terça-feira, 1 de maio de 2012

Um post antigo sobre Spread Bancário no Brasil

Em 2 de fevereiro de 2009 eu escrevi o texto abaixo. Em virtude da atual polêmica sobre as taxas de juros brasileiras, acredito que o post seja relevante. Vale a pena reler. Parece que em 2009 esse blog já mostrava o que deveria e o que não deveria ser feito...

O spread é a diferença entre a taxa de juros que o banco paga para receber recursos e a taxa que ele recebe por seus empréstimos. Por exemplo, se você colocar 1.000 reais numa aplicação financeira receberá algo em torno de 1% ao mês de rendimento. Contudo, se ao invés disso você precisar tomar emprestado 1.000 reais do banco irá pagar por esse empréstimo algo em torno de 7% ao mês. Essa diferença entre taxas é o que chamamos de spread. Em nenhum lugar do mundo o spread bancário é tão alto quanto no Brasil.

Existem pelo menos 3 argumentos para explicar o porque do spread bancário brasileiro ser tão alto. Em primeiro lugar a legislação brasileira protege demais o devedor. Quanto maiores forem a proteção aos devedores, mais difícil aos credores é recuperar uma dívida. Assim, o risco do empréstimo aumenta, o que afeta diretamente o spread. Em segundo lugar vários tributos incidem sobre a atividade financeira, nada mais natural que parte desses tributos sejam repassados aos consumidores por meio do spread. Em terceiro lugar a atividade bancária brasileira é extremamente concentrada. Com pouca competição os bancos conseguem cobrar mais por seus serviços.

De maneira simples, o spread bancário no Brasil é alto por causa de uma legislação inadequada em conjunto com um ambiente pouco competitivo. Os acontecimentos recentes no setor bancário com a fusão entre grandes bancos só tende a agravar esse quadro. Dessa maneira, é difícil de entender a atitude do governo brasileiro que parece celebrar a união entre bancos, e consequente redução da competição.

A redução do spread bancário passa necessariamente por uma mudança na legislação brasileira. Mas também é necessário aumentar a competição entre bancos. Contudo, devemos entender que o aumento da regulação bancária implica na redução da competição. Ambientes muito regulados costumam não raras vezes exigir garantias e procedimentos que só podem ser fornecidas por grandes corporações, afastando as pequenas empresas e diminuindo a competição. Dessa maneira, a crescente demanda de determinados setores por um aumento da regulação do setor financeiro irá inevitavelmente aumentar os spreads.

5 comentários:

amauri disse...

Bom dia Adolfo!
Não sou economista, se disser bobagem já sabe por que.
Com os juros altos o brasileiro pensa duas vezes para tomar emprestado para comprar um bem. Isto não ajuda a conter a inflação e o aumento do consumo, uma vez que, dizem, não temos muito coisa a aumentar a produção? abs

Dawran Numida disse...

Mas, amauri, permita-me.
Infelizmente, a percepção é de que o consumidor faz a conta da prestação que cabe no bolso.

Nem pensa na taxa de juros, exceto se for alertado que juro é o pagamento do futuro, hoje e o quanto ele aumenta sua dívida.
Se for adequadamente informado, pode ser que evite o gasto. Caso contrário, seguirá como está hoje, comprando a prazo e tomando empréstimos via cartão, consignados e CDC.

Por exemplo, já há "uma certa crise de endividados", ou seja os consumidores que já estão classificados como de alto risco.
Ou seja, pode inadimplir, pode ser contumaz inadimplente (contumácia).

E o pior, pode tornar-se insolvente.

Contudo, o populismo, como faz o governo forçando a baixa dos juros e spreads, utilizando os bancos federais, ao invés de orientar, poderá induzir a mais consumo.

E a linguagem do governo é de ameaça e não de esclarecimento. Por exemplo, ele poderia explicar que depende dos bancos para rolar sua dívida pública e para vender seus títulos de dívida.
Ou seja, o governo é um dos que podem pressionar a alta dos juros.

Anônimo disse...

Alex (economista) incluiu os créditos subsidiados na lista dos responsáveis
(não são sensíveis às taxas de juros),
além da baixa poupança pública.

Os demais argumentos apontados por ti me parecem corretos.

Anônimo disse...

Meus caros,
Dois pontos:
1- Em relação ao anônimo das 01:57. A questão dos empréstimos subsidiados explicariam porque os juros seriam muito altos no país, não o spread.
2- Em relação ao post e à suposta falta de concorrência no setor bancário. Acredito que a maior evidência que existe algum problema regulatório grave no país e que explicaria estes spreads altos é a falta de bancos internacionais por aqui. Apesar destes supostos altíssimos lucros do setor financeiro brasileiro, os grandes players internacionais não parecem muito animados a aportar e crescer por aqui. Só o Santander tem uma presença mais maciça (poderíamos colocar também o HSBC). Mas, e o resto? Por que não vêem para cá? Existe alguma questão muito esquisita nesta história toda (só lembrando, entretanto, populismo inevitavelmente acaba mal. Pobre nação brasileira).
Saudações

william dos Reis disse...

Adolfo,
Impressionante como que desde 2009 quando vc bem escreveu este post nada tenha mudado. A realidade continua exatamente igual. Alguns poderia dizer que suas palavras pararam no tempo, outros que o governo e o mercado pararam no tempo. Eu fico com os dois últimos.
Abs
William dos Reis

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