segunda-feira, 24 de outubro de 2011

A Europa do Cerrado, escrito por Rodrigo M. Pereira

Texto escrito por Rodrigo M. Pereira

A revista The Economist elaborou recentemente um mapa do Brasil, onde compara os estados brasileiros a países, considerando o PIB, o PIB per capita, e a população. Em termos de PIB, temos no Brasil uma Polônia (estado de São Paulo), uma Cingapura (RJ), ou uma Swazilândia (Roraima). Fica bem claro que a distribuição regional do PIB brasileiro ainda é incrivelmente desigual, com o PIB de São Paulo sendo quase três vezes o PIB do Rio de Janeiro, o segundo estado mais rico da federação, e dezenas e até centenas de vezes maior que o PIB dos estados mais pobres.

Em termos de população temos dentro do Brasil por exemplo uma Argentina (estado de São Paulo), um Paraguai (Santa Catarina), ou uma Mongólia (Distrito Federal). A heterogeneidade na distribuição da produção parcialmente se explica pela heterogeneidade na distribuição da população sobre o território. Parcialmente, porque o resto da diferença vem de uma enorme desigualdade da renda per-capita. De fato, o que mais impressiona no mapa da The Economist são os dados de PIB per capita. Temos no Brasil uma Tonga (Maranhão, com US$3.327 per capita por ano), e uma Geórgia (Piauí, com US$2.929), mas também uma Rússia (RJ, US$11.786), ou uma Polônia (SP, US$13.331). As desigualdades regionais são naturais e existem em qualquer economia, mas no Brasil as diferenças são gritantes. Nos Estados Unidos, por exemplo, os 11 estados do sul do país que formaram a confederação tiveram suas economias devastadas pela guerra civil. Historicamente sempre foram mais pobres, mas houve um processo de convergência. Hoje, a renda média familiar nesses 11 estados corresponde a 90% da renda média familiar do país como um todo. No Brasil isso ainda está longe de acontecer.

Então eis que se destaca o incrível Distrito Federal, com US$ 25.062, uma mini-Europa dentro do terceiro mundo. Comparável a uma nação desenvolvida como Portugal, com renda-per-capita de US$23.844. Inexplicável, certo? Um enigma. Como uma unidade da federação que não possuiu parque industrial, não possui vasta produção agrícola pode ter indivíduos com uma renda média de quase duas vezes a renda média do estado mais rico da federação? A chave do enigma tem duas palavras: Governo Federal. A verdade é que o governo no Brasil é um Robin Hood ao contrário. Ele tira dos pobres para dar para aos ricos. Ele tem uma mão pesada que agarra 40% de tudo que é produzido em Tonga, na Geórgia e demais recantos desafortunados do país, inundando nossa mini-Europa do cerrado com dinheiro farto. Esse dinheiro vai remunerar um funcionalismo público, sobretudo um legislativo e um judiciário, com rendas vergonhosamente desalinhadas com a realidade do país. É também esse dinheiro que faz com que os melhores engenheiros, médicos e economistas do país abandonem suas ocupações na iniciativa privada pra virar improdutivos funcionários públicos.

Mas uma parte desses 40% do PIB brasileiro que o Estado toma vai alimentar os inúmeros esquemas de corrupção e desperdício de dinheiro público que ocorrem em Brasília. É o nosso Karma. Cada país tem o seu. Nos Estados Unidos, por exemplo, o Karma de desperdício de dinheiro público são os gastos militares. A diferença, contudo, é que gastos militares são por definição, gastos. Eles dinamizam a economia, geram empregos, produção, via o que se conhece como multiplicador keynesiano. No Brasil, o dinheiro que alimenta a corrupção não é gasto, em geral é entesourado em contas na Suíça. Seu efeito sobre a prosperidade do país é nulo. Na melhor das hipóteses, ele dinamiza as economias dos países que exportam os Porsches, Ferraris, Camaros e outras maravilhas tecnológicas que despontam cada vez mais na paisagem de nossa Europa do Cerrado.

5 comentários:

Anônimo disse...

Êpa! Os efeitos da corrupção sobre a prosperidade de um país, longe de serem neutros, são negativos. Fortemente negativos. É só olhar os incentivos da corrupção.

Anônimo disse...

"É também esse dinheiro que faz com que os melhores engenheiros, médicos e economistas do país abandonem suas ocupações na iniciativa privada pra virar improdutivos funcionários públicos."

Oi Adolfo. Sou originário de São Paulo, mas moro em Brasília há 5 anos. Infelizmente tenho que concordar com sua afirmação. Sou funcionário público (do Executivo). Minha namorada trabalha na iniciativa privada. De um lado, a pasmaceira do serviço público. De outro, a falta de qualidade dos serviços em Brasília por conta da inexistência de mão de obra. É uma Europa, sim. Mas, apenas no tocante à renda dos servidores.

Anônimo disse...

Concordo com quase tudo, só achei que o escritor podia ser um pouco mais imparcial, é fato que o funcionário público ganha muito, mas muito mais do que deveria, e que a grande maioria é improdutivo, mas para mim tem que haver sim, mas com uma reforma tanto no salário quanto no excesso de cargos inúteis, e se os melhores vão para lá é porque obviamente o emprego publico atrai mais quem estuda e se esforça por ser mais seguro e bem remunerado do que o privado, ou seja, tem o lado bom de manter uma pressão para que as empresas privadas ofereçam melhores propostas e condições de empregos, tem que parar com esse complexo de inferioridade em relação aos EUA, eles são bom exemplo para muita coisa, mas a gente tem que procurar nosso caminho também, eles são maus exemplos em muitos casos também, gastar dinheiro no setor militar está ligado com guerras, que gera dinheiro, mas de forma anti-ética,é melhor que o nosso caso? Somente do ponto de vista economico, porque não passa de babaquiçe para mim, e há certas coisas que se tem que olhar para todo o lado.E por ultimo o principal problema do Brasil é a corrupção, o que empaca o país, o setor publico improdutivo e mal feito, ineficiente e corrupto, sem isso um país com o potencial e riqueza do Brasil fatalmente seria um país desenvolvido, ou viria a ser.

Anônimo disse...

Funcionário publico já tem a vantagem de ser estável e ter direito a várias regalias e recompensas, não precisa desses saláros altos, só esse fato já atrai muita gente, já passou da época que as pessoas olhavam só o valor do contra-cheque a procura de um emprego, é gastação de dinheiro burra e inútil.

Anônimo disse...

O unico orgão publico que eu imagino que seja sério é o Banco Central e alguns ministérios, de resto é uma zona, cheio de aspone e funcionários não totalmente desnecessários, que nem eles mesmo sabem o que exerçem.
Pareçe piada mas conheço na prática gente assim.

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