domingo, 29 de julho de 2012

Entrevista com Jose Oreiro: a década de 1970 está de volta?

Neste post, entrevistamos nosso décimo-setimo convidado: Jose Oreiro. O Professor Oreiro é um dos mais importantes representantes da corrente pós-keynesiana no Brasil. Ele também mantém um ativo blog de economia. O Sachsida só tem a agradecer pela gentileza da entrevista.


1) O Brasil está revivendo o final da década de 1970? Será que em breve estaremos revivendo a década de 1980 (apelidada de década perdida)? Por quê?

Resposta) Não acredito que seja correto afirmar que o Brasil esteja revivendo o final da década de 1970. Por uma série de razões. Em primeiro lugar, a taxa média de crescimento real do PIB no período 1977-1980 foi de 6,46% a.a segundo dados do IPEADATA. No biênio 2011-2012, caso se confirme as expectativas de mercado quanto a trajetória do PIB neste ano, teremos um crescimento médio inferior a 2,5% a.a. Dessa forma, percebe-se que enquanto o final da década de 1970 foi um período marcado por um crescimento bastante robusto do PIB (embora menor do que na época do milagre); os dois primeiros anos da administração Dilma Rouseff são caracterizados por uma semi-estagnação do crescimento. Em segundo lugar, a participação da indústria de transformação no PIB brasileiro era muito maior na década de 1970 do que é agora (ver figura abaixo). O processo de desindustrialização da economia brasileira teve inicio no final da década de 1970, mas o mesmo se acelera durante os sucessivos governos do PT a tal ponto que a participação da indústria de transformação no PIB recuou em 2011 ao valor existente em 1947 !!! Nesse cenário seria uma benção se a economia brasileira retornasse ao final da década de 1970, pois isso significaria um crescimento de 6 p.p na participação da indústria de transformação no PIB.

Fonte: Marconi (2011)

Por fim, o padrão de financiamento externo da economia brasileira mudou muito do final da década de 1970 para os dias atuais. Embora o Brasil tenha voltado a exibir déficits em conta corrente a partir de 2007, atualmente esses déficits são 100% financiados com IED; ao passo que na década de 1970 os déficits eram financiados com empréstimos bancários. A mudança na composição do passivo externo da economia brasileira deixa o país menos vulnerável a mudanças na política monetária dos países desenvolvidos, ao contrário do que ocorreu na década de 1970, após o choque de juros promovido pela gestão Volcker no FED. Se a taxa de juros americana aumentar de maneira significativa em 2014 ou 2015, o impacto sobre a conta corrente do balanço de pagamentos será pequeno, pois a maior parte do nosso passivo externo não está direta (ou indiretamente) ligada com a taxa de juros internacional. Está claro que, nesse cenário, haverá uma redução do fluxo de capitais para a economia brasileira, produzindo uma desvalorização cambial. Contudo, ao contrário dos anos 1970, o Brasil dispõe hoje de um volume bastante significativo de reservas internacionais as quais, combinadas com controles a saída de capitais, poderão controlar o ritmo de desvalorização cambial.

Daqui se segue que uma nova década perdida em função de uma “crise de endividamento externo” como na década de 1980 está descartada. O risco que a economia brasileira corre – e que parece que não está sendo entendido pelas sucessivas administrações petistas – é a perda de dinamismo devido a desindustrialização. Para mim o cenário mais provável é de uma economia que poderá crescer entre 2,5% a 3% a.a no médio e longo-prazo, mantendo uma razoável estabilidade macroeconômica e uma taxa de desemprego em torno de 6 a 7% da força de trabalho. Do ponto de vista eleitoral esse cenário pode até ser suficiente para perpetuar o PT indefinidamente no poder, mas irá condenar eternamente o Brasil a condição de país sub-desenvolvido.


2) Qual o maior risco do cenário externo para a economia brasileira?

Resposta) O maior risco que o Brasil enfrenta no curto-prazo é uma forte desaceleração do crescimento econômico na China, o que levará a uma queda bastante pronunciada dos preços das commodities que o Brasil exporta. Nesse cenário, o déficit em conta corrente poderá aumentar para 5 ou 6% do PIB tornando-se rapidamente insustentável. Isso produzirá um “sudden-stop” do financiamento externo para a economia brasileira, o que produzirá uma forte desvalorização da taxa de câmbio e aumento da taxa de inflação. Se o governo brasileiro usar de forma competente as reservas internacionais, impor controles a saída de capitais e limitar a indexação de preços e salários a inflação passada, então a desvalorização cambial poderá ser administrada e a elevação da inflação será apenas temporária. Certamente que, nesse cenário, teremos 2 ou 3 anos de queda de crescimento com elevação da inflação (estagflação), mas ao final do processo a taxa de câmbio está perfeitamente ajustada permitindo a re-industrialização da economia brasileira e o retorno ao dinamismo econômico no longo-prazo.


3) O governo parece estar usando política tributária para controlar a inflação. Você acredita que isso seja verdade? Se for verdade, concorda com isso? Por quê?

Resposta) A inflação acumulada nos últimos 12 meses vem se reduzindo desde setembro de 2011 em função da desaceleração do crescimento da economia brasileira. Eu particularmente não gosto do conceito de produto potencial – em função do caráter eminentemente path-dependent da maneira pela qual o mesmo é calculado – mas acho que hoje em dia ninguém duvida que o Brasil cresce abaixo do seu potencial de longo-prazo. Dessa forma, é natural que a inflação venha se desacelerando desde setembro de 2011. O que para mim é uma incógnita é o que vai acontecer com a inflação se e quando a economia brasileira voltar a crescer a taxas mais robustas. Se o governo conseguir induzir um crescimento de 4% a.a com base no estimulo a demanda de consumo, o resultado será uma aceleração muito forte da inflação. Isso porque numa economia que opera com cerca de 5% de desemprego da força de trabalho e 82% de utilização da capacidade produtiva (ver figura) como a economia brasileira atualmente, e onde a indústria de transformação responde por menos de 15% do PIB, não existem recursos ociosos e/ou fontes de aumento de produtividade que permitam um crescimento do PIB muito acima do ritmo de crescimento da força de trabalho, o qual se encontra atualmente em 1,3% a.a. Sem uma forte re-industrialização da economia brasileira em conjunto com um aumento significativo do investimento público em infra-estrutura, a economia brasileira irá permanecer indefinidamente numa situação de semi-estagnação em função do crescimento anêmico da produtividade do trabalho, onde qualquer tentativa de romper com a mesma via expansão da demanda de consumo levará a surtos inflacionários, os quais terão que ser debelados por aumentos cavalares na taxa de juros. Triste Brasil.

Fonte : IPEADATA.

Referências:
MARCONI, N; ROCHA, M. (2011). “Desindustrialização precoce e sobrevalorização da taxa de câmbio”. Texto para Discussão n.1681, IPEA/DF.


4 comentários:

Celso Costa disse...

Se você pergunta: qual a cor do céu? e a resposta é "uma árvore". A pessoa respondeu corretamente?
Outra coisa, os pós-keynesianos reclamam do câmbio quando está apreciado, e também quando está depreciado!!!
Quando se compara o governo Lula/Dilma com a década de 1970 é devido ao peso do estado na economia. E não as taxas de crescimento.

Zé disse...

CAMPANHA: Entrevista com o Bresser-Pereira já.

Porque o Oreiro acabou falando pouca besteira (pra níveis Oreirísticos).

O Bresser não, esse nunca decepciona.

Anônimo disse...

Re-industrialização?

Pois é, esse cara "esquece" que vive no Ocidente...

Thyago Américo Schio disse...

Em suma, precisamos de mais controle governamental, pois como na década de 70, isso será muito bom para a economia brasileira.

Além disso, as décadas de 80 e 90 nada tem de relação com a década de 70. Logo, crescer uma década foi por conta do Estado, e perder duas foi causa do neoliberalismo e falta de intervenção.

Nesse cenário seria uma benção se a economia brasileira retornasse ao final da década de 1970 - economistas do curto prazo... pois se eles acreditam que no lp estaremos mortos... hehe.

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