terça-feira, 13 de março de 2012

Os crucifixos e a servidão humana

Abaixo segue meu texto publicado no Ordem Livre.

Decisão recente do Conselho da Magistratura, do Tribunal de Justiça do Rio Grande do Sul, pede que sejam retirados os crucifixos, e outros símbolos religiosos, das repartições de justiça no estado. O argumento é que o estado é laico, logo não admite interferências religiosas em seus assuntos.

Infelizmente o Conselho de Magistratura do TJ-RS não leu “Servidão Humana” de Somerset Maugham. No livro, o personagem principal, que foi criado sob uma rígida disciplina religiosa, decide se afastar da religião. Contudo, após uma série de questões filosóficas, o personagem se dá conta que apesar de abandonar a religião os valores religiosos continuam nele: não matar, não roubar, respeitar ao próximo, etc. Então ele conclui que talvez a religião seja apenas como a pílula de um remédio: seu objetivo é facilitar a absorção de determinados valores pelo indivíduo.

Diga-se o que quiser sobre o cristianismo, mas desde o seu começo ele prega valores que foram universalmente adotados nas sociedades ocidentais, e que se confundem com o que costumamos classificar como virtudes. Querer separar a influência cristã do pensamento, e filosofia, ocidental é tarefa impraticável. Tal como o personagem de Somerset Maugham alguns podem até professar seu ateísmo, mas continuam sob a influência dos valores cristãos sob os quais foram educados. E quais são esses valores? Esses valores são exatamente os mesmos que costumamos relacionar as virtudes.

O cristianismo se difundiu no mundo não pela força da espada, mas sim pela força de seus princípios. Afinal, quem seria contra os 10 mandamentos? Quem seria contrário a uma religião que professa que todos podem entrar no paraíso (mesmo os ateus ou seguidores de outras religiões)? O conjunto de valores do cristianismo é representado por seu símbolo máximo: a cruz. A cruz então se confunde não apenas com o cristianismo, mas também com todos os princípios e virtudes que moldaram, e são a força motriz, do mundo ocidental.

Banir a cruz de repartições públicas, sob o argumento de que o estado é laico, é equivalente a proibir que representantes do estado usem um escapulário, ou façam o sinal da cruz em frente a uma igreja. Afinal, como são representantes do estado também não deveriam usar símbolos religiosos. A presença da cruz em repartições públicas, ou no pescoço de um magistrado, de maneira alguma representa a interferência da igreja em assuntos seculares, ou a falta de autonomia do estado. Pelo contrário, representa sim o conjunto de valores que moldaram nossa civilização.

10 comentários:

nilo disse...

Desse post eu gostei de verdade!

Fabricio disse...

O exposto esta correto porem houve tempos em que em nome da religiao(inclusive a catolica) o ser humano cometeu atrocidades(e ainda cometem), como queima a bruxas, livros e atrasos a ciencia. Olhe o todo e nao, somente o que interessa. Pra uma questao ser debatida, deve-se trazer os dois lados.

Anônimo disse...

Posso não ser cristão. E ninguém pode me obrigar a sê-lo. Mas meu traço cultural é baseado nos preceitos cristãos. Isso não posso negar.

JV disse...

Na mosca!

Dawran Numida disse...

Assim, nenhum candidato ou pretenso candidato a primeiro mandatário, poderia ir na Catedral de Nossa Senhora Aparecida, deixando-se aparecer e ser fotografado aprendendo a persignar-se.

E se perguntado jamais poderia dizer que fé e religião seriam algo de foro íntimo.

Tão íntimo que, não raro, fazem-se acompanhar de séquitos de acólitos.

Tudo isso para dizer que é uma besteira banir símbolos cristão de repartições públicas.

E a Bíblias protestantes deixadas em gavetas de armários de hotéis?

Paulo disse...

Não sei...os "valores cristaos" ja existiam antes do cristianismo. Não roubar ou respeitar não foram invençoes da igreja. Se minha familia me ensinou a não matar, não quer dizer que eles me educaram como cristão, eles simplesmente me educaram de acordo com o que achavam correto e, matar não é errado somente no cristianismo. As virtudes vieram antes dos valores cristãos e não o contrario. Dizer que alguem com carater é cristão seria o mesmo que afirmar que, se eu criar uma religião em que seja pecado comer carne, então todos vegetarianos seriam membros da minha igreja.

Rosemary Sousa disse...

É impressionante a tua forma de se comunicar com público diversificado através de temas tão estingante. Eu gosto. Vale lembrar que o tempo é o senhor da verdade, pois a cruz em repartições públicas contextualizam não somente a fé do cristão católico, mais de outros segmentos cristãos, lamento por muitas pessoas não saberem o verdadeiro significado da cruz onde mostra Jesus crucificado, não é uma lembrança a penas de dor, mais de amor e redenção. Mas na minha opinião esse entendimento se sobrepõe ao símbolo, lamento pelas futuras gerações se terem o direito de tê-lo como uma forma de linguagem visual e cristã.

Leonardo Monasterio disse...

Fosse eu crente- sou muito ateu - ficaria p* da vida de ver um simbolo sagrado nos tribunais brazucas, onde tanta injustiça é feita. Um prostíbulo é um local mais digno. (bem, na verdade, um prostíbulo é mais digno do que quase todos os lugares )

Anônimo disse...

Não faltam são motivos pra tirar os crucifixos das repartições públicas. Primeiro, pelo que o Paulo disse: não foi a fé cristã que trouxe os princípios morais, ela apenas incorporou algo que já existia (ou os judeus, budistas, ateus e etc são todos assassinos e ladrões?).

Além disso, como o Estado é laico, ele representa todos os cidadãos e, para muitos, o crucifixo tem significado muito diferente do que tem para os cristãos (os judeus, por exemplo, o vêem como símbolo de opressão, já que seus antepassados eram perseguidos e crucificados).

Além disso, a julgar que os crucifixos estão lá porque a maioria da população é cristã, deveríamos ter flâmulas do Flamengo e do Corinthians nos tribunais, porque eles também representam a maioria. Isso seria absurdo. Lugar de crucifixo é na igreja, na casa de quem assim desejar, em qualquer propriedade privada que o dono julgar conveniente, e não em locais públicos que representam não só os cristãos, mas todos os cidadãos.

Anônimo disse...

Caro Leonardo,

Em vista de suas declarações religiosas em outros blogs estou profundamente decepcionado com sua declaração pública de ateísmo. Infelizmente sou obrigado a denunciá-lo a Núncio Pastafarianista do Brasil. Espere que a punição do Mostro do Espaguete Voador não tardará.

Abraço,

Roberto

Google+ Followers

Ocorreu um erro neste gadget

Follow by Email