segunda-feira, 5 de março de 2012

A Tsunami Cambial

Nos últimos dias a imprensa tem dado grande atenção a “Tsunami cambial”. Isto é, as maciças impressões de dólares, pelos Estados Unidos, e de euros, pela comunidade européia, forçam o preço dessas moedas para baixo ao mesmo tempo que valorizam a moeda brasileira. A própria presidente Dilma reconhece o fato, e cobra ações da equipe econômica.

Interessante notar que existem consenso entre analistas quanto ao efeito da enxurrada de dólares e euros que invadem o mercado: concordam que isso desvaloriza tanto o dólar quanto o euro. E eles estão corretos nesse ponto. Contudo, os analistas que aceitam que mais dólares desvalorizam o dólar são os mesmos que refutam a idéia de que mais dólares gera inflação. Interessante não!!! Ora se aumentar a oferta de uma moeda diminui seu valor (desvalorização), então é evidente que isso gera inflação.

O parágrafo acima é extremamente importante, pois ele mostra que se o governo brasileiro quiser desvalorizar sua moeda (tal como outros países estão fazendo) isso implica em aceitar uma elevação da inflação por aqui. É importante deixar as coisas claras: desvalorizar uma moeda significa diminuir seu poder de compra, ou seja, precisaremos de mais reias para comprar a mesma quantidade de bens. Em resumo, teremos inflação. É inaceitável que especialistas escondam esse fato do grande público.

Especialistas dizem que o câmbio brasileiro está super valorizado, ou seja, o real estaria caro em relação a outras moedas estrangeiras. Mas se isso é verdade, tão logo o Banco Central deixasse de intervir no mercado o real deveria se desvalorizar (ficar mais barato). Os acontecimentos dos últimos meses mostra justamente o contrário. Basta o Banco Central parar de intervir no mercado que o preço do real sobe. Isto me leva a constatação óbvia que, DADAS AS CONDIÇÕES INSTITUCIONAIS brasileiras, o real está barato (e não caro como predizem alguns gurus).

Em vez de recorrer a maneiras artificias de desvalorizar o câmbio, o governo brasileiro deveria abrir a economia. O consequente aumento das importações se encarregaria de encontrar a correta relação entre o real e outras moedas. A bagunça cambial de nosso país é decorrência direta de políticas públicas destinadas a proteger grupos nacionais da concorrência internacional. Tal política não só tem efeito na taxa de câmbio como também afeta negativamente a produtividade e o bem estar dos brasileiros.

8 comentários:

Anônimo disse...

Até se pode concordar que há contradições nas afirmações de quem defende pol. monetária expansionista e ao mesmo tempo fala mal da pol. monetária expansionista dos outros. Agora cá pra nós dizer que o real esta desvalorizado é rasgar todas as coisas razoáveis que você escreveu sobre macroeconomia, como o texto sobre validade da UIP. Você ainda le livros de teoria economica?

Anônimo disse...

Somente uma resalva professor, a economia americana tem recebido um aumento no seu nível de preços, mas esse valor nâo é algo muito relevante devido a capacidade de escoamento da moeda america nas outras economias mundias, principalmente as dos BRICS, devido a melhores condições de retorno apresentada nas mesmas. Acredito que esse seja o ponto sensível, pelo menos sob a ótica americana, na colocação de alguns analistas ao dizem que essa "enchurrada monetária" não causa inflação.

Lucas disse...

professor, segue link abaixo de notícia no estadão:

http://economia.estadao.com.br/noticias/economia+brasil,governo-fara-novas-medidas-de-estimulo-da-economia-se-necessario-diz-mantega,105050,0.htm

Em periodos de pseudo-austeridade fiscal o governo ataca novamente.

Anônimo disse...

Como saber se um preço está muito alto ou muito baixo? Não há como. O motivo é simples: não existe um preço correto, um valor natural ou nada deste tipo.

Desta forma o preço observado é sempre o preço de equilíbrio, vale para a laranja, a cachaça e o câmbio. Porém...

Algumas vezes é possível inferir que um determinado preço só ocorre devido a uma influência externa ao mercado, normalmente uma política pública. Note-se que não podemos dizer que o preço está certo ou errado, apenas que o valor observado decorre desta política. São tantas forças que determinam um preço que é possível que uma mudança de política leve o preço na direção oposta ao esperado. O Mankiw tem um exemplo interessante sobre o que poderia acontecer se a China liberasse o câmbio. Pode não ser o que os EUA gostariam.

Faço esta introdução para comentar a afirmação que o real está desvalorizado. A evidência sugere que se o BACEN não fizer nada o real tenderá a se valorizar. Salvo que esta evidência esteja errada, não conheço quem a conteste, a conclusão é que na ausência da política o dólar valeria menos do que vale hoje, ou seja: "DADAS AS CONDIÇÕES INSTITUCIONAIS brasileiras, o real está barato". Difícil não concordar com esta lógica.

Não consigo me lembrar de nada no artigo da UIP que desautorize este argumento. Se tiver é melhor rasgar o artigo, até porque meu nome está lá.

Abraço,

Roberto

P.S. Coloco novamente a magnifica citação de Jevons sobre a inutilidade da busca pelo valor de uma mercadoria.

"A student of Economics has no hope of ever being clear and correct in his ideas of the science if he thinks of value as at all a thing or an object, or even as anything which lies in a thing or object. Persons are thus led to speak of such a nonentity as intrinsic value. There are, doubtless, qualities inherent in such a substance as gold or iron which influence its value; but the word Value, so far as it can be correctly used, merely expresses the circumstance of its exchanging in a certain ratio for some other substance."

Sérgio Ricardo disse...

Faço das minhas palavras a do Roberto. O comentário do primeiro anônimo mostrou que ele não entendeu o que o Adolfo apresentou sobre o câmbio está desvalorizado, já que se tivessemos uma abertura comercial de fato o preço do câmbio estaria em torno de R$ 1,30 a R$ 1,40 e não R$ 1,70 como atualmente.

Abraço.
Sérgio Ricardo

Anônimo disse...

Como sempre, o Roberto é uma referência quando se trata de bom senso.

José Coelho

Paulo disse...

Concordaria totalmente se a moeda fosse o único fator que influi nos preços. Como não é, acho mais preciso falar em PRESSÃO INFLACIONÁRIA.

Se o cenário for de queda de preços, ou seja, se somadas as influências de todos fatores que influem nos preços a resultante for de declínio de preços, desvalorizações de moeda provocam menor deflação, estabilidade, ou inflação de preços.

Paulo disse...

E o câmbio mostra o eterno (e insolúvel) conflito dos desenvolvimentistas entre protecionismo e câmbio flutuante.

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