quinta-feira, 12 de julho de 2012

Entrevista com Mansueto F. de Almeida Junior: a década de 1970 está de volta?

Num esforço desse blog para tornar claro os perigos inerentes da política econômica adotada atualmente em nosso país, estou entrevistando uma série de especialistas em economia brasileira. Todos respondem ao mesmo conjunto de três perguntas.

Neste post, entrevistamos nosso terceiro convidado: Mansueto F. de Almeida Junior. Pesquisador sério e com amplo conhecimento sobre a economia brasileira, também mantém o excelente blog: Blog do Mansueto Almeida. O Sachsida agradece a gentileza da entrevista.


1) O Brasil está revivendo o final da década de 1970? Será que em breve estaremos revivendo a década de 1980 (apelidada de década perdida)? Por que?

Resposta) Há de fato algumas semelhanças. O governo Castelo Branco, por exemplo, foi um governo reformista e o Brasil aumentou fortemente a carga tributária (de 16% para 25% do PIB) e a poupança pública de 1966 a 1970. O estado brasileiro do início dos anos 70 tinha uma poupança pública elevadíssima, perto de 7% do PIB, que permitiu um aumento do investimento público que, em conjunto com as reformas liberais do Castelo Branco, explicam o chamado “milagre econômico” do governo Médici.

Depois do primeiro choque do petróleo, em 1973, o governo Geisel fez o diagnóstico que poderíamos continuar crescendo com aumento da dívida externa e com o governo incentivando vários setores, aumentando o investimento público e ainda expandindo os gastos nos estados como uma tentativa de legitimar a ditadura. Isso levou a uma forte queda da poupança pública, mais inflação e a uma crise fiscal depois do segundo choque do petróleo, em 1979.

Na nossa situação atual, há um diagnóstico parecido com o do período Geisel, ou seja, que o governo teria o poder com o micro gerenciamento setorial elevar a taxa de crescimento do PIB. Esse diagnóstico é errado como era no período Geisel porque não reconhece que as nossas restrições ao crescimento hoje estão mais do lado da oferta do que da demanda.

Quando se faz um paralelo da história recente do Brasil pós-1995 com os governos militares, do ponto de vista de política econômica, há semelhanças. Saímos de um governo reformista, o governo FHC, e entramos no governo Lula que usufruiu dos efeitos positivos das reformas institucionais da era FHC e do boom de commodities. Com a piora do cenário externo e o esgotamento dos efeitos das reformas, a partir de 2008, passou-se a privilegiar o micro gerenciamento da economia com fez Geisel e o aumento do endividamenteo. Isso não funcionou nos anos 70 e nem vai funcionar no sec. XXI.

Acho exagerado, por enquanto, falar que chegaremos a uma nova década perdida com queda do PIB per capita. Mas não é impossível. No entanto, se a China continuar crescendo entre 7-8% ao ano, vamos ainda surfar no preço das commodities e em breve seremos exportadores líquidos de petróleo com o pré-sal. O risco é desperdiçarmos a oportunidade de crescer mais rápido e nos acomodarmos com uma taxa de crescimento medíocre, carga tributária elevada e um estado ineficiente.


2) Qual o maior risco do cenário externo para a economia brasileira?

Resposta) O Brasil é muito dependente o humor do resto do mundo para crescer porque a nossa taxa de poupança é baixa e não acompanha o crescimento da taxa de investimento. Assim quando a taxa de investimento no Brasil cresce, como ocorreu de 2004 a 2011, o déficit em conta corrente aumenta. Para crescermos mais rápidos precisamos de poupança do resto do mundo,

Essa estratégia tem riscos porque, geralmente, o setor público, além dos seus próprios erros, assume erros do setor privado, como fizemos nos anos 70 e, novamente, em 2009, quando empresas com problemas de perdas com operações com derivativos foram socorridas pelo BNDES.

O que puxou o nosso crescimento nos últimos anos não foram as transferências de renda nem o crédito, tudo isso foi resultado de um choque exógeno que foi o aumento de preços de commodities que possibilitou todo o resto. Se o modelo Chinês afundar, ou seja, se a China do século XXI repetir a União Soviética do século XX, o Brasil será fortemente afetado. O nosso maior risco externo se chama China e como a situação da crise européia ainda está sem solução, o risco de uma nova crise mundial com impacto maior na China não é desprezível. Por enquanto, ninguém aposta nesse cenário, mas o simples fato dele ser considerado já é ruim.


3) O governo parece estar usando política tributária para controlar a inflação. Você acredita que isso seja verdade? Se for verdade, concorda com isso? Por que?

Resposta) Acho que, na verdade, o governo utiliza a política tributária para tentar fazer, ainda que de forma capenga, uma política anticíclica. O governo não tem capacidade de fazer política anticíclica pelo lado da despesa. O gasto público que mais cresce é o gasto com custeio e o governo não consegue investir. Assim, resta a desoneração tributária temporária como forma de incentivar a economia.

O ruim é que essas desonerações não são uniformes, alguns setores são beneficiados e outros não, e as desonerações são pequenas. Essa política de desoneração seletiva tem o efeito adverso de premiar quem grita mais, como o setor automotivo, o que é ruim para a competitividade da economia.

Acho que a preocupação com a inflação é mínima. De 2008 a 2011, por exemplo, a inflação só ficou perto do centro da meta, em 2009, quando o crescimento do PIB foi negativo. A inflação média de 2008-2010-2011 de 6,1% ao ano e, no ano passado, quase ultrapassou o teto da banda. Assim, já estamos com a inflação média elevada.

O caso do uso da CIDE para compensar o não reajuste de preços da gasolina ao consumidor foi algo muito pontual. Não dá para o governo generalizar esse tipo de política por um simples motivo: o governo gasta muito e precisa de uma arrecadação crescente.

3 comentários:

Anônimo disse...

Mansueto, muito bom sua argumentação de respostas. Adolfo parabéns pela iniciativa e esforço em madrugar para atualizar o blog.

Anônimo disse...

Quando vier antes de um ponto, seja final, interrogativo, exclamação, o 'por quê' deverá vir acentuado e continuará com o significado de “por qual motivo”, “por qual razão”.

Exemplos: Vocês não comeram tudo? Por quê?
Andar cinco quilômetros, por quê? Vamos de carro

Anônimo disse...

ao anonimo das 16h20:
dada a seriedade do assunto tratado, foda-se o uso correto acento circunflexo no "por que".

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