quarta-feira, 19 de março de 2014

A GUERRA ACABOU MAS A PAZ NÃO INTERESSA, texto escrito por Catarina Linhares

O texto abaixo foi escrito por Catarina Linhares, advogada em Belo Horizonte.

A propósito do último dia 8 de março e das comemorações do “Dia da Mulher”, era oportuno dedicar um pouco de tempo para pensar a respeito. Quanto ao significado, à homenagem, à realidade, às perspectivas. De se notar que, em sua maioria, os festejos relativos à data não contemplaram aquilo que realmente se deveria celebrar.

Explica-se. Ser mulher é maravilhoso. Não era bem assim há alguns anos, por isso mulheres corajosas enfrentaram situações difíceis a fim de serem respeitadas e, mais que isso, ouvidas. E isso deve ser lembrado e comemorado. Talvez não necessariamente no dia 8 de março, mas em todos os dias. É em honra de todas as mulheres corajosas do passado – e não apenas das mulheres que trabalhavam fora, que se pode celebrar o Dia Internacional da Mulher. Muito se fala das mulheres operárias, que buscavam um lugar no mercado de trabalho e eram discriminadas. Por isso lutaram, e foram vitoriosas. Mas pouco se fala das mulheres que buscavam um lugar na família, que queriam ser importantes e respeitadas como mães e educadoras. Elas também lutaram, e contra um sistema talvez até mais cruel, pois ao contrário daquelas que tentavam desbravar o mercado, essas enfrentavam preconceitos velados e ocultos no silêncio dos lares, tratadas como seres humanos menos importantes que seus maridos. De toda sorte, havia uma justa batalha, que se desenrolava ou contra um patrão opressor, ou contra um marido opressor. A guerra dos sexos estava deflagrada para que as mulheres não sofressem mais discriminação e violência.


A guerra acabou. Isso é o que deveria ser celebrado atualmente. Mas não é o que acontece porque a maioria das mulheres se recusa a aceitar que hoje reina a paz entre os sexos. Parece que, ao abrirem mão da “luta”, tais mulheres perderiam motivação na vida, pois que sua existência teria passado a girar em torno de uma causa – com todo o respeito, obsoleta – o feminismo.

Atualmente – exceto em alguns países, por costumes religiosos e culturais que podem ser considerados criminosos, e de crimes assim já tipificados em nosso mundo ocidental -, não há mais a discriminação contra as mulheres. E quando isso ocorre, está expresso na lei que é crime, e assim é encarado pela sociedade. Não são mais as mulheres cidadãs de segunda categoria, escravas com anuência do sistema, meros objetos de uso e descarte alheios. As que assim se colocam o fazem, na maioria das vezes, por opção. E toda opção tem seu custo e seus ganhos, objetivos, subjetivos, primários, secundários, mas isso é tema para longa conversa psicanalítica.

É muito bom ser mulher nos nossos dias. Só as mulheres sabem como pode ser gratificante a emoção, a sensibilidade, a delicadeza, a alma feminina. Há, por certo, prós e contras, momentos de poder incomparável que se contrapõem a períodos de extrema fragilidade. Mas ser mulher é assim, nada perfeito, não há perfeição neste mundo. Não sofrem mais as mulheres – em situações consideradas normais - violência, assédio, preconceito, desrespeito. Podem hoje em dia fazer suas escolhas e devem arcar com o resultado delas. Mas, se sofrerem alguma violência, assédio, preconceito, desrespeito, terão ferramentas suficientes – e ao alcance de todas, com menor ou maior esforço; em maior ou menor tempo, não importa - para fazerem cessar tudo isso. Por causa delas, as primeiras, as mulheres – operárias ou donas-de-casa - a quem devemos homenagens. Aquelas que nos deram voz e vez.

Daí para frente, não há mais que se falar em luta. Há que se falar em justiça, quando crimes são praticados; há que se falar em apoio e suporte, quando há mulheres com dificuldade de acesso à justiça. Mas não há que se falar em igualdade, pois o que é a igualdade senão “tratar desigualmente os desiguais” ? As mulheres não podem querer ser iguais aos homens – e nem vice-versa, obviamente – pois senão deixariam de ser mulheres. Jamais seriam homens – por limitações claríssimas e de caráter biológico inclusive (a psique, então nem se fale) – e se tornariam espectros de si mesmas, sem identidade, perdidas, inseguras, desconfortáveis em sua própria pele. Assim, sem referência de si próprias, passariam a agredir a tudo e a todos – a melhor defesa é o ataque – e a agressão pior que perpetrariam seria à sua própria natureza. Este filme está acontecendo ? Pois é. Não se delongará sobre isto aqui, dá uma tese...

Voltando ao início da conversa, a guerra acabou. Mas muita gente continua se debatendo, gritando palavras de ordem, esperneando, ferindo. Por que tanta dificuldade em se usufruir da paz, dádiva esta conquistada com tanto esforço por aquelas que nos antecederam ? Sim, ser mulher é maravilhoso. É incrível ter tantas sensações ao mesmo tempo, tantas tarefas infindáveis, tanta força interior, tanto cansaço, tanto riso, tanto choro. É muito rico. É muito bom. É indescritivelmente sublime ser a fonte da vida. É sagrado ser mãe. E, nesse passo, certamente uma das principais alegrias em ser mulher é poder ser o amor de um homem. Não há sentido em ser mulher se não for, também, para exercer o afortunado papel de ser muito amada por um homem, aqueles para quem fomos predestinadas companheiras, e que desde o início dos tempos assim também o foram para nós.

Está passando da hora de vermos hasteada a bandeira branca nessa tal “guerra dos sexos”. A quem interessa acirrar os ânimos, fomentar antagonismos, incitar ódios e rancores ? A humanidade caminhará melhor unida e em harmonia, respeitando sempre as diferenças, pois assim fomos criados – diferentes – homens e mulheres. Esta a melhor homenagem àquelas que abriram os caminhos: sermos felizes.

Um comentário:

Rafael disse...

Importante que foi escrito por uma mulher, caso contrário, a patrulha já estaria fazendo o maior estardalhaço.

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