quarta-feira, 25 de julho de 2012

Entrevista com Luciano Nakabashi: a década de 1970 está de volta?

Neste post, entrevistamos nosso décimo-segundo convidado: Luciano Nakabashi. O Professor Nakabashi tem experiência na área de Economia, com ênfase em Crescimento e Desenvolvimento Econômico. O Sachsida só tem a agradecer pela gentileza da entrevista.

1) O Brasil está revivendo o final da década de 1970? Será que em breve estaremos revivendo a década de 1980 (apelidada de década perdida)? Por quê?

Resposta) Eu percebo mais diferenças do que semelhanças. Na década de 70, presenciamos um crescimento com forte endividamento externo. Naquele período, os saldos em transação correntes foram negativos por quase 20 anos (1966-1983) e muito elevados, girando ao redor de 5% do PIB por vários anos. Nos anos 2000, o país obteve um considerável superávit em transações correntes (2003-2007) e, mais recentemente, um déficit crescente, mas ainda controlado, ficando abaixo dos 3% do PIB.

Desse modo, a fragilidade externa era muito maior naquele período. Quando ocorreu a reversão do fluxo de capitais, a economia brasileira sentiu fortemente a mudança no cenário internacional e a recuperação foi muito lenta devido à enorme necessidade de gerar superávits comerciais e fiscais, o que ajuda a explicar a escalada nas taxas de inflação.

A maior parte do endividamento externo, naquela época, ocorreu pela tentativa de manter uma elevada taxa de crescimento com ênfase em investimentos produtivos, guiados direta ou indiretamente pelo setor público. O governo insistia em finalizar a construção do parque industrial brasileiro em uma estratégia de crescimento via substituição de importações.

Já nos anos 2000, a situação externa é favorável, com redução da fragilidade externa. Também ocorreu uma melhora na dívida pública e em seu perfil, e a mudança no cenário internacional teve efeitos muito mais limitados sobre a economia doméstica, mesmo com uma crise internacional de proporções muito maiores do que aquela enfrentada nos anos 70 e começo dos anos 80.

Acho que hoje o perigo maior está na insistência em manter um crescimento via estímulo do consumo, o que pode piorar de forma considerável as contas externas brasileiras, ao longo do tempo, e sem gerar os benefícios de elevação da capacidade produtiva que ocorre pela adoção de um modelo de crescimento que incentiva os investimentos. No entanto, apesar da falta de uma estratégia clara de crescimento e dos frequentes erros de política econômica do governo, o país ainda está longe de uma situação próxima daquela experimentada nos anos 80 pelas melhores condições das contas externas e das contas públicas.


2) Qual o maior risco do cenário externo para a economia brasileira?

Resposta) Acho que um grande risco seria o fim do Euro e uma nova recessão na economia americana. Nesse caso, a piora no cenário internacional seria aguda, com impactos importantes na economia chinesa e demais asiáticas que ainda dependem muito do resultado de suas exportações para continuarem apresentando bom desempenho. Nesse cenário, ocorreria uma redução no preço das commodities, com efeitos importantes nas exportações brasileiras.

Esse cenário aliado a uma tentativa do governo em manter uma taxa de crescimento incompatível com o cenário internacional e com as condições atuais da economia doméstica (nesse ponto lembra bem os anos 70), com estímulos adicionais ao consumo das famílias, além de piorar as contas externas, aumentariam a possibilidade de estouro de bolhas que talvez já existam em alguns segmentos da economia brasileira e o risco de inadimplência. Caso esse cenário se concretize, o que acredito que o governo não deverá permitir que ocorra, os efeitos sobre a economia brasileira seriam severos e duradouros.


3) O governo parece estar usando política tributária para controlar a inflação. Você acredita que isso seja verdade? Se for verdade, concorda com isso? Por quê?

Resposta) Eu acredito que o governo está mais preocupado com o ritmo de crescimento da economia ao adotar esse tipo de política econômica. A presidente Dilma se mostra demasiadamente preocupada com o nível de atividade, adotando medidas pontuais com pouco efetivas, esquecendo-se de tomar medidas que são mais relevantes para o crescimento de longo prazo. Acho que o governo Lula teve certa dose de sorte (colheu frutos do que foi feito anteriormente e experimentou um cenário externo favorável, juntamente com uma depreciação cambial não intencional no início do seu governo que ajudou a melhorar as contas externas brasileiras), o que não pode se repetir indefinidamente. As economias crescem via ciclos e o atual governo precisa aceitar que o momento atual não é de colheita, mas é o momento de plantar.

Para deixar mais claro o ponto, não acho que a inflação seja a maior preocupação do governo, atualmente. Ele está dando muita maior ênfase ao crescimento do PIB, o que concordo pelo jeito em que se encontra o cenário internacional, mas acho que as medidas são equivocadas, em muitos momentos.

Um comentário:

Patrick disse...

bom em primeira instancia eu creio que o Brasil não esta revivendo bem a década de 1970/1980 pois o crescimento esta favorável e as inflações estão de acordo com os dias atuais e o mercado externo está vivendo uma nova faze.
O maior risco do cenário externo para a economia brasileira esta nos países da asia pois o Brasil esta se ligando muito com esses países.
Eu concordaria se for usado como politica fiscal que não é usada de uma forma inadequada mas sim de uma forma justa que não visa somente o melhor para si mesmo mas sim para todos em geral que fazem parte da sociedade.

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