domingo, 2 de maio de 2010

A África e as Brigas de Classes

Conversando com uma menina do terceiro ano B descobri que sua classe era inimiga dos alunos do terceiro ano A. Intrigado perguntei de onde provinha essa inimizade, ao que ela me retrucou: “Eles se acham o máximo, por isso quando jogamos com eles temos que jogar duro”. Argumentei que ela e seus colegas estão na turma B apenas por uma questão aleatória, e que no próximo ano eles poderiam ser amigos de vários colegas considerados hoje inimigos. Não creio que eu a tenha convencido, mas ela é apenas uma criança. Com o tempo ela entenderá meu argumento.

Divagando sozinho refleti que boa parte da humanidade ainda pensa como uma garotinha do terceiro ano B, considerando a turma A seu inimigo. O fato é que durante nosso crescimento temos a turma A como inimiga; passados alguns anos nosso inimigo passa a ser o colégio rival; depois evoluímos para o conceito de cidade, e nosso rival passa a ser a cidade vizinha; depois será o estado vizinho; e finalmente atingiremos o conceito de nação, quando consideraremos outros países como nossos inimigos. Interessante que até o momento não conseguimos superar essa abstração, que é o conceito de nação. Tal como achamos a menina do terceiro ano B inocente, ao considerar a turma A como inimiga, um observador do espaço poderia nos fazer o mesmo questinaonamento que eu fiz a menina: por que ter como inimigo alguém cujo único crime é não estar na mesma sala que você? Exatamente por que você considera seu inimigo alguém que apenas nasceu num país diferente do seu? Afinal, o país de nascimento é tão aleatório quanto a sala de aula onde se estuda.

A verdade é que o conceito de nação é extremamente complexo e se leva muito tempo para se chegar a essa unidade. Talvez, com o tempo, consigamos superar o conceito de nação e evoluirmos para o conceito de continente; e depois para o de planeta. Note que tal conceito não implica em unidade política, isso não implica em vivermos todos sob o mesmo governo, mas sim que não odiamos estrangeiros apenas por terem nascido em outro país.

Refletindo sobre a África notei que tal continente ainda não evoluiu para o conceito de país. Na maior parte da África, por algum motivo, a unidade que importa é a tribo. Existe a tribo A e a tribo B, e não importa que elas habitem o mesmo país: elas são inimigas. Assim, tão logo uma tribo chegue ao poder, o principal objetivo é exterminar seus rivais. Surgindo ai a razão dos frequentes genocídios que ocorrem no continente africano. Neste ponto devemos perguntar: por que os africanos não incorporaram o conceito de país? TALVEZ a colonização européia tenha levado o conceito de país muito rápido ao povo africano, mas esta é apenas uma de muitas hipóteses.

Minha última reflexão foi sobre a importância de mobilidade: enquanto os alunos do terceiro ano B puderem se tranferir de turma – enquanto moradores de uma cidade puderem se mudar para outra; enquanto moradores de um estado puderem mudar para outro – teremos sempre um saudável intercâmbio, que mantém o nível de atrito restrito a grupos pequenos. Mas tão logo essa mobilidade, também conhecida por migração, seja restrita, pequenas disputas se transformam em feridas difíceis de serem cicatrizadas. Esse é o benefício invisível da migração, ela não apenas traz benefícios econômicos. A migração traz consigo benefícios morais.

11 comentários:

Leonardo Monasterio disse...

Adolfo,
Concordo em termos gerais, mas soh dois pontos.
- O tribalismo eh atavico. Quando nao existem diferencas relevantes, os seres humanos as inventam. MEsmo nos paises desenvolvidos. VEja a violencia entre torcidas de futebol, partidos politicos, catolicos X protestantes, e entre os economistas....

- A Africa, mesmo a sub-sahariana, chegou a ter imperios e e nacoes (fronteiras bem determinadas e tudo mais). O trafico de escravos + colonizacao esculhambou tudo. Veja as coisas do Nathan Nunn http://www.economics.harvard.edu/faculty/nunn/papers_nunn .

Camila disse...

Professor, Penso que não é preciso cruzar o oceano para encontrar noções destorcidas de nação!
O Brasil pode,em muitos aspectos,ser exemplo dessa falta de união nacional.
É comum ouvir pessoas de outras regiões questionar de forma agressiva e preconceituosa costumes de outra localidade.
Já cheguei ao ponto de ter de explicar a um sulista que ele pode caminhar com tranquilidade pelas ruas de Belém do Pára, que não correrá riscos de "esbarrar" com um jacaré!
Mesmo com anos de evolução economica e social, o Brasil ainda não disseminou sua cultura tão rica e heterogênia a todos os seus patriotas!

Augusto Freitas disse...

"É possível contar um monte de mentiras dizendo só a verdade".

http://www.youtube.com/watch?v=Wr6CNeC1eRU

Espetacular!

Anônimo disse...

Concordo com você, mas acho que apesar de o país de nascimento ser aleatório, a cultura a qual a criança será submetida não é. Então o problema complica um pouco. Talvez o "aceitável" em uma cultura (mulheres de saia) não seja para outras (como os xiitas), e choque de cultura podem causar conflitos.

Anônimo disse...

É meio bizarro, mas nossa programação biológica nos leva a uma corrida por status. Estamos sempre querendo ser melhores que os outros. Por isso concordo com o comentário do Leo Manastério. Mas é compreendendo esse viés que podemos utilizar a consciência para evitar, pelo menos, as consequências mais drásticas da tribalização, como as guerras.

A globalização, com o fluxo de pessoas, realmente nos ajuda entender que no fundo somos todos iguais.

abraços, Zamba

Anônimo disse...

Bem...

eu acho que é culpa do capitalismo! (homenagem às mulas).

O que será que acha o "docinho de coco"?

abs

José Carneiro

Breno Lima disse...

Who let`s the dog`s out? who? who? who?

Breno Lima disse...

A verdade é que não há como discutir o Brasil sem falar de Africa. E como se estudássemos uma colônia de albinos!

A Africa precisa simplesmente ser entendida e compreendida e os Brasileiros sabem muito pouco sobre ela. Precisam saber que existem da mesma forma que várias culturas européias, existem várias culturas africanas, da mesma forma que existiu o Império Romano, existiu a Civilização Suméria, coisas que vai além da Copa do Mundo e dos indicadores sociais funestros.

A Africa da mesma forma que todos os continentes foi vítima e vitimada por seus habitantes e visitantes, sendo talvez o que mais tenha ficado para trás, onde a chaga do tráfico negreiro que enriqueceu gerações de famílias em todos os lugares do mundo.

Não sou conhecedor da verdade africana, mas a julgar pelo radical grego, "Afro", de Afrodite deve ser um lugar muito bonito.

Anônimo disse...

Quanta bobagem...

Anônimo disse...

Acho que ess e intercambio de sair da turma A para a B pode ser atingido viajando muito.

Nilo disse...

Zé, o seu comentário foi muito enfadonho!

Google+ Followers

Ocorreu um erro neste gadget

Follow by Email