segunda-feira, 1 de outubro de 2012

Por que a desigualdade de renda é importante?

Nestes dias onde tantos falam sobre a importância de se combater a desigualdade de renda, acho que vale a pena reler esse artigo publicado neste blog em 24/09/2007.


Uma das maiores críticas feitas ao capitalismo é que esse sistema concentra renda. Isto é, deixa uma grande parcela da riqueza nacional na mão de poucos. Os opositores do capitalismo sustentam que sistemas socialistas são muito mais justos, pois distribuem a renda de uma maneira mais equânime pela sociedade.

O parágrafo acima embute duas afirmações: 1) o capitalismo concentra renda, enquanto o socialismo distribui renda; e 2) concentrar renda é ruim, logo o capitalismo é ruim e o socialismo é bom. Ambas as afirmações são falsas, contudo são aceitas pela maioria das pessoas. Não existe absolutamente nada no capitalismo que leve a uma concentração de renda. Sistemas capitalistas só concentram renda quando o Estado se alia aos trabalhadores e empresários de determinados setores para realizar política industrial. Aliás, a idéia de política industrial é uma idéia de distribuição de renda entre setores da economia. Estranho que os defensores de políticas industriais ativas não se atentem que, na maior parte das vezes, isso implica na transferência de renda de setores pobres para setores ricos da sociedade. No capitalismo puro, onde o Estado não tenta intervir na alocação de recursos do setor privado, não há razão alguma para ocorrer concentração de renda na economia. O motivo disso deve-se a um termo técnico conhecido como produtividade marginal. Em palavras, a medida que um setor vai ficando mais rico a produtividade marginal do investimento naquele setor vai decrescendo. Isso obriga os empresários a investir em outros setores e a distirbuir melhor a renda. Mesmo a nível individual isso é verdade. Por exemplo, a medida que um indivíduo vai ficando mais rico é natural que ele não queira trabalhar tanto. Ao contrário prefere gastar mais tempo com horas de lazer. Já os indivíduos pobres, sacrificam ampla parcela de seu tempo trabalhando duro. Esses movimentos em conjunto diminuem a concentração de renda. Outro detalhe: dizer que um sistema socialista ditribue renda é falso. Num sistema socialista a renda esta altamente concentrada na mão do Estado, e quem domina o Estado (a burocracia central) domina também o uso desses recursos. Assim, sistemas socialistas são muito mais concentradores de renda que regimes capitalistas.

Quanto a afirmação de que concentrar renda é algo de ruim, devemos ter um pouco de cuidado. Concentrar renda é ruim quando a concentração se dá por meio de mecanismos externos ao mercado (Governo). Esse tipo de concentração de renda não beneficia os melhores, mas apenas os amigos do governo. Quando a concentração de renda ocorre apenas por mecanismos internos de mercado, isso implica que os mais capazes de satisfazer o mercado recebem compensações mais altas do que os incapazes de atender tal demanda. Mas note que tal concentração de renda só dura enquanto os melhores continuarem sendo os melhores, caso eles relaxem o próprio mercado diminui a remuneração deles e reduz a desigualdade de renda. Assim, a desigualdade de renda é resultado do prêmio recebido pelos melhores em seu esforço de atender ao mercado. Em outras palavras, quando um sistema premia os melhores a desigualdade de renda aparece. Acabar com a desigualdade de renda é o mesmo que retirar o prêmio dos melhores, ou simplesmente premiar os piores. Não parece razoável assumir que um sistema que premia os piores leve a sociedade a um bom nível de bem estar no futuro.

Por fim, devemos lembrar que o importante para uma sociedade composta por indivíduos não invejosos é o nível de bem estar de cada um, e não a situação relativa. A desigualdade de renda é uma medida relativa e como tal tem pouca habilidade em medir o bem estar da sociedade. De maneira simples, pouco importa que a renda esteja concentrada na mão de poucos se o nível de bem estar dos indivíduos pobres é extremamente alto. Se a parcela pobre da população tem um alto nível de bem estar e tem acesso a oportunidades, então qual o problema dos ricos serem muito ricos?

4 comentários:

Breno Lima disse...

Adolfo,

1 - pensando no longo prazo, se um formulador de politicas publicas opta por uma estrategia, que nao contemples OS pontos ressaltados no texto, ele nao so perdera capacidade de formular politicas sociais, pelo comprometimento dos recursos do Estado, como tambem perdera em capacidade alocativa de mercado, prejudicial justamente para as classes menos favorecidas.
2 - OS paises onde o 'estoque' de igualdade e maior que de desigualdade tem serios problemas sociais ligados a satisficiencia de seus cidadaos, por fatores ligados ao proprio meio.

E impossivel resolver o problema da desigualdade via Estado integralmente, a melhor estrategia esta diretamente ligada a valorizacao do trabalho?

Bruno Furtado disse...

Adolfo,

Seu segundo argumento foi perfeito, mas tenho uma pequena ressalva ao primeiro. Dado que a produtividade marginal de diferentes trabalhadores depende principalmente de seu capital humano, a tendência natural do sistema de mercado a dispersar a renda cai por água abaixo. Se você admitir que no livre mercado pode haver restrição ao crédito (em virtude, por exemplo, de informação assimétrica entre o credor e o emprestador ou de aversão ao risco por parte dos bancos), nada garante que todos os indivíduos terão a mesma oportunidade de adquirir capital humano. De fato, nesse caso existem duas tendências contrárias: por um lado, existe a tendência dispersora de renda que você descreveu; por outro, filhos de pessoas mais ricas tenderão a ter maior oportunidade de acumular capital humano, o que perpetua a desigualdade de renda. É difícil saber se uma dessas tendências sobrepuja a outra no longo prazo.

Anônimo disse...

Bruno, vc acrescenta um motivo para concentração em oposição a um motivo para desconcentração. O seu motivo sendo de natureza diversa do defendido pelo professor, não há de se falar em contrabalançar. O seu levaria a desigualdade maior e pronto -- o outro motivo nada faz para contrarrestá-lo.
Mas note que assimetrias existem e não são algo que se possa revogar. Seriam muito maiores num sistema em que não há mecanismos minimamente eficientes para externar conhecimento de qualquer natureza (técnico, circunstanciais etc). Com maior escassez, o racionamento se daria de cima para baixo de modo ainda mais severo e dirigido pelos detentores do poder político. E isso não ficaria limitado ao ensino. Aliás, não faz tanto tempo, antes do Estado Moderno, liberal, que o acesso à educação era restrito a sacerdotes e escribas.
De resto, note que a possibilidade de educar melhor os filhos leva algumas pessoas a prestar melhores e mais serviços, o que vc poderia dizer que vai afetar a tal uniformização da distribuição no sentido com o qual vc concordou ao entender que realmente gera maior igualdade.
O ponto é que a uniformização não ajuda os pobres. Entendida como um meio, seria tiro pela culatra.

Educação disse...

Não acredito que um doutor possa ter hipóteses como a sua !!
Em que realidade você vive ? Aposto que você não entendeu Marx quando ele analisa a economia...
Chegou ao doutorado e não se libertou. Leia Paulo Freire, procure entender melhor o Brasil e o mundo, faça um passeio por lugares diferentes de onde nasceu.





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