sábado, 29 de junho de 2013

A Razão Das Manifestações: Sachsida culpa o Banco Central, Inflação para os mais pobres é o Motivo

Semana passada o Ministro da Secretaria de Assuntos Estratégicos (SAE) formulou uma hipótese sobre as razões das manifestações: a desigualdade de renda teria caído num ritmo muito rápido, e parte da sociedade não estaria pronta para isso. Além disso, em relação aos manifestantes, ele diz “não diria que são os mais ricos, mas talvez não sejam os mais pobres”. Em relação a isso, Miriam Leitao colocou bons pontos, mostrando inclusive que pessoas vivendo em locais de baixa renda, como nas favelas, também estão protestando.

De maneira geral, discordo dos argumentos do Ministro da SAE, até porque não vejo ninguém reclamar que pessoas pobres estão melhor de vida (o que seria a consequência lógica da explicação do ministro). Quando ele diz "não é a mulher negra da favela da periferia que está nas ruas protestando", isso parece ser muito mais uma resposta política do que um argumento técnico. Vejamos, tal como sabemos, vários moradores de favela participaram dos protestos, o que, se não invalida, pelo menos lança dúvidas sobre a generalidade desse argumento. Além disso, CASO SE ACEITE o argumento do Ministro, poderia reescrever sua fala da seguinte maneira: "Os menos educados ficam em casa, e os mais estudados protestam", ou então "Manifestantes tem escolaridade maior do que a média nacional". Não acredito que o ministro queira sustentar esse ponto, logo não creio que seu argumento possa ser expandido.

Tendo a concordar com a linha de argumentação do professor de economia da UnB, Roberto Ellery. Boa parte da revolta não está na "antiga" classe média. Mas sim na "nova classe média". Devemos lembrar que, por uma deifinição estatística (adotada pelo ministro da SAE), uma família composta por pai, mãe e um filho, que recebam 800 reais por mês são considerados classe média. Ora são justamente a essas pessoas que a inflação está penalizando, e muito. Esta família toda anda de ônibus, e sofre com a falta de qualidade e a insegurança desse serviço. Um pequeno aumento na passagem do ônibus, pode significar um almoço a menos no final do mês para essa família.

O governo comete um erro básico: se esquece que a inflação é diferente para os diferentes segmentos de renda. Dessa maneira, apesar da inflação medida pelo IPCA (que representa famílias que ganham entre 1 e 40 salários mínimos), nos últimos 12 meses, estar perto de 6%, a cesta básica (que reflete a inflação diretamente sobre os mais pobres) teve alta, segundo o DIEESE, de incríveis 26,8% em Fortaleza, e 23,4% no Rio de Janeiro. É esse o real motivo das manifestações: as conquistas sociais obtidas pela inflação sob controle estão em risco, a população sentiu isso e foi para rua.

Claro que a corrupção também é um problema sério, claro que existem outros motivos, mas foi a aceleração do processo inflacionário, arriscando destruir as conquistas sociais obtidas nos últimos 20 anos, que disparou o gatilho das manifestações. Devemos lembrar que a inflação é o mecanismo mais eficiente para concentrar renda. Com o fim da inflação, em meados de 1995, começou um vigoroso processo de desconcentração de renda e conquistas sociais. Processo esse que está sendo desafiado pela volta da inflação.

As manifestações de rua refletem o medo da população em perder para a inflação as conquistas econômicas e sociais obtidas nas últimas duas décadas. Resumindo, essa é mais uma conquista do péssimo gerenciamento de política monetária do Banco Central. Claro que as péssimas políticas fiscais adotadas pelo Ministério da Fazenda também ajudaram a piorar a situação. Afinal, para quem vê o poder de compra de seu dinheiro diminuir dia-a-dia, é ofensivo passar em frente a um estádio de futebol padrão FIFA custeado pelo dinheiro de nossos impostos.

7 comentários:

Herberth Amaral disse...

Sachsida, você acha que a desestatização da moeda funcionaria? Acho que no Panamá não há um banco central e eles raramente (ou nunca, salve engano) passam por crises inflacionárias.

Adolfo Sachsida disse...

sim, acho que seria uma boa solução!

Adolfo

samuel disse...

Do prof Ellery e de V.S. as melhores explicações para o povo nas ruas...
PARABENS!

Anônimo disse...

Já começa tudo errado,pai/mãe e filho,800 classe média já zera todos os argumentos,acho que a coisa está pegando por ai,iludiram essa gente,agora a ficha está caindo,quem ganha isso é pobre e passa muita dificuldade ,o resto é demagogia não caia nessa.Imagina esse casal morando em São Paulo com essa renda,VAMOS PARAR DE MENTIRA e falar a verdade,não iludam mais essa gente...800 para três não dá para nada o resto é estatística é papel a realidade é bem outra.

Vânia Luz disse...

Reflexivo texto e vídeo. Por quê você não incorpora o vídeo no post?
Até!

Anônimo disse...

tá por fora xará, é só olhar as estatísticas de quem foi para as manifestações, 43% têm ensino superior e 49% têm renda familiar superior a cinco SM.

Arthur Niculitcheff disse...

Algum motivo pra achar que a moeda não é neutra e tem efeitos redistributivos?

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