terça-feira, 20 de dezembro de 2011

Os anos 70 estão de volta...*

Abaixo segue meu artigo publicado ontem no Ordem Livre.

Na primeira metade dos anos 70, logo após o primeiro choque do petróleo, o mundo desacelerava seu ritmo de crescimento econômico. Enquanto isso, o Brasil ia na direção oposta. Fortes gastos públicos, estímulo governamental ao endividamento das empresas, e slogans do tipo “Ninguém segura este país” eram a marca registrada desse período. As consequências desse tipo de política econômica foram vistas nas duas décadas seguintes, quando o PIB per capita brasileiro cresceu, em média, insignificantes 1% ao ano.

Quatro décadas se passaram e parece que não aprendemos a lição. Vários países economicamente importantes estão em crise. O que o bom senso nos sugere? Sugere que é hora de gastar menos, poupar mais, fazer ajustes nas contas públicas e, acima de tudo, termos prudência e não iniciarmos grandes projetos que demandem excessivos recursos públicos. Ou seja, o governo brasileiro deveria fazer exatamente o contrário do que está fazendo.

Infelizmente, parece que o espírito da década de 70 está de volta ao Brasil. O governo está se aproveitando da queda da taxa de juros internacional, que abre espaço para quedas na taxa de juros doméstica, não para ajustar as contas públicas, mas sim para gastar mais dinheiro ainda. Cedo ou tarde o mundo sairá da crise, e quando isso acontecer a primeira preocupação dos Estados Unidos e da Europa será aumentar a taxa de juros para combater a inflação nesses países. Isto fará com que o Brasil seja obrigado a aumentar a taxa de juros doméstica, e com as contas públicas bagunçadas isso será um desastre do ponto de vista econômico e social.

O governo brasileiro segue hoje o mesmo tipo de política econômica que adotou na década de 70. O desastre subsequente, das décadas de 80 e 90, parece não ter sido o suficiente para nos ensinar a lição. Uma pena.

*: Este texto foi fruto de várias conversas com meu amigo, e professor da UnB, Roberto Ellery Jr.

8 comentários:

JGould disse...

Qual título Adolfo (grande molestador do cinéfilo SB kkkk!)daria para o filme com o seguinte cast? Delfinato e a Força Sindical de Armani da Av. Paulista como diz o SB; BNDES e campeãs nacionais; tolerância á inflação; aumento de gastos; obras de utilidade duvidosa e "last but not least", câmbio depreciado.

Blog do Adolfo disse...

JGould,

Acredito que o titulo desse filme seria "Um Sonho impossivel" ou "Santos tem chances contra o Barcelona..."

Breno Lima disse...

Quando assisto aos documentários daqueles tempos, principalmente aqueles com a participação do Sr Delfim Neto fico na angústia de saber que a mentalidade sobre sobre nossa economia parece ser a mesma. A LRF parece até ter caído sem ter pegado (risos), não que não seja aplicada, assim como as demais leis de finanças, mas parece que a sociedade ainda não enxerga nos mecanismos de melhoria da qualidade do gasto um aliado para o seu desenvolvimento socioeconômico, mas apenas como uma ferramenta de gestão dos recursos públicos. Como é difícil DESENVOLVER uma cultura voltada para otimização/maximização dos recursos.

Billy the Kid disse...

Não posso concordar mais com o Adolfo e o Roberto. Como estrangeiro, vejo o brasileiro muito pouco crítico com o que está acontecendo da forma em que os gestores públicos estão conduzindo a economia. Acho que isso de se olhar muito o umbrigo próprio é muito caraterístico dos povos latinos. Os espanhóis sabemos muito disso.

Anônimo disse...

Meus caros,
Eu também achava que existia um cheiro por demais forte da década de 70 no ar. Mas os fatos me mostraram que eu estava completamente errado.
A melhor campanha de um time campeão de Libertadores que já ocorreu foi relacionado ao título de 76 do CRUZEIRÃO (sempre atrapalhando suas previsões, hein Adolfo?). Em 13 jogos, ganhou 11, empatou 1 e perdeu 1 (um jogo da final, para o River Plate). Fez 46 gols (média de 3,5 gols por partida) e levou 17 (média de 1,3 gols por partida). Era uma máquina com Nelinho, Joãozinho, Raul, Piazza, Perfumo, Roberto Batata, Jairzinho, Palhinha entre outros. Com a campanha inicial do CRUZEIRÃO na Libertadores este ano, pensei: "É a década de 70, mesmo!!!!!". Estava redondamente enganado (mas NÃO FOMOS REBAIXADOS!!!!).
Por fim, agora falando sério. O quadro econômico está muito diferente de 2008. Esta expansão que observamos nos últimos anos foi devido basicamente a expansão dos gastos públicos e aumento brutal do endividamento das famílias (com financiamento internacional). Nossas contas internacionais ficaram fortemente negativas. Mais que grandes projetos, tal qual ocorreu na década de 70, estes tem viabilidade econômica muito duvidosa (ou seja, são caríssimos e seu retorno é muito baixo). Uma crise internacional que diminua o fluxo de recursos para o país, infelizmente, será extremamente parecida com o que ocorreu no início da década de 80. Infelizmente, É TUDO MUITO IGUAL!!!! Desculpem este comentário longo, mas tenho duas perguntas:
1- Porque estes heterodoxos que não sabem teoria mas supostamente sabem história não vêem isto?
2- Em 99, pela primeira vez na história, começamos a fazer o que os livros-texto dizem ser a boa política econômica (ajuste fiscal, câmbio flexível e BC independente com metas de inflação). Este conjunto de políticas permitiu ao país sair incólume de uma crise internacional gravíssima em 2008. Então, o que fizemos? Jogamos fora esta política e voltamos a ser o Brasilzão. A pergunta que temos que responder é por que isto ocorreu? De onde vêm esta esquizofrenia louca? O pior é que a crise chegando (ainda não chegou), não vamos voltar ao tripé anterior. A crise vai ser desculpa para o governo aprofundar o que está fazendo agora!!!! É muito doido.
Saudações

"O" Anonimo disse...

Um minutinho... O câmbio teria que chegar a 3,0 para que alguém possa falar em câmbio depreciado. Nos níveis atuais, o BRL está mega-apreciado.

JGould disse...

"Nos níveis atuais, o BRL está mega-apreciado." Perfeito, mas o sonho do margarina e dos "paulinhos da fiesp" é ter um "overshooting", talvez, só não saibam como!

Anônimo disse...

Como não conheço o valor de equilíbrio do câmbio, não afirmo se está ou não mega-apreciado.

De toda forma o câmbio não é central, nem mesmo fundamental, em minha análise. Meu ponto é que o governo não está avaliando de forma adequada o custo do investimento e está investindo muito mal e, talvez pior, a partir da avaliação errada está induzindo investimentos privados. Enquanto o BNDES faz política industrial financiando frigoríficos o governo investe em obras de infra-estrutura que muito provavelmente nunca ficarão prontas. A semelhança com os anos 70 é assustadora!

Enquanto isto no Setor Bancário Sul... o Banco Central já trabalha com inflação acima da meta em 2012.

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