sexta-feira, 24 de junho de 2016

Uma Homenagem a uma Garota Desconhecida, e um arrependimento que trago no coração

Segue uma história real. De novembro de 1990 a julho de 1991 trabalhei como operador de computador na Santa Casa de Londrina. Entrava no serviço as 7:15 da manhã e saia as 18:00 horas. Todo dia quando chegava via uma garota, talvez com seus 12 ou 14 anos de idade.

Dia após dia eu a via quando chegava para trabalhar. Com o tempo passei a lhe acenar e desejar bom dia. Ela era uma paciente, seu quarto ficava próximo da sala de onde trabalhava. Um dia descobri que ela tinha leucemia. Descobri também que a família dela morava numa cidade pequena, e ela ficava quase sempre sozinha no quarto. Estava muito doente, e não podia mais voltar para sua cidade.

Essa garota desconhecida a qual nunca conversei, sequer soube o nome, e sempre vi de longe era linda. Meu coração apertava por saber que ela iria morrer. A mim ela nunca recusou um sorriso, dia após dia ela estava na porta de seu quarto, eu a via e acenava. Mas nunca conversamos.

Nessa época minha família era bem pobre, mas no domingo nosso almoço era sempre gostoso e farto. Eu pensava na garota do hospital, como deveria ser solitário passar o final de semana sozinha. Então tomei uma decisão: iria convidá-la para passar o domingo com minha família, almoçar conosco. Dar umas risadas, conversar um pouco.

Infelizmente nunca fiz isso. Todo dia pensava em chamá-la para passar o domingo em casa, e todo dia falhava. Não sei se foi timidez, ou se foi receio de ser mal compreendido, ou ainda medo de ser inoportuno. Mas não a chamei. O tempo passou e sai da Santa Casa, nunca mais a vi ou tive notícias dessa nobre garota.

Era uma época difícil, mas o sorriso daquela nobre menina sempre alegrava meu dia. A dignidade e nobreza com que ela lidava com aquela situação sempre foi fonte de inspiração. Infelizmente nunca contei a ela como a admirava, como era bom receber aquele sorriso pela manhã. Nunca a vi triste ou reclamando. Nobre garota, saiba que carrego no coração o peso de nunca ter aliviado sua tristeza. Era tão pouco para mim, e talvez fosse tão importante para você. Um simples almoço de domingo pode parecer pouco, mas muitas vezes é muito mais do que imaginamos.

Fica a lição: pequenos gestos (como um sorriso, ou um convite para almoço) são pequenos gestos para alguns, mas podem mudar a vida de outros. As vezes vejo pessoas dizendo que se tivessem outra vida fariam tudo exatamente igual. Considero isso o cúmulo da falta de aprendizado. Podem apostar uma coisa: me arrependo de nunca tê-la chamado para passar o domingo com minha família, me arrependo de nunca ter ido até ela e a convidado para um café. E me arrependo de que ela nunca saberá de como sua simplicidade, nobreza, e sorriso inspiravam e inspiram minha vida.

5 comentários:

RVB disse...

Vá na Santa Casa e peça os registros de pacientes da época e descubra sobre a vida da então garota, como ela está hoje ou se faleceu. Talvez tenha como reparar a situação.

Gabriel Gomes disse...

Que história, Adolfo!

Dario Ferrari disse...

A experiência é um pente que a gente ganha quando já ficou careca, dizia um boxeador argentino muito famoso. A carta conhecida por todos à beira da morte de Steve Jobs ele também confessa de ter-se arrependido da maioria de seus atos de sua vida porém para ele já era tarde para mudar. No seu caso Adolfo da para perceber o nobre sentimento para com ela já que lembra depois de 25 anos obviamente que por ela não tem muito mais por fazer porém sim por todas as pessoas que ainda vai cruzar na sua vida. Descarga em essas pessoas todo esse sentimento bom que ficou reprimido durante todo esse tempo ... com certeza ela desde algum lugar ficará feliz por ter gerado isso em você.
Grande abraço!!!

Anônimo disse...

Agradeço por compartilhar essa bela história. É mais comum do que sabemos. Fica o seu depoimento como incentivo para que não nos esqueçamos de ter gestos de delicadeza e simpatia. A vida sempre nos dá oportunidade para termos pequenos gestos de amor ao próximo.
O seu pesar demonstra a sua sensibilidade. Provavelmente, andas olhando a vida,hoje, com olhos bem abertos para não deixar escapar outra oportunidade de dar alegria a alguém.
Tudo é aprendizado.
Paz,
Mara

Canivete disse...

Tb agradeço, Adolfo. Obrigado mesmo.

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