quarta-feira, 18 de agosto de 2010

Pagar pra que?

Durante a crise de 2007-09 sempre fui um crítico das políticas de combate a crise adotadas pelo governo americano. Em minha opinião o governo deveria deixar os bancos que fizeram maus investimentos falirem. Trilhões de dólares do contribuinte americano já foram gastos, e a crise por lá só tem piorado. O que poucas pessoas entendem é que quando um banco quebra, isso não quer dizer que os recursos desaparecem. Quer dizer apenas que o banco é obrigado a vender parte de seus ativos por um preço menor, isso implica que os depositantes perdem parte do dinheiro. Quem confiou nesses bancos perde. Contudo, quando o governo intervém nesse mercado a perda não desapareceu, os bancos continuam falidos. A diferença é que agora todos os contribuintes pagam para que sejam mantidos os recursos dos depositantes do banco. A interferência do governo não apaga o prejuízo, apenas o transfere (com os consequentes problemas de coordenação e incentivos que isso gera).

No momento, o número de americanos com prestações hipotecárias atrasadas tem aumentado. Muitos notaram que simplesmente não vale mais a pena continuar pagando pela casa. Outros estão apostando que o governo americano vai ajudá-los. Isto é, tem condição de pagar mas apostam que se não pagarem não serão punidos, pelo contrário, serão beneficiados por uma ajuda do governo. Interessante notar que alguns bancos americanos estão gostando desse jogo. Isto é, eles não executam (não tomam a casa) do devedor. Parece que tais bancos querem estimular ainda mais o não pagamento. Objetivo: estão de olho em novas transferências do governo. Ou seja, parece que o devedor não quer pagar e o credor também não quer receber. É evidente que um sistema desse tipo não pode funcionar. O pior é que olhando para a história recente o comportamento desses agentes faz sentido: apostam que o governo irá ajudar mais quem dever mais. Logo, o melhor mesmo é não pagar (ou não cobrar os atrasados no caso dos bancos).

Quando muitas pessoas, por muito tempo, cometem erros graves, existe um preço a se pagar. A interferência do governo não diminui esse preço, apenas transfere a responsabilidade do pagamento dos devedores para os contribuintes. Pior do que isso, essa transferência de responsabilidades distorce os incentivos econômicos, tornando o ajuste final muito mais caro e doloroso para a sociedade.

4 comentários:

Urban Demographics disse...

Adolfo,

acompanho sua opinião sobre a crise americana há um tempo e vejo bons pontos. Mas, voce ja parou para pensar que se o governo tivesse deixado aqueles bancos falirem (alguns entre mais sólidos, inclusive), isso poderia gera uma falta de confiança dos consumidores no sistema financeiro? e que talvez essa desconfiança pudesse se alastrar para uma descredibilidade geral no sistema financeiro norte-americano?

D. disse...

A área bancária é uma área cheia de complicações, mas acho que, no mínimo, as punições deveriam ter sido consideravelmente maiores do que foram.

Existe um trade off enorme. Deixar os bancos quebrarem, incorrer nos custos e evitar o risco moral (risco excessivo) no futuro (tese de Bagehot) ou salvar os bancos, gerar uma enorme perda de eficiência, risco moral e custo de bem estar para não incorrer de custos grandes no curto prazo.

É muito difícil algum político escolher a segunda opção. Quando tudo melhorar, já acabou o mandato dele e será outro o lareado como o grande salvador da economia.

Não é tão simples essa escolha, mesmo para um liberal. Cada vez que salvam um banco, fica mais custoso deixa-lo quebrar. Como os americanos vem ajudando o sistema bancário a muito tempo e osistema bancário estava se concentrando com o tempo, os custos seriam bem elevados.

Só fazendo a conta mesmo. Moralmente, não tenho dúvida que os bancos deveriam quebrar mas o efeito de não salvar os bancos poderia ser sério.

Ginno disse...

Pior é escutar professor da UCB dando aula de Macro I dizendo que o mercado não pode ser livre, pois entrou em crise e precisou do governo para salva-lo. Quem teve aula de introdução a macro com o Adolfo pulou no pescoço dele rsrsrsrsrs

Anônimo disse...

então adolfo? que acha?

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