terça-feira, 19 de setembro de 2017

Conservadorismo e Liberalismo: Uma reposta ao meu amigo Carlos Goes

Carlos Góes é um jovem e competente pesquisador. Tive o prazer de ler alguns de seus trabalhos, todos excelentes. Góes também faz parte da EXCELENTE equipe do Instituto Mercado Popular. Recomendo a leitura, você pode até discordar de alguns de seus textos, mas todos valem a reflexão. Com o texto "Não se engane: o conservadorismo é antagônico ao liberalismo" não é diferente, você pode discordar do texto, mas vale a leitura. Contudo, acho que aqui cabe uma resposta. O texto de Góes segue entre aspas, e minha resposta na sequência.

"No senso comum brasileiro é normal confundir liberais com conservadores. Nada poderia ser mais distante da realidade. Em termos de política objetiva, liberais e conservadores discordam radicalmente. Enquanto conservas vão falar contra as drogas e o casamento gay, liberais vão ter propostas radicais como a legalização de todas as drogas e a desestatização do casamento. Mas liberais e conservadores se antagonizam em algo mais profundo: em seus princípios".

Resposta) Parte expressiva dos conservadores não são contra a legalização das drogas, muitos questionam apenas a operacionalização disso. Além disso, conservadores preferem mudanças graduais. Quanto ao casamento gay, a maioria dos conservadores é contrário ao uso do termo "casamento" nada tendo contra a união homoafetiva. Cabe ressaltar que conservadores e liberais se juntam na defesa a vida, na defesa da propriedade privada, e na defesa da responsabilização individual. Creio que temos mais semelhanças do que propriamente diferenças.

"O foco fundamental dos conservadores é na tradição, nos costumes e na continuidade. Eles partem da ideia de que as gerações passadas, presente e futuras se ligam através de um contínuo histórico de uma “ordem moral”. Por isso, esse elo intrageracional deteria uma superioridade moral que deveria ser preservada. Eles dizem que não são teorias metafísicas que justificariam suas escolhas – mas a “experiência”. As mudanças, embora necessárias “para a nossa sobrevivência”, são vistas como um mal inevitável. O ode é ao status quo".

Resposta) Sim, tradição e costumes são importantes para conservadores. Sim, conservadores gostam da ideia de uma ligação entre gerações passadas, presentes, e futuras. Você pode até usar o termo "ordem moral", mas o significado disso é de transcendência. Tal vínculo dá um sentido importante a nossa vida, nos fortalece diante de um futuro desconhecido. Conservadores não são contrários a mudança. Contudo, o conservador compreende a limitação humana. Se o homem é limitado é óbvio que nossos projetos serão igualmente limitados e suscetíveis a erro. Logo, o conservador sugere mudanças lentas e graduais na sociedade. Assim, os custos associados a erros seriam baixos e facilmente corrigíveis. Por outro lado, a história demonstrou o custo em vidas humanas das revoluções. Um conservador sabe que sociedades complexas não podem sofrer alterações profundas e rápidas sem gerar conflitos internos. São tais conflitos, e a carnificina associada a eles, que o conservador tenta evitar ao sugerir mudanças graduais.

"Antes de mais nada, é importante lembrar que o liberalismo surgiu em oposição àqueles que queriam conservar a velha ordem. O bom e velho Adão Smith falava em favor do livre comércio e pela abolição das leis protecionistas do trigo e milho numa Inglaterra em que tanto o mercantilismo quanto essas leis eram a tradição e estavam lá desde sempre".

Resposta) Sim, isso está correto. Mas desde então o liberalismo econômico faz parte de boa parte dos conservadores. Aqui é importante ressaltar que, ao contrário do liberalismo, o conservadorismo não é uma ideologia. O conservador da Inglaterra no século XX é diferente do conservador brasileiro do século XXI. O conservadorismo varia de local para local, e de época para época. Por exemplo, Edmund Burke, um dos grandes nomes associados ao conservadorismo, era um defensor do livre comércio. A essência do conservadorismo não é o medo da mudança, e nem a restrição ao comércio, mas sim a constatação (também feita por liberais) da limitação da capacidade humana. Daí decorre a defesa de mudanças sociais graduais, e a limitação do poder do Estado.

"Um estranho vício dos conservadores é não perceber o quanto a economia de mercado foi e é revolucionária – e quanto ela abalou as estruturas da sociedade tradicional. A economia de mercado acabou com as posições tradicionais – a ideia de que você sempre seguiria a profissão de seus pais – e libertou as classes mais desfavorecidas para experimentar e tentar buscar uma vida melhor".

Resposta) Sim, é verdade que a economia de mercado revolucionou a sociedade trazendo uma prosperidade nunca vista antes. Mas é igualmente verdade que a maioria dos conservadores apoia a economia de mercado. Não são os conservadores o inimigo aqui, afinal a própria índole do conservador pede por um Estado pequeno. Ronald Reagan, Margareth Thatcher, e Winston Churchill estão entre os maiores conservadores do século passado. Não me parece que eram inimigos da economia de mercado.

"As desigualdades objetivas e de status (embora não as desigualdades de renda) foram significativamente reduzidas com a economia de mercado. Até um Rei passou a estar debaixo da lei. Como dizia Mises, a diferença entre um pobre e um rico numa sociedade pré-economia de mercado era a diferença entre possuir ou não possuir sapatos. A diferença entre um pobre e um rico na sociedade de mercado é entre ter um carrão e ter um fusca".

Resposta) Novamente isso é verdade, mas novamente é verdade que conservadores prezam pela economia de mercado. 

"Isso vai contra toda a tradição. Isso vai contra tudo o que sempre esteve aí. A economia de mercado é uma revolta contra o estado natural da humanidade. É uma boa revolta, porque o estado natural da humanidade sempre foi a pobreza".

Resposta) A economia de mercado foi contra a tradição há mais de 200 anos atrás. Desde então está incorporada na tradição do mundo ocidental. Novamente repito: a economia de mercado, a propriedade privada, e o respeito a vida, são partes integrantes do conservadorismo.

"Embora os conservadores achem que não se justificam em “fórmula mágica feita por um estudioso”, eles não percebem que a derivação de legitimidade dos costumes é em si uma teoria racionalizada. Os costumes, por si só, não justificam nada. É preciso um corpo teórico para derivar legitimidade moral dos costumes".

Resposta) Aqui discordo de meu amigo Góes. A tradição é resultado direto da ordem espontânea (que aliás é corretamente apreciada por meus amigos liberais). O próprio sistema legal inglês, baseado na tradição, pode ser citado como exemplo de ordem espontânea. Sobre costumes alguns conservadores diriam que os costumes foram a resposta a problemas passados dos quais a sociedade já se esqueceu.

"Os costumes podem ser bons ou ruins. Racionais ou irracionais. Os costumes já impuseram a dominação e propriedade masculina sobre as mulheres; a escravidão de negros a brancos; a divisão de pessoas em classes imóveis de aprendizes e profissões; a impossibilidade de se ter mobilidade religiosa; e a ainda persistente lealdade irracional a um desenho em um mapa e uma bandeira – e tantas outras arbitrariedades. Para um liberal, um costume que infringe a justiça e a liberdade deve ser mudado".

Resposta) Certamente isso ocorreu. Mas a pergunta relevante aqui é qual seria a opção? Apenas para dar um exemplo: a escravidão surgiu para que tribos conquistadas não fossem massacradas por seus conquistadores, acabar com o instituto da escravidão poderia ter jogado a sociedade num genocídio. Claro que a partir de determinado momento o instituto da escravidão passou a ser anacrônico, e certamente é motivo de vergonha para os que o defenderam. Mas vamos fazer uma pergunta difícil: qual a melhor solução para acabar com a escravidão: a solução brasileira (conservadora) ou a solução americana (guerra civil)? Note que nenhuma das alternativas é isenta de custos. Cabe ressaltar também que a escravidão não terminou por motivos econômicos, terminou por motivos morais (valor importante para conservadores, mas que nem sempre encontra apoio entre liberais). Mas vamos nos ater a parte final do argumento: Góes está a sugerir que um liberal deve ser contra o conceito de país. Na realidade atual, será que abrir as fronteiras é realmente a melhor solução? Para Góes sim, para mim não. Independente de sua resposta, a verdade é que não existem soluções indolores aqui, e esse é meu ponto. Claro que ideias conservadoras geraram injustiças no passado. Mas é igualmente verdade que foi graças ao conservadorismo que outras soluções mais devastadoras foram afastadas. A ideia conservadora de mudanças lentas e graduais é uma potente arma contra paixões momentâneas que prometem maravilhas no futuro em troca de sacrifícios no presente. Afinal, um conservador sabe que o paraíso não é terrestre. Sabe que nenhum caminho é isento de custos, e sacrificar o presente conhecido em nome de uma promessa de futuro melhor é uma aposta que geralmente não se paga. A escolha conservadora é frequentemente entre o mal menor.

"Outro erro da maioria dos conservadores é não perceber que as instituições sociais estão em permanente revolução, em um processo evolutivo e dinâmico. Elas mudam o tempo todo rumo aos novos desígnios que a sociedade lhes dá. Eles acham que o simples fato delas existirem (o status quo) é que o lhes garante legitimidade, quando a legitimidade deriva precisamente da utilidade social delas. É a sociedade que escolhe o que é útil e o que não é útil, através de suas trocas e do encontro de suas preferências subjetivas".

Resposta) Conservadores gostam de instituições pois enxergam nelas o resultado de uma ordem espontânea. Conservadores não são contra mudanças, são  apenas contra mudanças bruscas e de grande magnitude. Afinal, tais mudanças costumam ter um efeito disruptivo sobre a sociedade.

"Quando algo deixa de ser útil, a ordem é contestada e alternativas são providas. A contestação da ordem faz parte do processo de mudança social necessária a uma sociedade inovadora. A mudança derivada da contestação da ordem não vem por definição “acompanhada de prudência”. A mudança é uma luta constante contra o status quo".

Resposta) A referência ao conservadorismo aqui reside na palavra "prudência". Sim, o conservador é uma pessoa prudente. Sabe das limitações humanas, logo é contrário a mudanças abruptas e profundas na sociedade. Em seu lugar, um conservador prefere mudanças lentas e graduais. Claro que muitas vezes a sociedade tem urgência nas mudanças. Contudo, mudanças abruptas e profundas são características de um regime revolucionário que dificilmente é compatível com a ordem democrática. Numa democracia mudanças repentinas e profundas são impossíveis de serem realizadas.

"Contestação, também, faz parte essencial da preservação da liberdade individual. Como conservadores abraçam uma visão comunitarista de mundo, eles acabam ignorando o valor intrínseco do indivíduo, relegando-o a mera engrenagem na máquina da tradição. Para o liberal, o importante é a preservação da capacidade de expressão das individualidades – inclusive quando, para isso, se torna essencial subverter a ordem vigente. Em diversas situações, o que um conservador chamaria de “prudência” em favor das tradições prevalentes um liberal chamaria de “tirania da maioria".

Resposta) Não creio que um conservador ignore o valor intrínseco de um indivíduo, a proteção a vida abraçada pelos conservadores é um exemplo disso. Conservadores dificilmente são utilitaristas, são os utilitaristas que costumam fazer tal conta e ignoram o valor intrínseco da vida humana. A tirania da maioria é uma preocupação constante dos conservadores. Afinal, conservadores não gostam de mudanças profundas e abruptas que geralmente são prometidas por políticos populistas, e que costumam ser abraçadas pela maioria.

"São nas tentativas de mudar o status quo que se molda o futuro. A gente não sabe qual vai ser o futuro, nem a velocidade das mudanças. Ele é fruto da livre experimentação social e da competição do mercado de ideias. Ao conservador, isso dá calafrios; ao liberal, regozijo. Para o liberal quem deve moldar o futuro são as pessoas – e não as elites presunçosas, seja de direita ou esquerda. Quem acredita em mudança  derivada de ordem espontânea, sem direcionamento nem gurus, são os liberais".

Resposta) Como argumentado antes, os conservadores dão enorme valor na tradição que são um exemplo claro de ordem espontânea. Novamente, o conservador defende sim as mudanças. Mas, como somos seres humanos falhos, defendemos mudanças lentas e graduais que possam ser facilmente revertidas caso se provem equivocadas. Não defendemos gurus, não defendemos salvadores da pátria, exatamente daí vem nosso discurso em prol da prudência.

"O liberal vê a evolução social não como fruto de superioridade moral de costumes, mas como fruto da livre experimentação e competição de ideias. Ele não se foca na estática do passado, mas na dinâmica do presente e nas potencialidades do futuro. Como escreveu brilhantemente Hayek: “antes de mais nada, os liberais devem perguntar não a que velocidade estamos avançando, nem até onde iremos, mas para onde iremos”.

Resposta) Certamente conheço o discurso de Hayek, e muitos diriam até que foi um discurso bem conservador (apesar do título ser o contrário disso). Por não possuírem uma ideologia, os conservadores estão sempre preocupados com a velocidade do processo. É melhor irmos lentamente na direção correta do que rapidamente em direção ao precipício. Claro que o melhor mesmo seria irmos rapidamente na direção correta, mas a mentalidade conservadora impede isso da mesma maneira que nos impede de corrermos para o abismo. Como disse, o conservadorismo tem sim suas falhas. As vezes torna mais lenta alguma evolução positiva, mas por esse mesmo motivo muitas outras vezes nos salva de precipícios.

"Um liberal olha para o futuro e almeja o progresso. A bem da verdade, não há nada menos conservador do que um liberal".

Resposta) Será mesmo? Acaso um conservador quando olha para o futuro almeja o retrocesso? Creio que no Brasil de hoje conservadores e liberais possuem muito mais similaridades do que diferenças.










2 comentários:

Anônimo disse...

Parabéns professor, pelo sóbrio ponto de vista. Leitura reconfortante em tempos de loucura nas redes sociais.

Ricardo Bordin disse...

Só pra deixar claro: este Goes é um libertário e não um liberal clássico.

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