sexta-feira, 10 de janeiro de 2014

Por que a Inflação não caiu com o aumento da taxa de juros?

A inflação do IPCA em 2013 foi de 5,91%. A inflação dos alimentos e bebidas foi de 8,48%, e as despesas pessoais subiram 8,39%. Em 2013, novamente, o BACEN foi salvo por medidas heterodoxas de controle de preços: redução (forçada pelo governo) no preço da energia elétrica, e redução (forçada pelo governo) das tarifas de transporte urbano. Não fosse por medidas que passam longe do Banco Central, e a inflação teria sido mais alta.

O BACEN aumentou a taxa de juros. Contudo, a inflação não caiu. Por que? Em primeiro lugar, existe uma certa defasagem entre o aumento das taxas de juros e a redução da pressão inflacionária. Nesse sentido, devemos culpar o BACEN por sua incrível demora em elevar a taxa de juros. Em segundo lugar, tal como eu já havia avisado, o BACEN executa uma política monetária confusa: por um lado aumenta os juros, mas por outro expande o crédito. Esse tipo de manobra dificulta o impacto dos juros sobre a inflação.

O que combate a inflação é uma política monetária (aliada a uma política fiscal) restritiva. No Brasil já esta claro que a política fiscal não é restritiva. Assim, o combate a inflação fica todo a cargo da política monetária. Mas uma política monetária restritiva implica numa redução da oferta monetária. Como o Brasil adota o sistema de metas de inflação, isso é feito por um aumento da taxa de juros. Contudo, ao expandir o crédito o governo acaba por aumentar a oferta monetária, o que diminui o impacto do aumento da taxa de juros sobre o nível de preços. Em outras palavras, é pouco eficiente aumentar a taxa de juros para combater a inflação se ao mesmo tempo o governo expande o crédito.

Por fim, gostaria de ressaltar um problema técnico: quando o Banco Central Americano (FED) aumenta a taxa de juros, ele altera uma taxa de juros equivalente ao interbancario no Brasil. Isso implica numa pressão forte para os bancos reduzirem a liquidez do mercado, mas essa taxa NÃO É a taxa que remunera os títulos da dívida pública americana (claro que existem impactos sobre a dívida pública, mas estes são impactos indiretos). No Brasil, o BACEN altera a SELIC. Isso não altera diretamente a liquidez dos bancos, pois não altera diretamente a taxa que o BACEN empresta aos outros bancos, mas afeta diretamente a dívida pública. Acho estranho que esse tema seja tão pouco discutido no Brasil, pois me parece que essa estratégia enfraquece o efeito da taxa de juros no combate a inflação.

Enfim, mais um ano se passou e mais uma vez a inflação foi controlada por medidas exóticas do governo. Esse ano o governo aplicou um mal disfaçado congelamento de preços para evitar que a inflação saisse do controle. Combustíveis, energia, transporte público, outros preços administrados, foram exemplos claros de que o governo usou de congelamento de preços para combater a inflação. O passado já nos ensinou que essas medidas não funcionam, elas apenas varrem a sujeira para baixo do tapete. Será que ainda existem economistas na diretoria do Banco Central do Brasil?

2 comentários:

Chutando a Lata disse...

Confesso que acho a teoria monetaria no presente momento uma bagunça que, segundo minha visao, se aprofundou com interest & prices de Woodford. O problema eh que monetaristas como McCallum acham esse livro importante. O que me deixa ainda com o pe atras eh que o Lucas, pelo que sei, ainda nao disse nada sobre esse livro, embora repare que o Lucas seja condescendente com seus amigos - eh dificil fugir aos clubes. De qualquer forma, pelo que sei da regra de taylor eh que o proprio taylor apenas quis mimetizar uma regra que traduzisse o modus operandi do banco central americano, simplesmente porque os banqueiros nao entendem (ou preferem) regras como a do Friedman ou mesmo a do McCallum. Mas o efeito final teria que ser a reducao da oferta monetaria, em que pese o problema de se definir qual seria o conceito relevante de moeda para se controlar. Assim sendo, nao seriam os juros o verdadeiro indicador. Mas como voce mesmo disse: a oferta monetária

Chutando a Lata disse...

Faria apenas um adendo ao meu comentario: a indexacao - dos contratos de energia e demais serviços publicos ou outros esquemas cartoriais - deixa o BACEN sem armas para conter a rigidez inflacionaria. Fica dificil só com instrumentos tradicionais debelar a inflação que persiste.

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