sexta-feira, 14 de fevereiro de 2014

Hoje, em termos operacionais, a única diferença entre liberais e conservadores refere-se a liberação da maconha


Num post anterior, fiz uma lista de pensadores liberais que talvez tenha causado a estranheza de alguns. Não foi descuido e nem obra do acaso. Aquele post tenta mostrar que o movimento liberal é bem maior do que alguns supõe. O liberalismo se caracteriza por sua defesa de três pontos: liberdade individual (respeito ao estado de direito), defesa da propriedade privada, e apoio a um sistema de preços de livre mercado. Todos que defendem esse conjunto de ideias são liberais. Contudo, entre os liberais existem divergências. Dessas divergências temos a formação de vários grupos dentro do movimento liberal. Grupos esses que estão entre os liberais clássicos (conservadores) e os ultra-liberais (libertários).

Num mundo que começasse do zero, certamente conservadores e libertários estariam separados, talvez até em pontas opostas. Contudo, o mundo já existe. Hoje, no Brasil, em termos operacionais, existe apenas uma única diferença importante entre liberais e conservadores: a descriminalização da maconha. Os conservadores são contra, os liberais são a favor. A rigor, os libertários pregam a descriminalização de todas as drogas. Contudo, em termos operacionais, me parece bem pouco provável que a liberação do crack e da heroína tenham espaço político para prosperar nas próximas duas décadas.

Vejamos a questão dos impostos. Eu, enquanto conservador, gostaria de manter a carga tributária ao redor de 20% do PIB. Os libertários são contra impostos obrigatórios, logo defendem uma carga tributária obrigatória de 0%. Suponha que um libertário vença as eleições, por acaso será possível reduzir a carga tributária brasileira dos atuais 36% do PIB para 0%? Óbvio que não, uma sociedade, para manter o estado de direito, não pode sofrer mudanças repentinas dessa magnitude. Logo, tanto um conservador quanto um libertário trabalhariam em conjunto para, gradativamente, irem reduzindo a carga tributária. Acredito que, em 2 décadas, sejamos capazes de reduzir a carga tributária para algo em redor de 20% do PIB. Só a partir desse ponto é que haveria discussão entre os libertários (que pressionariam por mais redução) e os conservadores (satisfeitos com o patamar tributário).

Vejamos a questão da propriedade privada e do sistema de preços via mercado. Novamente, hoje, em termos operacionais, não existe uma única grande diferença entre libertários e conservadores. Quando olhamos as discussões políticas que são feitas, os arranjos econômicos feitos pelos que estão no poder, e as propostas que tramitam no Congresso, fica evidente que a agenda libertária é extremamente similar a agenda conservadora. No Brasil atual não faz o menor sentido um conservador ser atacado por um libertário, ou vice-versa. Libertários e conservadores são, no Brasil atual, aliados óbvios. É simplesmente burrice desperdiçarmos o pequeno espaço que temos brigando entre nós mesmos. Ganharíamos muito mais com uma convivência pacífica, e lutando contra os movimentos contrários a sociedade aberta, do que brigando por questões que, no Brasil atual, sequer estão na agenda ou no espectro de possibilidades.

Para uma ideia ser boa não basta a mesma ser boa, ela precisa ser operacionalmente viável. No Brasil atual a única questão operacionalmente viável que separa liberais de conservadores é a liberação da maconha (que aliás é defendida por todos os partidos de esquerda). Vale a pena essa briga? Vale a pena dividirmos nosso pequeno efetivo para apoiar uma causa que, além de polêmica, só tende a fortalecer os inimigos da sociedade aberta? Não peço aos conservadores que apoiem a liberação da maconha. Não peço aos libertários que sejam contra a liberação da maconha. Peço apenas para que enxerguemos um espectro político maior: no Brasil atual nós somos nossos únicos aliados. Deixemos nossas brigas para, com sorte, daqui 20 anos.

7 comentários:

Luiz Augusto Silva disse...

Eu adoraria que você estivesse certo, Sachsida, mas o potencial do conflito entre os dois é muito maior do que isso. E ele pode se fazer presente a qualquer momento.

Agora mesmo temos o debate sobre a tipificação do terrorismo, em que liberais e conservadores ficam em pontas opostas.

Anônimo disse...

Sou libertário e concordo com isso.
Por isso nunca promovo nenhuma ação à favor de liberação das drogas.
Afinal de contas é preciso ter um senso de prioridades, e com certeza liberar o uso de drogas é algo
que está no fim da minha lista de prioridades.
Sei que a caça aos traficantes gera violência, mas acho que, por exemplo, se liberássemos o porte de armas
a situação já daria uma boa melhorada. Claro que é preciso outras ações além dessa para reduzir a violência.
Em países com grande liberdade econômica como a Suíça, por exemplo, o uso de drogas é proíbido e mesmo assim
a caça aos traficantes não gera nenhuma violência expressiva por lá, eu nem sequer tenho notícia de qualquer violência lá.

Acho que só seria viável liberar as drogas depois de termos bastante liberdade econômica.
Com a liberdade econômica e todos tendo mais oportunidade no mercado de trabalho o número de pessoas querendo usar e
comercializar drogas tende à ser muito menor.
E acho que só seria aceitável liberar as drogas se tivéssemos a liberdade para discriminar quaisquer viciados.
Pois assim seria possível a sociedade expressar-se, através da discriminação aos viciados, que eles não são aceitos,
e isso desestimularia o uso para o minimo possível.

Vamos priorizar a liberdade econômica!

Anônimo disse...

Nada a ver.

Liberais clássicos nem são nem foram conservadores, para começar.

Os pontos de conflito são diversos entre liberais e conservadores. Conservadores apoiam o uso da lei e da força para coibir comportamentos, tais como: Casamento gay; Manifestações políticas;Manifestações culturais/artísticas e pessoais que os conservadores consideram "obscenas", ou "contra a ordem". O machismo e a negação da violência institucional contra minorias também é algo bem caro aos conservadores. Entre milhares de coisas.

Anônimo disse...

eutanásia, aborto, casamento gay, pornografia, a lista é interminável de pontos de conflito meu caro

Anônimo disse...

os conservadores apoiaram o golpe de 64, os liberais jamais apoiaram. Uma diferença pouco relevante não é mesmo?

EduardoSA disse...

Libertários são contra a existência de organização política. Eles querem extinguir o Estado para alcançar a liberdade total.
Aposto que, para isso, muitos deles não votam.

Anônimo disse...

Dia 19 de março Comemoração dos 50 anos da Marcha da Família com Deus, libertários ateus e homossexuais também podem ir.

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