quinta-feira, 4 de outubro de 2012

Entrevista com Jorge Arbache

Entrevista com o economista Jorge Arbache. O Professor Arbache tem contribuições importantes na área de Economia do Trabalho e Globalização.



1) O Brasil tem um problema demografico a ser enfrentado? Quais as implicacoes disso? Por quê?

Resposta) O maior desafio a ser enfrentado pelo Brasil é o demográfico devido às suas enormes implicações. O Brasil vem experimentando uma das mais rápidas mudanças demográficas em períodos de paz. As razões desse fenômeno ainda são pouco conhecidas, mas já sabemos que ela tem efeitos econômicos, políticos, sociais e culturais de grandes proporções. O problema econômico mais importante é que o país está envelhecendo antes de enriquecer. Os recursos, que já são escassos, se tornarão ainda mais escassos com o envelhecimento da população e com a redução da taxa de crescimento da população em idade ativa (PIA), a qual deverá chegar no seu ponto de máximo entre 2022 e 2025. Será mais difícil fazer crescer a taxa de poupança e as despesas com seguridade social e com saúde aumentarão, ao tempo em que os custos laborais também aumentarão devido à desaceleração da oferta de trabalho. Já mensuramos que parte importante das atuais condições do mercado de trabalho -- salário real em elevação e desemprego baixo -- se deve à demografia, e que a demografia já está afetando a competitividade internacional. O país ainda não está preparado para enfrentar o desafio que lhe aguarda logo ali na esquina, o que aumentará os efeitos deletérios da demografia e os custos de mitigá-los. A mais importante forma de mitigar esses desafios é através de um brutal aumento de competitividade, em especial da indústria.


2) O Brasil precisa flexibilizar suas leis trabalhistas? Se sim, quais?

Resposta) Sim, é preciso flexibilizar a legislação, pois ela não mais atende aos interesses dos próprios trabalhadores e do país. O próprio Presidente Lula já havia reconhecido essa necessidade, bem como o reconhece e Presidenta Dilma.


3) Ainda existe espaco para politicas de estimulo a demanda na economia brasileira? Isso não irá gerar inflacao?

Resposta) Políticas de estímulo à demanda são parte do arsenal de qualquer governo, independentemente da sua orientação, como ficou claro com a crise de 2008/09. A questão não é utilizar ou não esse arsenal, mas como, em que setores, por quanto tempo, e visando quais objetivos. Para que ela funcione, é preciso também que haja transparência e o boa governança das políticas, o que implica em monitoramento e avaliação das mesmas, bem como em contrapartidas dos setores beneficiados. Um exemplo dessas contrapartidas é o investimento em inovação e em aumento de competitividade.


4) Esta ocorrendo desindustrializacao na economia brasileira?


Resposta) A indústria brasileira está perdendo dinamismo tanto do ponto de vista nacional como internacional, como mostramos em recente artigo. Mas a indústria tem condições de se recuperar e, eventualmente, ganhar protagonismo devido às imensas oportunidades de investimentos, como em infraestrutura e no pré-sal, e ao aumento do mercado doméstico de consumo. Além disso, os recursos naturais, a biodiversidade e as commodities podem e devem ser vistos como uma oportunidade, e não como um obstáculo para o investimento na indústria. Para tanto, é preciso desenvolver tecnologias e parcerias fomentando investimentos que agreguem valor aos recursos naturais e às commodities.



3 comentários:

Anônimo disse...

Isto é de uma inocência profunda:

"Resposta) Políticas de estímulo à demanda são parte do arsenal de qualquer governo, independentemente da sua orientação, como ficou claro com a crise de 2008/09. A questão não é utilizar ou não esse arsenal, mas como, em que setores, por quanto tempo, e visando quais objetivos. Para que ela funcione, é preciso também que haja transparência e o boa governança das políticas, o que implica em monitoramento e avaliação das mesmas, bem como em contrapartidas dos setores beneficiados. Um exemplo dessas contrapartidas é o investimento em inovação e em aumento de competitividade."

A parte sobre o estímulo à demanda e deprimente, pois estimular a demanda é desestimular o investimento ou adiar um ajuste que se tornará ainda mais difícil pela adoção de tal política. Só é lugar comum na cabeça de quem não entende nada de tradeoffs ou questões elementares da hitória do pensamento econômico.
A defesa de política industrial, condicionada ou não, essa já foi desmistificada pelo professor Adolfo. Ênfase apenas àquela ideia do JS Mill ressaltada por Hayek segundo a qual alguém que entenda apenas de Economia é uma pessoa potencialmente bastante perigosa.
Naturalmente que quem sequer entende grandes coisas de Economia, mas acha que entende, e não sabe outra coisa, pode ser ainda pior.
Com entendo de tradeoffs, sei que Adolfo postou a entrevista por suas virtudes, não por seus defeitos.

lgn disse...

Prezado Sr. Trata-se de uma observação e de leitura nos principais cadernos sobre economia. Está cada vez mais difícil encontrar quem se disponha a trabalhar de operador de máquina, seja em que ramo for. Observa-se, também, que o número de mulheres que se empregavam como empregadas domésticas está diminuindo.
Por outro lado, a mídia destaca que a dificuldade em se encontrar profissionais está localizada na baixa educação escolar. Curiosamente, ao se preparar, mesmo que seja em cursos de curta duração, as mulheres não mais querem "sujar as mãos" em atividades fabris, ou como empregadas domésticas e os homens, ao se prepararem para o trabalho, também em cursos mais longos ou curtos, se recusam diante de salários supostamente inapropriados para quem tem, agora, um nível de melhor qualificação. Estou observando com lentes distorcidas ou o fenômeno é real?

Breno Lima disse...

Adolfo,

É uma máxima o discurso entre os economistas, sobre a diminuição dos encargos setoriais trabalhistas, como forma de incentivar a indústria.

Os encargos trabalhistas estão na base de arrecadação do governo e fomentam, inclusive, a saúde do trabalhador (direta ou indiretamente), sua capacitação (sistema S e outros) e aposentadoria.
Quando penso na industrialização do Brasil, concordo que o momento atual é preocupante pela desindustrialização citada pelo Prof Arbache.
No entanto, situando o Setor Industrial Brasileiro, mundialmente, não estamos correndo o risco de mudar práticas trabalhistas no Brasil, indo até contra os princípios da OIT.
É possível desonerar a indústria e, até outros setores da atividade produtiva, enquanto o mundo se torna competitivo, com base em alto padrão tecnológico e práticas tidas como abusivas ao trabalhador? O debate, não sugere avanços, baseados em novos entendimentos, sobre novas práticas trabalhista?

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