terça-feira, 31 de julho de 2012

Entrevista com Adolfo Sachsida: a década de 1970 está de volta?

Neste post, entrevistamos nosso décimo-oitavo convidado: Adolfo Sachsida.

Essa entrevista foi publicada ontem no Ordem Livre.


1) O Brasil está revivendo o final da década de 1970? Será que em breve estaremos revivendo a década de 1980 (apelidada de década perdida)? Por quê?

Resposta) Sim. Temos hoje um governo que tem as mesmas ambições, e que utiliza os mesmos métodos errados, empregados pelos gestores de política econômica do final dos anos 1970. Tal como no final da década de 1970, os gestores da economia brasileira se recusam a realizar os ajustes macroeconômicos necessários. Tal como no final da década de 1970 temos o governo como o grande promotor do crescimento econômico. Seja escolhendo setores, e favorecendo-os com generosos subsídios do BNDES, seja escolhendo indústrias e favorecendo-as com desonerações fiscais, o governo tenta a todo custo dizer para onde deve ir a economia. Essa política de dirigismo estatal não funcionou antes, e irá fracassar novamente agora. É estranho que o Brasil adote hoje políticas que já fracassaram no passado e espere por resultados diferentes.

É uma ilusão acreditar que o Brasil não necessita de recursos externos. Existe aqui algo diferente da década de 1970. Hoje uma desvalorização cambial, no primeiro momento, favorece as contas públicas brasileiras. Isto ocorre por dois canais: 1) as reservas internacionais que o Brasil mantém diminuiriam a dívida pública em reais; e 2) a inflação resultante ajudaria a equacionar o problema fiscal. Adicionalmente, o setor público não está tão endividado em dólares como ocorria ao final da década de 1970. É com base nisso que alguns analistas argumentam que a dependência externa brasileira não é tão severa. Contudo, se esquecem de que, num segundo momento, as incertezas decorrentes desse ambiente trariam o caos de volta à economia brasileira. Também devemos ressaltar o óbvio: de onde vem a poupança para financiar o investimento brasileiro? Certamente não é do setor público. A poupança interna privada também não é suficiente. Isto é, boa parte do investimento nacional se realiza por meio de poupança externa. Poupança essa que denota a grande dependência que temos dos recursos externos.

Tal como a década de 1980 foi conhecida como década perdida, temo que as políticas econômicas atuais do governo brasileiro (muito semelhantes às políticas adotadas ao final da década de 1970) nos joguem numa crise de proporções equivalentes no futuro. Existem hoje vários problemas que podem complicar razoavelmente o desempenho de longo prazo do Brasil. Em particular, quero ressaltar a questão demográfica, uma verdadeira bomba relógio que o governo insiste em não desarmar.


2) Qual o maior risco do cenário externo para a economia brasileira?

Resposta) Existem hoje dois grandes riscos para o Brasil: a) uma queda no preço das commodities; e b) um aumento na taxa de juros internacional. Uma queda no preço das commodities afeta negativamente os termos de troca nacionais, em resumo, nos deixa mais pobres. Note que ao longo do tempo é normal a oscilação dos termos de troca. Assim como hoje tal oscilação nos favorece, um dia tal tendência irá se inverter. Nada de errado com isso. Errado é deixarmos em segundo plano o importante papel que as commodities representaram no desenvolvimento econômico brasileiro recente.

Cedo ou tarde a inflação irá ressurgir nos EUA e na Europa. Quando isso ocorrer tais países irão aumentar a taxa de juros, que hoje se encontra num patamar mínimo histórico. O aumento das taxas de juros internacionais será o começo do suplício da economia brasileira. Devemos aproveitar enquanto a taxa de juros internacional ainda é baixa para realizarmos os necessários ajustes macroeconômicos. Infelizmente, a recusa em fazer isso, aliada ao aumento dos gastos do governo, terá consequências nefastas para nossa economia quando do aumento da taxa de juros internacional.


3) O governo parece estar usando política tributária para controlar a inflação. Você acredita que isso seja verdade? Se for verdade, concorda com isso? Por quê?

Resposta) Sim, o governo vem adotando mecanismos exóticos de combate à inflação. Essa equipe econômica é tão ruim que é bem provável que eles não tenham notado que as desonerações tributárias iriam reduzir a inflação medida pelo IPCA. Contudo, uma vez que o fruto proibido foi provado o governo parece ter gostado da ideia e insiste nela. O exemplo mais gritante foi a questão da CIDE, onde o governo clara e intencionalmente usou política tributária para conter a inflação.

Usar política tributária para combater inflação é uma ideia medíocre. Apoiar isso requer um alto grau de analfabetismo econômico.

domingo, 29 de julho de 2012

Entrevista com Jose Oreiro: a década de 1970 está de volta?

Neste post, entrevistamos nosso décimo-setimo convidado: Jose Oreiro. O Professor Oreiro é um dos mais importantes representantes da corrente pós-keynesiana no Brasil. Ele também mantém um ativo blog de economia. O Sachsida só tem a agradecer pela gentileza da entrevista.


1) O Brasil está revivendo o final da década de 1970? Será que em breve estaremos revivendo a década de 1980 (apelidada de década perdida)? Por quê?

Resposta) Não acredito que seja correto afirmar que o Brasil esteja revivendo o final da década de 1970. Por uma série de razões. Em primeiro lugar, a taxa média de crescimento real do PIB no período 1977-1980 foi de 6,46% a.a segundo dados do IPEADATA. No biênio 2011-2012, caso se confirme as expectativas de mercado quanto a trajetória do PIB neste ano, teremos um crescimento médio inferior a 2,5% a.a. Dessa forma, percebe-se que enquanto o final da década de 1970 foi um período marcado por um crescimento bastante robusto do PIB (embora menor do que na época do milagre); os dois primeiros anos da administração Dilma Rouseff são caracterizados por uma semi-estagnação do crescimento. Em segundo lugar, a participação da indústria de transformação no PIB brasileiro era muito maior na década de 1970 do que é agora (ver figura abaixo). O processo de desindustrialização da economia brasileira teve inicio no final da década de 1970, mas o mesmo se acelera durante os sucessivos governos do PT a tal ponto que a participação da indústria de transformação no PIB recuou em 2011 ao valor existente em 1947 !!! Nesse cenário seria uma benção se a economia brasileira retornasse ao final da década de 1970, pois isso significaria um crescimento de 6 p.p na participação da indústria de transformação no PIB.

Fonte: Marconi (2011)

Por fim, o padrão de financiamento externo da economia brasileira mudou muito do final da década de 1970 para os dias atuais. Embora o Brasil tenha voltado a exibir déficits em conta corrente a partir de 2007, atualmente esses déficits são 100% financiados com IED; ao passo que na década de 1970 os déficits eram financiados com empréstimos bancários. A mudança na composição do passivo externo da economia brasileira deixa o país menos vulnerável a mudanças na política monetária dos países desenvolvidos, ao contrário do que ocorreu na década de 1970, após o choque de juros promovido pela gestão Volcker no FED. Se a taxa de juros americana aumentar de maneira significativa em 2014 ou 2015, o impacto sobre a conta corrente do balanço de pagamentos será pequeno, pois a maior parte do nosso passivo externo não está direta (ou indiretamente) ligada com a taxa de juros internacional. Está claro que, nesse cenário, haverá uma redução do fluxo de capitais para a economia brasileira, produzindo uma desvalorização cambial. Contudo, ao contrário dos anos 1970, o Brasil dispõe hoje de um volume bastante significativo de reservas internacionais as quais, combinadas com controles a saída de capitais, poderão controlar o ritmo de desvalorização cambial.

Daqui se segue que uma nova década perdida em função de uma “crise de endividamento externo” como na década de 1980 está descartada. O risco que a economia brasileira corre – e que parece que não está sendo entendido pelas sucessivas administrações petistas – é a perda de dinamismo devido a desindustrialização. Para mim o cenário mais provável é de uma economia que poderá crescer entre 2,5% a 3% a.a no médio e longo-prazo, mantendo uma razoável estabilidade macroeconômica e uma taxa de desemprego em torno de 6 a 7% da força de trabalho. Do ponto de vista eleitoral esse cenário pode até ser suficiente para perpetuar o PT indefinidamente no poder, mas irá condenar eternamente o Brasil a condição de país sub-desenvolvido.


2) Qual o maior risco do cenário externo para a economia brasileira?

Resposta) O maior risco que o Brasil enfrenta no curto-prazo é uma forte desaceleração do crescimento econômico na China, o que levará a uma queda bastante pronunciada dos preços das commodities que o Brasil exporta. Nesse cenário, o déficit em conta corrente poderá aumentar para 5 ou 6% do PIB tornando-se rapidamente insustentável. Isso produzirá um “sudden-stop” do financiamento externo para a economia brasileira, o que produzirá uma forte desvalorização da taxa de câmbio e aumento da taxa de inflação. Se o governo brasileiro usar de forma competente as reservas internacionais, impor controles a saída de capitais e limitar a indexação de preços e salários a inflação passada, então a desvalorização cambial poderá ser administrada e a elevação da inflação será apenas temporária. Certamente que, nesse cenário, teremos 2 ou 3 anos de queda de crescimento com elevação da inflação (estagflação), mas ao final do processo a taxa de câmbio está perfeitamente ajustada permitindo a re-industrialização da economia brasileira e o retorno ao dinamismo econômico no longo-prazo.


3) O governo parece estar usando política tributária para controlar a inflação. Você acredita que isso seja verdade? Se for verdade, concorda com isso? Por quê?

Resposta) A inflação acumulada nos últimos 12 meses vem se reduzindo desde setembro de 2011 em função da desaceleração do crescimento da economia brasileira. Eu particularmente não gosto do conceito de produto potencial – em função do caráter eminentemente path-dependent da maneira pela qual o mesmo é calculado – mas acho que hoje em dia ninguém duvida que o Brasil cresce abaixo do seu potencial de longo-prazo. Dessa forma, é natural que a inflação venha se desacelerando desde setembro de 2011. O que para mim é uma incógnita é o que vai acontecer com a inflação se e quando a economia brasileira voltar a crescer a taxas mais robustas. Se o governo conseguir induzir um crescimento de 4% a.a com base no estimulo a demanda de consumo, o resultado será uma aceleração muito forte da inflação. Isso porque numa economia que opera com cerca de 5% de desemprego da força de trabalho e 82% de utilização da capacidade produtiva (ver figura) como a economia brasileira atualmente, e onde a indústria de transformação responde por menos de 15% do PIB, não existem recursos ociosos e/ou fontes de aumento de produtividade que permitam um crescimento do PIB muito acima do ritmo de crescimento da força de trabalho, o qual se encontra atualmente em 1,3% a.a. Sem uma forte re-industrialização da economia brasileira em conjunto com um aumento significativo do investimento público em infra-estrutura, a economia brasileira irá permanecer indefinidamente numa situação de semi-estagnação em função do crescimento anêmico da produtividade do trabalho, onde qualquer tentativa de romper com a mesma via expansão da demanda de consumo levará a surtos inflacionários, os quais terão que ser debelados por aumentos cavalares na taxa de juros. Triste Brasil.

Fonte : IPEADATA.

Referências:
MARCONI, N; ROCHA, M. (2011). “Desindustrialização precoce e sobrevalorização da taxa de câmbio”. Texto para Discussão n.1681, IPEA/DF.


Entrevista com Claudio Shikida: a década de 1970 está de volta?

Neste post, entrevistamos nosso décimo-sexto convidado: Claudio Shikida. Além de sua qualidade acadêmica, o professor Shikida mantém um dos melhores blogs da internet. O Sachsida só tem a agradecer pela gentileza da entrevista.

1) O Brasil está revivendo o final da década de 1970? Será que em breve estaremos revivendo a década de 1980 (apelidada de década perdida)? Por quê?

Resposta) Imagino que a pergunta foi pensada no contexto do crescimento econômico. O que tivemos na década de 70? Um período de crescimento econômico afetado por dois choques nos preços do petróleo (1973 e 1979) seguido de uma opção governamental de prosseguir com investimentos em infra-estrutura. Se esta foi ou não uma opção correta é algo que se pode discutir. Entretanto, o fato é que a década de 80 não apresentou o mesmo desempenho. Podemos pensar nestes eventos como parte de um ciclo econômico de longo prazo. Neste sentido, pode ser que estejamos próximos de uma década “perdida”, mas por motivos diferentes. Por que?

Em primeiro lugar, temos várias mudanças importantes desde os anos 80 para os dias de hoje. Parece-me que tivemos a ascensão e queda do modelo das agências regulatórias: políticas de defesa da concorrência não sensibilizam mais os burocratas do governo, mais preocupados com a manutenção de altos índices de popularidade para o governo.

Em segundo lugar, houve uma mudança brutal na forma de se fazer política monetária no Brasil. Para o desespero dos defensores do “nacional-inflacionismo” (por eles denominado “nacional-desenvolvimentismo”), a política monetária é hoje feita com um capital humano de muito maior qualidade. Tantos fracassos com planos heterodoxos e com políticas fiscais irresponsáveis nos levaram a um aprendizado doloroso sobre o que pode ou não pode fazer a política monetária. É mais fácil perceber, hoje, quando a política monetária foge de seus objetivos para se acomodar à política fiscal. Assim, há um avanço institucional nesta área que, embora sempre corra o risco de ser solapado – como parece estar ocorrendo no marco regulatório citado – parece ter forças para se manter por mais alguns anos.

Terceiro, intencionalmente ou não, os governos democráticos lograram obter ganhos no combate à inflação, promovendo uma importante redistribuição de renda a favor dos pobres seguida de políticas inclusivas que, embora tenham problemas em sua concepção (o famoso “efeito catraca” – ratchet effect) , parecem ser um sucesso microeconômico, embora não possamos nos esquecer do crescimento econômico duramente obtido sobre os governos FHC e facilmente derivado do crescimento da economia mundial nos governos seguintes, até 2008. Em outras palavras, inclui-se mais pessoas no mercado consumidor, embora não se possa se dizer o mesmo sobre o empreendedorismo, que ainda enfrenta dificuldades em seu crescimento, em grande parte por culpa do governo.

Quarto, durante o período militar, pelo bem ou pelo mal, havia maior estabilidade política do que existe hoje. Os governos de esquerda não se mostraram melhores do que seus antecessores neste aspecto. A crise política do mensalão, o “ano perdido” que foi o primeiro ano da administração Rousseff, com denúncias quase semanais de corrupção e trocas de ministros em ritmo elevado (nunca antes visto neste país?) não mostram que a esquerda governante lida melhor com a corrupção do que seus antecessores. Além disso, as tentativas de intervir nas políticas de grandes empresas para, novamente, manter elevados índices de popularidade, embora de forma muito menos intensa do que o que se faz atualmente na Argentina, não deixa de ser um perigoso precedente.

Quinto, quanto aos investimentos, o governo atual não se sai muito melhor do que governos anteriores. O chamado “custo Brasil” segue firme e forte. Há, por outro lado, um tímido avanço da sociedade civil no sentido de fiscalizar estes gastos. É desejável que este movimento aumente. Afinal, paga-se imposto online, mas para falarmos de gasto público, estamos longe de um nível ótimo de transparência.

Em último lugar, o mais importante: o capital humano. O que observamos no Brasil? Não se percebe um esforço real de melhoria do ensino básico, embora o presidente anterior tenha feito questão de inaugurar várias universidades públicas. Há quem pense que basta empregar algumas pessoas em alguma “incubadeira” pública para que se gere inovações. Se o governo (com co-responsabilidade de muitos que o elegeram) – estivessem realmente preocupados com a formação do capital humano veríamos muito mais propaganda de estantes de livros e escrivaninhas em jornais. Outro indicador: o bom e velho apoiador de livros que se encontra em qualquer papelaria norte-americana. Fácil de se transportar em uma mochila e útil para a leitura em qualquer lugar, este item não existe aqui. Tecnologia e inovação se não saem de “incubadeiras”, mas da educação doméstica aliada a uma educação decente nas escolas. Caso alguém queira um indicador mais famoso, que veja os diversos artigos que medem retornos para o capital humano no país.

Embora incompleta, a lista não me deixa muito otimista quanto ao crescimento econômico no médio prazo. No longo prazo, entretanto, ainda há esperança caso o setor privado (leia-se: (e)leitores!) pressione o governo para que cumpra seu papel correto (não este de escolher perdedores às custas de um vencedor). A boa condução das políticas econômicas também é um fator que foi duramente conquistado nos últimos anos e deve ser preservado.


2) Qual o maior risco do cenário externo para a economia brasileira?

Resposta) Para mim, o maior risco do cenário externo não são a China ou as commodities. Claro que estes são fatores importantes para o crescimento, ceteris paribus. O que me parece mais importante é o crescimento da economia mundial. Tenho dúvidas, por exemplo, sobre como as regulamentações do mercado financeiro pós-2008 afetarão o potencial de crescimento.

Por outro lado, as mudanças geopolíticas que ocorreram recentemente no mundo árabe podem ter consequências ainda imprevisíveis para a economia brasileira. Pode-se pensar apenas na balança comercial, mas, na verdade, mudanças como aquelas podem gerar reestruturações em outras economias como vimos nos anos 70. Este é um ponto sobre o qual ainda especulo.

O crescimento da China, assim como o foi o do Japão nos anos 80, gerou muito dinheiro em palestras e livros, mas a economia chinesa é, em última instância, como em qualquer economia, gerida por incentivos de mercado, quer o governo chinês goste ou não disso (obviamente ele pode atrapalhar estes incentivos). Assim, a elevação do custo da mão-de-obra que observamos atualmente na China, as pressões inflacionárias, etc, diminuem a atratividade dos investimentos externos naquele país, mas isto não necessariamente afeta o ciclo de crescimento atual (e os efeitos defasados de sua demanda por nossas commodities).

Quanto a isto, basta que nossos empresários estejam atentos (ou “alertas”, para adoçar os ouvidos de alguns) às oportunidades e diversifiquem os mercados. Mas, obviamente, isto é algo que, por definição, um empresário sabe fazer.


3) O governo parece estar usando política tributária para controlar a inflação. Você acredita que isso seja verdade? Se for verdade, concorda com isso? Por quê?

Resposta) Confesso que esta foi a pergunta mais difícil para mim. Procurei em alguns livros-texto por algo como “política tributária e inflação”, mas, como desconfiava, não encontrei nada. Não é à toa, claro, pois todos aprendemos que a política tributária tem alguns objetivos dentre os quais não se encontra o controle da inflação.

Isto não quer dizer que o governo não possa tentar fazer algo como tentar controlar a inflação via política tributária. Entretanto, acho difícil dizer que ele conseguirá algum resultado que possamos claramente atribuir à política tributária.

O combate à inflação deve ser feito pela política monetária. Sabemos disso e sabemos também que a política fiscal tem outro objetivo que é o crescimento econômico.

Mas como a política tributária influencia no nível de preços? Pode-se pensar em uma política de “incentivos fiscais. Quando se fala em incentivos fiscais (ou, como prefiro, “favoritismos fiscais”), o que realmente acontece é algo mais complicado: o governo pretenciosamente acha que sabe que setores gerarão maior crescimento (e este crescimento gerará votos) e aposta em um número, por exemplo: “15 pontos percentuais de queda no imposto X”. O que esta política faz? Gera mudança no nível de atividade nos setores relacionados à produção do produto favorecido. Caso não seja uma queda, mas um aumento no imposto, obviamente, ocorre o contrário.

Assim, o preço do produto em questão é alterado e isto gera consequências na cadeia produtiva. O problema é como distinguir estes efeitos de forma a diferenciar a mudança da política tributária de outros choques que afetam a economia. Além disso, se há um aumento de alíquota de impostos, gera-se o contrário do que o governo atual quer, vale dizer, as pressões são para queda da atividade produtiva.

Talvez o que o governo esteja, de fato, fazendo, é tentar estimular alguns setores com forte poder de geração de empregos, em ano eleitoral, em detrimento de outros, para tentar compensar o desempenho sofrível da atividade econômica mundial recente.


sexta-feira, 27 de julho de 2012

Entrevista com Ubiratan Jorge Iorio: a década de 1970 está de volta?

Neste post, entrevistamos nosso décimo-quinto convidado: Ubiratan Jorge Iorio. O Professor Iorio é autor de vários livros. Além disso, é um dos mais destacados pesquisadores brasileiros da escola austríaca. O Sachsida só tem a agradecer pela gentileza da entrevista.

1) O Brasil está revivendo o final da década de 1970? Será que em breve estaremos revivendo a década de 1980 (apelidada de década perdida)? Por quê?

Resposta) A meu ver estamos em uma situação pior do que nos anos 70, porque estamos reincidindo em muitos dos erros cometidos naquele período. Se o governo continuar tratando nossos problemas estruturais - dos quais o pior, sem dúvida, é o inchaço do estado - com medidas tópicas, tais como isenções temporárias de impostos e estímulos ao consumo, corremos o risco de reviver os tristes anos 80. O governo petista tem um cacoete fatal, que é a crença de que o estado (que faço questão de grafar com e minúsculo) deve ser o "motor do crescimento". Temos quase 40 ministérios, uma carga tributária que é disparada a maior dentre os países emergentes (e entre os não emergente também), uma legislação trabalhista anacrônica, uma burocracia que beira as fronteiras da imbecilidade e gastos públicos sempre com tendência crescente. Se a isso tudo adicionarmos um banco central "desenvolvimentista" (entre aspas) temos aí a receita infalível para a estagflação!


2) Qual o maior risco do cenário externo para a economia brasileira?

Resposta) Sem dúvida, a China, que dificilmente conseguirá fazer sua economia crescer às taxas observadas nos últimos anos, o que irá prejudicar nossas exportações. Além disso, obviamente, temos a crise na Europa e nos Estados Unidos.


3) O governo parece estar usando política tributária para controlar a inflação. Você acredita que isso seja verdade? Se for verdade, concorda com isso? Por quê?

Resposta) Este governo (e este banco central) estão sendo desastrosos para a nossa economia. Acabou com o ajuste fiscal, vem adotando uma política monetária que equivale a administrar açúcar para um paciente diabético e, no front externo, abandonou irresponsavelmente (porque o fez para agradar ao setor exportador) a flexibilidade cambial, o que significa que comprometeu definitivamente o sistema de metas de inflação que, se não é o ideal (defendo simplesmente a extinção do Bacen e a adoção de um sistema de moedas competindo entre si), pelo menos é o menos pior. Há indícios de que os "mantega boys" estão besuntando a economia de incoerências e uma delas é usar a política tributária para controlar a inflação. Isso é um grave equívoco, porque eles olham para os índices de preços, quando a inflação não é um simples aumento nesses índices. A inflação é o aumento na oferta de moeda sem lastro real (seja o ouro ou a produção real). Quando eles usam a política tributária para combater os aumentos de preços e concomitantemente executam uma política monetária frouxa, estão, simplesmente, cometendo suicídio, ou seja, estão plantando a semente da inflação e a do desemprego no futuro. Mas o que é o futuro para a equipe econômica desse governo, a não ser, talvez - e com muito boa vontade - o final do mês?


quinta-feira, 26 de julho de 2012

Entrevista com Rodrigo Constantino: a década de 1970 está de volta?

Neste post, entrevistamos nosso décimo-quarto convidado: Rodrigo Constantino. Constantino é autor de seis livros: "Prisioneiros da Liberdade", "Estrela Cadente: As Contradições e Trapalhadas do PT"", "Egoísmo Racional: O Individualismo de Ayn Rand" ,"Uma Luz na Escuridão" "Economia do Indivíduo: O Legado da Escola Austríaca", e "Liberal com orgulho". É colunista da revista Voto, colaborador do jornal O Globo e do site OrdemLivre.org. É membro-fundador do Instituto Millenium e diretor do Instituto Liberal. Além disso, mantém um excelente blog. O Sachsida só tem a agradecer pela gentileza da entrevista.


1) O Brasil está revivendo o final da década de 1970? Será que em breve estaremos revivendo a década de 1980 (apelidada de década perdida)? Por quê?

Resposta) De fato, acredito que o modelo vigente nos últimos anos e aquele da década de 1970, especialmente com Geisel, possuem muitas semelhanças. Entre elas, as mais importantes são: a) dirigismo econômico (o governo se arroga a sabedoria de decidir, de cima para baixo, as alocações ótimas do recurso escasso, escolhendo os 'campeões nacionais' que serão agraciados com privilégios como empréstimos subsidiados); b) dependência da poupança externa (como o crédito cresceu a taxas elevadas, acima de 15% ao ano por longo período, sem a contrapartida do aumento da poupança doméstica como lastro, foi preciso fechar a diferença por meio do capital estrangeiro). O mais grave deste modelo, que por si só já é insustentável, é que os recursos obtidos não foram canalizados para investimentos produtivos que aumentassem a produtividade de nossa economia. O Brasil aproveitou um maná externo, possível pelo acelerado crescimento chinês (puxando o preço das commodities que exportamos) e pela baixa taxa de juros no mundo desenvolvido (exportando capital para países emergentes), de forma irresponsável, como uma cigarra que ganha na loteria e vai às compras. O consumo calcado em crédito explodiu. Mas nenhuma reforma estrutural (tributária, trabalhista, previdenciária) que reduzisse o Custo Brasil foi feita, tampouco houve maciços investimentos em infraestrutura. O resultado está aí: o esgotamento deste modelo e taxas de crescimento medíocres à frente.


2) Qual o maior risco do cenário externo para a economia brasileira?

Resposta) O maior risco de médio prazo ainda é a China, cuja desaceleração, se for muito acentuada, vai simplesmente colocar um fim na farra das commodities. O outro grande risco é a crise europeia, que se for agravada pela ruptura do euro, pode jogar o mundo em recessão e levar junto os países emergentes.


3) O governo parece estar usando política tributária para controlar a inflação. Você acredita que isso seja verdade? Se for verdade, concorda com isso? Por quê?

Resposta) Em parte, esse parece o caso. O último pilar macroeconômico que restou da Era FHC foi o superávit primário. Com este arrefecimento da economia, e sem instrumentos monetários extras para mais estímulo, por causa do excesso de endividamento dos consumidores, a próxima tentação do governo pode ser abrir mão do superávit e expandir mais ainda seus gastos. Hoje o superávit ainda se mantém em parte pelo aumento da receita. Mas há limites para tanto, e a carga tributária, perto de 40% do PIB, acaba prejudicando o crescimento também. Se o governo adotar postura totalmente míope de curto prazo e quiser estimular com mais gastos públicos a economia, mesmo que para tanto tenha que abrir mão do superávit, então seria um retrocesso institucional enorme, podendo inclusive ressuscitar de vez o dragão inflacionário. Espera-se que o governo, que tem errado muito mais do que acertado, não chegue tão longe assim na estupidez.

quarta-feira, 25 de julho de 2012

Entrevista com Pedro Albuquerque: a década de 1970 está de volta?

Neste post, entrevistamos nosso décimo-terceiro convidado: Pedro Albuquerque. O Professor Albuquerque tem ampla experiência em macroeconomia e economia brasileira. Além disso, mantém o excelente blog Incentives Matter. O Sachsida só tem a agradecer pela gentileza da entrevista. Esta entrevista foi publicada hoje no Ordem Livre.


1) O Brasil está revivendo o final da década de 1970? Será que em breve estaremos revivendo a década de 1980 (apelidada de década perdida)? Por quê?

Há diferenças e similaridades importantes. As duas grandes similaridades são, por um lado, o aprofundamento do modelo de desenvolvimento econômico fortemente baseado em gastos e projetos estatais que alimentam a fragilidade interna e externa do país, e, por outro lado, a dependência da economia brasileira em relação a ciclos de termos de troca internacionais e ciclos de juros nas economias avançadas.

A economia brasileira é hoje também diferente da década de 70, mas não necessariamente de maneira positiva. A primeira diferença é que o choque dos termos de troca nos anos 70 veio predominantemente pelo lado das importações, enquanto que hoje vem pelo lado das exportações. A segunda diferença é que nos anos 70 o Brasil conhecia aumentos reais de produtividade, de capacitação tecnológica e de educação qualitativamente superior às que conheceu nas décadas anteriores, mesmo que não necessariamente de forma universal. Por isso, o país conheceu, durante a década que se seguiu, aumentos de produtividade e uma tendência à diversificação de sua pauta de exportações que muito o ajudou a superar a terrível crise fiscal dos anos 80 e os choques sequenciais negativos de termos de troca. Hoje, ao contrário, o país não somente presenciou a estagnação da sua produtividade, mas também um retorno à participação excessiva de produtos básicos na sua pauta de exportações que não era vista desde os anos 70. As tendências, portanto, ainda eram positivas nos anos 70, e hoje, infelizmente, são estáveis ou negativas.

Uma diferença que é incorretamente citada por muitos economistas brasileiros é a mais fraca exposição do Brasil a dívidas externas hoje. Mas tal crença é incorreta, pois ignora a existência dos “esqueletos no armário” dos setores público e privado num país ainda mais incapaz de poupar que nos anos 70. Como estamos vendo hoje até mesmo no caso de economias avançadas que poupam, posições externas favoráveis podem rapidamente transformar-se em posições externas desfavoráveis após uma crise fiscal ou creditícia severa.

2) Qual o maior risco do cenário externo para a economia brasileira?

Poucos no Brasil se dão conta de que os EUA já deixou de ser há tempo um parceiro comercial muito importante para o Brasil. De fato, o valor combinado das exportações brasileiras em 2010 para a União Europeia e a China foi nada menos que quatro vezes maior que o valor das exportações para os EUA. O que isso quer dizer é que, considerada a reduzida dependência de exportações diretas aos EUA, o Brasil não foi tão afetado quanto outros países emergentes pela crise americana durante os últimos cinco anos. Hoje, por outro lado, a economia brasileira corre sérios riscos por conta da crise fiscal de alguns importantes parceiros comerciais europeus e pela inevitável desaceleração do crescimento na China. Os efeitos da desaceleração econômica nessas duas regiões, combinados com uma queda dos preços de commodities exportadas pelo Brasil, poderão fazer cair por terra a tese da “blindagem”, tendo em vista que a robustez aparente da economia brasileira teria sido nada mais que o resultado de uma série de coincidências externas favoráveis ao país.

Outro risco muito grande para a economia brasileira é o descontrole fiscal americano que pode resultar num processo de aceleração súbita dos juros internacionais, o que seria fatal para o Brasil dada a intensa participação estatal nos mercados subsidiados de crédito à produção e a fragilidade do sistema de crédito ao setor privado brasileiro, fragilidade que se manifesta historicamente via taxas de juros reais e nominais incomparavelmente elevadas, mesmo durante momentos de farta liquidez doméstica e internacional, como os que o Brasil conheceu durante a última década.

3) O governo parece estar usando política tributária para controlar a inflação. Você acredita que isso seja verdade? Se for verdade, concorda com isso? Por quê?

A única política tributária que pode ajudar a controlar a inflação, indiretamente, é a disciplina fiscal. Desonerar ou onerar fiscalmente pode ser justificável pela teoria das finanças públicas, mas não como instrumento de combate à inflação.

Cabe notar, porém, que desfigurações dos instrumentos de política fiscal e regulatória com fins heterodoxos não são novidades no Brasil. Fala-se muito da independência operacional do Banco Central do Brasil e de sua política monetária quando, na verdade, a inflação brasileira, diferentemente do que ocorre na maior parte dos países desenvolvidos, é fortemente influenciada por preços determinados artificialmente por agências que têm pouco compromisso com eficiência econômica ou controle inflacionário. Ou seja, uma boa parte da inflação brasileira é facilmente manipulável por medidas administrativas distorcedoras que tendem a dominar a política monetária até mesmo no longo prazo, pois o Bacen torna-se refém, como formalizado por Kydland e Prescott, dos objetivos estreitos das agências que detém efetivamente o poder decisório. Em resumo, o que vemos nesse momento é uma perda da capacidade de confrontação do Bacen, ao mesmo tempo que se acumulam distorções setoriais causadas por políticas de preços que transferem os custos de ajustamento para um futuro não tão distante.

Entrevista com Luciano Nakabashi: a década de 1970 está de volta?

Neste post, entrevistamos nosso décimo-segundo convidado: Luciano Nakabashi. O Professor Nakabashi tem experiência na área de Economia, com ênfase em Crescimento e Desenvolvimento Econômico. O Sachsida só tem a agradecer pela gentileza da entrevista.

1) O Brasil está revivendo o final da década de 1970? Será que em breve estaremos revivendo a década de 1980 (apelidada de década perdida)? Por quê?

Resposta) Eu percebo mais diferenças do que semelhanças. Na década de 70, presenciamos um crescimento com forte endividamento externo. Naquele período, os saldos em transação correntes foram negativos por quase 20 anos (1966-1983) e muito elevados, girando ao redor de 5% do PIB por vários anos. Nos anos 2000, o país obteve um considerável superávit em transações correntes (2003-2007) e, mais recentemente, um déficit crescente, mas ainda controlado, ficando abaixo dos 3% do PIB.

Desse modo, a fragilidade externa era muito maior naquele período. Quando ocorreu a reversão do fluxo de capitais, a economia brasileira sentiu fortemente a mudança no cenário internacional e a recuperação foi muito lenta devido à enorme necessidade de gerar superávits comerciais e fiscais, o que ajuda a explicar a escalada nas taxas de inflação.

A maior parte do endividamento externo, naquela época, ocorreu pela tentativa de manter uma elevada taxa de crescimento com ênfase em investimentos produtivos, guiados direta ou indiretamente pelo setor público. O governo insistia em finalizar a construção do parque industrial brasileiro em uma estratégia de crescimento via substituição de importações.

Já nos anos 2000, a situação externa é favorável, com redução da fragilidade externa. Também ocorreu uma melhora na dívida pública e em seu perfil, e a mudança no cenário internacional teve efeitos muito mais limitados sobre a economia doméstica, mesmo com uma crise internacional de proporções muito maiores do que aquela enfrentada nos anos 70 e começo dos anos 80.

Acho que hoje o perigo maior está na insistência em manter um crescimento via estímulo do consumo, o que pode piorar de forma considerável as contas externas brasileiras, ao longo do tempo, e sem gerar os benefícios de elevação da capacidade produtiva que ocorre pela adoção de um modelo de crescimento que incentiva os investimentos. No entanto, apesar da falta de uma estratégia clara de crescimento e dos frequentes erros de política econômica do governo, o país ainda está longe de uma situação próxima daquela experimentada nos anos 80 pelas melhores condições das contas externas e das contas públicas.


2) Qual o maior risco do cenário externo para a economia brasileira?

Resposta) Acho que um grande risco seria o fim do Euro e uma nova recessão na economia americana. Nesse caso, a piora no cenário internacional seria aguda, com impactos importantes na economia chinesa e demais asiáticas que ainda dependem muito do resultado de suas exportações para continuarem apresentando bom desempenho. Nesse cenário, ocorreria uma redução no preço das commodities, com efeitos importantes nas exportações brasileiras.

Esse cenário aliado a uma tentativa do governo em manter uma taxa de crescimento incompatível com o cenário internacional e com as condições atuais da economia doméstica (nesse ponto lembra bem os anos 70), com estímulos adicionais ao consumo das famílias, além de piorar as contas externas, aumentariam a possibilidade de estouro de bolhas que talvez já existam em alguns segmentos da economia brasileira e o risco de inadimplência. Caso esse cenário se concretize, o que acredito que o governo não deverá permitir que ocorra, os efeitos sobre a economia brasileira seriam severos e duradouros.


3) O governo parece estar usando política tributária para controlar a inflação. Você acredita que isso seja verdade? Se for verdade, concorda com isso? Por quê?

Resposta) Eu acredito que o governo está mais preocupado com o ritmo de crescimento da economia ao adotar esse tipo de política econômica. A presidente Dilma se mostra demasiadamente preocupada com o nível de atividade, adotando medidas pontuais com pouco efetivas, esquecendo-se de tomar medidas que são mais relevantes para o crescimento de longo prazo. Acho que o governo Lula teve certa dose de sorte (colheu frutos do que foi feito anteriormente e experimentou um cenário externo favorável, juntamente com uma depreciação cambial não intencional no início do seu governo que ajudou a melhorar as contas externas brasileiras), o que não pode se repetir indefinidamente. As economias crescem via ciclos e o atual governo precisa aceitar que o momento atual não é de colheita, mas é o momento de plantar.

Para deixar mais claro o ponto, não acho que a inflação seja a maior preocupação do governo, atualmente. Ele está dando muita maior ênfase ao crescimento do PIB, o que concordo pelo jeito em que se encontra o cenário internacional, mas acho que as medidas são equivocadas, em muitos momentos.

domingo, 22 de julho de 2012

Entrevista com Mario Jorge Cardoso de Mendonça: a década de 1970 está de volta?

Neste post, entrevistamos nosso décimo-primeiro convidado: Mario Jorge Cardoso de Mendonça. Em minha opinião o Professor Mendonça está entre os 5 melhores macroeconometristas brasileiros. O Sachsida só tem a agradecer pela gentileza da entrevista.


1) O Brasil está revivendo o final da década de 1970? Será que em breve estaremos revivendo a década de 1980 (apelidada de década perdida)? Por quê?

Resposta) Acredito que existam alguns paralelos importantes entre o período que estamos vivendo atualmente e o que aconteceu durante a década de 1970. Diferente do que está colocado na pergunta, penso que ela estaria mais bem especificada caso estejamos nos referindo ao que aconteceu longo dos anos setenta e não somente ao final deste período. A razão pela qual digo isso tem haver com algo que começou bem antes, quando do surgimento do PAEG, programa de estabilização da inflação e de implantação de um amplo conjunto reformas estruturais na economia de tendência liberal nos campos monetário, fiscal e trabalhista levado a cabo com sucesso impar pelo saudoso e brilhante ministro Roberto Campos. Foram as reformas liberais inseridas no PAEG que permitiram criar as bases para o chamado milagre econômico quando a economia brasileira apresentou alta performance em termos de crescimento por um longo período. Tal como o PAEG, Plano Real liderado pelo ex-presidente Fernando Henrique Cardoso foi também um plano de estabilização de grande valor e que teve desdobramentos de suma importância no que diz respeito à liberalização dos mercados, privatização, implantação do regime de câmbio flutuante, controle da dívida pública, contenção dos gastos públicos, etc. Infelizmente, nem Roberto Campos tampouco Fernando Henrique lograram obter os louros de suas obras.

No caso de Roberto Campos, a mudança de rumo na Revolução no sentido do intervencionismo exacerbado com a ideia de que o Estado deveria ser o motor do crescimento, o alijou do comando da Economia. O que se delineou durante a década de setenta em termos de macroeconômica foi uma política voltada para o aumento dos gastos públicos com criação de inúmeras empresas estatais, protecionismo, reserva de mercado, etc. Basta nos lembrarmos da reserva da informática! E o pior, os gestores de política tentaram remar contra a maré ao não optarem pelo ajuste macroeconômico quando dos dois choques do petróleo. A consequência de tudo isso foi uma queda brutal de produtividade e a hiperinflação culminando com o desastre vivenciado ao longo dos anos oitenta onde o produto cresceu a um taxa média muito baixa e um desemprego altíssimo.

Também Fernando Henrique Cardoso, muito embora tenha emplacado um conjunto de reformas de grande vulto, fundamentais para o país tal como foi o PAEG, não logrou o merecido reconhecimento. As medidas efetuadas pelo seu governo foram de amplo espectro e vão desde o Plano Real que debelou o processo crônico de inflação que assolava a muito a economia brasileira até outras ações como aquelas visaram à reforma do Estado como a Lei de Responsabilidade Fiscal e o controle do déficit público, o estímulo ao aumento da produtividade advindo do amplo programa de privatização e liberalização do comércio exterior, etc. Infelizmente alguns fatores foram responsáveis pela sua impopularidade que ocorreu no seu segundo mandato. Primeiro, o conturbado período pelo qual passou a economia mundial com crises importantes e a insistência na manutenção do câmbio fixo. Caso tivesse feito com maior antecedência a opção pelo câmbio flutuante, os efeitos negativos na economia teriam sido menos dolorosos. Segundo, os efeitos das reformas econômicas demandam tempo para serem sentidas sendo que isso somente aconteceu algum tempo adiante já num outro governo. Em terceiro lugar, infelizmente o senso comum não é dotado de discernimento para compreender as leis da economia e se deixam levar pela demagogia.

O governo de Luis Inácio da Silva que o sucedeu, pelo menos no primeiro momento, não infligiu mudanças substanciais no rumo da economia. Foi por essa razão que o país passou relativamente imune às adversidades ocorridas no cenário internacional logo quando Lula assumiu o mandato. Uma fez que a tempestade se debelou, a economia mundial entrou novamente numa fase de longa prosperidade, se bem que criada de forma artificial. Mas isso não vem ao caso neste momento! Com as contas ajustadas, a estabilidade de preços e agora sentindo efeitos benéficos das mudanças estruturais implementadas no governo FHC, a economia no governo Lula pode se beneficiar da onda de prosperidade pelo qual passou a economia mundial nos seus dois mandatos. Seria então o momento então de aprofundar as reformas como também deveria ter feito o governo da Revolução logo no início dos anos setenta. No entanto, embora o governo Lula inicialmente em termos de política macroeconômica tenha agido de modo sensato, o mesmo não aconteceu na perspectiva microeconômica que com o delinear do tempo começou a apresentar um retrocesso. Isso ficou evidenciado pelo aumento abrupto de cargos comissionados do setor público, aprofundamento da escolha de quadro nos escalões principais por critérios sumamente políticos, aparelhamento ideológico das empresas estatais, interferência na inciativa privada como foi o caso da gestão da Vale do Rio Doce, etc.

Aos poucos todo esse estado de coisas foi naturalmente transbordando para a esfera macroeconômica. Interessante notar que o governo da presidente Dilma Rousseff tem muito em comum no plano econômico com a política econômica que adotada pelo regime da Revolução, embora com muito menos intensidade, mas com a mentalidade de que o Estado é a motor do crescimento econômico. Essa atuação tem se efetivado de muitas maneiras: medidas protecionistas de política industrial, aumento do gasto público, criação de empresas estatais, etc. Tais políticas não deram certo no passado e obviamente não darão em qualquer tempo. Todo o aparato do intervencionismo está sendo usado, mas com resultados opostos ao esperado. O que vemos hoje é o retorno da inflação com o país voltando a crescer a um taxa medíocre. O cenário internacional é também pessimista. A economia mundial dá sinais que a crise veio para se instalar por um longo tempo. O que vai acontecer é difícil prever. Não acredito que vivenciaremos uma década perdida como foi o caso dos anos oitenta, até mesmo por que a história não se repete da mesma forma. Contudo, tempos difíceis se vislumbram no horizonte.


2) Qual o maior risco do cenário externo para a economia brasileira?

Resposta) Naturalmente, o maior problema para qualquer economia emergente é a desaceleração da economia mundial, o que hoje está acontecendo. Infelizmente, como se pode deduzir do que foi dito acima, a economia brasileira poderia estar bem mais imune às adversidades externas caso as reformas iniciadas pelo governo FHC tivessem sido aprofundadas pelos governos subsequentes. A queda no preço das commodities se persistir devido à retração da economia chinesa terá impacto importante sobre nossa economia. Também, a continuidade do mau desempenho da economia brasileira tornará o Brasil menos atrativo ao fluxo de capital externo já retraído devido ao ciclo econômico mundial.


3) O governo parece estar usando política tributária para controlar a inflação. Você acredita que isso seja verdade? Se for verdade, concorda com isso? Por quê?

Resposta) Acredito que o governo tem agido de maneira discricionária sobre diversos domínios da economia. O governo tem usado medidas pontuais não apenas para conter a inflação como também atuar sobre o desemprego. No caso do combate da inflação tem se verificado casos onde a de redução de imposto ocorre em bens cuja elevação do preço teve impacto considerado expressivo sobre a inflação. Nesse sentido, a ideia aqui é diminuir a inflação pela diminuição do preço do produto acarretada pela desoneração do imposto. No entanto, de imediato pode-se detectar três problemas decorrentes dessa medida. Primeiro, ela distorce os preços relativos. Naturalmente aqui cabe a argumentação de que há uma grande heterogeneidade tarifária e que a desoneração não trairia maiores consequências, pois no setor onde ocorreu a desoneração o nível da tarifação já era bem alto. De fato, esse parece ser o caso da indústria automobilística. Segundo, o favorecimento de um setor em detrimento de outros. Em terceiro lugar, nada garante que o aumento do preço de certo produto não decorreu de motivos conjunturais. Sendo assim, tal medida é inócua e somente levaria a perda de arrecadação. A lição aqui é entender por definitivo que a inflação significa em última análise um crescimento generalizado dos preços advindo de uma causa comum: a expansão dos meios de pagamentos num taxa acima da produção. Se os gestores de política não atacarem a causa fundamental que dá origem ao processo inflacionário qualquer a medida discricionária não alcançará o resultado desejado. Por fim, no caso do combate do desemprego, também a desoneração do imposto apenas terá um efeito temporário. Não existe desoneração capaz de suportar a queda nas vendas por um período e num ritmo muito expressivo.

quarta-feira, 18 de julho de 2012

Entrevista com Samuel Pessoa: a década de 1970 está de volta?

Neste post, entrevistamos nosso décimo convidado: Samuel de Abreu Pessoa. Além de seus méritos acadêmicos, o Professor Samuel Pessoa é um especialista em desenvolvimento econômico. O Sachsida só tem a agradecer pela gentileza da entrevista.

1) O Brasil está revivendo o final da década de 1970? Será que em breve estaremos revivendo a década de 1980 (apelidada de década perdida)? Por quê?

Resposta) Penso que há inúmeros paralelos entre a dinâmica da economia no atual período e na década de setenta. Evidentemente há diferenças também. Minha leitura é que o governo FHC e o período Palocci estão para a aceleração do crescimento que houve no segundo mandato de Lula da mesma forma que o governo Castello Branco esteve para o período Médici. E, por este prisma, podemos afirmar que Dilma desempenha hoje papel próximo ao do governo Geisel. Tanto lá quanto cá houve entre Médice (Lula) e Geisel (Dilma) um choque externo. A leitura que ambos os grupos políticos que eram (são) os responsáveis pela formulação da política econômica fizeram (fazem) da melhor resposta ao choque externo foi (é) elevar em muito a interferência do Estado da economia. Penso também que ambos os grupos de técnicos que lideravam (lideram) a formulação da política econômica interpretaram (interpretam) que a aceleração do crescimento resultou da correção das políticas implantadas por Delfin (Mantega) e não da maturação das reformas institucionais feitas pelas gestões anteriores da política econômica. Em que pese a maior ou menor correção das políticas econômicas de Delfin Netto no período Costa e Silva/ Médici e de Mantega no governo Lula eu atribuo a aceleração do crescimento que houve no período à maturação de um conjunto de reformas institucionais e à estabilização macroeconômica conquistadas nos governos anteriores, em associação a uma situação internacional muito favorável.

No entanto achou que a sociedade brasileira está muito mais amadurecida e não repetiremos os erros dos anos 80. Boa parte das empresas estatais inclusive do setor financeiro apresenta hoje governança muito melhor do que havia no período de exceção. Acredito que a política funciona relativamente bem no Brasil e que quando ficar claro ao eleitor mediano os erros recentes da política econômica haverá suporte para um projeto alternativo. Penso que ficará para 2018 e não para 2014. Temos que lembrar que os erros cometidos nos anos 80 derivaram também dos erros de diagnósticos que a sociedade fez a respeito do funcionamento de uma economia de mercado em função do excesso de otimismo com a transição democrática. Neste aspecto estamos muito melhores.


2) Qual o maior risco do cenário externo para a economia brasileira?

Resposta) Com certeza uma parada súbita da economia chinesa que derrubaria os preços das commodities. No entanto o câmbio compensaria o movimento dos preços e haveria perda de renda interna – em função das perdas dos termos de troca – e desaceleração da economia mas não necessariamente uma crise prolongada. Uma quebra de algum banco grande europeu com parada súbita de crédito nos níveis de 2008 poderia produzir uma forte desaceleração. No entanto como foi o caso em 2008/ 2009 a desaceleração seria aguda mas haveria espaço para retomada também rápida. Penso que os maiores problemas de nossa economia são internos e não externos: baixa poupança, baixa qualidade da educação e, mais recentemente, baixa taxa de crescimento da produtividade.


3) O governo parece estar usando política tributária para controlar a inflação. Você acredita que isso seja verdade? Se for verdade, concorda com isso? Por quê?

Resposta) O governo emprega um conjunto de políticas tópicas, discricionárias para controlar a inflação. Este padrão de microgerenciamento da política econômica feita em resposta às pressões empresariais aos gabinetes de Brasília é responsável em parte pela queda do investimento. Dois exemplos ilustram. O primeiro exemplo é o setor do etanol. Há delegação para haver redução do juros. OK. Assim a inflação tem que ficar contida. Para tal congela-se o preço da gasolina. No Brasil os carros são flex de sorte que o preço do etanol fica também congelado. Todo um setor muito produtivo, no qual temo óbvias vantagens comparativas, e no qual dominamos toda a cadeia produtiva – desde a indústria de bens de capital de usinagem e da agricultura (plantadeiras e colheitadeiras) até a parte de bioquímica do etanol e da genética da cana – apresente fortes problemas de desempenho. A menina dos olhos do primeiro governo Lula perde seu brilho. O segundo exemplo refere-se ao aumento do IPI para bebidas. O setor automobilístico apresenta problemas em função também de um ciclo de estoques que foi induzido em parte pela mão pesada da política econômica em resposta à crise de 2008. É necessário estimular a indústria automobilística. Reduz-se o IPI desta indústria e eleva-se o IPI de bebidas! A conclusão é que hoje é quase impossível um cálculo empresarial. Qual é a TIR de um projeto? Há tantos eventos que precisam ser ponderados pelo empresário que o risco percebido na economia em função do microgerenciamento da política econômica elevou-se muito.

Entrevista com Cristiano M. Costa: a década de 1970 está de volta?

Neste post, entrevistamos nosso nono convidado: Cristiano M. Costa. Além de seus méritos acadêmicos, ele também mantém um excelente blog. O Sachsida só tem a agradecer pela gentileza da entrevista.


1) O Brasil está revivendo o final da década de 1970? Será que em breve estaremos revivendo a década de 1980 (apelidada de década perdida)? Por quê?

Resposta) Olha, essa pergunta é complicada. O ambiente econômico global é diferente.
Na década de 70 o mundo passou por duas crises do petróleo, enquanto na década de 2000 navegamos em um crescimento mundial. Bem, pelo menos até 2008. Essa exuberância fez o Brasil deixar de lado importantes reformas, além da educação e da infra-estrutura. De outro lado, na década de 70 o investimento foi elevado. Isso não ocorreu na década de 2000. Acho as poiticas agora são mais sofisticadas e complexas.

O problema é que o pessoal que está no comando parece que não sabe utilizar os instrumentos corretos ou não entendeu a dinâmica atual. A verdade é que o modelo de crescimento via endividamento das famílias se esgotou. Tivéssemos feito algumas privatizações e incentivado a competição estaríamos um pouco melhor. mas não, fizemos o contrário. Estatizamos e concentramos mercados. O setor aéreo e o de carnes
são os exemplos mais gritantes. Ao mesmo tempo, o governo não pode crescer, pois não tem mais como elevar a carga tributária (imagino eu). O investimento privado não encontra leis e regulações favoráveis. Só sobra uma forma de crescimento. Exportações. E no momento não temos capacidade para isso, somos caros e pouco produtivos.
Esse cenário pode levar a uma década de 2010 com baixo crescimento. A grande questão é como os preços vão se mover, no cenário externo e interno.


2) Qual o maior risco do cenário externo para a economia brasileira?

Resposta) A economia brasileira é pouco aberta, o efeito das commodities já foi sentido. O risco é baixo, exceto em um colapso completo do Euro. O que seria catastrófico. O investidor estrangeiro não tem pra onde ir, essa é a verdade.
A economia mundial vai se recuperar mais rápido nos países que tem preços flexíveis.
Os EUA são a maior prova. Foram os que se recuperaram mais rápido da crise.
E aí está o risco brasileiro. O Brasil não tem uma legislação que funciona em cenários depressivos (queda de preços / queda de salários). Isso faz com que as crises durem mais. O maior risco é um cenário de estagflação. Principalmente com essa equipe econômica. Aí sim, temos um risco de repetir a década de 80. Mas, esse risco é mais interno do que externo.


3) O governo parece estar usando política tributária para controlar a inflação. Você acredita que isso seja verdade? Se for verdade, concorda com isso? Por quê?

Resposta) Sim. Eu já levantei essa bola lá no blog tem muito tempo. É uma questão metodológica. O preço do produto tem duas partes. O preço em si e o imposto. Se você só adiciona o imposto na hora do cliente pagar no caixa e na prateleira o preço está sem imposto, uma redução de tributos reduz no caixa, mas não na prateleira. O efeito sobre a oferta e demanda existe, mas o reflexo sobre o índice de inflação é distorcido. Dois exemplos. O aumento dos impostos sobre os cigarros em Abril e
a redução do IPI sobre veículos em Junho. Ambos afetaram diretamete o IPCA. O que me preocupa é a velocidade das mudanças. Uma hora sobe, outra desce, e o consumidor e o empresário ficam perdidos. Agora imagina o investidor estrangeiro. Uma hora tem IOF, outra hora não tem. E por aí vai. Mas eu acho que o objetivo nem é o controle da inflação em si.

A política econômica está tão perdida que talvez nem tenham percebido esse efeito. Nesses momentos eu gosto de olhar pra Argentina. Sentimos um alívio. Poderíamos ser nós no lugar deles.

segunda-feira, 16 de julho de 2012

Entrevista com Irineu de Carvalho: a década de 1970 está de volta?

Neste post, entrevistamos nosso oitavo convidado: Irineu Evangelista de Carvalho Filho. Além de seus méritos acadêmicos, ele também mantém um excelente blog. O Sachsida só tem a agradecer pela gentileza da entrevista.

1) O Brasil está revivendo o final da década de 1970? Será que em breve estaremos revivendo a década de 1980 (apelidada de década perdida)? Por quê?

Resposta) Existem alguns erros que cometemos nos anos 1970 que têm sido reeditados. Por exemplo, o enfraquecimento da liberalização comercial é muito custoso em termos de bem-estar, principalmente à medida que as políticas de incentivo à produção nacional se estendem a setores de bens intermediários e de capital, como a indústria que fornece à Petrobrás. Existem poucas intervenções mais destruidoras do crescimento que o subsídio e proteção à indústria de bens de capital, pois tal encarece o preço do investimento, reduzindo os incentivos para formação de capital.

Outro problema de conseqüências graves é a escolha de campeões nacionais. A mera existência de tal política tem o efeito de desestimular o investimento. Afinal qualquer empresário que não tem certeza que vai ser o ungido em seu setor vai limitar seus planos de expansão. Eu acredito que já estamos colhendo o que plantamos: apesar de taxas de juros reais historicamente baixas e abundância de crédito subsidiado, nossa taxa de investimento ainda é baixíssima e inconsistente com o aumento da taxa de crescimento. Não é coincidência que o Brasil tem uma das taxas de investimento mais baixas entre países emergentes e também um dos maiores bancos nacionais de desenvolvimento do mundo.


2) Qual o maior risco do cenário externo para a economia brasileira?

Resposta) Se eu tenho que escolher um risco apenas, eu realçaria o risco de uma queda nos preços de commodities. Tanto história quanto teoria econômica nos informam que quedas no preço de commodities podem ter conseqüências sérias para a economia brasileira. Na conjuntura atual, uma queda persistente certamente causaria um ajuste no nível da taxa real de câmbio, com conseqüente aumento da inflação ou necessidade de aperto da política monetária. Com o real mais fraco, o custo real dos encargos de dívida externa do setor privado tornar-se-ia mais oneroso, restringiria o investimento, e seria custoso em termos de atividade econômica.


3) O governo parece estar usando política tributária para controlar a inflação. Você acredita que isso seja verdade? Se for verdade, concorda com isso? Por quê?

Resposta) Usar política tributária para conter inflação me parece uma das idéias mais estúpidas que podem ser concebidas em política econômica, portanto eu não acredito que o governo brasileiro esteja fazendo isso.


domingo, 15 de julho de 2012

Entrevista com Gustavo Franco: a década de 1970 está de volta?

Num esforço desse blog para tornar claro os perigos inerentes da política econômica adotada atualmente em nosso país, estou entrevistando uma série de especialistas em economia brasileira. Todos respondem ao mesmo conjunto de três perguntas.

Neste post, entrevistamos nosso sétimo convidado: Gustavo Franco. O ex-presidente do Banco Central do Brasil é um nome que dispensa apresentações. O Sachsida só tem a agradecer pela gentileza da entrevista.

1) O Brasil está revivendo o final da década de 1970? Será que em breve estaremos revivendo a década de 1980 (apelidada de década perdida)? Por quê?

Resposta) Sim é possível viajar no tempo, e também no espaço, geralmente com a ajuda da maionese. Parece-me que o verdadeiro destino da viagem aludida na pergunta é a China, cujas semelhanças com o Brasil dos generais é perturbadora. É verdade que estamos retrocedendo a mecanismos próprios daquele tempo, mas com muito mais ousadia. Um exemplo: BNDES, BC, BB, CEF, FGC funcionando “em harmonia”, tal como se fossem uma coisa só, e a China fosse aqui. Isso é assustador. Há um intervencionismo generalizado, uma mistura de voluntarismo e contrariedade com as realidades do mundo globalizado, que não sei onde vai nos levar. O dano foi pequeno, por ora. Talvez o modelo do Pré Sal se torne a “reserva de mercado”, e o modelo de capitalismo socialista brasileiro seja um conjunto vazio. Dessa maneira, vamos estagnar, ou rastejar, viver alguns anos meio melancólicos, como argentinos, mas a boa notícia é que o Muro vai cair de novo, como se passou no final dos anos 80, e virá uma novo governo desfazer tudo isso.


2) Qual o maior risco do cenário externo para a economia brasileira?

Resposta) A crise de 2008 deixou claro que todas as nossas ideias sobre ventania eram fantasias inocentes diante de um furacão desse tipo. Se as coisas podem dar errado desse jeito, as flutuações nos preços das commodities, bem como as coisas que normalmente movimentam o ciclo econômico, parecem eventos de importância menor. É como se apenas os “tail events” fizessem diferença, e esses podem vir de qualquer lugar. Eu desconfio que o próximo virá da China, mas não é possível descartar uma grande confusão na Europa.


3) O governo parece estar usando política tributária para controlar a inflação. Você acredita que isso seja verdade? Se for verdade, concorda com isso? Por quê?

Resposta) O governo anda usando muitos recursos incomuns para lidar com a inflação; o mais eficaz, na minha opinião, foi a sorte. Usamos os IPIs e os preços administrados, e mesmo o câmbio, para evitar um confronto que eles têm sido bem sucedidos em evitar, contrapondo as metas de inflação com os desejos do Palácio. Tanto em 2008, quanto no começo de 2012, a economia parecia superaquecer e provocar o confronto, quando sobrevieram ventos gelados do exterior e a inflação encolheu por obra e graça de fatores alheios à política monetária. Em ambas as ocasiões estabelecemos recordes para os juros, os menores talvez desde a República Velha. Sorte. A se observar o mesmo padrão, vamos recuperar a economia no segundo semestre, e no final de 2013, quando a inflação estiver rondando o teto, com superaquecimento, algum problema externo vai nos salvar da inflação.

Uma Homenagem do Sachsida ao Dia dos Homens

Hoje, dia 17 de julho, é dia dos Homens.

Para homenagear essa raça quase em extinção (devido aos trilhões de regras politicamente corretas que tentam nos obrigar a seguir), o Sachsida deixa aqui sua homenagem a manifestação mais elevada de todo homem, a honra de ser pai.

sábado, 14 de julho de 2012

Entrevista com Marco Bittencourt: a década de 1970 está de volta?

Num esforço desse blog para tornar claro os perigos inerentes da política econômica adotada atualmente em nosso país, estou entrevistando uma série de especialistas em economia brasileira. Todos respondem ao mesmo conjunto de três perguntas.

Neste post, entrevistamos nosso sexto convidado: Marco Bittencourt. Em minha opinião, um dos maiores especialistas em economia brasileira. O Sachsida agradece a gentileza da entrevista.

1) O Brasil está revivendo o final da década de 1970? Será que em breve estaremos revivendo a década de 1980 (apelidada de década perdida)? Por quê?

Resposta) Penso que não. Diria que ainda não compreendemos bem o que foi a ditadura militar de 1964 e o seu modelo econômico estatizante. Foram três fases distintas e a do período Geisel - meados e final da década de 70 - teve o seu clímax e debacle quase simultâneos, detonada pela crise do petróleo e a estratégia equivocada (endividamento externo) para acomodâ-la, levando consigo ao desfecho do que temos hoje. De fato, tivemos um modelo estatizante, com todo tipo de controle de preços e indexação esdrúxulas, cartelização da matriz energética, proteção a setores elencados como estratégicos e sobretudo a implantação da petroquímica, com a conta sendo paga por todos os brasileiros, endividados até o fio do cabelo e amarrados, como estão atualmente a turma do Euro, ao FMI. O resultado desse modelo que, agora, apenas está em uso do outro lado da esfinge, foi o desmonte do setor público e a redução da dinâmica produtiva, retratada pela pobreza da produtividade da nossa economia. No plano político, o final da década de 70 e até meados de 80, fase final do ciclo ditatorial, consagrou o que a ditadura militar verdadeiramente se prestou: aniquilar o arcabouço jurídico, abrindo a porta para que o poder econômico definitivamente dominasse o poder politico. É o que Douglass North e Gary Becker chamaram de modelo do compadrio e resumo simplesmente como o da pilhagem. É um modelo que nos faz lembrar de períodos mercantilistas e o tempo todo precisa do reforço estatal para acomodar os grupos de interesse (FEBRABAN, FIESP, RURALISTAS E EMPREITEIROS – funcionários públicos, academia, artistas e políticos, são mero empregadinhos desse modelo predador e o povo um detalhe).

Resumindo, o que temos hoje é a tentativa de ludibriar a cobra que come o próprio rabo, fazendo-a girar sobre si mesma. Naquela década perdida, tivemos o desfecho do modelo estatizante. O que temos hoje é a mudança qualitativa que o modelo da pilhagem se permitiu: o bolsa família e o crédito fácil. O efeito inebriante está chegando ao fim e parece que voltamos ao nosso crescimento vegetativo: cresce tal e qual a população, numa dinâmica “malthusiana” moderna invertida aonde quem está sumindo é a classe média de antigamente.

A salvação da lavoura sempre esteve na única política que efetivamente confiamos: ambiente competitivo ubiquamente.

2) Qual o maior risco do cenário externo para a economia brasileira?

Resposta) Basta olhar nossa pauta de exportação. Exportamos minérios e commodities tradicionais. A China, agora, é nosso barômetro comercial. Mas existem elementos importantes a travar o crescimento. É o que se passa na zona do EURO. Diria que essas seriam as referências básicas.

O que não vejo ser discutido é o papel do Mercosul – simples acordo entre a elite argentina e a brasileira - e a sua pauta de comércio exterior, com a linha branca e automóveis e, para nossa alegria sofisticada, vinhos de boa qualidade que só os chilenos fazem, a registrar a importância de nossa pauta de comércio com o padrão made in Brazil, no outro lado da linha comercial, coerente com o comércio internacional tradicional – transações com os vizinhos. Para variar, os comunistas e esquerdistas estão sempre a favor desse tipo de política protecionista, mesmo que sob disfarce como é o Mercosul, e frontalmente contra políticas de livre comércio. A ALCA é ainda , para essa turma de “intelectuais” sindicalistas, um palavrão, mas, sabemos há tempos, mostra a verdadeira cara dos comunas: uns “burgueses” malandros. De novo, ambiente competitivo é a solução.


3) O governo parece estar usando política tributária para controlar a inflação. Você acredita que isso seja verdade? Se for verdade, concorda com isso? Por quê?

Resposta) Sempre a usou. A divida pública – uma armação reinventada pela turma do FHC para acomodar o sistema financeiro ineficiente que sofreu revés merecido com o fim do imposto inflacionário que absorviam generosamente num processo inflacionário degradante – foi acomodada, em grande parte, por tributos e mais endividamento endógenos. Se o orçamento público já era complicado, ficou simplesmente incompreensível, com todo tipo de ardil para se cumprir o serviço da dívida pública, conseguindo até dar a bagunça orçamentária um ar de moralidade com a tal da Lei de Responsabilidade Fiscal que consagrou a perpetuação do endividamento público e elencou os perdedores: pensionistas e servidores públicos.

Se tem algo de positivo na gestão atual do BACEN está no fato de se comportar como governo e dar a devida atenção à dinâmica da dívida pública: um superávit primário que não pagava integralmente até os seus juros. Para isso, estão tentando trazer os juros para níveis aceitáveis, desmontando, embora timidamente, esquemas cartoriais criados pelo próprio governo para uso cativo de recursos do FGTS, poupança e outros. Claro, a solução novamente seria ambiente competitivo. Enquanto tivermos FEBRABAN ainda seremos reféns de política monetária voltada aos interesses de grupos privados que atuam apenas em seu beneficio e de forma desproporcional. A dívida pública, infelizmente, é ainda um enigma para os economistas e do front do EURO parece que nada de interessante virá para decifrá-la.

Novamente, é o modelo da pilhagem funcionando a seu jeito e modo. A solução? Novamente: ambiente competitivo e orçamento na dimensão e desejo da população. Até o momento, temos os grupos de interesse comandando o orçamento, com a reação dos servidores públicos, gestores importantes do modelo, tentando, porém, manter o seu quinhão (certamente mais benéfico do que o privilégio aos rentistas). Já o dos pensionistas, parece que continuarão restritos e creio até ficarão felizes com essa nova onda de classe média que abarca até a turma do bolsa família, acreditando nas besteiras de muitos analistas que pregam que os jovens estão pagando pela aposentadoria dos velhos. Feliz, então, quem morre hoje.

sexta-feira, 13 de julho de 2012

Entrevista com Rogério Boueri Miranda: a década de 1970 está de volta?

Num esforço desse blog para tornar claro os perigos inerentes da política econômica adotada atualmente em nosso país, estou entrevistando uma série de especialistas em economia brasileira. Todos respondem ao mesmo conjunto de três perguntas.

Neste post, entrevistamos nosso quinto convidado: Rogério Boueri Miranda. Pesquisador sério e com amplo conhecimento sobre a economia brasileira. O Sachsida agradece a gentileza da entrevista.

1) O Brasil está revivendo o final da década de 1970? Será que em breve estaremos revivendo a década de 1980 (apelidada de década perdida)? Por que?

Resposta) Acredito que existe uma semelhança entre a década de 70 e os dias atuais, mas devo qualificar essa afirmação. Tanto naquele período quanto agora, o influxo de capitais serviu para inflar temporariamente o consumo. No caso da década de 70 tal influxo manifestou-se por meio do endividamento externo brasileiro, hoje em dia, tal fluxo se dá pela entrada de capitais privados. O problema é que essa entrada líquida de capitais foi acolhida pelos brasileiros como uma oportunidade de ampliação do consumo. Assim, temos vendido ativos domésticos e consumido a receita, ou comprado imóveis.

Mais perigosa será a comparação com a década de 80, quando o crédito internacional sumiu e não tivemos (e nem teríamos) como sustentar o modelo baseado no consumo interno. Infelizmente, Reinhart e Rogoff (2010) em seu brilhante “This time is different” mostram que a uma forte correlação entre períodos anteriores de grande influxo de capitais e crises posteriores.


2) Qual o maior risco do cenário externo para a economia brasileira?

Resposta) Nessas condições, isto é, atribuindo boa parcela do nosso desempenho recente à conta de capitais, vejo como o maior risco para a economia brasileira a possibilidade de aumento em médio prazo da taxa de juros americana. Se houver pressões inflacionárias naquele país, o FED poderá, em médio prazo elevar as taxas de juros, o que possivelmente reverteria o fluxo de capitais e exporia flagrantemente a falta de competitividade do nosso arranjo econômico. Nesse ponto, considero que os riscos sejam bastante semelhantes àqueles da década perdida.


3) O governo parece estar usando política tributária para controlar a inflação. Você acredita que isso seja verdade? Se for verdade, concorda com isso? Por que?

Resposta) Acho que o governo usa todos os expedientes possíveis para controlar a inflação, com exceção, é claro, da contenção da demanda. A lógica parece ser a seguinte: a economia está se estagnando, portanto, não haverá necessidade de contenção da demanda, mas pode haver alguns sobressaltos no meio do caminho e para lidar com eles vale tudo, inclusive política tributária, mesmo que distorciva.



quinta-feira, 12 de julho de 2012

Entrevista com Leonardo Monasterio: a década de 1970 está de volta?

Num esforço desse blog para tornar claro os perigos inerentes da política econômica adotada atualmente em nosso país, estou entrevistando uma série de especialistas em economia brasileira. Todos respondem ao mesmo conjunto de três perguntas.

Neste post, entrevistamos nosso quarto convidado: Leonardo Monasterio. Pesquisador sério e com amplo conhecimento sobre a economia brasileira, também mantém o excelente blog: Blog do Leo Monasterio. O Sachsida agradece a gentileza da entrevista.


1) O Brasil está revivendo o final da década de 1970? Será que em breve estaremos revivendo a década de 1980 (apelidada de década perdida)? Por que?

Resposta) O momento é distinto do final dos 70. Ali o Brasil já tinha passado uns bons anos nadando contra a recessão mundial. Isso levou a um acúmulo de problemas que estouraram na década seguinte. Agora o país - tal como outros países exportadores de commodities - saiu relativamente ileso da crise de 2008. Como tivemos muita sorte e os termos de troca se recuperaram bem rápido, a gravidade é menor.

A maior diferença entre os anos 70 e agora é que, no passado, mesmo que de forma bem questionável – o setor público investiu na busca de mudanças setoriais. Já agora, alguns setores da equipe econômica buscam voltar no tempo. É como se houvesse um perfil setorial ideal - perdido lá na década de 80 - e com as proteções e subsídios aos setores selecionados, ele seria alcançado e todos seríamos felizes. Ora, mesmo que isso fosse desejável, o grau da distorção necessário hoje- dados os termos de troca atuais- é imenso. Tem-se uma política inútil que não prepara o país para a época das vacas magras, quando a maré internacional virar de vez contra o Brasil.

O pior é a crise tornou-se justificativa para qualquer coisa. Desde 2008, o governo parece ainda mais sensível aos setores mais reclamões. Eu sei que desde sempre e em todo lugar, existem grupos de interesse e rent-seeking, mas no Brasil recente isso está exagerado, até mesmo para critérios brasileiros. Distribuem-se proteções e privilégios de maneira irrefletida. Ou seja, não só a ideia geral da política industrial é equivocada, mas também a forma de execução é atabalhoada.

Eu também estou preocupado com os investimentos. Lá nos anos setenta, aos trancos e barrancos e com um custo que se mostrou altíssimo, o II PND ao menos fez um tanto de infraestrutura econômica importante. Hoje, eu temo que o parco investimento público aconteça em atividades com retorno nulo ou muito baixo, mas de alta visibilidade.

Uma palavra de otimismo: o risco de uma década tão perdida quando os 80 é baixo. Mesmo que ainda muito ruins, as instituições de hoje são melhores do que no passado. Além disso, a evidência histórica mostra que sociedades menos desiguais são mais capazes de absorver choques externos. Como a renda cresceu e ficou um pouco mais bem distribuída, as maluquices dos anos 80-90 estão mais longe de nós.


2) Qual o maior risco do cenário externo para a economia brasileira?

Resposta) Se a China faz um pouso forçado e os termos de troca viram, nos danamos (e o mundo inteiro também). Contra isso, não há muito que fazer agora.

Na verdade, a maior ameaça no médio/longo prazo está no fenômeno oposto: eu temo que o preço do petróleo fique nas alturas e o pré-sal seja um sucesso. Aí os riscos de uma maldição de recursos naturais institucionais são maiores. Apesar da melhoria da qualidade das instituições que citei acima, o Brasil ainda está na bifurcação que indica: Venezuela e Nigéria para um lado e Chile e Noruega de outro. Quanto mais bem sucedido o pré-sal, menor a necessidade de reformar o país na direção certa. Nesse cenário ruim, lá por 2030, quando o bônus demográfico desaparecer e o passivo previdenciário se agigantar, ficaremos sujeitos às flutuações dos preços do petróleo.


3) O governo parece estar usando política tributária para controlar a inflação. Você acredita que isso seja verdade? Se for verdade, concorda com isso? Por que?

Resposta) Eu não entendo do assunto e prefiro nada dizer.

Entrevista com Mansueto F. de Almeida Junior: a década de 1970 está de volta?

Num esforço desse blog para tornar claro os perigos inerentes da política econômica adotada atualmente em nosso país, estou entrevistando uma série de especialistas em economia brasileira. Todos respondem ao mesmo conjunto de três perguntas.

Neste post, entrevistamos nosso terceiro convidado: Mansueto F. de Almeida Junior. Pesquisador sério e com amplo conhecimento sobre a economia brasileira, também mantém o excelente blog: Blog do Mansueto Almeida. O Sachsida agradece a gentileza da entrevista.


1) O Brasil está revivendo o final da década de 1970? Será que em breve estaremos revivendo a década de 1980 (apelidada de década perdida)? Por que?

Resposta) Há de fato algumas semelhanças. O governo Castelo Branco, por exemplo, foi um governo reformista e o Brasil aumentou fortemente a carga tributária (de 16% para 25% do PIB) e a poupança pública de 1966 a 1970. O estado brasileiro do início dos anos 70 tinha uma poupança pública elevadíssima, perto de 7% do PIB, que permitiu um aumento do investimento público que, em conjunto com as reformas liberais do Castelo Branco, explicam o chamado “milagre econômico” do governo Médici.

Depois do primeiro choque do petróleo, em 1973, o governo Geisel fez o diagnóstico que poderíamos continuar crescendo com aumento da dívida externa e com o governo incentivando vários setores, aumentando o investimento público e ainda expandindo os gastos nos estados como uma tentativa de legitimar a ditadura. Isso levou a uma forte queda da poupança pública, mais inflação e a uma crise fiscal depois do segundo choque do petróleo, em 1979.

Na nossa situação atual, há um diagnóstico parecido com o do período Geisel, ou seja, que o governo teria o poder com o micro gerenciamento setorial elevar a taxa de crescimento do PIB. Esse diagnóstico é errado como era no período Geisel porque não reconhece que as nossas restrições ao crescimento hoje estão mais do lado da oferta do que da demanda.

Quando se faz um paralelo da história recente do Brasil pós-1995 com os governos militares, do ponto de vista de política econômica, há semelhanças. Saímos de um governo reformista, o governo FHC, e entramos no governo Lula que usufruiu dos efeitos positivos das reformas institucionais da era FHC e do boom de commodities. Com a piora do cenário externo e o esgotamento dos efeitos das reformas, a partir de 2008, passou-se a privilegiar o micro gerenciamento da economia com fez Geisel e o aumento do endividamenteo. Isso não funcionou nos anos 70 e nem vai funcionar no sec. XXI.

Acho exagerado, por enquanto, falar que chegaremos a uma nova década perdida com queda do PIB per capita. Mas não é impossível. No entanto, se a China continuar crescendo entre 7-8% ao ano, vamos ainda surfar no preço das commodities e em breve seremos exportadores líquidos de petróleo com o pré-sal. O risco é desperdiçarmos a oportunidade de crescer mais rápido e nos acomodarmos com uma taxa de crescimento medíocre, carga tributária elevada e um estado ineficiente.


2) Qual o maior risco do cenário externo para a economia brasileira?

Resposta) O Brasil é muito dependente o humor do resto do mundo para crescer porque a nossa taxa de poupança é baixa e não acompanha o crescimento da taxa de investimento. Assim quando a taxa de investimento no Brasil cresce, como ocorreu de 2004 a 2011, o déficit em conta corrente aumenta. Para crescermos mais rápidos precisamos de poupança do resto do mundo,

Essa estratégia tem riscos porque, geralmente, o setor público, além dos seus próprios erros, assume erros do setor privado, como fizemos nos anos 70 e, novamente, em 2009, quando empresas com problemas de perdas com operações com derivativos foram socorridas pelo BNDES.

O que puxou o nosso crescimento nos últimos anos não foram as transferências de renda nem o crédito, tudo isso foi resultado de um choque exógeno que foi o aumento de preços de commodities que possibilitou todo o resto. Se o modelo Chinês afundar, ou seja, se a China do século XXI repetir a União Soviética do século XX, o Brasil será fortemente afetado. O nosso maior risco externo se chama China e como a situação da crise européia ainda está sem solução, o risco de uma nova crise mundial com impacto maior na China não é desprezível. Por enquanto, ninguém aposta nesse cenário, mas o simples fato dele ser considerado já é ruim.


3) O governo parece estar usando política tributária para controlar a inflação. Você acredita que isso seja verdade? Se for verdade, concorda com isso? Por que?

Resposta) Acho que, na verdade, o governo utiliza a política tributária para tentar fazer, ainda que de forma capenga, uma política anticíclica. O governo não tem capacidade de fazer política anticíclica pelo lado da despesa. O gasto público que mais cresce é o gasto com custeio e o governo não consegue investir. Assim, resta a desoneração tributária temporária como forma de incentivar a economia.

O ruim é que essas desonerações não são uniformes, alguns setores são beneficiados e outros não, e as desonerações são pequenas. Essa política de desoneração seletiva tem o efeito adverso de premiar quem grita mais, como o setor automotivo, o que é ruim para a competitividade da economia.

Acho que a preocupação com a inflação é mínima. De 2008 a 2011, por exemplo, a inflação só ficou perto do centro da meta, em 2009, quando o crescimento do PIB foi negativo. A inflação média de 2008-2010-2011 de 6,1% ao ano e, no ano passado, quase ultrapassou o teto da banda. Assim, já estamos com a inflação média elevada.

O caso do uso da CIDE para compensar o não reajuste de preços da gasolina ao consumidor foi algo muito pontual. Não dá para o governo generalizar esse tipo de política por um simples motivo: o governo gasta muito e precisa de uma arrecadação crescente.

quarta-feira, 11 de julho de 2012

Entrevista com Alexandre Schwartsman: a década de 1970 está de volta?

Num esforço desse blog para tornar claro os perigos inerentes da política econômica adotada atualmente em nosso país, estou entrevistando uma série de especialistas em economia brasileira. Todos respondem ao mesmo conjunto de três perguntas.

Neste post, entrevistamos nosso segundo convidado: Alexandre Schwartsman. Ele mantém um dos melhores blogs de economia do Brasil: A mão visível. Schwartsman é certamente uma das maiores autoridades sobre economia brasileira. Tem experiência como ex-diretor do Banco Central e muita experiência no setor privado. O Sachsida agradece a gentileza da entrevista.



1) O Brasil está revivendo o final da década de 1970? Será que em breve estaremos revivendo a década de 1980 (apelidada de década perdida)? Por que?

Resposta) Em alguma medida, sim, mas não chegamos lá (ainda?). Em comum, a tentativa de manter a demanda doméstica como motor do crescimento quando o mundo se torna um lugar mais complicado, assim como uma tendência à intervenção mais direta na economia. Institucionalmente, porém, se tornou mais difícil retomar a grau de intervenção que havia à época. Só para lembrar, havia 3 orçamentos (fiscal, monetário e estatais, sendo que apenas o primeiro passava pelo Congresso). É verdade que o BNDES virou um orçamento monetário, mas mais sujeito a controle do que havia então.


2) Qual o maior risco do cenário externo para a economia brasileira?

Resposta) Queda adicional de preços de commodities, revertendo os ganhos de termos de troca. Isto requer a contração da demanda doméstica relativamente ao PIB para compensar a perda, mas não me parece que o governo esteja disposto a fazer isto, seja pelo lado fiscal, seja pelo lado monetário. Ao mesmo tempo parece assustado com a possibilidade de desvalorização adicional da moeda. Com menos espaço de crescimento receio que a reação de política econômica agrave o quadro.


3) O governo parece estar usando política tributária para controlar a inflação. Você acredita que isso seja verdade? Se for verdade, concorda com isso? Por que?

Resposta) Sim. Embora a redução do IPI tenha outras motivações, teve efeitos temporários sobre a inflação que estão sendo brandidos como prova de controle inflacionário. Mais importante foi a decisão de aumentar o preço dos combustíveis no limite do que foi possível compensar com a queda da CIDE.

Obviamente este tipo de política afeta a manifestação da inflação, mas não suas raízes, a saber, um ritmo de expansão da demanda incompatível com a capacidade produtiva da economia. Enquanto os ganhos de termos de troca permitirem, o ajuste se dá pelas importações, com efeito moderado sobre o balanço de pagamentos, mas, a mesmo tempo, muito menos efetivo quando se trata de bens não-comercializáveis.

terça-feira, 10 de julho de 2012

Existe Bolha no Mercado Imobiliário Brasileiro?

Abaixo transcrevo o sumário executivo do artigo que escrevi em conjunto com o pesquisador Mario Jorge Cardoso de Mendonça. A versão completa do texto técnico pode ser obtida diretamente com os autores.

O presente estudo teve por objetivo avaliar a possibilidade de existência de “bolha” especulativa no mercado imobiliário brasileiro. Tal possibilidade tem sido levantada pela imprensa e por acadêmicos, em virtude das diversas notícias divulgadas acerca de elevação significativa do preço dos imóveis. Atualmente, parecem existir fortes indícios de que o setor imobiliário se encontra fortemente aquecido no Brasil. Isso pode ser visto pelo número de novos lançamentos, e pelo vigoroso crescimento do preço de venda dos imóveis ocorrido nos últimos anos. Apenas para ilustrar tal fenômeno, pode-se verificar que de jan/10 a mar/12, houve uma variação de 43% no preço médio de venda dos imóveis em todo o Brasil (com base no índice ZAP-FIPE).

Este trabalho estudou e empregou diversas metodologias, tanto a nível microeconômico quanto a nível macroeconômico, para verificar a possibilidade de existência de uma bolha no mercado imobiliário brasileiro. De maneira geral, todos nossos resultados apontam para a possibilidade concreta de existência de uma bolha no mercado de imóveis no Brasil. De maneira extremamente objetiva, a Teoria Austríaca do Ciclo Econômico fornece uma base teórica sólida para apontarmos o governo federal, por meio de suas políticas fiscais e de estímulo ao crédito, como o principal responsável pelo surgimento dessa bolha. A insistência do governo em aquecer ainda mais um mercado imobiliário já aquecido só tende a piorar o resultado final.

Deve-se ressaltar também que a esmagadora maioria dos contratos de financiamento habitacional no Brasil é feito com juros pós-fixados. Além disso, tal como os resultados da parte econométrica deste estudo sugerem, o mercado imobiliário é sensível e responde negativamente a um aumento nas taxas de juros. Isto é, aumentos nas taxas de juros podem trazer significativos problemas ao mercado imobiliário. Ressaltamos ainda que foi justamente o aumento nas taxas de juros, provocadas pelo Banco Central Americano, o gatilho que ocasionou a explosão da bolha imobiliária nos Estados Unidos em 2007/08.

Insistimos em ressaltar que as atuais políticas fiscais e monetárias do governo brasileiro são claramente inflacionárias. Tais políticas levarão inevitavelmente ao aumento do custo de vida no Brasil, e a todos os demais custos associados com o recrudescimento do processo inflacionário. Lembramos também, que as taxas de juros internacionais estão num patamar mínimo histórico. Isto quer dizer que, cedo ou tarde, as taxas de juros internacionais irão subir. Quando isso ocorrer, o Brasil também será obrigado a aumentar a taxa de juros doméstica. Então os verdadeiros custos, associados com as políticas fiscais e monetárias expansionistas adotadas pelo governo Brasileiro, irão aparecer.

Naturalmente, não acreditamos que uma crise no mercado imobiliário brasileiro, caso aconteça, irá ter efeito catastrófico como ocorreu no caso dos Estados Unidos e em alguns países da Europa, até mesmo pelo fato de que a oferta de crédito no Brasil é ainda bastante restrita. Contudo, não serão desprezíveis. Quando o governo brasileiro for obrigado a aumentar a taxa de juros doméstica teremos um impacto direto dessa medida no setor imobiliário. E então será a vez do Brasil lidar com sua crise. Crise essa criada exclusivamente pelo mau gerenciamento das políticas fiscais e monetárias do governo brasileiro. Não terá sido o mercado o criador da crise, mas sim o governo do Brasil.

Para finalizar, quando esse desastre ocorrer o governo irá procurar culpados. Irá culpar a todos, exceto sua falta de responsabilidade fiscal e monetária. O Brasil deveria aproveitar o atual bom momento da economia internacional para fazer os necessários ajustes de que esse país precisa. Contudo, esse momento esta passando e a oportunidade está sendo desperdiçada. Quando a crise surgir, o governo dará uma resposta errada. Irá aumentar ainda mais os gastos, tornando a política fiscal ainda mais expansionista, e irá facilitar ainda mais o crédito (afrouxando ainda mais o lado monetário). Essas medidas irão tornar a crise mais duradoura e mais profunda.

Quando várias pessoas erram por um tempo prolongado e em magnitudes expressivas, então existe um custo a ser pago. A interferência do governo apenas prolonga, piora, e redistribui esse custo. A interferência do governo não elimina, não faz com que o erro desapareça, apenas transfere os custos de um setor que cometeu o erro para o restante da economia. A bolha no mercado imobiliário brasileiro está sendo criada e sustentada pelo governo. Quando ela explodir o governo se proporá a corrigir, de maneira errada, uma crise que ele mesmo gerou.

segunda-feira, 9 de julho de 2012

Entrevista com Roberto Ellery Jr.: a década de 1970 está de volta?

Num esforço desse blog para tornar claro os perigos inerentes da política econômica adotada atualmente em nosso país, estarei entrevistando uma série de especialistas em economia brasileira. Todos responderão ao mesmo conjunto de três perguntas.

Neste post, entrevistamos o Professor de Macroeconomia da Universidade de Brasília, Roberto Ellery Jr.. Ele é uma das maiores autoridades sobre crescimento econômico e produtividade no Brasil. O Sachsida agradece a gentileza da entrevista.

1) O Brasil está revivendo o final da década de 1970? Será que em breve estaremos revivendo a década de 1980 (apelidada de década perdida)? Por que?

Resposta) Em vários aspectos a situação de hoje é perigosamente semelhante a do final da década de 70. Assim como naquela época o governo está usando uma série de medidas de expansão da demanda agregada com objetivo de deixar o país de fora de uma recessão mundial. Outra semelhança perigosa é a crença no estado como indutor do crescimento econômico. A crise dos anos 80 fez o Brasil abandonar esta crença que marcou apolítica econômica pelo menos desde a década de 1930. Desta forma foi possível abrir a economia, privatizar estatais e encaminhar uma série de reformas que colocaram o Brasil em uma trajetória de crescimento com ganhos de modestos de produtividade e distribuição de renda. A partir de 2005, com o PAC, o governo começa a trocar a agenda de reformas por uma agenda de investimentos públicos ou induzidos pelo governo. Na sequencia o governo traz de volta as políticas industriais caracterizadas pela escolha de setores e empresas vencedores. Com a crise de 2008 o governo assume definitivamente a agenda desenvolvimentista e coloca o BNDES novamente no centro da política de crescimento e da política industrial via crédito barato. Por fim o governo voltou ao protecionismo por meio de barreiras a entradas de produtos importados e de política de câmbio. A experiência brasileira sugere que esta combinação de políticas é fatal para o crescimento da produtividade e, portanto, para o crescimento de longo prazo.

Entretanto existem algumas distinções importantes. Hoje o Brasil é uma democracia, isto limita o governo de levar às últimas consequências as políticas desenvolvimentistas. Aumento da inflação e concentração de renda, consequências típicas do receituário desenvolvimentista, podem minar a base de apoio popular do governo. Outra diferença importante é que não existe uma dívida pública fora de controle. Por outro lado as famílias estão bastante endividadas para os padrões brasileiros, o que pode acabar por criar problemas fiscais em um roteiro semelhante ao ocorrido em alguns países europeus onde o estado assumiu dividas de bancos para evitar uma crise financeira.


2) Qual o maior risco do cenário externo para a economia brasileira?

Resposta) O primeiro grande risco é uma queda no preço das commodities. O elevado preço das commodities foi o grande fator que manteve a economia brasileira fora da crise mundial. Uma reversão neste mercado significaria perda de renda no Brasil e problemas no balanço de pagamentos. É interessante que em vários momentos o Banco Central apontou o alto preço das commodities como um problema, esquecendo que o Brasil é produtor de commodities e portanto beneficiado com a elevação dos preços. Note que o benefício se estende inclusive ao controle da inflação pois permite uma expansão da oferta agregada que absorve pelo menos em parte os efeitos da expansão da demanda agregada sobre os preços.

Outro grande risco é o surgimento de inflação nos EUA. Caso a economia americana se recupere e comece a apresentar sinais de inflação é provável que o FED aumente a taxa de juros dos EUA. Este aumento acabaria por levar a um aumento das taxas de juros no Brasil. Como as famílias estão muito endividadas é possível que um aumento das taxas de juros no Brasil leve a um aumento da inadimplência e, no extremo, a uma crise financeira. O governo terá de escolher entre permitir a falência de bancos ou salvar os bancos incorrendo em aumento significativo da dívida pública. Em ambos os casos poderíamos ter uma crise financeira com efeitos sobre o crescimento semelhantes aos da crise dos anos 80.


3) O governo parece estar usando política tributária para controlar a inflação. Você acredita que isso seja verdade? Se for verdade, concorda com isso? Por que?

Resposta) O governo está claramente usando política tributária para controlar a inflação, basta notar que a baixa inflação do mês passado foi devida a redução nos preços dos carros e que esta redução foi devida ao IPI. Além da política tributária o governo está usando uma série de ferramentas que visam controlar preços para manter a inflação baixa, o preço dos combustíveis é um exemplo. Este tipo de política deu errado onde foi aplicada, além de não controlar a inflação gera distorções de preços relativos que afetam as decisões ótimas dos agentes. Como é impossível para o governo determinar todo o vetor de preços relativos a tentativa de controlar alguns preços relativos não raro gera resultados contrários aos desejados pelo governo. Mais uma vez o combustível serve de exemplo. Ao mesmo tempo que o governo mantém os preços baixos afirma que quer diminuir o uso de automóveis para reduzir a poluição e os congestionamentos nas grandes cidades. Não pode dar certo.


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