quarta-feira, 17 de abril de 2013

Entrevista com Daniel Marchi

Daniel Marchi é economista graduado pela FEA USP Ribeirão Preto. Participou em 2012 do Mises University, programa de aprofundamento em Escola Austríaca oferecido pelo Mises Institute em Auburn, Alabama. Coordena as atividades do Grupo de Estudos da Escola Austríaca de Brasília, que realizará nos dias 19 e 20 de abril o II Encontro de Escola Austríaca.

1) Qual é a contribuição da Escola Austríaca de Economia para a Teoria Econômica?

Várias. É possível lista-las conforme a ordem cronológica dos principais teóricos da Escola Austríaca (EA). Carl Menger foi um dos três autores, independentes entre si, a consolidar a teoria do valor conforme a utilidade marginal, em 1871. Pouco se fala, mas Menger foi o principal responsável por ter restaurado o papel da teoria pura nas ciências econômicas, em contraposição à influente Escola Historicista Alemã, no importantíssimo debate acadêmico conhecido como Methodenstreit. Böhm-Bawerk fez desmoronar o castelo de areia do marxismo, ao demonstrar toda a inconsistência teórica da ideia de mais-valia proposta por Marx. O mesmo autor fez importantes contribuições sobre a interação da estrutura de capital da economia e a taxa de juros. Ludwig von Mises, para mim, é um caso à parte. Economistas brilhantes passam a vida tentando emplacar uma contribuição teórica importante. Mises tem pelo menos três. Partindo dos insights da Escola Monetária Inglesa, de Menger e Böhm-Bawerk, Mises sistematiza o que conhecemos hoje como a Teoria Austríaca dos Ciclos Econômicos, em sua obra “The Theory of Money and Credit”. A segunda contribuição de Mises é o teorema da impossibilidade do cálculo econômico no socialismo. O desmoronamento do modelo socialista pegou de surpresa muitos economistas, menos os austríacos que já conheciam inconsistência teórica desse famigerado experimento desde 1920. Ainda dentro desse pacote, um importante desdobramento do teorema da impossibilidade do socialismo: o entendimento de que os mercados tratam-se de um processos dinâmicos; entende-los como equilíbrios estáticos (ou variações em torno disso) trata-se, segundo Mises, de um erro intelectual. O terceiro – e provavelmente o mais importante – legado de Mises é a sistematização da praxeologia, ou ciência da ação humana. O austríaco entendia que a mais adequada metodologia aplicável à Economia deveria basear-se em proposições a priori, sendo estas não sujeitas a verificações ou refutações por meio de experiências (dados). Ainda, a estrutura lógica de tal metodologia, a praxeologia, jamais poderia prescindir dos fatores “causalidade” e “tempo”, como acontece com a lógica pura e matemática. A herança metodológica de Mises é fundamental para entender as falhas do positivismo e da modelagem matemática aplicados à Economia. Para entender melhor a praxeologia, recomendo a leitura da Parte I de “Ação Humana” (Mises) e de “A Ciência Econômica e o Método Austríaco” (H.H. Hoppe). Já encerrando, a importante obra de F.A. Hayek, vencedor do Prêmio Nobel de 1974 por seus avanços sobre a Teoria Austríaca dos Ciclos Econômicos. Não posso deixar de mencionar sua atuação no debate acerca do cálculo econômico no socialismo. Hayek enfatizou a impossibilidade de tal sistema ao abordar o problema pela ótica da dispersão do conhecimento. Um genuíno sistema de preços – inexistente no socialismo – seria indispensável para concatenar não só bens e serviços, mas também o conhecimento disperso na sociedade. Hayek ainda protagonizou um fecundo debate com Keynes sobre os efeitos das chamadas políticas fiscais e monetárias. Um raro intelectual a transitar por outras áreas do conhecimento, Hayek tem trabalhos relevantes nas áreas de ciência política, filosofia do direito e psicologia. Essas são, no meu entender, as principais contribuições. Ainda deixei de fora nomes como Friedrich von Wieser, Murray Rothbard, Israel Kirzner, Roger Garrison, Hans-Hermann Hoppe, Jesús Huerta de Soto e outros. Sou suspeito pra falar, mas desconheço outra tradição de pensamento mais prolífica que a EA.


2) As vezes tenho a impressão de que alguns austríacos se aproximam demais de um credo religioso, semelhante aos marxistas. Você concorda? Por que?

Se o termo “credo religioso” for entendido pela sua conotação negativa, no sentido de agremiação sectária, obviamente eu discordo da comparação. Existem divergências dentro da EA, posições teóricas foram ajustadas ao longo do tempo, existe diálogo entre os teóricos da EA e teóricos de outras correntes e praticamente toda a produção “austríaca” está disponível na Internet. Não se observa isso nos grupos sectários. E mais, o comportamento sectário se caracteriza por posições que carecem de justificativas racionais. A EA, por outro lado, têm na sua própria metodologia a ênfase das relações de causa e efeito. Se os “austríacos” se comportassem como cegos defensores das posições A ou B, isso seria uma espécie de afronta ao próprio método aplicado à ciência econômica. Sinceramente não sei de onde surgiu esse estigma. Acho que é pelo fato da EA ter sido praticamente banida da academia e do debate público. Os continuadores da EA se resumiam a um grupo muito pequeno, porém aguerrido. Os detratores da EA, às vezes por pura ignorância, às vezes para lançar argumentos ad hominem simplesmente, lançaram mão dessa estratégia de taxar esse pequeno grupo de “credo religioso”, “igrejinha decadente” entre outros adjetivos. A única recomendação que posso fazer para aqueles que ainda pensam que a EA é uma espécie de credo cego é convidá-los a estudar honestamente um pouco mais os autores “austríacos”, a metodologia que eles entendem aplicável à Economia e depois comparar com as outras correntes de pensamento econômico. Eu fiz isso e recomendo que todos os estudiosos de Economia façam. Sou formado em Economia por uma renomada universidade pública. Em 5 anos de aulas, a EA foi mencionada por alguns minutos, talvez. O currículo era todo voltado para as linhas mainstream: microeconomia neoclássica, métodos quantitativos, Keynes e seus discípulos. Tudo que aprendi – e venho aprendendo – foi quase que exclusivamente pela via auto-didática. Se fosse pra mencionar uma característica marcante na EA, esta seria sua conexão com a realidade da ação humana e dos mercados. Muito diferente dos pressupostos irrealistas presentes nas outras correntes. Em termos de crenças, os marxistas, keynesianos, neoclássicos e simpatizantes têm mais explicações a dar que os austríacos.


3) O que um teórico da Escola Austríaca teria a dizer ao governo brasileiro?

Provavelmente diria aos cavalheiros que comandam as diferentes esferas de governo: não se metam na vida das pessoas! Altos impostos, burocracia bizantina, medidas protecionistas, inflação da moeda, toneladas de regulamentações, leis de controle da vida privada e familiar, dirigismo contratual, planejamento urbano, controle de preços, corrupção generalizada... tudo isso não afeta o mercado, em abstrato. Isso atrapalha o dia-a-dias pessoas, as impedem de empreender e de melhorarem de vida. O mercado nada mais é que o conjunto de interações individuais. Nem é preciso dizer que quem mais sofre com tudo isso são os mais pobres. Observem essa última lei voltada para “beneficiar” os trabalhadores domésticos. Enfim, não esperem que a FIESP faça passeatas em Brasília, pedindo menos interferência do estado na sociedade. Quanto mais avança o intervencionismo, mais protegidos estão aos grandes empresários e mais dificuldade o resto da sociedade tem para empreender.


4) Quais são as 3 principais obras que você recomendaria para estudantes interessados na Escola Austríaca?

Para um estudante que eventualmente esteja iniciando sua incursão pela EA, recomendaria “A Escola Austríaca” de Jesus Huerta de Soto, “Ação Humana” de Ludwig von Mises e “Economia Numa Única Lição”, de Henry Hazlitt. Também não posso deixar de indicar o magistral ensaio de Friedrich A. Hayek, “O Uso do Conhecimento na Sociedade”. Já extrapolando as três indicações, permita-me recomendar enfaticamente a leitura diária dos artigos publicados no site do Instituto Mises Brasil (www.mises.org.br). São excelentes.


5) Os bancos devem ter permissão para emprestar dinheiro que não lhe pertence? Isto é, você é a favor ou contra o sistema de reservas fracionadas? Por que?

Em função da complexidade, peço paciência a seus leitores para uma resposta um pouco longa. Ninguém deve ter permissão para emprestar o que não lhe pertence. Se isso acontece, temos fortes evidências de furto ou fraude. O fato é que o sistema bancário, bem como uma série de setores protegidos pelo estado e o próprio estado, é regido por regras que não se aplicam ao resto dos mortais. Se alugo seu carro para um conhecido meu, sem sua expressa autorização, estou sujeito a sanções penais absolutamente justas. O mesmo não se aplica aos bancos. Muitas pessoas não sabem, ou não se deram conta ainda, mas nem todos os recursos emprestados pelos bancos advém de poupança real (abstenção de consumo) da sociedade. Boa parte dos empréstimos são feitos com base nas “reservas fracionadas”. Trocando em miúdos, os bancos não são obrigados a manter em seus caixas, na forma de reserva, todos os recursos depositados, à vista e a prazo. Eles são obrigados a manter apenas uma fração, conforme regulamentação do Banco Central. É o chamado “depósito compulsório”, que hoje, no Brasil, está em 43% para os depósitos à vista e 20% para os depósitos à prazo. Sobre a diferença, os bancos podem, literalmente, criar moeda do nada a fim de gerar empréstimos. Num breve parêntese, essa é a razão pela qual os bancos centrais controlam indiretamente a quantidade total de moeda na economia. No fim das contas, essa quantidade é determinada pelo volume criado em parte pelos BC’s e em parte pelo sistema bancário. Voltando a sua questão, percebe-se que a prática das reservas fracionárias: (I) Viola a propriedade dos depositantes: muitas pessoas procuram os serviços bancários para a simples função de depósito e segurança de seus recursos. Querem liquidez para poderem usar cartões de débito e cheques. Não autorizaram os bancos pegarem tais recursos e emprestarem. Se autorizassem, certamente demandariam remuneração por isso, fato esse transformaria aquele dinheiro em poupança, não em depósito à vista. A separação dessas duas funções é fundamental, em termos econômicos e especialmente jurídicos. (II) Traz insegurança ao sistema. As reservas fracionárias transformam as eventuais corridas bancárias em verdadeiros shows de horrores. A comparação que faço é a seguinte, caso ocorra uma corrida aos estacionamentos dos shoppings, haverá um certa fila, mas todo mundo pegará seu respectivo carro seguirá para casa. Agora, e se todo mundo resolver resgatar seu dinheiro, sua legitima propriedade, e levar pra casa? Lembrem-se do que aconteceu na Argentina em 2001/2002 e com o Chipre agora em 2013, pra ficar nos casos mais recentes. (III) Tem efeitos econômicos nocivos. O descasamento entre poupança real e disponibilidade de crédito faz com a taxa de juros vigente na economia seja ilusória. É como se a biruta do aeroporto perdesse a sensibilidade ao vento. Os pilotos ficariam simplesmente desorientados. Uma taxa de juros artificialmente baixa, faz com negócios que não seriam viáveis numa situação normal passem a sê-lo em função do crédito criado do nada. No médio e longo prazo os empresários que encabeçaram os empreendimentos artificiais começam a perceber que o cenário é desfavorável e que não há demanda para seus produtos. Temos a fase recessiva dos ciclos de negócios. Capital, mão de obra e tempo foram desperdiçados em decorrência da moeda falsa criada. (IV) Sua sustentabilidade depende da proteção do estado, por meio da atuação dos bancos centrais, os “emprestadores de última instância”. Em função da insegurança sistêmica mencionada anteriormente e para evitar ações oportunistas de determinados bancos, os bancos centrais “gerenciam” o sistema para que a expansão do crédito ocorra de forma harmônica entre os bancos. (V) No livre mercado, sem a proteção do governo, a prática das reservas fracionárias seria auto-reprimida pela propaganda, prejuízos, falências e ações judiciais. Bancos facilmente poderiam usar como estratégia de marketing o fato de praticarem 100% de reservas. Alguém em sã consciência estaria disposto a colocar sua riqueza, seu salário, numa instituição pouco sólida? Perceba que pouco nos preocupamos com a solidez dos bancos hoje. Sabemos que no final do dia o governo estará lá garantir a “saúde” do sistema. Corridas bancárias afetariam única e exclusivamente os imprudentes e fraudadores; tais banqueiros teriam sua reputação completamente destruída, além de terem que responder a toneladas de ações judiciais. Voltaríamos a nos preocupar seriamente com a boa gestão de cada uma das instituições financeiras com as quais tivéssemos contrato, exigindo auditorias periódicas, transparência nas informações etc. Diante de tudo isso, e encontrando respaldo com a maioria dos grandes economistas “austríacos”, só posso ser contra o sistema bancário de reservas fracionárias. Se existe alguma vantagem em tal regime, desconheço. Desde os primórdios dessa prática, o sistema de reservas fracionárias está longe de ser uma instituição pouco relevante ou meramente um “detalhe técnico” de nossa sociedade. Seu funcionamento, suas implicações jurídicas, éticas e econômicas deveriam ser objeto de amplo debate na mídia e academia. Para abordagem completa sobre esse tema, recomendo “Moeda, Crédito Bancário e Ciclos Econômicos” de Jesús Huerta de Soto.

Gostou da entrevista? Quer saber mais sobre o pensamento da Escola Austríaca de Economia? Então participe do II Encontro de Escola Austríaca de Brasília. O evento ocorrerá nesta sexta-feira e neste sábado!!!!

3 comentários:

Anônimo disse...

"desconheço outra tradição de pensamento mais prolífica que a EA"

"Os detratores da EA"

Você pega o cara pelo próprio discurso.

samuel disse...

sou matemático. Eu consigo compreender os tópicos da EA. fazem sentido para mim.
Não consigo concordar com os outros... Ohhh essa lógica opressora!

Tullio Bertini disse...

Excelente entrevista!!! Parabéns, Daniel!!!

Google+ Followers

Ocorreu um erro neste gadget

Follow by Email