sexta-feira, 3 de janeiro de 2014

Comentários a Respeito do Artigo de Bresser Pereira no Valor Econômico

Bresser Pereira escreveu um artigo no jornal Valor Econômico sob o título "Desenvolvimentistas, liberais, e o baixo crescimento". Confesso que achei estranhas algumas de suas afirmações. Vamos a elas:

1) "(...) os economistas liberais, que até há dois anos estavam calados, voltaram a fazer suas críticas à política que está sendo adotada".

Resposta) Vamos dar um desconto aqui, afinal Bresser conhece poucos economistas liberais. Mas é bem fácil encontrar críticas minhas a condução da política econômica (em especial a expansão fiscal) a partir do segundo semestre de 2007, começo de 2008. Alguns outros economistas se juntaram a mim nessas críticas. Roberto Ellery, Mario Jorge Cardoso de Mendonça, e Alexandre Schwartsman são alguns deles, mas não os únicos. Claro que haviam diferença nos tons da crítica, mas o alerta era semelhante: erro de condução na política macroeconômica. Um número bem maior de economistas tem criticado duramente a política econômica do governo Dilma. Dizer que os economistas liberais estavam calados é exagero de linguagem.


2) "A crítica maior refere-se à política industrial, que no governo Dilma foi fortemente ampliada por meio da desoneração de impostos".

Resposta) A maior crítica refere-se a semelhança da política econômica do governo Dilma com a do governo Geisel. E todos sabemos como acabou o governo Geisel...


3) "Outras críticas foram relativas à diminuição do superávit primário e ao ligeiro aumento da inflação".

Resposta) As críticas foram direcionadas a falta de responsabilidade fiscal do governo, em especial às absurdas manobras fiscais com o claro objetivo de inflar o superavit primário. Talvez Bresser não se preocupe com uma inflação na casa dos 6% ao ano, mas é absurdo que o Banco Central não se preocupe com isso. As críticas sobre a condução da política monetária, e do uso de desonerações tributárias para maquear índices de inflação, me parece mais que pertinente. Por acaso Bresser acha razoável um BACEN que esteja satisfeito com uma inflação consistentemente próxima de 6% ao ano?


4) "(...) é preciso observar que os desenvolvimentistas do passado não defendiam uma taxa de câmbio competitiva; em seu lugar eles preferiam taxas múltiplas de câmbio para evitar a remuneração excessiva dos exportadores de commodities e beneficiar os empresários industriais. Dessa forma intuíam a doença holandesa e como neutralizá-la".

Resposta) Aqui só posso dizer uma coisa: só o professor Valdomiro Pinto para concordar com taxas múltiplas de câmbio. Honestamente, acredito que interpretei mal o artigo de Bresser. Confesso que não consigo acreditar que ele esta a defender a existência de taxas múltiplas de câmbio. Mas friso novamente, acredito que aqui estou interpretando errado o artigo de Bresser.


5) "Segundo, como se comparam esses quatro pilares com os correspondentes pilares da ortodoxia liberal? São precisamente o inverso: câmbio apreciado, juros altos, política fiscal restritiva, e política fiscal contracionista".

Resposta) Isso é um erro grotesco, para evitar usar outra palavra. Nenhum liberal defende juros altos ou câmbio apreciado. Liberais argumentam de maneira simples: taxa de juros e taxa de câmbio são preços, logo devem flutuar de acordo com o mercado. Acontece que o BACEN adota a taxa de juros como instrumento para combater a inflação. O que os economistas ortodoxos argumentam é que, nesse caso, a taxa de juros deve permanecer num nível compatível com uma inflação moderada. Isso não significa, em absoluto, defender juros altos. Liberais não defendem políticas fiscais restritivas, apenas políticas fiscais responsáveis.


Vou evitar comentar as conclusões do autor. Mas me reservo o direito de fazer duas ressalvas: 1) o problema do Brasil está na baixa produtividade, esse problema é estrutural. Algo que me parece completamente esquecido no artigo (que foca no câmbio de equilíbrio sugerido pelo autor); e 2) para que qualquer discussão prospere é fundamental haver honestidade intelectual. Chamar o adversário de feio, bobo e amante de juros altos é coisa de alguém que não quer debater, mas que quer aplausos.

3 comentários:

Chutando a Lata disse...

Achei legal o debate. Continue nessa toada; eh o que espero. Voce foi no ponto.

JV disse...

Good

Ricardo R disse...

Eu sou novo. Tava nascendo quando o bresser era ministro. Mas cada vez fica mais claro pra mim como ninguém conseguia resolver a inflação nos anos 80. Com essa naipe de gente, me admiro de a gente não ter superado o zimbabue.

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