (pelo menos não perdem, a depender se o ganho de produtividade brasileiro possa ser relacionado com o subsídio americano).

Os grandes beneficiários com o fim dos subsídios são os contribuintes americanos, os prejudicados são os consumidores do resto do mundo (inclusive os brasileiros). Não temos nada para comemorar...

Abraço,

Roberto

Chutando a Lata disse...

Mesmo que , por considerações estratégicas, a retaliação fosse válida (concordo com seu ponto de vista que nao é), teriam que justificar por que esse e não aquele produto a ir para o sacrificio. Além disso, o mal da politica americana já foi reparado internamente com subsididos escancarados ao setor prejudicado( o número exato deixo pros especialistas)

Anônimo disse...

Você adora os Estados Unidos e odeia o Brasil. Por que não se muda pra terra do Tio San?

Anônimo disse...

Voce adora o Brasil e odeia os Estados Unidos. Por que não se muda para a áfrica.

Anônimo disse...

ô liberalzão.
Quem está descumprindo as regras do jogo são os EUA. Não é você que aprecia tanto o rule of law? Porque você não faz um post sobre o descumprimento americano, ao invés de ficar crititando o governo brasileiro?

Anônimo disse...

Concordo com Roberto (comentário acima):"não temos nada para comemorar".
Vale lembrar que o agricultor brasileiro não planta algodão porque ele acha legal, sim porque é interes$ante para ele, quando não for mais ele muda para soja, milho, etc. E, esses caras vivem chorando. No fim quem paga a conta são os brasileiros "comuns".
Também, não vejo estratégia nessa retaliação.

Abs,
Gilberto.

Ana disse...

É muito complexo um governo buscar todas as formas de negociação para manter a diplomacia com Governo Americano e nós consumidores, trabalhadores, pagadores de impostos (abusivos por sinal) pagarmos por isso. Ver o aumento no preço de vários produtos extremamente necessários, principalmente para a população mais carente e não poder fazer nada, não ter outra opção que não seja repassar de fato o aumento final para o consumidor. Agora, se o Governo Americano não tem coragem ou autonomia para retirar o subsídio aos seus produtores, foi o nosso Governo quem encaminhou uma solicitação de intervenção junto a OMC. A troco de quê? Beneficiando quem? Primeiro o algodão, depois o trigo, o próximo não sabemos. Mas, com certeza não fomos nós, os consumidores que ganhamos com essa negociação.

Anônimo disse...

Ô anônimo bobão: quem pode mandar nos americanos? Sua vó.

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