quarta-feira, 30 de janeiro de 2013

A Classe Média Realmente Aumentou?

Um considerável número de analistas tem comentado sobre o incrível aumento de pessoas vivendo na classe média. Respeitosamente eu discordo deles.

Do ponto de vista estatístico, os estudos que relatam o aumento de pessoas vivendo na classe média estão corretos. A metodologia deles é simples: primeiros, verifica-se a distribuição de renda na população, depois divide-se a mesma em faixas de renda, e por fim pega-se a população que não é considerada nem rica e nem pobre. Esta é a classe média. Dada a renda brasileira, considera-se classe média famílias com renda per capita entre 200 e 1100 reais por mês. Isto é, uma família com pai, mãe e um filho que receba 1 salário mínimo por mês pode ser considerada de classe média.

Do ponto de vista estatístico o procedimento descrito acima está correto. Minha crítica é outra. Classe média NÃO É um conceito estatístico. Classe média é um conceito moral. Quando dizemos que alguém pertence a classe média estamos nos referindo a um padrão de vida, e não a uma renda relativa ao resto da população. No Brasil, família de classe média é aquela onde os filhos estudam em escolas privadas, e fazem cursos de idiomas, os pais possuem carros na garagem e plano de saúde privado e, além disso, a família sai de férias no final do ano.

Pode parecer bobagem, mas essa diferença entre o conceito estatístico de classe média e o conceito moral é extremamente importante. Quando se divulga na imprensa que a classe média cresceu, dá-se a impressão de que isso se refere ao conceito moral de classe média. Mas tais estudos se referem ao conceito estatísticos. Para pesquisadores treinados essa diferença é evidente. Mas, para a grande imprensa, e o público em geral, ocorre uma confusão. Assume-se erradamente que tal resultado refere-se a definição moral de classe média. Ou seja, explora-se politicamente um avanço que efetivamente não ocorreu.

Na próxima vez que você ler na grande imprensa sobre o crescimento da classe média, ou de maneira equivalente que existem mais ricos no Brasil, pergunte-se qual a faixa de renda que determina quem é classe média. Você verá que, infelizmente, nem tudo são flores.

10 comentários:

Anselmo Heidrich disse...

Adolfo,

Entendo teu comentário e a crítica à exploração política ocasional que dele se faz. Mas, eu acho justamente que estes conceitos tinham sim que ter tratamento mais objetivo, i.e., matemático. Porque justamente assim é que podemos ver como a classe média evoluiu ao longo de determinado período ou períodos. Pelo contrário, se já determinarmos como ela deve ser, ter condições e gastos, padrões de consumo etc., nós estaremos claramente eliminando a possibilidade de comparar a classe média atual com a anterior e, possivelmente projetar a futura classe média, além de comparar a nacional com a de outras realidades, assim como internamente, pois nem todas as referidas classes médias terão as mesmas condições de consumo e qualidade de vida.

De qualquer forma, tua proposta de discussão é muito boa.

Zé disse...

Def: Família de classe média é aquela que tem casa em búzios, um pequeno iate, viaja 3 vezes por ano pros EUA e come 6 prostitutas de luxo por ano.

Na definição oficial, na minha ou na sua definição (que a princípio é tão válida quanto a minha) a classe média no Brasil está aumentando nos últimos 20 anos.

ps: Vai trabalhar para honrar o dinheiro do trabalhador e deixa de onda filosófica.

LP disse...

Muito bom os seus argumentos Adolfo!

Quando tiver tempo leia essa notícia aqui sobre o assunto:

http://www.valor.com.br/brasil/2903668/para-bird-brasil-ainda-nao-e-pais-de-classe-media

Abs

Anônimo disse...

Classe média era aquela que conseguia comprar um IMOVEL !

Felipe disse...

Excelente Artigo.

O governo e a imprensa misturou o conceito social e histórico do termo "classe média" e o seu respectivo significado semântico, com um conceito estatístico e matemático.

Olha a definição oficial do termo classe média:

http://pt.wikipedia.org/wiki/Classe_m%C3%A9dia

Parabéns pelo artigo.

Anônimo disse...

Texto simplesmente perfeito! Governo + mídia manipulando números e alienando ainda mais a população fraca de cabeça.

Anônimo disse...

Concordo plenamente. O que é criticado no artigo não é a definição, mas sim a propaganda em cima desses números. Afinal, tanto faz se um individuo é pobre ou rico, o que realmente faz a diferença é a qualidade de vida. Entre essa classe média alardeada pelo governo, tem muitas famílias que não tem carro e nem teria condições mínimas para custear um membro da família doente, por exemplo.

Anônimo disse...

Esse é o Brasil, o país do futuro (?)... Para aumentar com a classe média, reduz a faixa de renda que uma família precisa ter... Para acabar com as favelas, começa a chamar de comunidade... Quer aumentar o preço da gasolina sem impactar a inflação, aumenta a proporção de álcool na mistura... Quer reduzir a inflação, quebra contratos e baixa o preço a energia na canetada... Quer estimular a exportação, manipula o câmbio... E tem muitas outras mutretas para listar aqui...

E assim a vida segue... E o povo acha tudo lindo...

Dawran Numida disse...

Na realidade criaram um conceito de classe média ideologicamente concebido.

Por exemplo, há uns três anos, percebia-se que muitas pessoas estavam viajando de avião pela primeira vez. Seriam os membros da tal classe média.

E tal fato era citado como exemplo do crescimento do País e da distribuição de renda etc.

Hoje, apesar do crédito, as passagens de avião aumentaram bastante e já não é mais possível distinguir quem esteja pela primeira vez viajando de avião.

Assim, o conceito dado pela renda não bate com a realidade.
Isso foi o caso de viagem por avião. Se for considerado a devolução de carros ou a colocação de imóveis adquiridos à venda, isso fica mais claro.

Anônimo disse...

Concordando com o Pochmann?

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