terça-feira, 15 de fevereiro de 2011

Duas Perguntas

Abaixo segue meu segundo artigo no Ordem Livre.

Muito antes dos monetaristas, a escola austríaca já alertava para o fato de que a inflação é um fenômeno monetário. Ciente dos perigos do monopólio da emissão de moeda pelo governo, Hayek, entre outros, sempre foi um defensor da existência de moedas privadas.

Novos estudos tem questionado a visão de que a inflação é um fenômeno monetário. Recentemente, um texto de Paul Krugman no New York Times apontava para a inexistência de uma relação entre oferta de moeda e índice de preços. No último volume da American Economic Review (a mais prestigiada revista de economia do mundo), um texto de Thomas Sargent e Paolo Surico mostra que para o período de 1875 a 2005 não existe uma relação positiva entre moeda e nível de preços para a maior parte do período analisado. Pior do que isso, entre 1985-2005, teríamos uma relação de longo prazo negativa entre oferta de moeda e inflação. (De um ponto de vista mais técnico devemos lembrar que nesse modelo não existem trocas, o que certamente tem impacto no resultado encontrado pelos autores).

Vamos realizar então um exercício teórico: assumiremos que a escola austríaca e os monetaristas estão errados. Isto é, vamos assumir que não existe relação entre oferta de moeda e índice de preços. Em palavras, vamos assumir que quando o governo aumenta a oferta de moeda a inflação não muda. Tenho então duas perguntas a fazer:

1) Por que existe dívida pública? Ora, se a oferta de moeda não é inflacionária então exatamamente por que o governo emite títulos para pagar suas contas? Seria muito mais simples e barato emitir moeda. Em palavras, qual é o problema de se emitir moeda? Tanto para a escola austríaca, como para a grande maioria das correntes de pensamento econômico emitir moeda é ruim pois gera inflação. Mas, se emitir moeda não gera inflação, então exatamente qual é o problema de se emitir moeda?

2) Suponha que ocorreu um aumento na oferta de laranjas e tudo o mais permaneceu constante. O resultado óbvio disso é que o preço relativo da laranja irá cair. Suponha agora que o mesmo se deu com a oferta de maçãs, novamente o resultado disso é que o preço relativo das maçãs irá cair. Numa economia com N bens, isso será verdade para N-1 bens. Contudo, de acordo com nossa hipótese inicial (de que não há relação entre a oferta de moeda e inflação), para o enésimo bem isso será falso. Para o enésimo bem, que é a moeda, teríamos que um aumento na oferta de moeda não diminuiria seu preço relativo (pois se diminuísse teríamos inflação, mas isso é contra nossa hipótese inicial). Minha pergunta é simples: por que isso só vale para a moeda? Temos então uma economia onde o incremento na oferta de um bem diminui seu preço, isso valeria para todos os bens da economia exceto para o caso do bem moeda. Por que?

Mas vamos fazer uma hipótese adicional: suponha agora que a moeda é neutra, ou seja, ela não afeta variáveis reais da economia (hipótese amplamente aceita no main-stream, mas rejeitada pela escola austríaca). Conjugando nossa hipótese original com nossa hipótese adicional, temos agora que nossos problemas acabaram!!! Como a moeda é neutra sua expansão não será capaz de afetar as decisões do setor privado da economia, e como o aumento em sua oferta não gera inflação, temos o melhor dos mundos: basta o governo aumentar seus gastos e financiá-los imprimindo moeda. É evidente que isso não pode estar certo.

16 comentários:

Anônimo disse...

Galego disse:

"Quanto ao artigo do Adolfo (é um sacrilégio colocá-lo como comentário logo nesse tópico), uma breve consideração.

O artigo pressupõe duas coisas:

1 - o mainstream não acredita na TQM.

2 - o mainstream acredita na neutralidade da moeda.

2 implica em não 1. Logo, o texto não passa de suposições em cima de um conjunto vazio."

By: Mão Visivel

http://www.blogger.com/comment.g?blogID=166497424090410357&postID=5656107251938238272&isPopup=true

Anônimo disse...

Os que "mataram e enterraram" a TQM estão a anos luz de praticar ciência. Acho que devem ler o trabalho de Williamson-Wrigth, na terceira edição do Handbook of Monetary Economics. Terão uma senhora supresa. É um texto longo, mas muito bom de ler. Acho que haverá choro e ranger de dentes.

Abraços,

José Coelho

Blog do Adolfo disse...

Pois eh.... o galego fala fala fala, mas nao responde o obvio:

1) Dado que a oferta de moeda não tem relacao com a inflacao, entao qual o problema de se emitir moeda?

Tenho notado que alguns sites preferem criticar a minha pessoa ao inves de responder a pergunta. Nao seria mais facil e honesto responder a pergunta?

Adolfo

Anônimo disse...

incompetente para tratar do assunto, a mim parece que rola uma diferença de interpretação.

posso estar gotescamente enganado, mas eu não entendi que houve rejeição a premissa de que a inflação seja um fenômeno monetário. pelo menos não qd se refere ao post do blog do Alex, que creio eu, tenha motivado este texto. mesmo pq - e aqui pode ser apenas mais um engano - já vi o Schwartsman - titular do espaço - dar esse tratamento [fenômeno monetário sempre]a inflação em outras oportunidades.

dado o q vai abaixo, colado do post sobre TQM, é que a questão é tão monetária que exige política monetária adequada para que não haja descontrole.

"a TQM só é válida quando a política monetária não responde agressivamente a pressões inflacionárias."


e daqui eu saio de fininho...

;^/

Anônimo disse...

A chave do segredo é a expressão ceteris paribus. A inflação é um fenômeno monetário "ceteris paribus".

Anônimo disse...

Sem aliviar a Rainha da Inglaterra versao Santander, o psudo "O" Anonimo atacou de forma bastante explicita, e com apoio da Rainha, a hipotese de inflacao como fenomeno predominantemente monetario.

Ele foi claro e enfatico quando disse isso. Posteriormente fez piada com um texto que afirmava que governos que imprimem moeda nao tem restricao orcamentaria... em seguida soltou um texto do Sargent que afirmava nao existir relacao entre inflacao e expansao monetaria para uma economia sem trocas... faltou entao o link entre o que faz o governo que imprime moeda ter restricao orcamentaria.

Agora serio... Alex e "O" sao uma piada... um se caga de falar que e (meio gay, mas mostro o meu depois dele mostrar o dele - a surpresa sera boa), o outro publica quase nada para investidores e quando publica metade do mercado (ao menos que tem mais que MBA pela York) faz piada com o texto. No fim, quem manda no banco e produz algo importante e mesmo a Tatiana (versao Santander do primeiro ministro ingles).

Ou seja, a contribuicao do Alex para ciencia e para o mercado e nula... nao fosse a cagada dele ter ocupado um cargo no BC do Brasil no primeiro mandato do Lula (que ele odeia, deixa claro isso pra qualquer um em apenas um almoco), seria mais um PhD frustrado, coisa que de fato ele e... por isso tanta atencao para o blog e pouca para o trabalho.

No blog, um bando de analfabeto que anda de carro popular brasileiro bajula a Rainha, que fica com seu ego cheio. Nos debates cara a cara, sem chance de fazer piada e tentar desqualificar o adversario, ou nos relatorios de mercado, toda a falta de capacidade fica clara. Ler um relatorio dele e como ler um copia e cola de um livro de maco basica com alguma coisa de financas.

Um cara que nao produz conhecimento algum e nem contribui de fato com a gestao do banco onde trabalha so poderia fazer sucesso na Selva e ser Rainha num banco Espanhol.

Abs

"CTO" Anonimo

PS: So postanto pois de ferias (no meu banco se trabalha, mas cada um recebe o que e seu) e a chuva atrapalhou o ski.

victor disse...

Aumentos da oferta monetária podem não afetar a inflação, na verdade o que realmente importa não são as mudanças que ocorrem em M e sim as expectativas com relação as mudanças futuras de M.
o que está acontecendo nos EUA atualmente é que apesar de ter ocorrido um aumento significante de M, enquanto as expectativas dos agentes eram de que o FED não iria combater de forma agressiva a crise as expectativas inflacionárias não aumentaram, só agora que houve os QEs (que sinalizou uma política mais agressiva por parte do FED) que as expectativas inflacionárias começaram a aumentar.
Victor

Anônimo disse...

Meus caros,
A discussão é outra. Os pontos básicos levantandos são:
1- É óbvio que a inflação é um fenômeno monetário.
2- Entretanto, não se pode pensar separadamente na política monetária. Para se entender porque determinada política monetária está sendo adotada, deve-se entender qual política fiscal está sendo adotada (ou, dito de outro modo, a política monetária deve influenciar uma realidade claramente determinada pela política fiscal). Daí a interrelação entre as duas políticas.
3- Apesar de ser um fenômeno monetário, as relações entre as políticas fiscal, monetária e inflação (juntamente com as outras variáveis macroeconômicas) são complexas, não lineares e muitas vezes não-monotônicas no curto prazo (daí que testes empíricos válidos são bastante complexos).
4- A TQM é válida? É. Porém, pensar que estamos sempre no pleno emprego (Q constante) ou que a velocidade da moeda não mude (V constante) ou mesmo que o próprio conceito de moeda não mude (inexistência de inovações financeiras ou monetárias) é bobagem. Isto explica a superioridade do regime de metas de inflação sobre algum regime de meta de crescimento de algum agregado monetário.
5 - É isto. A discussão é muito mais complexa. No caso brasileiro atual, é importante mostrar que a inflação têm sua origem no descontrole dos gastos públicos, o que gera efeitos complexos e indesejáveis sobre a taxa de câmbio e a taxa de juros. É possível combater a inflação somente com a política monetária (com todos os efeitos adversos associados a isto como aumento do endividamento público, aumento das taxas de juros, diminuição do investimento privado e do crescimento, etc), mas o ideal, do ponto de vista social, é que a política fiscal também ajude.
7- Do ponto de vista da economia real, o governo está comendo demais. Para resolver este excesso de demanda, ou o país importa mais (através de valorização do câmbio - têm efeitos de longo prazo uma vez que temos que financiar isto), ou diminui o consumo privado (através do aumento da taxa de juros - têm efeitos de longo prazo uma vez que aumenta o endividamento público e diminui os investimentos privados ou através de inflação). A diminuição do consumo público, por sua vez, diminuiria a pressão sobre o câmbio (diminuindo a necessidade de financiamento externo), sobre os juros (permitindo o aumento dos investimentos) e sobre a inflação.
Saudações

Anônimo disse...

Adolfo,

Defendi duas teses sobre economia monetária. A primeira (minha tese de mestrado) versa sobre a influência da inflação sobre os preços relativos. O resultado, nada surpreenedente, é que a inflação antecipada não causa flutuação dos preços relativos. Isto é, a moeda (antecipada) é neutra. Isto não quer dizer que os movimentos não antecipados na oferta de moeda não afetem o produto real. Logo, a moeda não é superneutra, como quer o bom e velho monetarismo a la Friedman. Na minha tese de doutorado - um pouco menos robusta, na minha opinião, do que minha tese de mestrado - embora o tema não seja exatamente o mesmo, o resultado da neutralidade da moeda emerge. No entanto, depois do meu doutorado, tenho resistido a estudar economia monetária, já que esta tem sido um sem fim de arranjos teóricos em que os resultados que emergem são resultado (desculpe-me o linguajar circular) de hipóteses ad hoc: moeda na função de utilidade, cash-in-advance e, pior ainda, curva de Phillips acelerada pelas expecativas. Como bem o disse o nosso amigo Roberto Ellery, isso não responde a questão principal: qual a razão de indivíduos racionais desejarem reter moeda? A isso, nenhum desses modelos novo-keynesianos tão endeusados por nosso banco central tenta responder. Hoje, no entanto, faz sentido voltar a estudar economia monetária. É que, como se diz por aí, há um novo jogo sendo jogado, cujo nome é New Monetarism. Ali, as noções de equilíbrio que emergem, são dignas de quem pratica ciência.

Um abraço,

José Coelho

Anônimo disse...

opa... eu, apesar de desconhecido, não sou anônimo.

o comentário "16 de fevereiro de 2011 19:59", equivocado ou não, é meu.

iconoclasta

Anônimo disse...

José Coelho, esse New Monetarism é não-walrasiano? Pergunto isso porque certa feita vi o A. de Araujo falando justamente sobre o desejo de individuos racionais reterem moeda não caber nos modelos Walrasianos. Segundo ele quem colocasse moeda em eq. geral ganhava o nobel no outro dia (hhehehe) . .

Anônimo disse...

Anônimo,

O Novo Monetarismo é fortemente micro-fundamentado. Ali, o equilíbrio monetário é Pareto superior ao equilíbrio sem moeda. Se os autores (na verdade um grupo de autores, entre eles Neil Wallace) ganharão Nobel, não sei. Mas eles o merecem muito mais do que um montão de outros que, claramente, o ganharam sem merecer. Se você achar conveniente, a terceira edição do Handbook of Monetary Economics traz uma síntese da discussão.

José Coelho

Anônimo disse...

Kyiotaky e Wright, AER, 1993. O modelo deles naõ tem leiloeiro e, por este aspecto, pode ser considerado não-walrasiano. Entretanto é um modelo de equilíbrio no sentido de mercado equilibrado e otimização de utilidade. O artigo que o Coelho falou (valeu pela dica, véi) faz um resumo destes modelos, tem um outro (creio que no FED Minneapolis) que trata da questão metodológica.

Em termos gerais o ponto central do New Monetarism é que para se modelar moeda é preciso uma economia com heterogenidade de bens e sem a presença de um leiloeiro. Desta forma modelos de agente representativo e/ou modelos de equilíbrio com leiloeiro não se prestam a tratar de fenômenos monetários. O motivo é simples, para que moeda seja necessária é preciso que ocorram torcas.

Na ausência de trocas moeda é mais um ativo. Truques como liquidez, risco e etc são engraçadinhos mas não resolvem nada, continua sendo uma demanda por reserva de valor e não por meio de troca. Neste sentido que avalio a pergunta do Adolfo, vista como reserva de valor a única diferença relevante entre moeda e dívida pública é o pagamento de juros (nem mesmo liquidez). Por que não trocar um pelo outro já que moeda não implica em pagamento de juros pelo governo?

A resposta salta aos olhos mas não cabe nos modelos de agente representativo (a não ser que alguém proponha um modelo onde moeda e títulos geram utilidade mas de forma diferente... tudo é possível!!!). Por isto tanta gente fala que é óbvio mas ninguém mostra a razão de ser óbvio. Batem na pergunta mas não apresentam a resposta. Não mostram tal modelo onde a possibilidade de relação negativa entre preços e moeda convive pacificamente com a possibilidade de monetizar a dívida pública sem grandes custos inflacionários.

Abraço,

Roberto

P.S. O Prescott já tinha documentado correlação negativa entre moeda e preços para os EUA e o Kehoe para outros países. Eu e o Victor encontramos este resultado para o Brasil (Economia, 2006). Nada de novo no front...

Anônimo disse...

"O" Anonimo disse...

“1) Dado que a oferta de moeda não tem relacao com a inflacao, entao qual o problema de se emitir moeda?

Tenho notado que alguns sites preferem criticar a minha pessoa ao inves de responder a pergunta. Nao seria mais facil e honesto responder a pergunta?”

A resposta é que financiar déficits públicos com emissão de moeda representaria uma mudança de regime de política monetária e muito provavelmente geraria as tais condições a que Lucas alude em seu artigo de 1980 em que emissão de moeda gera inflação e a TQM é válida. Nunca se esqueça da "Lucas critique"!

O problema, Adolfo, é que sua contribuição neste debate não vai além do slogan.

O próprio Lucas, em seu artigo de 1980, durante o auge da moda de expectativas racionais deixa bem claro que ele acredita que a Teoria Quantitativa da Moeda é válida dentro de contextos específicos – ponto aliás confirmado pelo artigo do Sargent e Surico 30 anos depois.

Para clarificar:

[1] É uma tolice dizer que moeda não tem relação com inflação. Isto seria uma tolice tão tola quanto dizer que toda emissão de moeda gera inflação ou que toda inflação é gerada por emissão de moeda (pode ser o contrário, por exemplo se moeda for endógena). Isso é básico.

[2] Moeda não é neutra sempre. Leia o Nobel Lecture do Lucas no JPE (metade dos anos 90). Até o David Hume no século XVIII sabia que moeda não é neutra sempre!

[3] Nunca esqueça dos dados... Vide o que está acontecendo com inflação nos EUA apesar da expansão maciça nos meios de pagamento desde 2008 --- alguém em sã consciência pode ter alguma dúvida que a TQM não é uma lei geral?

Anônimo disse...

Galego disse...
"1) Dado que a oferta de moeda não tem relacao com a inflacao, entao qual o problema de se emitir moeda?"

Reformule melhor sua pergunta, pois a premissa já nasce falsa.

E aproveita para escrever o que você acha que o mainstrem defende, ou seja, como seria o modelo com neutralidade de moeda e, ao mesmo tempo, sem validade da teoria quantitativa... estou curioso em conhecer esse mecanismo esquisitão que o mainstream defenderia.

Anônimo disse...

Primeiro foi o tal de Daniel que o Roberto pôs pra correr no estilo Tropa de elite. Agora vem outro picareta chamado galego - como sempre no anonimato. Imbecil, leia direito os artigos da turma monetarista (a velha guarda, porque a nova é toda keynesiana). Pede pra sair também o galego!
Francis
Obs: Não perca seu tempo retrucando, fique lá no mão visivel, blog que dá espaço para anônimos de todos os tipos (perversos,naturalmente, comandados pelo tal de "O").

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