terça-feira, 8 de junho de 2010

Quantidade x Qualidade

A decisão entre produzir mais ou produzir melhor é uma das mais difíceis dentro da sociedade. Recentemente, o novo Qualis (ranking de qualidade das revistas científicas da CAPES) aponta diretamente na importância da quantidade em detrimento da qualidade. Essa estratégia tem sido duramente criticada por diversos pesquisadores. Contudo, em minha opinião, dentro da área de Economia a CAPES acertou.

O que é melhor para um pesquisador: publicar um único artigo a cada 10 anos na American Economic Review (AER) (a melhor revista acadêmica do mundo na área de economia); ou publicar um artigo por ano na Revista Brasileira de Economia (RBE) (a melhor revista nacional de economia)? Acredito que a grande maioria dos pesquisadores optará por um único artigo, a cada 10 anos, na AER. O prestígio, a reputação, o status e a importância de uma publicação na AER superam 10 artigos publicados na RBE. Mas e para a sociedade brasileira, o que seria melhor? Acredito que 10 artigos na RBE, em 10 anos, seriam melhores do que um único artigo na AER no mesmo período de tempo.

Acontece que para se publicar na AER você precisa apresentar uma técnica nova, uma idéia realmente inovadora e, além disso, precisa convencer os editores que estudos sobre o Brasil são do interesse geral. Já para se publicar na RBE você pode perfeitamente usar uma técnica recente (desenvolvida nos últimos anos) e aplicá-la a problemas nacionais. Dada a escassez enorme de estudos sobre os problemas brasileiros, me parece que precisamos nesse momento muito mais de quantidade (com qualidade de técnicas recentes) do que de qualidade (de técnicas inéditas no mundo). Saúde, educação, previdência, finanças públicas, metas de inflação, entre outros temas importantíssimos podem se beneficiar das novas metodologias (publicadas em anos recentes em revistas de ponta internacionais) para melhorar nossa compreensão dos problemas nacionais.

Sendo assim, acredito que a CAPES (pelo menos na área de economia) acertou em sua estratégia de beneficiar a quantidade em detrimento da qualidade. Claro que tenho discordâncias da CAPES, mas essas se dão no campo tático: acredito que determinadas revistas no QUALIS tiveram propositalmente seu valor inflado, o que me parece um erro sério. Mas é um erro tático, e não de estratégia.

Por fim, devemos lembrar que a área de economia compete por recursos na CAPES com cursos como Administração. Como a área de Administração classifica várias revistas como sendo de excelência (quando pelos padrões da economia elas seriam mal ranqueadas), isso implica que os pesquisadores de Administração têm muitas publicações em revistas de excelência. Se os pesquisadores de Economia mantiverem um QUALIS mais restrito, isso implica em menos bolsas e menos recursos públicos para a área de Economia, e mais recursos para a área de Administração (pois pelos critérios estes seriam mais produtivos). Esse é um problema grave e que não deve ser desprezado.

A escolha entre quantidade e qualidade não é óbvia, e cada caso deve ser analisado separadamente. Durante a Segunda Guerra Mundial os alemães produziram o melhor tanque de guerra do mundo, o TIGER. Já os soviéticos produziram o bom T-34. Um T-34 não tinha chances contra um TIGER. Contudo, era tão caro e demorado produzir um TIGER que quando estes chegavam ao campo de batalha tinham que se defrontar com uma inferioridade numérica grande, que os colocavam em severa desvantagem, em relação aos mais baratos, e mais fáceis de montar, T-34. O T-34 é um caso clássico do bom superando o excelente. Mas repito: cada caso é um caso. Talvez no futuro seja melhor um QUALIS que privilegie a qualidade em detrimento da quantidade, mas no presente acredito que a CAPES está estrategicamente correta em sua decisão de beneficiar a quantidade.

4 comentários:

Anônimo disse...

Adolfo,
Publicar na AER eh para poucos, portanto mesmo com os incentivos corretos, uma minoria conseguiria chegar la, mas a imensa maioria continuaria publicando na RBE. Com os incentivos errados, a imensa maioria e tambem a minoria publicaria na RBE, mas ninguem publicaria na AER. Portanto, a sua ideia nao gera um "pareto improvement".

Anônimo disse...

algum brasileiro residente no Brasil e sem co-autor estrangeiro já publicou na AER?

Anônimo disse...

^ este é mais um motivo para valorizar publicações internacionais: aumento de parcerias com pesquisadores estrangeiros.

Anônimo disse...

Rodrigo Soares, por exemplo.

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