quarta-feira, 18 de julho de 2012

Entrevista com Cristiano M. Costa: a década de 1970 está de volta?

Neste post, entrevistamos nosso nono convidado: Cristiano M. Costa. Além de seus méritos acadêmicos, ele também mantém um excelente blog. O Sachsida só tem a agradecer pela gentileza da entrevista.


1) O Brasil está revivendo o final da década de 1970? Será que em breve estaremos revivendo a década de 1980 (apelidada de década perdida)? Por quê?

Resposta) Olha, essa pergunta é complicada. O ambiente econômico global é diferente.
Na década de 70 o mundo passou por duas crises do petróleo, enquanto na década de 2000 navegamos em um crescimento mundial. Bem, pelo menos até 2008. Essa exuberância fez o Brasil deixar de lado importantes reformas, além da educação e da infra-estrutura. De outro lado, na década de 70 o investimento foi elevado. Isso não ocorreu na década de 2000. Acho as poiticas agora são mais sofisticadas e complexas.

O problema é que o pessoal que está no comando parece que não sabe utilizar os instrumentos corretos ou não entendeu a dinâmica atual. A verdade é que o modelo de crescimento via endividamento das famílias se esgotou. Tivéssemos feito algumas privatizações e incentivado a competição estaríamos um pouco melhor. mas não, fizemos o contrário. Estatizamos e concentramos mercados. O setor aéreo e o de carnes
são os exemplos mais gritantes. Ao mesmo tempo, o governo não pode crescer, pois não tem mais como elevar a carga tributária (imagino eu). O investimento privado não encontra leis e regulações favoráveis. Só sobra uma forma de crescimento. Exportações. E no momento não temos capacidade para isso, somos caros e pouco produtivos.
Esse cenário pode levar a uma década de 2010 com baixo crescimento. A grande questão é como os preços vão se mover, no cenário externo e interno.


2) Qual o maior risco do cenário externo para a economia brasileira?

Resposta) A economia brasileira é pouco aberta, o efeito das commodities já foi sentido. O risco é baixo, exceto em um colapso completo do Euro. O que seria catastrófico. O investidor estrangeiro não tem pra onde ir, essa é a verdade.
A economia mundial vai se recuperar mais rápido nos países que tem preços flexíveis.
Os EUA são a maior prova. Foram os que se recuperaram mais rápido da crise.
E aí está o risco brasileiro. O Brasil não tem uma legislação que funciona em cenários depressivos (queda de preços / queda de salários). Isso faz com que as crises durem mais. O maior risco é um cenário de estagflação. Principalmente com essa equipe econômica. Aí sim, temos um risco de repetir a década de 80. Mas, esse risco é mais interno do que externo.


3) O governo parece estar usando política tributária para controlar a inflação. Você acredita que isso seja verdade? Se for verdade, concorda com isso? Por quê?

Resposta) Sim. Eu já levantei essa bola lá no blog tem muito tempo. É uma questão metodológica. O preço do produto tem duas partes. O preço em si e o imposto. Se você só adiciona o imposto na hora do cliente pagar no caixa e na prateleira o preço está sem imposto, uma redução de tributos reduz no caixa, mas não na prateleira. O efeito sobre a oferta e demanda existe, mas o reflexo sobre o índice de inflação é distorcido. Dois exemplos. O aumento dos impostos sobre os cigarros em Abril e
a redução do IPI sobre veículos em Junho. Ambos afetaram diretamete o IPCA. O que me preocupa é a velocidade das mudanças. Uma hora sobe, outra desce, e o consumidor e o empresário ficam perdidos. Agora imagina o investidor estrangeiro. Uma hora tem IOF, outra hora não tem. E por aí vai. Mas eu acho que o objetivo nem é o controle da inflação em si.

A política econômica está tão perdida que talvez nem tenham percebido esse efeito. Nesses momentos eu gosto de olhar pra Argentina. Sentimos um alívio. Poderíamos ser nós no lugar deles.

Um comentário:

Anônimo disse...

Acho que vc colocou uma questao importante que vai contra a maioria das respostas anteriores. De um modo geral a maioria se preocupa com a questao das comodities no caso de uma queda. Voce por outro lado lembrou bem que nossa abertura comercial eh muito pequena em relacao ao PIB. Alem disso com as reservas em USD podemos mortecer bem a desvalorizacao do BRL evitando um impacto muito grande na inflacao. Outra grande diferenca em relacao aos anos 70 eh a divida externa. hoje nao eh um problema. Isso muda muita coisa.

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