segunda-feira, 10 de janeiro de 2011

A Igreja Católica, a moderna Teoria Econômica e o atraso no Pensamento Econômico

Um tema recorrente nesse blog refere-se ao fato de que nada garante que nossa sociedade melhore no futuro. Os últimos 300 anos da civilização ocidental foram marcados por evolução constante no nosso padrão de vida (com curtos períodos de retrocesso, notadamente os períodos de guerra). Isso criou a falsa sensação de que esse padrão de vida, nossas conquistas morais tais como a liberdade, e a evolução científica estão garantidos. Doce ilusão.

Vamos olhar especificamente o caso da teoria econômica: Jean Buridan (1300-58), que foi reitor da Universidade de Paris, demonstrou que o dinheiro surgiu livre e espontaneamente no mercado (e não por decreto governamental). Contribuição essa que parece ter sido quase que completamente esquecida nesses tempos de moeda estatal. Nicolau Oresme (1325-82), bispo de Lisieux foi o primeiro a explicitar aquilo que viria a ser conhecido como “Lei de Gresham”. Contribuição essa que parece ter sido esquecida nesses tempos onde se tentam fixar as taxas de câmbio. Oresme foi mais longe ainda ao sugerir que o governo nunca deveria intervir no sistema monetário. Oresme também ressaltou que a desvalorição da moeda afeta negativamente a economia, pois afeta o comércio, provoca inflação e enriquece o governo à custa do povo. Lição essa que parece nunca ter sido aprendida pelo nosso Ministro da Fazenda.

O teólogo escolástico Martín de Azpilcueta (1493-1586) sugeriu claramente a relação entre escassez de dinheiro e preço das mercadorias. Em palavras, ele deixou claro que a inflação é um fenômeno monetário. Já o cardeal Thomas de Vio (1468-1534) não só defendia o comércio do ponto de vista moral como também expôs os princípios da Teoria de Expectativas Racionais quase 500 anos antes de Robert Lucas (prêmio nobel de economia). O frade franciscano Pierre de Jean Olivi (1248-98) argumentava que o “preço justo” de um bem provinha de um valor subjetivo que os indivíduos davam a esse bem (e não diretamente de seu custo de produção) Ou seja, o preço de um bem era consequência da interação entre oferta e demanda.

Dito tudo isso, ressalto que por vezes o conhecimento econômico foi simplesmente perdido. Por exemplo, 500 anos após os trabalhos do frade Olivi o conhecimento econômico ia na direção errada: atribuía o valor de um bem à teoria do valor trabalho (e não à idéia de valor subjetivo do frade). Esse erro monumental nos levou às idéias marxistas e ao atraso daí resultante. Mas estranho mesmo é a Igreja Católica, que foi o berço das idéias liberais em economia, ter se tornado nas últimas duas décadas do século XX abertamente marxista. Será que os padres católicos esqueceram suas obras?

24 comentários:

Anônimo disse...

A respeito da teoria do valor, ou do absurdo desta teoria eu destaco a seguinte passagem de Jevons:

"A student of Economics has no hope of ever being clear and correct in his ideas of the science if he thinks of value as at all a thing or an object, or even as anything which lies in a thing or object. Persons are thus led to speak of such a nonentity as intrinsic value. There are, doubtless, qualities inherent in such a substance as gold or iron which influence its value; but the word Value, so far as it can be correctly used, merely expresses the circumstance of its exchanging in a certain ratio for some other substance."

Abraço,

Roberto

Sérgio Ricardo disse...

Adolfo,

Excelente artigo.
Eu acredito que a Igreja mudou e recorreu às formas de controle na busca de manter os fiéis que possuem e na procura daquelas pessoas que se encontram a margem social e sem perspectiva de vida e objetivos. Hoje a igreja busca o caminho da alienação para manter seus seguidores fiéis, principalmente a católica e protestante, devido às novas correntes de ideias, muitas lançadas até pela própria ciência, que nos últimos anos travou batalhas contra o Vaticano, principalmente.

Devido à falta de inovação, o controle é a melhor saída na cabeça de líderes que, ao invés de utilizarem o poder da inteligência racional, buscam os caminhos contrários, focando mais em fatores sociais emotivos para tolher a liberdade privada. Hoje um texto bíblico é visto pela ótica do “fraternalismo” e demonizam o dinheiro. Hoje a igreja não reconhece a relação de trocas econômicas liberais como uma relação de valor, vendendo a ideia de que quem ganha dinheiro gera um prejuízo social.

Abraço!
Sérgio Ricardo

Luciano disse...

Adolfo, acho que isso mostra que a economia ainda é pouco evoluida e, mesmo o que você coloca como conhecimento que ser perdeu por um bom tempo não é, necessariamente, verdade... Abraços

samuel disse...

Adolfo, a igreja (católica) mudou para uma posição neo-marxista antes de Marx. A condenação do lucro, do sucesso, foram bandeiras do catolicismo nos anos que precederam as revoluções religiosas do sec. XVI, calvinismo, luteranismo e outras. Estes movimentos sim é que deram base moral para o lucro e o capitalismo, pensamento que fez a riqueza da Holanda e da Inglaterra e outros. CORRIJA-ME SE DIVERGIR.

Anônimo disse...

Adolfo, acredito que o motivo de terem sido os clérigos a abordarem primeiramente estes assuntos se dá unicamente ao fato de serem eles, no séc . citado, a elite intelectual.
O papel da igreja, para mim, não era aquele e sim o que vem sendo desempenhado nos dias atuais (exceto o que deve ser deixado de lado), agora se vc julga que a premissa de ajudar o próximo fizer dela marxista... olha que quem disse isso foi vc (pelo menos foi o q eu entendi). Provavelmente é pq o liberalismo não prega a ajuda, mesmo qdo vcs dizem que haveria aqueles que ajudariam os mais necessitados, mas dizer que quem ajuda é marxista é negar a última sentença. E isso foi escrito por vc e não por mim. Agora se não foi por isso que vc se referiu a ela como marxista, whatever... rs

Blog do Adolfo disse...

Caro anonimo,

Faca um favor a voce mesmo e aprenda a ler. Serio, nao falo isso por maldade... voce vera como sua vida ira mudar pra melhor.

Adolfo

Luciano disse...

Caro Samuel, a pesquisa econômica vem apontando que a questão da religião não é importante para explicar diferenciais de desenvolvimento entre os países. Veja vários artigos de Acemoglu que apontam que, uma vez controlado para diferenças institucionais, a religião não é relevante.
Adolfo, só para deixar mais claro meu ponto de vista, a relação positiva entre preços e moeda não indica, necessariamente, uma relação de causalidade, por exemplo. É só ver o caso da inflação inercial no Brasil, onde a inflação estimulava a criação de moeda. Abraços, Luciano

Luciano disse...

Adolfo, eu vi seu comentário sobre inflação inercial, mas discordo. Acho que ela existe devido a mecanismos de correção que jogam a inflação do passado para o futuro e não pelo aumento da oferta de moeda, sendo esta apenas uma conseqüência.

Anônimo disse...

Adolfo,

Você está ficando fera nas respostas à idiotia reinante, além de estar començando a escrever bem.

Congratulations!

Chesterton disse...

Sim, esqueceram de defender todo um legado.

Chutando a Lata disse...

Fiz um pequeno manifesto em defesa da regularização do direito de propriedade de nossas favelas em favor dos favelados. Incrível. Quase ninguém se comprometeu com a proposta e muitos a ignoraram. Não entendo bem a razão, porém pressinto que interesses mundanos se impõem. Tomando como referência a valorização da favela do alemão após o seu apaziguamento mediático, é fácil ver que interesses mesquinhos rapidamente se espalharam a rodo, impregnando-se nas mentes gestoras de nossos políticos ou aprendizes de. De qualquer sorte, insisto na proposta e cobro posições (como um chato a encher ou quem sabe esvaziar o saco): Adolfo (e toda a turma do Blog) você é a favor da regularização do direito de propriedade em favor e benefício dos favelados cariocas?
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Por que defendo a regularização do direito de propriedade para as favelas cariocas, com a entrega do registro do terreno aos atuais moradores das favelas:
Definição de direito de propriedade dá o incentivo correto para a reordenação urbana ou rural. Quando você é o dono do seu quintal, você cuida. Simples, não? Claro, que o objetivo final é o término da arbitrariedade e do estancamento ao descumprimento escancarado das leis que é a fonte primeira da bagunça urbana. Defendo o direito de propriedade aos favelados, porque simplesmente não há como expulsar os invasores e menos ainda o faria para garantir especulação imobiliária reles. Então assumo minha omissão e quero repará-la procurando uma solução definitiva para o problema. Com a definição do direito de propriedade aos atuais moradores resolveria o problema e melhoria o meu e o seu bem estar. Melhor ainda. Os favelados teriam um substancial acréscimo em sua riqueza pessoal. Com o tempo e creio muito rapidamente os terrenos se valorizariam e toda a cidade ganharia com isso. Claro, tem que haver um projeto de urbanização para que as mudanças que certamente poderiam ocorrer encontrem os parâmetros adequados de urbanização e edificação. Creio que até existem projetos dessa natureza aos montes. O sucesso dessa proposta só poderia ocorrer se depois de feita a regularização do direito de propriedade o governo atuasse firmemente no combate às invasões. Invadiu, o governo derruba e pune. A essência da proposta é que ela não envolve gastos do governo, exceto se, por vontade política, queira implantar projetos de natureza pública, como escolas, hospitais, etc. Uma das coisas boas dessa proposta é que o parâmetro para a indenização seria fácil de estabelecer. Claro, detalhes outros deverão existir. Mas o essencial não precisa de retoques. Direito de propriedade para o atual morador da favela. Nesta proposta, clara e direta, não há espaço para oportunistas. Obviamente, você poderá não gostar da proposta. Faça a sua.
Marco Bittencourt
www.Chutandoalata.blogspot

Blog do Adolfo disse...

Grande Marcao,

Eu já havia lido seu post sobre direitos de propriedade.

Sim, eu concordo com seus argumentos. Sim, eu concordo com sua proposta.

Grande abraco,
Adolfo

Anônimo disse...

Grande Marcão,

Belo ponto que você levantou. O Hernando de Soto (acho que num livro chamado Mistério do Capital) faz o conta do impacto do não reconhecimento deste tipo de propriedade na América Latina, é brutal. Se bem me lembro ele concluí que o não reconhecimento deste capital é um fator preponderante para baixo desenvolvimento da região.

Abraço,

Roberto

Chutando a Lata disse...

Valeu Adolfo,você foi o segundo a se pronunciar sobre o tema. O Primeiro foi o Garotinho que também concorda com a proposta. Mas a turma do Afroregae, cidadeinteira e viva ou salve a favela e etc não se deram nem ao trabalho de responder meus emails diretos e objetivos. Claro, não somos donos da verdade, queremos o debate. Pelo que pude notar, essa turma acima que se nega a se posicionar deve ter lá seus motivo$$ para ficar na moita. Fazer o quê?

samuel disse...

Adolfo, os movimentos protestantes sim, é que deram base moral para o lucro e o capitalismo, pensamento que fez a riqueza da Holanda e da Inglaterra e outros. Estes movimentos foram um ponto de mudança positivo para a civilização Ocidental.
Solicito que V se defina a respeito desse ponto, importante para posicionar seus comentaristas. A referencia que Luciano 12 de janeiro de 2011 03:06 fez sobre o assunto não tem nada a ver com o ponto que coloco:
“A IMPORTÂNCIA DOS MOVIMENTOS RELIGIOSOS PROTESTANTES DO SEC XVI como base da liberdade econômica e do CAPITALISMO”.

Blog do Adolfo disse...

Caro Samuel,

Esse post nao tem o objetivo de denegrir nenhuma religião. Meu ponto é simples: a Igreja Católica deu contribuições importantes para o liberalismo econômico e tais contribuições foram esquecidas ou perdidas por muito tempo.

Adolfo

Chutando a Lata disse...

Fazendo uma justa correção: o blog cidadeinteira respondeu. Melhor ainda. Apoiou a proposta!

Chesterton disse...

Não só para o liberalismo econômico:

http://1.bp.blogspot.com/_JKeT28vLBoU/TGKbuO6Ua3I/AAAAAAAAA8s/yLATCrrpuao/s400/thomaswood.jpg

Anônimo disse...

Eh muito fácil apoiar essas idéias quando um país se sustenta através de guerra e a igreja através de bem, soh porcaria.

Chutando a Lata disse...

Valeu Roberto pela contribuição.

Anônimo disse...

A igreja católica condena o Marxismo!

Marxismo está correlacionado com o materialismo dialético. Assim, é notavelmente contrário à idéia de um Deus existente. Sem contar a idéia de que para os comunas há a possibilidade de um "messianismo" na terra, contrário aos princípios cristãos.

Os movimentos híbridos, como por exemplo a teoria da libertação são amplamente criticados pela Igreja. Isso sem contar os notáveis esforços efetuados pelo Papa João Paulo II contra os países comunistas, sendo que ele mesmo sentiu na pele os efeitos da ditadura comunista na Polônia.

Antes de meter o pau no que não sabe, procura estudar sobre. Senão fica nisso... Um blog, informal.
Quer fazer afirmações críticas, com respaldo, usa a ciência; e no caso de uma instituição com enlaces na religião, o seus documentos, como o Catecismo Católico.

Anônimo disse...

Nesse Blog só tem uma corja de puxa saco. Vão tudo a merda seus bostas!

Karl Marx

craudio disse...

Caro professor Adolfo,

Que absurdo esses comentários ridículos a respeito da Igreja Católica, por parte dos leitores.

A Igreja não aderiu ao Marxismo e como o professor Marco Aurélio disse: "A Igreja CONDENA o marxismo".

O que alguns padres (principalmente alguns bem sem-vergonha que passeiam pela UCB...) fazem, misturando catolicismo com Teologia da Libertação é um absurdo completo e anti-católico.

O Sérgio desconhece por completo a doutrina católica que nunca "demonizou" o dinheiro. O que a Igreja condena é que você coloque o dinheiro como um fim e não como um meio.

Deus é o fim, dinheiro é apenas um meio.

A Igreja nunca se preocupou com clientela, querido Sérgio, tanto é que nas crises do:

- Arianismo;
- Islamismo;
- Reforma Protestante
- Catarismo

e a agora o terrível modernismo, a Igreja não mudou sua doutrina.

Essa história de colocar a culpa na Igreja Católica por todos os males do mundo é válida até os 14 anos de idade, depois disso, é absurdo e um atentado à evidência culpar quem criou a civilização ocidental por tudo.

Anônimo disse...

Caro Adolfo, a Igreja não aderiu em momento algum ao Marxismo. Acontece que uma heresia chamada teologia da libertação se difundiu entre o clero brasileiro na década de 80 especialmente.

O papa João Paulo II até mesmo manteve conversas com Hayek pouco antes de escrever a encíclica Centesimus Annus. Aliás, caso queira conhecer o pensamento da Igreja em matéria de doutrina social recomendo que leia esta encíclica como, com todo respeito, ponto de partida.

Alvaro

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