quinta-feira, 4 de agosto de 2016

O que é ser Conservador?

Começo esse texto alertando o leitor de que não sou filósofo e nem sou um pesquisador profundo do tema, sou apenas alguém que leu algumas obras. Sendo assim, se você quiser saber realmente o significado de ser conservador recomendo que você leia as obras de Olavo de Carvalho, Bruno Garschagen, Joao Pereira Coutinho, Russel Kirk, Roger Scruton, entre outros. Se você é preguiçoso e não vai fazer isso, então o texto abaixo talvez sirva de um guia rápido.

Em primeiro lugar deve-se ter me mente que existem diversas formas de conservadorismo (britânico, francês, ou ainda político, etc.). De maneira geral, o conservador é alguém que nutre sérias dúvidas sobre a capacidade dos governos melhorarem o mundo por meio de ações estatais. Esse é, em minha opinião, o ponto central de todo pensamento e ação conservadora: o conservador sabe das limitações impostas pelo mundo, e geralmente duvida que ações estatais sejam capazes de melhorar o bem estar da sociedade. Claro que o conservador admite existirem exceções. No pensamento conservador sempre existe espaço para o Estado.

Em acordo com o parágrafo acima decorrem todas as outras características básicas do pensamento conservador: amor pela tradição, respeito ao estado de direito, defesa da vida e da propriedade privada, direito ao acesso a armas de fogo, etc. Justamente por duvidar da habilidade de políticas públicas inovadoras melhorarem o bem estar da população o conservador é contrário a mudanças bruscas na sociedade. Isso difere o conservador tanto dos socialistas quanto dos anarquistas. O conservador aceita mudanças, mas defende que as mesmas sejam lentas e graduais (dando tempo para que a sociedade se adeque a tais mudanças, ou que volte atrás em sua decisão caso tais mudanças mostrem-se equivocadas). Tal postura implica que o pensamento conservador é dinâmico. Isto é, o conservadorismo de hoje difere do conservadorismo do século passado. Isso ocorre pois o pensamento conservador é reativo (reage a sugestões de mudanças defendendo que as mesmas, caso sejam implementadas, sejam lentas e graduais). Assim, ao contrário dos socialistas e libertários, o pensamento conservador evolui no tempo se adequando as novas realidades (evolui no sentido darwiniano do termo, isto é, se adequa ao novo ambiente).

Uma das vertentes conservadoras é o conservadorismo político. O conservadorismo político pode ser definido por uma regra de bolso: manter o Estado limitado como garantia a nossas liberdades, e defender na arena política (no sentido amplo do termo) os valores conservadores (tradição, família, vida, propriedade, pátria, respeito aos indivíduos, liberdades civis, liberdade de imprensa, etc.).

Dito isso, resta evidente que uma mulher que tira fotos de saias curtas pode ser uma conservadora ou não. Um homossexual pode ser um conservador ou não. Um transexual pode ser um conservador ou não. Não são suas preferências sexuais, sua sexualidade ou o que você veste que te definem como conservador. De maneira similar, uma pessoa que manda foto pelada para o parceiro pode ou não ser conservador. Ou ainda, uma pessoa que manda cartas eróticas (ou faz sexo pelo telefone, ou ainda tenta um sexo virtual numa webcam) pode ou não ser conservadora. Não são suas fantasias privadas, feitos no conforto e no segredo do lar, que te definem como conservador. O que te define como conservador é o apego a um conjunto de regras conservadoras. Regras essas que partem sempre do pressuposto que, dada nossa ignorância e falta de conhecimento sobre a complexidade da sociedade, mudanças no arcabouço institucional devem ser lentas e graduais.

Se você é um conservador e quer ajudar a causa conservadora, pare de ficar reparando no tamanho da saia da vizinha. A beleza do pensamento conservador está justamente no nosso pouco apreço pelo que os outros fazem ou deixam de fazer. Um conservador não está preocupado com a roupa dos outros, pelo contrário, o conservador está interessado em limitar o poder do Estado e, geralmente, impedir que este tente legislar sobre vestimentas ou hábitos privados. A beleza do conservadorismo está justamente no fato de defendermos que cabe a cada um o ônus e o bônus de suas escolhas individuais. A responsabilização do indivíduo por seus próprios atos é uma bandeira conservadora.

O conservador entende acima de tudo que o mundo não é o paraíso na Terra e nem nunca será. O conservador entende que o mundo não é o ideal que queremos, o mundo é o que é. O respeito pela realidade, e um saudável grau de desconfiança em relação a nossas capacidades, são pilares do conservadorismo. O conservador entende e aceita que o ser humano é imperfeito, logo imperfeitas serão também nossas criações. O conservador aceita que o ser humano irá errar (ou pecar se você preferir), mas tais erros não fazem com que ele deixe de ser conservador. A escolha pelo pensamento conservador não é uma escolha pela santidade, somos conservadores e não santos.

Por fim, releia o primeiro parágrafo desse texto. Deixe de ser preguiçoso a vá ler os livros de quem realmente entende do assunto.

8 comentários:

Gabriel P. Torres disse...

Adolfo, parabéns pelo texto!

Deixo aqui como sugestão aos leitores do teu blog, ainda iniciantes em filosofia política, o ótimo artigo do Eduardo Wolf (http://m.zerohora.com.br/284/noticias/5795484/eduardo-wolf-conservadores-e-liberais).

Um grande abraço,

samuel disse...

neste país marxista, eu nunca soube o que eu sou, após uma vida de experiencias frustadas, obrigado por me definir. Desde o Brasil do Getúlio, o Brasil dos militares (fascismo = marxismo), só nos impicharam o marxismo.....

w disse...

Adolfo, tenho visto muitas críticas ao Meireles porque ele, na renegociação das dívidas dos estados, recuou quanto à vedação dos reajustes de salários de servidores nos dois anos seguintes à renegociação. Agora passei os olhos no projeto de lei e vi uma coisa muito mais importante, da qual ninguém fala: o projeto estabelece que os estados não poderão conceder mais benefícios aos seus servidores do que aqueles concedidos aos servidores da União. Como você bem sabe, quem é 8112 não tem licença-prêmio, quinquênio, não incorpora gratificação de função. Os servidores estaduais continuam tendo esses benefícios e muitos outros (até um certo número de faltas abonadas sem justificativa!). Esse ponto vale muito mais do que dois anos de reajuste, é a reforma administrativa que nunca foi feita pelos estados e agora o Meireles está impondo. Você deveria escrever sobre esse assunto. Eu, lendo O Antagonista e outros sites, estava achando o Meireles um idiota, e agora vi que ele cedeu algo que nunca ganharia para ganhar algo que vale mesmo a pena. Sem contar que esse PL também impõe a instituição da previdência complementar (e portanto a limitação do regime próprio de previdência dos estados ao teto do INSS). Você, como economista e aluno de direito, poderia escrever sobre a grande evolução que é o art. 4º do PLC 257/2016.

Anônimo disse...

Otávio MArques

E acrescentando...

O mundo é como ele é e não devemos desejar que as pessoas e coisas sejam perfeitas.......apenas que sejam as melhores QUE PUDEREM.

Igor disse...

Ótimo texto.

Anônimo disse...

Eu acho q voce faz um boa confusao entre conservadorismo e os valores centrais do liberalismo, no sentido da filosofia politica moderna


http://plato.stanford.edu/entries/conservatism/

http://plato.stanford.edu/entries/liberalism/

Anônimo disse...


Meus respeitos, mas você inverteu a causa-efeito.
Dizer que Conservadorismo é algo que nasce do entendimento da esfera do Estado, é amiudar o conceito a apenas uma das suas consequências! Conservadorismo para mim é a valoração da Tradição moral dos antepassados!

Veja que não falo só Tradição, mas tradição de cunho moral! aqueles corolários existentes desde sempre 'não matar- portanto não abortar, não furtar- portanto não tomar terras alheias, ser homem do gênero homem, etc...). o papel do Estado nasce em um conservador como consequências destes aspectos morais conservados.

Quanto a Olavo de Carvalho, desculpe, mas para Olavo ser um conservador precisa parar de´proselitar palavras (e conceitos) lascivas e cunhadas em meretrício (ainda que eu respeite a mentalidade dele em algumas outras áreas, neste ponto ele é pior que a maioria dos esquerdistas quebradores de tabus).. E também deve parar de tentar (inutilmente) defender a Inquisição Católica, o Conservadorismo é totalmente contra a Inquisição, visto que é contra o matar, destruir, furtar, seviciar, torturar (e tentar comprar o metafísico por vil metal das indulgências).

Há uma leva de pessoas que se acham conservadoras porque lutam contra o gigantismo Estatal, ou o esquerdismo, mas isto os torna liberais, o que sem Conservadorismo real na veia, será o embrião de novos esquerdistas.

Anônimo disse...



Rodolfo,
Desconheço se meus comentários serão aprovados após eu ter criticado Olavo (no que é criticável, não em tudo, mas não em pouco) mas em algo você acertou 'na testa' porém cabe até mais abrangência - Conservador é sim alguém que reconhece as Limitações da natureza, e deve-se dizer que Esquerdistas sempre gerarão atitudes pérfidas! exatamente pelo contrário - acham que podem desconsiderar leis universais de causa-consequência, e principalmente a Natureza Humana (nossa psiquê que em praxe só se move por ambição, daí a necessidade do Capitalismo como mediador desta ambição humana).

Em suma o Conservador, medito eu, conserva a moral dos antepassados (o cerne moral, não especificamente tradições quaisquer), mas o que Blinda um conservador de se tornar um esquerdinha, é que ele não é um Revoltado! que acha que por Ego pode anular lei da gravidade e de causa-efeito, ele é uma pessoa centrada que admite que o Universo não se curvará a suas sanhas e vontades.


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