quarta-feira, 5 de fevereiro de 2014

Uma Crítica a Política Cambial Adotada Pelo Banco Central

Já a algum tempo o Banco Central vem interferindo ativamente no mercado cambial. Parece evidente que o BACEN tenta evitar uma desvalorização mais forte do real. Existem dois bons motivos para esse comportamento: a) uma desvalorização cambial mais forte poderia ter impactos na taxa de inflação; e b) o BACEN estaria protegendo a moeda nacional de um ataque especulativo. Com essa postura, o BACEN estaria inflingindo perdas para os especuladores que apostam contra o real.

Sim, é verdade que uma desvalorização cambial mais forte poderia ter impacto sobre a inflação. Mas, se este é o caso, essa postura do BACEN apenas posterga (mas não evita) o rebatimento futuro do câmbio nos índices de preço. Afinal, cedo ou tarde o câmbio terá que convergir para seu preço de equilíbrio. Sim, é verdade também que esse comportamento do BACEN pode diminuir a volatilidade do câmbio, e certamente muitos podem defender com sucesso essa idéia.

Minha crítica se refere com mais força ao item b acima. Não me parece que o real esteja sofrendo um ataque especulativo. Pelo contrário, a impressão que tenho é que investidores tem reduzido sua posição em países em desenvolvimento. Basicamente isso ocorreu por causa de uma mudança, que poderia ser prevista sem grandes dificuldades, na política monetária americana. Com uma expansão menor de dólares americanos os investidores estão retornando aos Estados Unidos, e diminuindo suas posições em outros locais do mundo.

Se o parágrafo acima estiver certo, então o melhor que o BACEN poderia fazer era deixar o cambio flutuar livremente. Ao tentar fixar o câmbio o BACEN premia (e não pune como seria no caso de um ataque especulativo) quem retira o dinheiro do país. Por exemplo, imagine uma empresa que tenta diminuir suas posições no Brasil: no caso do câmbio ser fixo, a empresa pode retirar seu capital sem correr o risco de perder parte dele por causa de uma desvalorização no câmbio. Por outro lado, se o câmbio fosse flexível, tão logo grandes movimentos de saída de capital ocorressem o câmbio seria desvalorizado, punindo as empresas que adotaram esse comportamento. Esse exemplo simples mostra que o BACEN não deveria estar tentando controlar o câmbio, pois, além dos efeitos deletérios de se tentar controlar câmbio e juros ao mesmo tempo, o BACEN estaria estimulando empresas que tem operações em vários países a retirar primeiro o dinheiro do Brasil (pois aqui elas não incorreriam em perdas cambiais com a retirada maciça de recursos).

O BACEN tem técnicos de alto nível. Certamente eles são capazes de compreender (e de antecipar) o parágrafo acima. Logo, me parece que o real problema é outro: o BACEN se comprometeu demais em operações de swap cambial. Isto é, uma desvalorização cambial mais forte poderia complicar as coisas para o BACEN. Além disso, me parece que o endividamento de empresas brasileiras em dólares não é pequeno. Ou seja, uma desvalorização mais forte afetaria em muito as empresas brasileiras endividadas em moedas estrangeiras.

Dito isso, acredito que o BACEN, por um erro de condução na política monetária, se colocou numa encruzilhada: deixar o câmbio flutuar pressiona a já alta taxa de inflação, mas fixar a taxa de câmbio estimula ainda mais a saída de capitais de nossa economia. É uma espécie de Catch 22 cambial. Mesmo assim repito: em minha opinião o BACEN deveria deixar o câmbio flutuar, e concentrar seus esforços no combate a inflação por meio do aperto do crédito e da taxa de juros.

3 comentários:

Anônimo disse...

Se a crise externa agudizar como eu imagino a partir de meados de 2014 essa política cambial, se continuar sendo implementada, servirá como um tapete vermelho para a saída de capitais. O grande estrago em 1998/início de 1999 foi justamente essa política, agravada pelo intervenção ainda mais forte. O que nos salvou em 2008, quando tínhamos U$ 240 bi de portfolio e montante semelhante de reservas foi justamente o câmbio que explodiu e fechou a porta da saída. Em 2008 saíram somente U$ 17 bi, ou seja, nada, e o valor do portfolio caiu para U$ 120 bi no pior momento (números de memória). KB

samuel disse...

Tudo para REELEJER a Imperatriz de Copas...
O Brasil? O Brasil não é governado para o futuro. Só para eleições. Só vai se estrepar de vermelho cubano em 2015....

renato disse...

Mais e-x-p-l-i-c-a-d-i-n-h-o do que isso, impossível !!!

Google+ Followers

Ocorreu um erro neste gadget

Follow by Email